O vento cortava a floresta, carregando consigo os sons da noite. Estava sozinha, caminhando entre as árvores altas, mas a sensação de ser observada não me abandonava. Não era um medo comum, era algo mais profundo, mais visceral, como se algo – ou alguém – estivesse esperando por mim na escuridão.
Então eu o vi.
Ele emergiu das sombras como se fizesse parte delas, seus olhos brilhando como âmbar sob a luz fraca da lua. Não tentou esconder o que era. Cada movimento dele exalava poder, perigo e uma confiança que me fez hesitar.
- Quem é você? - Minha voz soou mais firme do que eu me sentia.
Por um momento, ele ficou em silêncio, apenas me observando, como se estivesse tentando desvendar quem eu era. Finalmente, deu um passo à frente, e a luz da lua iluminou seu rosto. Era uma combinação impossível de brutalidade e beleza, como se ele fosse esculpido para intimidar e atrair ao mesmo tempo.
- Meu nome é Rick. - Ele disse, a voz profunda e rouca, como um trovão distante.
O nome parecia simples, mas havia algo nele, algo na maneira como me olhava, que me fez sentir que estava diante de algo muito maior. Ele era alto, musculoso, e tinha uma presença que parecia preencher todo o espaço ao meu redor.
- E você? - Perguntou, arqueando uma sobrancelha enquanto cruzava os braços.
- Ayla. - Respondi, mantendo minha postura ereta, embora meu coração estivesse batendo forte demais.
Ele sorriu, um sorriso lento e perigoso, o tipo de sorriso que pareceu ver direto através de mim, expondo partes que nem eu sabia que existiam.
- Bonito nome. - Disse, as palavras carregadas de algo que fazia minha pele arrepiar.
Eu deveria sentir medo. Cada parte lógica de mim gritava para correr, para me afastar daquele homem – ou lobo, como eu agora sabia que ele era. Mas, por algum motivo, não consegui. Havia algo nele, algo que me atraía de uma maneira que não fazia sentido.
- O que você quer? - Perguntei, tentando manter a compostura.
- Você. - Ele respondeu, a palavra carregada de uma intensidade que deixou meu coração descompassado.
Minhas mãos apertaram instintivamente o símbolo na minha mão, uma pequena fonte de conforto em um momento de incerteza.
- Por quê? - Sussurrei, quase incapaz de falar.
Ele deu mais um passo à frente, a poucos centímetros de distância. Eu podia sentir o calor que emanava dele, a energia crua que parecia pulsar no ar.
- Porque você é meu destino, Ayla. - As palavras saíram como uma promessa e uma sentença.
Elas me atingiram como um soco, e por um momento, fiquei sem saber o que dizer. Eu sabia que havia algo especial em mim, algo que sempre pareceu atrair o perigo como um ímã, mas nunca pensei que seria algo tão direto, tão inegável.
- E você pode ser minha derrota. - Acrescentei, a voz baixa.
Rick inclinou a cabeça, um brilho curioso em seus olhos. - Talvez. Mas se for o caso, que seja.
Houve um silêncio entre nós, carregado de algo que não consegui definir. O vento parecia ter parado, a floresta inteira prendendo o fôlego. Eu deveria ter ido embora, deveria ter escapado enquanto podia. Mas algo em mim – algo que eu não conseguia explicar – não me deixava sair.
- O que você é? - Perguntei finalmente, quebrando o silêncio.
Ele sorriu novamente, o tipo de sorriso que fazia meu coração acelerar de uma forma quase dolorosa. - Um lobo. Mas você já sabia disso.
- Não é só isso. - Respondi, cruzando os braços enquanto o encarava. - Você é mais do que isso.
Ele inclinou a cabeça, um brilho enigmático nos olhos dourados. - Talvez. Mas isso é algo que você terá que descobrir por si mesma.
Eu sabia que não adiantava pressioná-lo. Rick não era o tipo de homem que cedia facilmente, e eu não era o tipo de mulher que recuava diante de um desafio.
- Por que acha que sou seu destino? - Perguntei, embora temesse a resposta.
Ele deu mais um passo à frente, tão perto que sua respiração quente se misturava à minha. Eu quase podia ouvir o ritmo constante do coração dele.
- Porque, desde o momento em que senti sua presença, soube que você mudaria tudo.
As palavras dele pesaram no ar, me envolvendo como uma rede. Eu não sabia se aquilo era um aviso ou uma promessa, mas tinha certeza de uma coisa: Rick não era apenas um lobo bonito e perigoso. Ele era algo muito maior. E agora, eu fazia parte disso.
Enquanto Rick se afastava, desaparecendo de volta nas sombras, o silêncio tomou conta da floresta.
O vento que antes balançava as árvores agora parecia ter parado, deixando o ambiente envolto em uma quietude sufocante. Eu permaneci ali, imóvel, tentando entender o que acabara de acontecer. Era como se o mundo inteiro tivesse mudado no instante em que seus olhos encontraram os meus.
Meu coração ainda batia forte, cada pulsação ecoando em meus ouvidos, e o símbolo na minha mão parecia mais quente do que antes.
Era como se ele estivesse vivo, reagindo à presença de Rick, ou talvez ao que ele representava. Olhei para ele, buscando algum conforto na familiaridade do objeto, mas pela primeira vez, não encontrei nenhuma resposta.
Eu deveria sentir medo. Rick era o tipo de perigo que minha mente racional implorava para evitar, mas o que sentia era algo completamente diferente.
Não era apenas a atração que me prendia a ele – era a sensação de pertencimento, de algo predestinado. Como se todas as escolhas que eu havia feito até aquele momento tivessem me levado até aqui.
A floresta, antes tão intimidante, agora parecia menor, menos ameaçadora. Era como se o encontro com Rick tivesse deslocado algo dentro de mim. E, ao mesmo tempo, trazido à tona uma verdade que eu ainda não estava pronta para aceitar.
A respiração dele ainda parecia pairar no ar ao meu redor, quente, carregada de promessas e perigos que eu não conseguia compreender. Meu olhar se fixou na direção em que ele havia desaparecido, na esperança de que ele voltasse. Parte de mim sabia que isso era insano. A outra parte, aquela que parecia ter acordado com sua presença, queria segui-lo.
"Rick era meu destino."
Aquelas palavras ecoaram em minha mente como um mantra. Eu não sabia o que significavam ou até onde me levariam, mas sabia que, naquele momento, não havia como voltar atrás. O medo e a incerteza eram reais, mas algo mais profundo, quase primitivo, me fazia ficar.
Uma escolha se formava diante de mim: fugir e tentar esquecer aquele encontro, ou dar o primeiro passo em direção ao desconhecido.
Fechei os olhos por um momento, respirando fundo. As sombras pareciam me observar, esperando minha decisão. Quando abri os olhos novamente, algo dentro de mim já havia decidido.
Eu não poderia fugir.
Eu não queria.
Com passos lentos, mas firmes, avancei em direção ao caminho que ele havia tomado. As sombras da floresta me envolveram, e o símbolo em minha mão parecia pulsar como um coração vivo. Não sabia o que encontraria, mas, pela primeira vez em muito tempo, não me importava.
Eu estava pronta para descobrir.
A floresta pulsava naquela noite, como se compartilhasse de um segredo que só ela conhecia. O vento assobiava entre as árvores, carregando o uivo distante da alcateia. A lua cheia, tão brilhante e cruel, parecia pesar mais do que o normal. Ela não iluminava apenas o céu; revelava tudo que ele vinha tentando enterrar. A fera dentro de mim estava inquieta, impaciente. Quase... faminta.
Minhas botas afundavam na terra úmida, e o cheiro de musgo e pinho invadia minhas narinas. Eu sempre me refugiava na solidão da floresta durante as luas cheias. Aqui, longe de olhares humanos, era mais fácil manter o controle. Ou pelo menos era isso que eu costumava pensar.
Mas naquela noite... algo estava errado. Não era o vento, nem os uivos. Era outra coisa. Algo que mexia com cada fibra do meu corpo, algo que fazia o ar parecer mais denso, quase elétrico. E então eu senti. O cheiro. Doce, amadeirado, com um toque de algo indefinível, mas irresistível. Meu peito apertou, meus sentidos ficaram alerta como se eu fosse um predador prestes a encontrar sua presa.
Minha fera interior silenciou por um instante, surpresa. Mas logo veio o rugido, um grito interno tão possessivo que quase me fez tropeçar. Meus olhos brilharam, a luz dourada refletindo nas sombras da noite. O rastro daquele aroma não era apenas um convite. Era um chamado.
E eu sabia, mesmo antes de encontrar a origem, que minha vida mudaria para sempre.
A poucos metros de distância, lá estava ela. Uma mulher, sentada perto do riacho, como se a natureza inteira tivesse escolhido aquele momento para moldá-la. Seus cabelos escuros caíam soltos, dançando com a brisa leve. Os pés estavam submersos na água, traçando pequenos movimentos que geravam ondas suaves, como se até o riacho não quisesse perturbar sua paz. Mas não era paz que ela emanava. Não, havia algo quebrado ali, uma melancolia que parecia carregar o peso de mil segredos.
Meu instinto dizia para manter a distância. Mas minha fera... Ela sussurrava o contrário. Era como se ela tivesse encontrado algo que procurava há muito tempo, algo que nem eu sabia que estava perdido.
Dei um passo à frente, os galhos sob meus pés denunciando minha presença. Ela virou a cabeça lentamente, e aqueles olhos... Deus, aqueles olhos. Um azul tão profundo que parecia carregar uma tempestade. Eles me prenderam antes mesmo que eu pudesse dizer algo.
- Você costuma perseguir mulheres na floresta, ou hoje é um dia especial? - Sua voz era firme, com um toque de sarcasmo que desarmaria qualquer um. Qualquer um, menos eu.
Sorri de canto, cruzando os braços. - Não é todo dia que encontro alguém como você.
Ela riu, mas não com suavidade. Era uma risada carregada de algo que eu não conseguia decifrar. Desafio, talvez? Curiosidade? Não importava. Minha fera estava intrigada. E isso era raro.
- Alguém como eu? - Ela arqueou uma sobrancelha, desafiando-me com o olhar.
Não respondi. Porque a verdade era que eu não sabia o que ela era. Humana, sim, mas algo nela... algo gritava que havia mais. Minha fera, que sempre sabia discernir entre presa e predador, estava confusa. Fascinada.
- Quem é você? - Minha voz saiu mais grave do que eu esperava.
Ela se levantou, deixando a água escorrer por seus pés descalços. A luz da lua caía sobre ela, delineando cada curva como se fosse feita para ser admirada.
- Ayla. - Simples, direta. Mas o nome ficou gravado em mim como uma marca. - E você?
- Rick.
Ela me estudou por um momento, como se quisesse decifrar algo que só ela conseguia enxergar. Então, sorriu. Um sorriso carregado de ironia e... algo mais.
- Bem, Rick, você não parece o tipo que passeia por aí admirando a natureza. O que você realmente quer?
Eu não sabia como responder. Não ainda. Mas, olhando para Ayla, sob a luz da lua cheia, uma coisa ficou clara: o mundo acabava de mudar. E eu sabia que não haveria mais volta.
Eu não sabia o que responder. As palavras dela - simples, diretas - mexeram com algo que eu mantinha enterrado há anos.
O que eu queria?
A resposta estava presa na garganta, sufocada por anos de negação e pelo peso de uma vida que nunca foi realmente minha. Por muito tempo, acreditei que queria liberdade. Mas agora, sob o olhar dela, eu não tinha tanta certeza.
- Talvez eu esteja apenas curioso - disse, tentando manter a voz firme.
- Curioso sobre o quê? - Ela inclinou a cabeça, o brilho nos olhos desafiando cada instinto que eu tinha.
- Você. - A palavra saiu antes que eu pudesse pensar. Direta. Honesta. Perigosa.
Ayla me encarou em silêncio, o sorriso nos lábios revelando algo que eu não conseguia decifrar. Ela não tinha medo. Isso me intrigava e me desconcertava ao mesmo tempo. Humanos sempre sentiam algo: medo, nervosismo, até mesmo reverência. Mas ela não. Ayla era diferente.
- Esse lugar não é seguro para você - murmurei, quebrando o silêncio. Minha voz saiu mais grave do que eu pretendia.
Ela ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços. - E o que faz você pensar que não estou segura?
- Porque você é humana. - Minha resposta foi automática, quase mecânica. Mas, naquele instante, algo na expressão dela mudou.
- E o que faz você pensar que sou só humana? - Ayla perguntou, o tom calmo, mas com um peso que me atingiu como um soco.
Eu hesitei. Algo nela gritava que havia mais do que eu podia ver ou entender. Antes que eu pudesse responder, o som de folhas se movendo interrompeu o momento. Um rosnado baixo e ameaçador ecoou pela clareira. Meu corpo inteiro reagiu antes mesmo que minha mente processasse o que estava acontecendo.
Me movi instintivamente, posicionando-me entre Ayla e a ameaça invisível. - Fique atrás de mim - ordenei, sem desviar o olhar da escuridão à frente.
Ela não disse nada, mas eu podia sentir que ela não estava assustada. Quando a criatura finalmente emergiu das sombras, meu coração acelerou. Era um lúpus sombrio. Grande, poderoso, com olhos vermelhos brilhando como brasas. Minha fera despertou de imediato, rugindo dentro de mim, pronta para lutar.
A transformação foi rápida. Meus ossos queimaram, a pele rasgou, e em segundos, eu não era mais um homem. Era um lobo, maior que o normal, com pelos acinzentados e olhos dourados reluzentes. O lúpus avançou, mas eu estava preparado. Nos chocamos com força, e o som de garras e dentes cortando o ar encheu a clareira.
A luta foi intensa, mas eu era mais rápido. Mais forte. Minha mandíbula se fechou no pescoço do lúpus, e ele caiu, seu último rosnado ecoando antes de tudo ficar em silêncio.
Eu me virei para Ayla, ainda em forma de lobo, esperando vê-la fugindo ou paralisada de medo. Mas ela estava lá, imóvel, olhando para mim com uma mistura de curiosidade e... admiração.
Quando voltei à forma humana, ela deu um passo à frente, como se o que acabara de acontecer fosse algo banal.
- Impressionante - disse ela, com aquele sorriso desafiador. - Mas, se tivesse me dado um minuto, eu podia ter ajudado.
Franzi o cenho, tentando entender. - Ajudado? - perguntei, incrédulo. - Aquela coisa quase arrancou sua cabeça.
Ela deu de ombros, erguendo a mão. Um brilho estranho iluminou sua palma, revelando um símbolo que parecia vibrar com energia. O vento ao nosso redor mudou, carregado com algo que eu não conseguia explicar.
- Eu não sou tão indefesa quanto você pensa, Rick.
Eu fiquei imóvel, encarando-a. De repente, tudo fez sentido. O cheiro que me atraiu até ela, a falta de medo, a pergunta sobre sua humanidade. Ayla não era apenas diferente. Ela era algo que eu nunca havia encontrado antes.
Ayla e Rick têm uma relação de desconfiança mútua, mas também um reconhecimento instintivo de que suas histórias estão conectadas. Ayla é misteriosa, mas mantém uma postura provocativa, o que deixa Rick em dúvida se ela é uma aliada ou uma ameaça. Esse jogo de poder cria uma tensão crescente entre eles, misturando atração e desconfiança.
As sombras da floresta pareciam mais densas enquanto eu retornava pelo mesmo caminho. O encontro com Rick ainda reverberava em minha mente - cada palavra, cada olhar, gravado em mim como uma cicatriz. Não era apenas o que ele dizia, mas o que ele fazia eu sentir.
Quando ele se transformou em lobo diante de mim, algo mágico aconteceu. Em vez de medo, fui tomada por um fascínio inexplicável. Qualquer pessoa sensata teria corrido sem olhar para trás. Eu, no entanto, permaneci. Algo nele me atraía, como se a selvageria dele tivesse um poder sobre mim que eu não conseguia compreender.
Sempre me considerei forte, independente. Alguém que não precisava de ninguém para se sentir completa. Mas Rick mexia comigo de um jeito que desmontava essas certezas, despindo minha alma de suas armaduras.
Ao chegar na clareira onde minha cabana se escondia, soltei um suspiro pesado. Aquele lugar, que antes era meu refúgio, agora parecia vazio, incapaz de abafar a tempestade que crescia dentro de mim. Tudo havia mudado. E, por mais que tentasse ignorar, não havia como voltar ao que eu era antes dele.
Dentro da cabana, cada objeto parecia me observar. As prateleiras com ervas secas, o pequeno caldeirão no canto, a mesa simples, onde muitas vezes jantei sozinha. Nada ali parecia suficiente para conter a força das perguntas que agora me invadiam. Quem era Rick, de verdade? O que ele queria comigo?
Duas escolhas estavam diante de mim: ignorar o que Rick significava e tentar seguir com minha vida, ou aceitar o que ele dizia sobre ser meu destino e arriscar tudo.
No fundo, eu já sabia qual seria minha escolha.
Não demorou muito para que ele aparecesse novamente. Rick parecia ter um talento especial para me encontrar, mesmo quando eu não queria. Desta vez, ele não surgiu das sombras. Ele estava parado na entrada da clareira, com um olhar intenso e determinado, como se tivesse esperado a vida inteira para aquele momento.
- O que você quer, Rick?- , perguntei, minha voz saindo mais firme do que eu esperava.
Ele deu um passo à frente, a luz do luar iluminando o rosto forte e marcado, os olhos brilhando com uma intensidade que fazia meu coração acelerar.
- Você sabe o que eu quero, Ayla -, ele disse, a voz profunda ecoando pela clareira. - Quero que você aceite quem eu sou. Quero que aceite quem você é.
- Você fala como se eu tivesse escolha.
-Você tem -, ele respondeu, parando a poucos passos de mim. - Mas o destino já fez a sua parte. Agora, cabe a você decidir se vai lutar contra ele ou abraçá-lo.
Aquelas palavras me atingiram como uma tempestade. Algo dentro de mim dizia que ele estava certo. Sempre soube que havia algo diferente em mim, algo que nunca consegui explicar. Talvez Rick fosse a chave para entender.
Eu deveria recuar, mas, em vez disso, dei um passo em direção a ele. Sentia como se algo estivesse nos unindo, algo antigo, primal, que transcendia qualquer lógica ou razão.
- Então me diga, Rick. O que significa aceitar quem eu sou?
Ele sorriu, um sorriso enigmático, e estendeu a mão.
- Significa que, juntos, podemos descobrir.
Muito tempo depois de diálogos que pareciam eternos, cruzei os braços e perguntei:
- Você sempre entra sem ser convidado? - Minha voz carregava uma tentativa de firmeza, embora o nervosismo fosse difícil de esconder.
Rick sorriu, aquele sorriso perigoso que me irritava e atraía ao mesmo tempo.
- Apenas quando sei que sou esperado.
Revirei os olhos, mas não pude evitar o sorriso leve que escapou dos meus lábios. Era irritante como ele tinha esse efeito sobre mim.
- O que você quer, Rick? - Perguntei, tentando retomar o controle da situação.
Ele deu alguns passos em minha direção, parando a poucos metros. Seus olhos brilhavam, intensos, como se pudesse enxergar cada parte de mim.
- Saber se você já decidiu.
Meu coração disparou, mas me forcei a manter uma expressão firme, desafiadora.
- Decidi o quê?
Ele inclinou a cabeça levemente, como se estivesse me estudando, o olhar dele parecendo atravessar minha alma.
- Se vai aceitar o que somos um para o outro.
As palavras dele me atingiram com força. Não era só o que ele dizia, mas o peso do significado por trás delas. Ele não estava pedindo apenas que eu confiasse nele; ele queria que eu aceitasse algo maior, algo que eu mal conseguia compreender.
Engoli em seco, sentindo o chão desaparecer sob meus pés.
- E se eu não aceitar? - Minha voz saiu mais baixa, quase como se eu temesse a resposta.
Rick deu mais um passo à frente. Agora, ele estava tão perto que cada movimento dele parecia vibrar no ar entre nós.
- Então eu vou embora.
Ele disse isso com firmeza, e eu sabia que era sério. Mas o que mais me assustava era perceber que eu não queria que ele fosse.
- Por que eu? - Perguntei, minha voz quase um sussurro.
Ele fechou o espaço entre nós, ficando tão perto que eu podia sentir o calor que emanava dele, a respiração pesada, a força silenciosa que ele carregava.
- Porque, Ayla, você não é apenas meu destino. Você é minha força, minha fraqueza. E, no final, você é tudo o que importa.
Minha mente girava com aquelas palavras. Rick não era o tipo de homem que falava em sentimentos, mas cada sílaba parecia carregada de uma verdade crua e inescapável. Eu podia sentir a sinceridade dele, tão palpável quanto o ar ao nosso redor.
- E se eu não conseguir ser tudo isso para você? - Minha pergunta veio sem pensar, um reflexo do medo que estava tentando esconder.
Rick ergueu a mão, hesitando antes de tocar meu rosto. Quando seus dedos finalmente roçaram minha pele, foi como se tudo no mundo silenciasse.
- Você já é.
Minha respiração travou, e meu corpo congelou no lugar. Sua mão, quente e firme, desceu até minha nuca, os dedos se entrelaçando nos fios do meu cabelo. Seu toque não era uma prisão, mas uma promessa, um lembrete de que ele não tinha intenção de me deixar fugir.
- Você acha que tem escolha, Ayla? - Ele murmurou, os olhos fixos nos meus, profundos e sombrios. - Mas você já escolheu. Desde o momento em que não correu, desde o instante em que ficou.
Essas palavras abalaram o que restava da minha resistência. Ele estava certo. Mesmo antes de entender o que sentia por Rick, meu coração já havia decidido. Mas ainda havia algo em mim que queria lutar contra isso, algo que temia o desconhecido.
- E se estivermos errados? - sussurrei, minha voz um fio de dúvida.
Rick inclinou a cabeça, os lábios dele tão próximos dos meus que eu podia sentir a promessa de um beijo, embora ele não avançasse.
- Errado seria não tentar.
O ar parecia desaparecer da clareira, deixando apenas nós dois. A decisão, que antes parecia um abismo, agora era inevitável. Eu sabia o que faria. Sempre soube.
Com um suspiro tremido, fechei os olhos. Rick não precisou dizer mais nada.
E quando finalmente senti seus lábios nos meus, foi como se tudo no mundo fizesse sentido.
Meu coração batia tão rápido que parecia que iria explodir. Cada palavra de Rick era intensa, crua, carregada de um peso que me atingia como uma onda. Pela primeira vez, percebi que talvez eu sentisse o mesmo.
Antes que pudesse pensar no que estava fazendo, dei um passo à frente, encurtando a distância entre nós.
- Você é perigoso, Rick.
Ele sorriu, um sorriso lento, predador, que enviou um arrepio pela minha espinha.
- Eu sei.
- E eu não confio em você. - Acrescentei, embora soubesse que não era completamente verdade.
Ele inclinou a cabeça, o olhar fixo no meu.
- Então confie no que sente.
A voz dele era rouca, um convite e um desafio ao mesmo tempo. Sua mão subiu lentamente, os dedos quentes roçando minha pele. Quando ele tocou meu rosto, foi como se todo o ar tivesse sido sugado da clareira.
Eu deveria recuar. Deveria lutar contra isso. Mas algo em Rick me fazia sentir que, por mais perigoso que fosse, ele era exatamente o que eu precisava.
- Você me assusta. - Admiti, minha voz quase um sussurro.
Os olhos dele brilharam, carregados de algo que parecia mais profundo do que palavras.
- Eu também me assusto. - Ele respondeu, com uma honestidade que me desarmou.
Por um instante, ficamos ali, presos em uma tensão quase palpável. Então, Rick se inclinou. Quando seus lábios tocaram os meus, foi como se tudo ao nosso redor desaparecesse.
O beijo era intenso, feroz, como se toda a tensão acumulada entre nós estivesse explodindo em um momento de pura rendição. Minhas mãos subiram, agarrando os ombros dele, enquanto ele me puxava para mais perto, o calor do corpo dele envolvendo cada pedaço de mim.
Quando nos afastamos, ambos estávamos ofegantes. O sorriso lento que surgiu no rosto de Rick dizia tudo.
- Acho que você acabou de decidir.
Eu ri, balançando a cabeça, tentando esconder o quão verdadeira era aquela afirmação.
- Talvez. - Respondi, mas minha voz carregava pouca convicção.
Rick estreitou os olhos, como se pudesse ver através de mim, e deu um passo para mais perto, até que não houvesse quase nenhum espaço entre nós.
- Não existe talvez, Ayla. Não com a gente.
Eu o encarei, o peso de suas palavras preenchendo o ar entre nós. No fundo, sabia que ele estava certo. Não havia mais talvez. Rick não era apenas perigoso; ele era inevitável.
O silêncio que se seguiu era pesado, mas não desconfortável. Era como se cada um de nós soubesse exatamente o que o outro estava pensando. Eu não confiava nele completamente, mas confiava naquilo que sentíamos, e isso me aterrorizava.
- Você pode ser meu destino, Rick. - Murmurei. - Mas saiba que, se você me quebrar, eu não vou esquecer.
Ele soltou uma risada baixa, sombria, e passou os dedos pelo meu rosto com cuidado, como se estivesse lidando com algo precioso.
- Se eu te quebrar, Ayla, será porque me quebrei primeiro.
O olhar dele dizia tudo: Rick estava tão perdido quanto eu. Dois lados da mesma moeda, ambos tentando se encontrar no caos que nos cercava.
Então, ele estendeu a mão, uma oferta silenciosa. Respirei fundo, meu peito apertado com o peso da decisão, e entrelacei meus dedos nos dele. E naquele momento, eu soube. Não havia volta.