O cheiro de Seant nunca iria sair da sua mente. A cidade onde nasceu e cresceu ao lado de uma família era um dos lugares mais belos que já conheceu e também o pior para se continuar visitando.
O carro parou novamente e Tristan desceu assim que a porta foi aberta. Os seguranças estavam por todos os lugares, alguns rostos conhecidos, seu nome sendo proferido o mínimo possível. A pessoa que iria encontrar certamente era muito importante, já que diante de todas as ameaças que sofreu apenas por pensar em voltar a Seant, seu pai havia o mandado novamente para fazer negócios. Ele nem mesmo era o homem que fazia negócios.
A boate estava cheia; música alta, bebida por todo lugar, mulheres, sorrisos, peitos... E passando por tudo isso lhe restou outro corredor mais estreito, foi guiado até a área VIP onde reconheceu o homem a qual veio encontrar. Revirou os olhos a tempo de vê-lo sorrir assim que sentou e foi servido com uma bebida quente.
- Tristan Bennett, é um prazer te encontrar - O homem do outro lado estendeu a mão, mas não recebeu o cumprimento de volta - Seu pai disse que mandaria um representante, então não achei que viesse um dos filhos.
- Ele não confia muito nas pessoas. - Avisou ao outro que assentiu, era uma verdade. - Pode falar o que você quer, mensageiro? Não tenho muito tempo nesse lugar, principalmente, na cidade.
- Não se preocupe com a segurança, pois meus homens estão ao redor da boate cuidando para que a polícia passe o mais longe possível - Tristan tomou toda a bebida pedindo mais uma, não estava com medo da polícia. - Vamos aos negócios.
- Estamos aqui para isso.
- Meu chefe, Calvin Ritchie é dono de algumas boates em Beatham, alguns de seus homens já estiveram por lá. - Tristan deu de ombros. Os outros que cuidavam das boates sempre vagavam de uma a uma buscando informações e tentando destruir a concorrência a todo custo. - E em uma dessas idas, Calvin conversou com Juan, o gerente da boate principal de vocês e propôs uma troca de mulheres.
- Que tipo de troca de mulheres? Elas viraram mercadorias? - Riu.
- As suas boates estão cheias de mulheres de Seant, e vocês da família Bennett proibiram qualquer outra boate de terem essas mulheres - isso era verdade. - A busca pelas mulheres daqui é grande demais, e sabemos que não temos essa liberdade para usá-las. - Tristan trocou olhares com seu segurança particular que rodeava aquela mesa por trás dos sofás, pronto para atacar.
- Como você acha que nossa boate é a mais requisitada de todos os tempos? Temos mulheres de qualidade. Juan às escolhe a dedo. - O outro concordou - O que quer propor?
- Um teste, a boate de vocês é bem requisitada, mas eu tenho certeza que não atendem a todos os tipos de clientes, nem todos vão ali em busca das garotas de Seant, e talvez alguns clientes seus, já estejam enjoados. - Tristan estreitou os olhos - Damos a você cinco, seis garotas de cidade diferentes, e vocês deem a nós seis de Seant por alguns dias.
Tristan recebeu outro copo, aquilo não era uma má ideia. Novidades numa boate de prostituição é sempre bem vinda.
- Só que tem um problema - O segurança quebrou o silêncio parando atrás do mensageiro que não se moveu, mas desceu o olhar para a mesa cheia de bebida - As garotas que o seu chefe mantém na boate, são traficadas, o que vamos querer com mulheres traficadas? Mais problemas?
- Traficam tantas e não conseguem uma de Seant? Por medo dos Bennett? - Tristan perguntou, se divertindo com a situação.
- Não. É porque elas são... Como posso dizer? - Sua linha de raciocínio não deu tempo de terminar a frase quando escutaram o barulho de um tiro seguido de gritaria.
- Perigosas, a palavra que você busca para definir as mulheres dessa droga de cidade é Perigosa - o segurança gritou da janela de vidro a qual correu para saber o que acontecia. - Vamos embora Tristan, a polícia chegou.
Pegou sua arma correndo em direção à porta, mas ela foi aberta antes de chegar, empunhou a arma rapidamente apontando para os policiais que entraram sem parar.
- Abaixa a arma. Temos permissão para atirar - um dos policiais gritou e mesmo assim, o segurança não baixou, foi se aproximando de costas até Tristan que procurou pela coloração diferente dentre os policiais, mas não entrou. - Baixa, ou vamos atirar.
- Abaixa a arma, Arthuro. - Mandou para o segurança que foi abaixando aos poucos e jogou o objeto em direção a um dos policiais que foram em direção ao homem o algemando rapidamente. - Relaxa! - Sussurrou para o segurança que sorriu enquanto era levado para fora.
- Levanta as mãos, está armado? - O policial começou a revista-lo mesmo sem a cooperação do homem.
- Ao menos posso terminar de beber? - Debochou, ele nem estava tão estressado. - Essa cidade é mesmo uma droga.
- E você continua vindo mesmo sabendo que é procurado e que será preso assim que te encontrarmos.
Nada naquele lugar estava contra as regras da sociedade, uma boate de prostituição era o que mais tinha por toda a cidade. No entanto, o único problema daquela no momento, era que Tristan Bennett estava dentro, e ele não podia sequer pisar em Seant, que o maior erro da sua vida aparecia para acabar com sua saúde mental.
E não demorou a aparecer, seu cabelo loiro amarrado em um rabo-de-cavalo balançando de um lado para o outro, vestida de colete e uma calça apertada. Maldita mulher, era uma perdição, os lábios grossos com gosto de menta, linda como um dia chuvoso doce como uma cereja... Cereja, o apelido que deu a ela quando a via sorrir em sua direção. Ela era com certeza a mais bonita que já conheceu, mas também o pivô de toda a sua destruição, o ódio que com nome e sobrenome, a que acordava a sua pior versão, a inimiga mais perigosa, sua ex-namorada e a mãe da sua única filha... Lilian Stewart.
- Tristan Bennett... - Ela gritou assim que o viu, seu olhar ganancioso em direção a ele. Tristan riu de lado, não sabia se gritava de volta, se matava, se pedia para morrer. - Você está preso por tantas coisas que não tenho dedos suficientes para contar - Voltou a caminhar parando somente quando estava na sua frente. - Demorou, mas eu peguei você.
Ele riu mais.
- Você também me pegou na adolescência. Esse circo todo é porque está atrás de uma quarta rodada de sexo selvagem do jeito que você gosta?
- O prendam, por favor, se possível o amordace também. - Deu as costas para sair.
- É sério? É isso mesmo que você quer? Porque eu sei muito bem que seu fetiche é me ver algemado fodendo você com força.
- Cala a boca - Mandou enquanto se aproximava outra vez. - Cala a sua boca. Não estou aqui para falar de intimidades, - Ela sorriu quando escutou as algemas serem fechadas - Está preso por tráfico de armas, drogas, garotas, por uns trinta assassinatos, você vai morrer na cadeia.
- Você não quer que o pai da sua filha morra, não é? - Pela primeira vez naquela fatídica noite, Tristan abriu um sorriso que desconcertou a delegada que ergueu a arma outra vez mirando na cabeça daquele homem. Podia apenas atirar e depois dizer que foi um acidente, mas sendo tão apaixonada por aquele hom- pela profissão, tinha que seguir regras - Li... - Ela arfou sentindo todo o corpo estremecer - Você não me assusta, nem essa tropa de homens que você reuniu para me ver.
- Tem mais homens aqui do que você imagina. O carro que te trouxe, foi apreendido assim que entrou. Os homens do seu amigo ali estão presos e indo para a delegacia nesse momento. Medi seus passos desde que chegou no seu jatinho particular no aeroporto clandestino há dois dias. - Ele foi parando de sorrir.
- Não gosto de ter encontros com você desse jeito. - Ela não ligou - Com tanta gente não podemos falar de sexo, mas podemos falar sobre a Lizzie - Ela entreabriu os lábios e deixando sua arma de lado, ela o socou no rosto fazendo o homem cambalear para trás e ser aparado por outros policiais.
- Para de falar da minha filha. - Mandou cheia de ódio para o homem que tornou a lhe encarar, sorrindo, um sorriso com gosto de sangue. - Podem levar esse criminoso. - Ordenou aos subordinados mostrando ao Bennett todo seu nojo num olhar direcionado a ele. Lilian assistiu seu caminhar até atravessar a porta e respirou fundo. - Alguém avisa o Cassius para me encontrar na delegacia, eu peguei Tristan Bennett.
As paredes pareciam diminuir a cada segundo que olhava para elas. A algema ao redor de seus pulsos começava a doer e isso ele não iria perdoar. Não via a hora de Arthuro aparecer naquela porta o levando embora, e ainda ia reclamar pela demora, no entanto, Tristan entendia o porquê de demorar tanto.
Se Lilian achava mesmo que conseguiria um dia prendê-lo, ela está muito enganada. Por muito tempo, Oscar Bennett fez aliados com todo mundo, desde policiais aos promotores, ninguém prenderia seus filhos, pois eles saberiam como se defender dependente de qualquer coisa.
Sentado ali no seu estado mais crítico, seus olhos se voltaram para a porta quando a mesma se abriu revelando Cassius, um dos detetives de Lilian, e logo atrás, ela com aquele sorriso sínico, mais alguns minutos e ele mesmo iria arrancar o riso do rosto daquela desgraçada.
- Tristan Bennett é bom... Revê-lo? - Cassius parou do outro lado da mesa e jogou uma pasta diante dos dois com um sorriso no rosto, - seja bem-vindo.
- Infelizmente não posso dizer o mesmo, é chato ficar me encontrando com vocês. - Comentou e mudou seu olhar para Lilian que cruzou os braços se aproximando também - Como ela está?
- Ela quem? - estreitou os olhos.
- A nossa filha.
- Minha filha. Minha, minha filha. - bradou nervosa, e foi acalmado por seu amigo, não era o momento para surtar, tinha que manter a calma. - Não estamos aqui para tratar de nada pessoal, vamos falar apenas sobre seus crimes, Bennett.
- Não estamos aqui para tratar de nada pessoal? - Se mostrou chocado - Você está me procurando pelo mundo inteiro e finalmente me tem na sua frente. Vai me dizer que não quer mandar esse detetive de merda embora só pra ficarmos a sós e você tirar a minha roupa? - Ele riu mordendo os lábios. - Ainda somos dois jovens que gostamos de sexo, eu me lembro das suas posições preferidas, e do seu gemido imitando uma gatinha pront-
- TRISTAN - Suspirou mantendo a calma. - Não estou brincando aqui. Vamos falar do que interessa - Ela estava calma ao se apoiar na mesa, Tristan se aproximou também e ficou feliz ao notar o desconforto que ela sentiu. Claro que ele ainda mexia com ela, mexia tanto que ela mesma não iria se controlar se passasse muito tempo, e isso era recíproco.
- Eu quero um advogado, não estava fazendo nada de errado, apenas sentado no sofá de uma boate conversando. - Virou para Cassius que folheava a pasta - Vai me chamar um advogado? Vocês nem me deram água.
- Ah, você quer um prato especial? Diga qual que eu envio para a cozinheira da sua nova casa. - Ela riu - Que você morra de sede.
- Oh que se eu morrer, você vai chorar. - Brincou com Lilian que tentou avançar contra o homem, mas Cassius a deteve. - Adoro quando você fica brava, é feroz, um arraso na cama.
- Tristan, você foi preso pelos crimes que cometeu; tráfico de drogas, armas, bombas, pessoas, tudo de ruim, sem contar que está envolvido em esquemas de roubos de alguns bancos, e assassinatos que você mesmo provocou.
- Como vocês conseguiram associar tanta coisa ao meu nome? - Ele ainda estava sorrindo, o que fez Lilian perder a paciência. Suas mãos pequenas, porém, com força o suficiente o puxou pela camisa aproximando os rostos.
- Para de brincadeira, seu estupido. Ao menos diga onde se encontra Jhon e Edgar, pai e filho, vocês os matou?
- Não sei do que está falando?
- TRISTAN VOCÊ É UM G-
- Lilian, tenha calma, ele já está preso. - Pediu o outro e Lilian se afastou totalmente - Temos provas o suficiente para te manter preso Tristan, o juiz só vai precisar assinar, ok?
- Eu não vou mais falar nada. Pela lei, preciso de um advogado.
- O que você entende leis, idiota? - Lilian questionou do outro lado da sala.
- O mesmo que você? - Respondeu ele, - e não vou mais dizer nada, porque olhar pra essa sua cara me dar um nojo, é capaz de qualquer coisa que eu comer, colocar pra fora com a mesma intensidade. Você estraga meus dias, todos aqueles que aparecem. - Lilian trincou os dentes - E eu já disse, preciso de um advogado, ou que tal uma advogada. Sua esposa talvez. – Alfinetou para Cassius com um sorriso no rosto.
- O que? - Cassius fechou a pasta e levantou da cadeira que por preguiça, tinha sentado. - O que disse?
- Isso mesmo que você ouviu. Se não quer me dar um advogado, eu mandei que buscasse uma advogada para mim. - Na mesma hora, a porta foi aberta bruscamente assustando os dois policiais que se voltaram para ela, e na mesma estavam uma mulher loira, os olhos cheios de lágrimas e os cabelos presos pela mão de Arthuro - A advogada chegou, pode me soltar?
- Naomi? - Cassius deu o primeiro passo, mas foi parado pelas inúmeras armas que levantaram em sua direção. - Soltem ela, agora.
- Você tem duas opções - Tristan levantou. - Me soltar, e eu sair sem fazer mal a ninguém, ou perder sua mulher e o seu filho. - Tristan esticou as mãos mostrando as algemas, no entanto, Cassius só conseguia olhar para a mulher presa.
- Eles pegaram nosso filho... estão com ele. - Disse a mulher, desesperada. Cassius ergueu as mãos tirando as armas do corpo e se aproximou com calma de Arthuro.
- A soltem. Por favor. - Arthuro olhou pra Tristan primeiro e esse assentiu. Cassius aparou a esposa que foi solta e encarou o Bennett - Você é um maldito.
- É, mais ou menos. – Riu. - As chaves, tire essa droga de mim, está doendo.
- Não recebo ordens suas. - Brigou Cassius, sendo abraçado fortemente por sua esposa que não parava de chorar.
- Vai embora, seu filho é chato, tá chorando a meia hora e eu o deixei com o Raul, e o Raul não gosta de adolescentes - Arthuro avisou, fazendo o casal levantar e sair correndo em direção ao possível paradeiro do filho.
Na sala permaneceu Tristan, a ex-namorada que não conseguia tirar os olhos daquele homem, do monstro que tinha se tornado. Os olhos grandes enfeitavam bem seu rosto, eram verdes tão bonitos que podiam enganar qualquer um na face da terra, mas não Tristan que voltou a erguer as mãos esperando que a mesma soltasse.
- Não vai me soltar? Porque se não fizer isso eu vou ter que usar a força.
- Como você pode ser tão baixo? Ameaçar uma criança? A esposa indefesa de uma pessoa que só está trabalhando e fazendo o bem para seu país? Que espécie de homem é você? Ah, não, eu duvido muito que seja homem, é um grande animal que não sabe valorizar as pessoas.
- Para de falar, até a sua voz me enjoa - Lilian deixou a primeira lágrima cair, transtornada, não se mexeu. - Eu quero as chaves, e quero ir embora. Deixei seu escravo ir com a esposa, e ninguém vai tocar na cria, mas você vai ter que me dar às chaves, ou todo mundo nessa porcaria vai morrer. - Lilian não se mexeu - acha que eu to brincando?
- Acha que eu me importo com alguém deste lugar além de você? - Questionou dando os primeiros passos - eu não vou soltar você, porque o objetivo da minha vida é te ver atrás das grades, morrendo de fome, sujo, pedindo por perdão.
- Não é isso que você quer Lilian - Apenas com um olhar, o último homem que ficou na sala foi até a mulher a revistando até achar as chaves da algema, e uma vez solto Tristan riu massageando seus pulsos. - Pronto, eu estou livre, agora você não pode mais tirar a minha roupa como nos seus sonhos. Tchau.
- Eu ainda vou acabar com você. - Tristan parou na porta assim que a ouviu falar com a arma apontada para si. - Eu vou prender toda a sua família, seu pai, seu irmão, seu cunhado, todos, todos, porque nenhum de vocês presta. Uma família de criminosos.
- Ela não presta, mas você queria fazer parte. - Lilian se calou novamente enquanto ele vinha em sua direção - espero que tenha matado a saudade de ver o amor da sua vida de novo. Guarda bem esse rosto, porque não o verá mais por um longo tempo. - Ele ainda riu quando tirou a arma de sua mão.
- Eu vou atrás de você, e vou até o inferno pra te prender. Não importa seus truques e as formas que age, eu vou te prender. Eu ainda vou ter o prazer de fechar a cela e te ver jogado no chão sujo. Quem sabe te deixar semanas sem comer, vou acabar com a sua vida, eu vou acabar com você. E não tem nada nesse mundo que me faça desistir disso.
- Eu vou fazer com que desista.
- Eu vou fazer com que desista.
- E vai me ameaçar com o que? Matar minha filha? Que é sua também? Teria coragem de matar a Lizzie? Eu acho que sim. - Tristan a olhou por alguns segundos até agir. Sua mão fechou ao redor do queixo dela a aproximando de si - Você tá... Me machucando.
- Existem várias maneiras de te parar sem meter minha filha no meio.
- Você não tem direito de abrir a boca pra a chamar de filha. Nunca a viu, nunca se interessou. E se depender de mim, nunca vai.
- Eu vou te falar só mais uma vez, que talvez você não tenha entendido no nosso último encontro. - Foi mais bruto ao apertá-la fazendo com que a delegada chorasse pela dor - Para de atrapalhar meus esquemas, você não vai conseguir me prender, e se tivermos outro encontro desses, eu mesmo acabo com a sua vida. - A soltou fazendo a mulher se desequilibrar e cair no chão, o encarando.
E ele encarou de volta, ela ainda tinha aqueles mesmos olhos da adolescência, aqueles que lhe encaravam com amor, os mesmos que ele adorava.
- Você podia ter se tornado tudo... - Voltou a dizer, e engoliu todos os xingamentos que vieram a sua mente - menos uma pedra no meu caminho.
- Eu odeio você. - Choramingou e abaixou o olhar, não tinha o que fazer.
- O sentimento é recíproco. - E deixando essas palavras, ele saiu da sala levando todos os seus homens que ali estavam.
Aquela noite não deveria ter terminado daquele jeito. Deveria estar sorrindo, comemorando sua tão sonhada prisão, mas nada do que planejou deu certo. Dedicou dias, anos para o momento, só esqueceu que mafiosos jogam sujo demais, usam família, amigos, colegas e tudo que o puder livrar da cadeia.
Entrou em casa jogando suas coisas onde podia, precisava de um banho, uma taça de vinho, tudo para fazê-la esquecer de mais um fracasso que logo, logo seria punida.
- Mamãe. - A delegada virou devagar em direção à voz que surgiu na escuridão, respirou fundo quando avistou sua filha se aproximar com cautela. - Você chegou tarde. Eu pedi o jantar para nós duas, mas...
- Está tudo bem. Acabei me atrasando, mas estou aqui. Espero que já tenha jantado, não precisa me esperar todas as noites - Lizzie cruzou os braços encarando dos pés a cabeça - O que foi? Estou bem. E estou aqui.
- Está aqui agora. Sei que você tem um trabalho complicado...
- A gente pode pular a parte em que você me dar um sermão sobre o meu trabalho? - Pediu com carinho se aproximando da filha, encarou seu rosto bonito, os olhos claros como os seus... Era a única coisa que tinha de si naquela garota. - Eu te amo, tá bom? Sinto muito não ter chegado a tempo para o jantar, prometo recompensar.
- Já estou acostumada. Mas você parece diferente hoje... Sua missão não deu certo? Prendeu o homem errado de novo?
- Como sabia que eu tinha uma missão hoje? - Lizzie abaixou o olhar - Eu já pedi para não entrar no meu escritório, ali dentro tenho informações confidenciais, não mexa nas minhas coisas, Lizzie.
- Como não quer que eu entre lá? É o único lugar onde posso te encontrar. Está há meses planejando sua missão e o grande dia era hoje. Eu sei. - Lilian se afastou, não estava pronta para discutir aquela questão com sua filha de dezesseis anos que não sabia de nada. - Eu sei quem você quis prender hoje. Não adianta esconder de mim, todo mundo sabe que aquele homem é o meu pai.
- Ele não é o seu pai. - Virou outra vez para a filha que não se intimidou - Ele é um criminoso, e toda a sua família também. Eles matam pessoas, as usam, fazem troca, são maus. - Segurou as mãos de sua filha que tentou negar toda aquela história, eles não pareciam ser tão maus assim. - Eu sinto muito, devia ter escolhido uma pessoa melhor. - Admitiu fazendo a garota concordar.
- Você pode querer esconder isso das pessoas lá fora, do seu chefe, dos seus amigos, da mídia, de todo mundo, mas todos sabem que Tristan Bennett é o meu pai. Na rua, na escola, nos lugares aonde vou, mas claro, sou conhecida também como a filha dele que foi ignorada e deserdada, isso é bom, não é? Pra você?
- É pra você também, assim, nenhum inimigo dele vem atrás de você.
- Você é a inimiga dele - Lilian se afastou outra vez, o olhar sério em direção à filha, será que a garota que colocou ao mundo e cuidou a livrando de todas as coisas ruins do universo estava ali para defender o pai? - Não é defendendo o meu pai, mas não quero vê-lo preso.
- Eu não vou deixar barato para Tristan Bennett só porque ele é o pai da minha filha. Eu como delegada tenho que prender todos que fazem o mal. Inclusive, aqueles que ameaçam crianças inocentes como o Archie, seu amigo, por exemplo.
- O que? - Se surpreendeu rapidamente e viu um sorriso no rosto de sua mãe crescer.
- É isso que o homem que você não quer ver preso, faz. Ele machuca as pessoas sem se importar se o ferimento é físico ou emocional, se vai durar a vida toda. - A menor continuava horrorizada - Não o defenda na minha frente.
Lizzie continuou calada, porque Archie tinha sido envolvido, era seu melhor amigo e a última vez que falou com ele, estava em casa jogando seu videogame chato.
- Eu peço desculpas por ter perdido a janta, e queria muito sentar e saber como foi seu dia hoje na escola, mas eu preciso de um banho, estou muito cansada. - Lizzie assentiu entendendo o lado de sua mãe, e depois de um beijo a deixou ir.
A noite não tinha sido boa para ela e os pequenos momentos que passou dentro de casa foi pensando no quanto foi burra ao não dar assistência para a família das pessoas que trabalham consigo, especialmente para Cassius que era seu parceiro de muitos anos. Isso lhe serviu para que da próxima vez não deixasse escapar esse detalhe.
A cada prisão de Tristan, Lilian aprendia alguma coisa e iria continuar assim, até colocar cada homem daquela família na cadeia e ter o prazer de sorrir para cada um dando um tchau e adeus.
Depois de se arrumar, saiu do quarto escutando a voz de Lizzie cantando alguma coisa em seu quarto. Queria poder sair e agir como se tudo estivesse normal, mas as coisas sempre ficam estranhas quando discutiam. E o motivo era sempre o mesmo, o pai dela. Ah, como odiava esse homem, além de lhe tomar tudo, ainda tinha o amor de sua filha sem nunca ter a ajudado ou visto na vida?
Cruzando o corredor, ela chegou à cozinha deixando suas coisas para preparar um café forte. O clima na delegacia certamente seria de terror e ela tinha que estar preparada para lidar com tudo isso.
- Bom dia, mãe. Achei que iria sair sem falar comigo hoje. - Lilian negou com um sorriso - Está ficando profissional nisso. Desculpa-me por ontem.
- Está tudo bem. - Lizzie correu para abraçá-la - Quer carona para o colégio? – Avisou buscando suas coisas.
- Não. Vou com uma amiga. – Lilian assentiu e dando uma última olhada em sua filha, saiu de casa sem falar nada.
Chegando à delegacia, ela sabia que as coisas não estavam boas, mas havia uma movimentação a mais do que esperava. Parou no meio de tudo aquilo assistindo uma correria inexplicável. Segurando seu café, ela andou mais rápido para sua sala e fechou a porta assustando Cassius que digitava algo no computador praticamente sem piscar.
Ele riu dela erguendo sua garrafa de café também. Ambos mortos por dentro.
- Eu achei que tinha entrado na delegacia errada, mas enfim, entrei na certa já que estou olhando pra você. – Disse ao se encaminhar para a sua mesa do outro lado da sala e em frente à de Cassius - Eu imaginei o tumulto que estaria esse lugar, mas eu acho que tem algo a mais.
- E tem. James estará chegando em menos de cinco minutos e tudo precisa está em ordem, certo? – Lilian fez cara de choro - eu cheguei mais cedo e mandei que todos já se organizassem você chegaria apenas para a reunião com ele. E pedi para que não incomodasse também, sei que você está um caco.