Meu nome é Gu Avelar e esta é minha segunda vida.
Não é uma metáfora, é um fato. Eu morri, e de alguma forma, voltei ao ponto de partida.
Lá estava Clara, sorrindo e recebendo elogios no salão do instituto de arte, com Renan ao seu lado, como um cachorrinho fiel.
Ver aqueles dois era um nó no meu estômago, uma memória física da traição que me destruiu.
Na vida passada, éramos eu e Clara, parceiros no amor e na arte. Eu, o cérebro, ela, o rosto público. Mas a inveja a consumia.
Junto com Renan, um oportunista, eles tramaram minha queda.
Fui acusado de desviar fundos, documentos foram forjados, e sabotaram minha maior exposição.
Perdi tudo: emprego, reputação, e fui afundado em dívidas.
Clara e Renan tomaram meu lugar, construindo suas carreiras sobre minhas ruínas.
O pior foi o que aconteceu com minha família. Meus pais, para me ajudar, gastaram todas as suas economias.
O estresse os consumiu: meu pai teve um ataque cardíaco fulminante, e minha mãe definhou logo depois.
Eu perdi tudo. Meus pais, minha carreira, meu amor, meu futuro.
A dor me levou a um lugar escuro de onde não houve retorno.
Até que eu acordei.
Acordei aqui, meses antes da grande traição, com todas as memórias intactas.
Desta vez, não seria o gênio em ascensão.
Desta vez, eu daria a última risada.
A guerra estava apenas começando.
Meu nome é Gu Avelar, sou curador de arte, e esta é a minha segunda vida.
Não é uma metáfora, é um fato. Eu morri e, de alguma forma, voltei ao ponto de partida, com a chance de refazer tudo.
Na minha frente, no salão principal do instituto de arte, Clara sorria, recebendo elogios pela sua proposta de exposição. Ao seu lado, como um cachorrinho fiel, estava Renan, seu aprendiz. Vê-los juntos me causava um nó no estômago, uma memória física da traição que me destruiu.
Na minha vida passada, eu amava Clara. Éramos parceiros nos negócios e na vida, um casal que o mundo da arte via como promissor. Eu era o talento, o cérebro por trás das nossas curadorias, e ela, o rosto público, a negociadora carismática. Eu não me importava, o sucesso dela era o meu.
Que ingênuo eu fui.
A inveja a consumia por dentro, corroendo o amor que eu achava que tínhamos. Ela queria o reconhecimento só para si. Renan, medíocre e oportunista, viu em sua ambição uma oportunidade para subir na vida. Juntos, eles tramaram minha queda.
A lembrança ainda é nítida, como uma ferida que nunca cicatriza. A exposição mais importante da minha carreira, a que me colocaria no mapa internacional. Eles me acusaram de desviar fundos, forjaram documentos, sabotaram peças cruciais da exposição na noite da abertura. O escândalo foi devastador. Perdi meu emprego, minha reputação, e fui mergulhado em dívidas que nunca conseguiria pagar.
Clara e Renan tomaram meu lugar, usando minhas ideias e contatos para construir a carreira deles sobre as minhas ruínas.
O pior não foi a ruína profissional. Foi o que a minha desgraça fez com a minha família. Meus pais, artistas humildes e íntegros, usaram todas as suas economias para tentar me ajudar a limpar meu nome. O estresse, a vergonha e a dor os consumiram. Meu pai teve um ataque cardíaco fulminante. Minha mãe, de coração partido, definhou logo depois.
Eu perdi tudo. Meus pais, minha carreira, meu amor, meu futuro. A dor me levou a um lugar escuro do qual não houve retorno. Até que eu acordei.
Acordei aqui, meses antes da grande traição, no dia da seleção de projetos do instituto. Com todas as memórias intactas.
Desta vez, eu não seria o gênio em ascensão. A fama precoce foi o que me tornou um alvo.
Por isso, quando chegou minha vez de apresentar um projeto, escolhi deliberadamente uma proposta modesta, quase secundária. Um estudo de caso sobre técnicas de restauração de cerâmica antiga. Era um trabalho sólido, mas sem o brilho ou a ambição que todos esperavam de mim.
Vi a confusão nos rostos dos diretores. Vi o desprezo sutil no olhar de Clara.
Ela se aproximou de mim depois das apresentações, com Renan a reboque.
"Gu, o que foi aquilo? Um estudo sobre cerâmica? Você é melhor do que isso. Achei que tínhamos ambições maiores."
Sua voz era mel. Veneno puro.
Eu dei de ombros, forçando um sorriso cansado.
"Estou um pouco esgotado, Clara. Quero pegar algo mais calmo este ano."
Renan soltou uma risadinha.
"Deixando o caminho livre para os verdadeiros talentos, Avelar?"
Eu o ignorei. Meus olhos estavam em Clara. Na minha vida passada, eu teria visto preocupação em seu rosto. Agora, com a clareza da morte, eu via apenas o brilho mal disfarçado de triunfo. Ela acreditava que eu estava perdendo meu toque, que minha genialidade estava se esvaindo. Perfeito.
Deixei que eles acreditassem na minha mediocridade. Deixei que me subestimassem.
Enquanto eles se afastavam, rindo e planejando seu futuro glorioso, um sorriso frio se formou nos meus lábios.
Aproveitem o palco, desgraçados.
Desta vez, a última risada será minha.
Do outro lado do salão, vi Sofia. Ela era uma restauradora de arte, quieta e incrivelmente talentosa. Na vida passada, ela sempre foi gentil comigo, uma presença calma no meio do caos. Ela me olhava agora com uma expressão de preocupação genuína, a única pessoa no salão que parecia sentir que algo estava errado.
Eu me lembrei de seus sentimentos não declarados por mim, algo que eu só percebi tarde demais. Desta vez, eu não cometeria o mesmo erro.
Sofia seria minha aliada. A única pessoa em quem eu podia confiar.
A guerra estava apenas começando, e eu já tinha minhas peças posicionadas no tabuleiro.
O resultado do teste de avaliação de projetos saiu uma semana depois. Como esperado, a proposta de Clara, uma exposição grandiosa sobre o modernismo brasileiro – uma ideia que, na vida passada, era minha – ficou em primeiro lugar. Meu modesto projeto sobre cerâmica ficou numa posição intermediária, exatamente como eu planejara.
A comissão de avaliação elogiou Clara publicamente. Ela, banhada em glória, não perdeu a oportunidade de me humilhar.
"Gostaria de agradecer à comissão pela confiança" , disse ela, com um sorriso radiante. "E também gostaria de encorajar meus colegas a sempre sonharem alto. Não se contentem com o medíocre."
Seus olhos se fixaram nos meus enquanto ela dizia a última frase. O recado era claro. O salão inteiro se virou para me olhar, alguns com pena, a maioria com desprezo. Eu mantive meu rosto inexpressivo.
Renan, sempre o capacho, adicionou seu próprio veneno.
"É isso aí, Clara! Não adianta ter um grande começo se você não consegue manter o ritmo. Alguns simplesmente não aguentam a pressão e acabam quebrando, como aquela peça rara na exposição de Munique."
Meu sangue gelou.
A exposição de Munique. Um evento menor, anos antes da minha ruína principal. Uma peça de vidro delicada havia sido sabotada, e Renan, na época um mero estagiário, plantou evidências para me incriminar. Foi um pequeno ensaio para a traição maior que viria. Ninguém, além de mim, dele e de Clara, sabia dos detalhes daquela sabotagem.
Era uma informação que ele não deveria ter nesta linha do tempo.
Naquele instante, a verdade me atingiu como um soco no estômago.
Eles também renasceram.
Clara e Renan não eram apenas as versões passadas e ambiciosas de si mesmos. Eles eram os monstros que me destruíram, com todas as memórias da vida passada intactas. A arrogância deles não vinha apenas da ambição, mas da certeza de que já haviam me vencido uma vez e poderiam fazer de novo.
O jogo tinha mudado drasticamente. Eu não estava lidando com adversários ingênuos, mas com inimigos conscientes que sabiam exatamente onde me atacar.
O diretor do instituto, um homem chamado Dr. Almeida, pigarreou, interrompendo a tensão.
"Parabéns, Clara. Um projeto magnífico. Dada a sua complexidade, sugerimos que você tenha um parceiro. Gu, com sua experiência, seria uma excelente adição à sua equipe."
O ar ficou pesado. Trabalhar com ela? De novo? Impossível.
Antes que eu pudesse recusar, Clara sorriu docemente para o diretor.
"Dr. Almeida, eu agradeceria o apoio, mas acho que Gu está focado em seu próprio projeto. Ele mesmo disse que quer algo mais calmo este ano, não é, Gu?"
Era uma armadilha. Se eu recusasse, pareceria mesquinho. Se eu aceitasse, estaria na cova dos leões.
"Clara tem razão, Dr. Almeida. Meu projeto de cerâmica exige minha total atenção" , respondi, mantendo a voz neutra.
O diretor pareceu desapontado, mas assentiu.
Clara, porém, não havia terminado. A recusa, por mais educada que fosse, a irritou. Ela queria que eu estivesse sob seu controle.
"No entanto" , ela continuou, com um tom que não admitia recusa, "notei que algumas das pesquisas preliminares do Gu sobre pigmentos antigos poderiam ser muito úteis para a fase inicial do meu projeto. Para o bem maior do instituto e da nossa colaboração mútua, eu gostaria de solicitar que ele compartilhasse esses dados conosco."
Era um roubo disfarçado de pedido. Era exatamente assim que ela começara na vida passada, pegando pequenas partes do meu trabalho até tomar tudo.
Renan a apoiou imediatamente.
"É uma ótima ideia! O sucesso da exposição da Clara trará prestígio para todos nós."
Todos os olhos estavam em mim. Dr. Almeida me olhava com expectativa. Recusar seria visto como um ato de sabotagem.
Eu respirei fundo. Era um recuo tático, um peão sacrificado no início do jogo.
"Claro" , eu disse, forçando um sorriso. "Ficarei feliz em compartilhar minhas anotações. Pelo bem do instituto."
O sorriso de Clara se alargou. Ela tinha vencido a primeira batalha. Ela acreditava que eu ainda era o mesmo Gu ingênuo, fácil de manipular.
Mal sabia ela que eu estava apenas lhe dando a corda para que ela mesma se enforcasse. Enquanto eu entregava a ela uma pasta com dados superficiais e sem importância, minha mente já estava a quilômetros de distância, planejando minha fuga e meu contra-ataque.