–– Mel? –– A voz grave e cansada sussurra meu nome, a intensidade do timbre abala minhas pernas e tenho que segurar forte no corrimão da escada para me manter de pé.
–– Sim, Lorenzo? –– Vejo seu maxilar apertar, a coloração rosada deixar
sua mão direita com a pressão que ela exerce sobre o copo com uísque e temo que o vidro se parta.
Ele odeia quando o chamo pelo nome completo.
Bom, eu odeio quando bebe sem parar, estamos bem iguais aqui.
–– Não me chame assim. –– Ele
protesta, claramente afetado pela bebida, quando sua voz sai
arrastada e rouca.
Suspiro desanimada.
Eu não consigo
lidar com ele assim nesse momento.
–– Desculpe, tio. ––Seus ombros relaxam em resposta.
Desço mais um degrau, faltando
apenas quatro para que meus pés encontrem o chão e sigam ao seu
encontro, o único caminho que eu sempre quero percorrer.
–– Você deveria estar dormindo, princesa.
–– Não consegui. ––explico, me sentindo corajosa o suficiente para descer mais dois
degraus de uma vez.
Agora é sua vez de suspirar. Exausto demais
para começar uma briga. Eu o agradeço em pensamento por isso, me
mantendo em silêncio enquanto espero sua próxima fala.
––Desculpe. –– Pede. Franzo o cenho, juntando minhas duas
sobrancelhas.
–– Era nossa responsabilidade cuidar de você.
–– Se antecipa em explicar.
Cerro meus punhos e encaro o
branco da parede.
Você não tem culpa. Quero falar, mas meus
lábios não me obedecem.
O silêncio se estabiliza e ele põe o
copo com o Uisque na mesinha à sua esquerda.
–– Quando seus pais morreram e a deixaram sobre nossa responsabilidade, eu deveria
ter estado mais presente na vida de vocês duas. No entanto, não o
fiz. A vontade de crescer financeiramente e oferecer uma vida mais
confortável, segura para ambas falou mais alto.
Meu coração dispara. Falar dos meus pais em uma situação como essa só faz a
dor aumentar. Eu era tão pequena para ter seus rostos frescos em
minha memória.
–– A culpa não foi sua. –– Falo, tentando levar algum alento ao seu coração quebrado.
Mais suspiros, mas sou incapaz de falar se estão saindo de mim ou dele.
Sua respiração sempre foi tão audível em momentos semelhantes a este.
Seu corpo se ergue do sofá e ele passa a bagunçar os
fios negros do cabelo, por quase um minuto o observo de longe, os
ombros tensos como se estivessem sobrecarregados demais para relaxar,
a pele dourada pelo sol sem o brilho costumeiro, o rosto marcado por
uma expressão cansada e sombria .Desço mais um degrau, coloco toda
minha força de vontade para não correr para seus braços e
confortá-lo. Ele grita para o nada, como um animal encurralado e sei
que é uma forma de expulsar a raiva do seu corpo, no entanto, isso
me impede de ter qualquer avanço na nossa aproximação.
––Eu devia ter percebido que ela tinha voltado com isso. Fui tão cego.
–– Diz e não posso deixar de me prender em suas palavras.
––Voltado? –– Pergunto, avaliando cada reação do seu corpo.
––Sim, após a morte da sua mãe Solange entrou em depressão, ela não
conseguia suportar a ideia de que perdeu a única irmã em um
acidente de trânsito banal.
Calafrio percorre minha
espinha.
Lembranças.
Lembranças.
Lembranças.
Eu tinha apenas cinco anos, tudo aconteceu um pouco depois do casamento dele com tia Solange.
–– Ela passou a beber, no começo não
prestei tanto atenção. Estava preocupado com o seu bem-estar, você
era tão pequena e frágil. –– Seus olhos me buscam, nunca
consegui descrever o amarelo deles, mas sempre gostei de pensar que
são tão doces como caramelos. Odeio vê-los tão tristes e
culpados.
–– Não foi culpa sua.
–– Ela virou uma alcoólatra. –– Sussurra de volta, renegando minhas palavras.
–– Não foi culpa sua. –– Repito.
–– Era minha obrigação cuidar dela. A culpa é totalmente minha, Melissa. –– Rosna.
Não contenho as lágrimas que descem pelo meu rosto, olhando para seu
olhos transtornados e perdidos sinto medo de perder mais alguém. A
única que me restara.
Continuamos nos encarando, as veias do
seu pescoço parecem que vão explodir e jorrar sangue por toda a
nossa sala.
Balanço a cabeça para afastar as lágrimas.
––Ela mentiu pra nós dois, fingia ir para o grupo de reabilitação
quando na verdade ia pra um bar.
–– Você não entende. ––dispara, bagunçando ainda mais os fios negros com as mãos,
visivelmente abalado, cheio de fúria.
–– Eu amava a minha tia, faria qualquer coisa para está no lugar dela e aliviar sua
dor.
–– Não fale isso nunca mais. –– Seus pés seguem
rápido em minha direção e suas mãos se fecham em meus braços,
apertando o suficiente para causar marcas. –– Eu não suportaria
te perder. –– confessa. –– Eu não posso perder você. ––fala em tom baixo, como se estivesse contando um segredo. O puxo para
mais perto.
–– Você não vai. ––Falo. Seus braços me envolvem no abraço mais protetor e desesperado que já recebi.
––Ela morreu de overdose em um lugar sujo e sozinha, Mel. E, eu nem sei
o motivo dela estar em um lugar como aquele.–– admite, enfiando o
rosto na curva do meu pescoço, jogando de forma inconsciente um
pouco do seu peso corporal pra cima do meu.
Eu sei de toda a
história. Ouvi o médico explicar antes de ser expulsa de lá, mas
não falo pra ele.
–– Vou te tirar daquela escola interna, você não sairá de perto de mim nunca mais, ok? Vou ficar de olho e
não deixarei nada te acontecer, guarde isso no seu coração e
mente, porque é uma promessa. –– apenas aceno contra seu peito,
não desejando qualquer outro lugar além dos seus braços.
–– Vá dormir, o enterro é amanhã cedo. –– seus lábios deixam um
beijo casto em minha testa e subo para o quarto. Fico acordada até o
sol nascer.
O lugar e as sensações são familiares pra mim, o
procedimento é o mesmo. Apesar de algumas pessoas que estão aqui
serem totais desconhecidos, o discurso não muda, sempre é o velho "
vai ficar tudo bem, querida" e o "sinto muito pela sua
perda". A maioria já tem essas frases programadas que nem
percebem que estão falando. Eles nem sequer entendem o sentimento de
perder alguém tão próximo.
Deixo uma rosa branca em seu
caixão que logo começa a descer na cova, tia Solange só tinha
trinta anos e era uma das mulheres mais bonitas que conheci, apesar
de seu fim tão decadente. Sei que o alcoolismo é uma doença, mas
apesar de tudo, ela me deu amor e me ensinou a amar. O lugar que tio
Enzo escolheu é lindo, apesar de ser um cemitério. Tem um belo
jardim aos arredores.
–– Essa menina não tem sorte, perdeu toda a família. –– Alguém sussurra ao meu lado e meu corpo
tensiona. Lorenzo me aperta ao seu lado, descanso uma de suas mãos
em minha cintura.
–– Não ligue para elas, sou sua família e cuidarei de você.–– Ele afirma, beijando o topo da minha
cabeça.
–– O que será da pobrezinha? O tio não é o tio
dela de verdade. –– A mulher volta a falar. –– A mão de
Lorenzo me aperta mais forte.
Quem são essas mulheres,
afinal?
–– Ela ainda é de menor, aposto que será mandada para um orfanato. –– uma delas fala.
–– Oh, deve ser verdade. ––Uma outra concorda e ganham um olhar severo do meu tio.
–– Não se preocupe, ninguém vai tirar você de mim, princesa. Estou cuidando de tudo. –– Ele diz com tanta certeza que aperto sua mão em resposta.
Ficamos ali, representando a única família viva de titia, protegendo um ao outro dos comentários
maldosos que de vez ou outra chegavam aos nossos ouvidos, até o padre terminar a última oração e ele precisar se distanciar para jogar o primeiro punhado de areia sobre o caixão da mulher que me
criou.
Ainda acho que ela preferiria ser cremada, mas nunca
conversamos sobre isso de fato, então faço o mesmo que ele e imito
sua ação.
As pessoas começam a se dissipar de forma gradual,
evitamos qualquer início de conversas ou convites, apesar de alguns
terem sido feitos por colegas e amigos próximos de titia.
Encaro
o homem de ombros largos enquanto ele trabalha para dispensar a
diretora da escola onde titia trabalhava e noto a falta de gravata em
seu terno negro, a aparência cansada e as olheiras embaixo dos
olhos.
–– Vamos. –– Ele entrelaça sua mão na minha e
dispensa a mulher de meia idade, me puxando de forma grosseira no
sentido da saída, evitando grupos de desconhecidos pelo caminho.
––No que está pensando? –– pergunta, após entrarmos no carro.
––Nada. –– dou de ombros e ele me olha com a sobrancelha esquerda
erguida.
–– Você estava séria demais pra alguém que não
pensava em "nada", princesa.–– Debocha da minha
resposta.
–– Só observando o como você parece péssimo. ––
Tento descontrair, mas falho miseravelmente e ele me encara
ressentido.
–– Eu deveria parecer bonito? –– Pergunta
sem humor.
–– Alguma vez na vida. –– Sorrio, para que
saiba que estou brincando.
É a minha forma de lidar com a dor. Procurar por escapes e rotas de fugas.
Ele me avalia. Puxa um sorriso de canto de boca.
–– Você está sempre péssima, Melissa Fontana. Bato no seu ombro.
–– Você começou. –– justifica, sorrindo de forma condescendente para alguma piada interna em sua cabeça.
–– Tire essa barba quando chegarmos em casa.
–– Você anda muito mandona, querida. –– Me adverte sem tirar os olhos do trânsito.
–– Isto não é uma novidade.–– Falo e ganho um sorriso, ele pega
minha mão e a leva até os lábios, beijando a palma.
–– Obrigado.–– murmura.
Não Pergunto o motivo, pois sei que se
refere a toda nossa recente conversa e minha tentativa de tentar
deixar as coisas normais de novo. Coloco minha cabeça em seu ombro e seguimos nessa posição até em casa.
–– Vá pedir para Olga fazer algo pra você comer.–– Diz, assim que descemos do carro.
–– E, você? –– Questiono.
–– Não estou com fome. –– Fala, evitando meu rosto quando aperta o botão do
nosso andar no elevador.
Quando cruzamos a porta do apartamento é como se toda a evolução de minutos atrás sumisse, ele segue em silêncio para o escritório e eu para a cozinha, encontro com Olga, nossa governanta, na metade do caminho e faço como ele instruiu, depois vou direto tomar banho, porque ao contrário dele, não estou
disposta a entregar os pontos e pra isso preciso descansar.
MELISSA
Eu não tenho muitas amigas, mas as poucas que adquiri na escola interna, nova aliança, no interior de Minas gerais, me ligaram desde que descobriram o que aconteceu com tia Solange. Ontem o número de ligações aumentou drasticamente quando Cíntia descobriu sobre minha saída do colégio. Estava doendo em mim aquele afastamento também, no entanto, era o melhor para a minha família nas circunstâncias atuais e sinceramente, a garota sempre teve estava fazendo uma cena maior do que o necessário, mas isto era ela e sua inclinação para o drama falando. Elas fizeram videoconferência para tentar encontrar uma solução, porém, não havia um problema para tal e encerrei o assunto.
Hoje faz um mês desde o enterro e minha rotina se resume a tomar café da manhã com Lorenzo, vê-lo partir para o restaurante e esperar por sua volta, esta é a pior parte, porque ele sempre chega quando já estou indo dormir. É frustrante pra caralho! Sinto que é proposital, como se minha companhia fosse demais para ele suportar. O que, obviamente, me deixa triste e culpada.
–– Bom dia, Mel.
–– Bom dia, Lorenzo. –– Enfatizo seu nome e ele para a garrafa de café no meio do caminho. Seguro um sorriso. Falar o nome dele sempre funciona.
Sento na mesa, fingindo não perceber seus olhos em mim.
Coloco a torrada com geleia no meu prato e começo a procurar por algo mais apetitoso. A mesa está recheada, com vários tipos de fruta, pão, bolo e mingau. Sorrio quando percebo meu iogurte desnatado. Olga é uma santa.
–– O que fiz dessa vez? –– Pergunta, cutucando meu braço.
–– Nada. –– respondo, afastando minha cadeira da dele. Ele resmunga, mas não me impede.
–– Quais são seus planos para hoje, princesa?
Dou de ombros.
–– Não sei, pensei em ajudar a Olga com as tarefas de casa e depois ir ao shopping.
Ele fica em silêncio, então começo a cortar alguns morangos para colocar no meu iogurte. O barulho da cadeira arrastando no piso me faz olhar para ele.
Seu rosto fica vermelho.
Ergo uma sobrancelha.
–– Princesa, eu... bem, você parece diferente hoje. Eu não gosto disso. Tem algo te incomodando?
Bufo.
–– Seriamente? –– ele me olha espantado, então coça a nuca sem jeito.
–– Foi algo que fiz, não é? Você pode me dizer?
Seguro seu olhar por quase um minuto e fico puta quando percebo que ele realmente não faz ideia do quanto me machucou nos últimos dias.
–– Não importa, apenas se tranque no seu escritório e continue me ignorando.–– rosno, perdendo o apetite. Faço o movimento para deixar a mesa, mas ele segura meu braço para me impedir. Eu puxo, não querendo continuar qualquer diálogo com ele. Seu aperto aumenta e torço o nariz.
–– Você está me machucando!
–– Não, eu não estou. ––ele solta meu braço e me dá um olhar irritado. ––Agora me diga o que diabos você tem e vamos tomar café da manhã em paz.
Pressiono os lábios juntos.
Estou tão irritada com ele agora.
–– Por que acha que fez algo? Talvez, eu apenas não queira conversar. –– Indago, enquanto me acomodo de volta no lugar e corto uma fatia de bolo de cenoura.
–– Melissa...
–– O quê, Lorenzo?! O quê?
Ele joga as mãos para cima e aponta para mim.
–– Você me chamou de Lorenzo. De novo. –– Explica e dou de ombros, fingindo não entender seu ponto.
–– É o seu nome.
Ele cruza os braços e gira todo seu tronco em minha direção num único movimento.
–– Você só me chama assim quando está chateada. O que eu fiz?
–– Nada. –– Continuo a comer enquanto sinto seus olhos queimarem em mim.
––Tenho todo o tempo do mundo, Melissa.
Meu sangue ferve mediante suas palavras.
–– Desde quando? –– Giro em sua direção e encaro sua expressão surpresa.
–– O que houve com você? ––Pergunta, aturdido com minha reação.
–– O que houve comigo? –– Repito sua pergunta, minha cabeça dói e de repente sinto vontade de lhe pontuar todos os motivos para minha irritação.
–– Você. –– resumo.
Seus lábios apertam e seus olhos checam cada parte do meu rosto, buscando algum esclarecimento.
–– Eu não fiz nada. –– se defende quando percebe que não direi mais nada.
–– Isso mesmo, como eu havia falado antes, nada. Absolutamente nada.
–– O que você quer dizer?
–– Eu sou a adolescente aqui. Eu quem deveria criar situações. No entanto, quem está se trancando no escritório e ignorando as pessoas, é você.
Ele bufa.
Bufo de volta.
–– Eu não queria falar com ninguém. –– Defende-se.
Ele parece exausto. Bem, somos dois.
–– Nem comigo? –– Murmuro magoada. Seus braços me amparam e de repente estamos os dois em pé entrelaçados.
–– Eu sempre quero falar com você. –– Traz as pontas de seus dedos em minhas costas fazendo pequenos círculos. Os pelos do meu pescoço se arrepiam com seu toque.
–– Você me excluiu. ––Resmungo, parecendo melosa e carente.
–– Não foi minha intenção. –– Sua respiração sopra os fios soltos e finos de meus cabelos. Nosso abraço se intensifica, me sinto saudosa e sensível.
–– Me senti sozinha. –– Estou fungando contra seu peito, nem ao menos tinha reparado que comecei a chorar.
–– Eu tô aqui, agora. Sempre estarei. –– Promete.
Desço meus braços de seu pescoço e os passo por sua cintura apertabdo-o ainda mais contra mim. Ele solta uma gargalhada fraco e bagunça alguns fios dos meus cabelos.
–– Sentiu mesmo minha falta, hein. –– Brinca e o afasto, dando uma cotovelada em sua costela de leve.
–– Eita, você tá ficando muito fortinha.
Dou de ombros.
–– Você vai trabalhar? –– Pergunto. Seus olhos me encarando.
–– Sim, mas voltarei logo. Até vou te fazer um jantar. –– Pisca e o encaro surpresa.
–– Você nunca mais cozinhou. - Comento empolgada e ele sorrir de canto, tendo a certeza que me ganhou com sua promessa.
–– Será algo especial. Coloque uma roupa bonita.
Sinto vontade de pular tamanha alegria, mas me contenho e dou-lhe outro abraço apertado. Ele descansa a cabeça no meu ombro e toca meu cabelo.
–– Você não sente falta de cozinhar? –– questiono, voltando minha atenção para o meu café da manhã.
A fome voltou.
–– Eu tive meu tempo como cozinheiro, mas gosto do rumo que as coisas seguiram. Tenho as minhas filiais de restaurante e posso administrar tudo do meu escritório, junto com meus novos empreendimentos.
–– Será que você ainda leva jeito?
Ele me encara parecendo ofendido, mas acaba sorrindo.
–– Espere até hoje a noite, garotinha. Espere e veja. –– diz convencido.
–– Apenas não me mate. –– Pisco em sua direção e ele parece avaliar a sugestão.
–– Você anda muito atrevida, garotinha. Vai se lambuzar com a minha comida.
–– É melhor não colocar tantas expectativas, titio.
Ele me encara em um olhar diferente, um avaliativo, que me faz encolher no lugar.
–– Muito atrevida. –– Volta a sorrir e solta uma piscadela.
–– Vou dispensar a Olga, trarei notícias para você hoje. Até mais tarde, Mel.
Ele se inclina sobre mim e beija minha testa.
–– Até mais tarde, tio Enzo.
O observo se afastar e tento não suspirar.
Encerro o café da manhã e volto para o meu quarto, retiro a maior quantidade de roupas do meu closet e tento encontrar algo que não seja florido ou antiquado. Acontece que a maioria das minhas estão no internato e as que tenho aqui são de quando eu era mais nova. Sorrio ao encarar o vestido verde oliva escondido entre alguns jaquetas. Foi um presente dele, algo que ele achou combinar com meus olhos, azuis, que dependendo do ambiente e iluminação, ficam verdes.
–– Temos um vencedor. –– penso em voz alta, admirando minha imagem no espelho, fantasiando com sua expressão quando me ver usando seu presente depois de tanto tempo.
MELISSA
Eu odeio séries policiais.
Levanto do sofá para pegar um copo de água pela terceira vez, impaciente com toda a demora, estou arrumada há quarenta minutos e precisei iniciar uma nova série só para acalmar os nervos. Não funcionou. A personagem principal me deixou mais ansiosa e irritada. Como ela pode escolher o cara errado logo no primeiro episódio?
Meu celular apita e checo a mensagem com o coração acelerado. É ele. Está chegando. Dou uma última olhada no espelho da sala e me satisfaço com o resultado. O vestido é lindo, solto, do tipo que amarra no pescoço. O tecido é da seda mais pura e desliza pela minha pele com o mais suave toque a cada passou que dou. Estou usando sandálias de salto, na cor prata, que se enrola pelo meu tornozelo como uma cobra. Meu visual me lembra a de uma cantora pop e me parabenizo com o resulto,a única diferença é que estou usando zero maquiagem além de um gloss labial brilhante. Eu meio que odeio a ideia de passar várias camadas de base no meu rosto até ficar com a pele perfeita, a sensação sempre me deixou angustiada, então espero que tio Enzo não seja o tipo de cara que aprecie essas coisas.
Espere.
Volte a fita, Melissa! Isso não é a merda de um encontro. Este é o seu tio, lembra? O cara que te criou,o mesmo homem que acabou de perder a mulher e te trata como parte da família. Não pira.
Um barulho do lado de fora chama minha atenção e corro de volta para o sofá, não querendo transparecer empolgação demais.
Por quê meu estômago está em chamas?
–– Ei, princesa. –– ele diz assim que me vê.
Sorrindo, vou até ele e jogo meus braços ao redor do seu pescoço.
Ele parece feliz.
–– Ei, Lorenzo. –– Ele me olha demonstrando irritação. Levo minhas mãos ao alto em rendição. –– Não estou com raiva. –– me antecipo.
–– Bom, vou preparar o nosso jantar. –– Ele caminha para a cozinha sem exitar, não comentando sobre o meu vestido ou me dando um segundo olhar. Tento não pensar sobre isso quando o sigo como um cachorrinho sedento por atenção.
Lorenzo deixa sua pasta sobre o balcão e lava as duas mãos na pia.
Observo cada movimento seu com queimação no estômago, implorando mentalmente que ele vire e me elogie. Pego um lugar na bancada, como em um camarote vip e espero em silêncio.
–– Você está com fome? ––Pergunta, verificando-me por cima do ombro.
Confirmo com a cabeça, ansiando por mais palavras.
–– Faminta, para ser sincera.–– dou um sorriso de boca fechada.
–– Ótimo. –– ele diz, apertando meu nariz e seguindo para a geladeira.
Salsinha, pimentão, tomate, cebola e vários outros ingredientes são postos em cima da bancada. Sou uma completa ignorante no assunto cozinhar. Apenas aprecio a agilidade de suas mãos ao picar cada ingrediente.
–– Esse cheiro está me fazendo salivar. –– Seus ombros se movimentam para cima e ouço uma baixa gargalhada.
–– Quase pronto,princesa.- diz.
Balanço minhas pernas de um lado para o outro, inquieta, mordo meu lábio inferior e batuco a pedra de granizo que compõe o balcão, em um ritmo conhecido, só percebo a música que estou reproduzindo quando as palavras deixam minha boca. Com as unhas recém-pintadas de rosa, agarro um pedaço de tomate e levo a boca.
Suspiro e batuco mais.
Olhos me encaram com curiosidade, mantenho um sorriso largo no rosto.
––Eu gosto da gente assim. –– digo e ele assente com a cabeça, concordando silenciosamente. A covinha que andou escondida por tanto tempo se instala em sua face. Seus olhos brilham em minha direção e ele me oferece outro pedaço de tomate, quando vou agarrar, Lorenzo balança a cabeça em negativa.
–– Abra.
Mordo meu lábio inferior e vejo quando sua atenção foca neles de repente. A expressão confusa e dura me arrasta para o medo de ter estragado esse momento.
––Tio Enzo? –– Chamo.
–– Vou tomar um banho. –– declara. A postura rígida me confunde, algo mudou e o clima parece pesado agora. Sussurro um ok e ele aponta para as panelas.
–– Olhe a comida pra mim. Não deixe queimar.
–– Não conte com isso.–– Falo. Quase como um apelo.
Sua sobrancelha esquerda se ergue e entendo o que quer dizer.
Intercalo minha atenção entre as duas panelas que estão a minha frente, pedindo mentalmente para a merda desse banho ser rápido. Inalo o delicioso cheiro que vem da panela maior mais uma vez, fazia um bom tempo que não comia a comida de Lorenzo Cavalieri. Passo a língua entre os lábios e me irrito com a demora desse homem em um chuveiro, apenas tire a roupa, molhe o corpo e passe um sabonete cheiroso. O quão demorado isso deveria ser.
–– Vou morrer de fome, enquanto espero. –– Resmungo, mexendo a panela menor apenas para passar o tempo, na maior tem uma carne que parece tão apetitosa coberta com um molho espesso que me deixa inquieta só de ficar tão perto sem poder dar uma provadinha.
–– Eu nunca te deixaria morrer de fome. –– Devo ter ficado tão envolvida que não percebi seus passos. Ele está tão próximo que posso sentir o cheiro da loção pós barba.
–– Você demorou. –– Reclamo. Ele chega mais perto e assume meu lugar com as panelas. –– Bom trabalho. –– Elogia, me dando uma piscadela.
–– Pensei que tivesse escorregado no banheiro e caído, estava quase indo lá te socorrer. –– Seu braço mexe a colher na panela maior e um sorriso nasce em seus lábios.
–– Desculpa –– Pede.
–– Eu não estou assim tão faminta.
–– É mesmo? Isso é uma pena porque a comida acabou de ficar pronta. –– Me encara brincalhão.
–– Até que fim, estava quase desmaiando aqui.
Arrumamos a mesa e apreciamos o jantar em silêncio, essa noite não foi nada do que eu imaginei. Nem um elogio sequer eu recebi, meu vestido era bonito demais para passar despercebido.
–– Preciso falar com você.
–– O que houve?
O envelope branco posicionado sobre a mesa desde o começo da refeição chama minha atenção novamente.
-Tem ligação com isso? - Aponto com o dedo.
–– Abra. ––Fala e pego o envelope intrigada. O encaro esperançosa, mas não recebo pista alguma. Abro e um documento com letras minúsculos se revela, estreito os olhos em sua direção. Sua expressão pragmática me frustra e traz irritação para minhas veias.
–– O que isso significa? –– Pergunto após ler palavra por palavra, parágrafo por parágrafo, reler duas outras vezes e não ter certeza se estou entendendo o significado.
–– Exatamente o que você leu, agora você é minha.
Sua última palavra me choca, causando um reboliço de sensações desconhecidas dentro de mim, volto minha atenção para o papel em minhas mãos ainda sem reação.
–– Você me adotou?
–– Virei uma espécie de tutor, na verdade. Responsável por você até que complete a maior idade. O que só vai acontecer daqui à sete meses.
–– Eu vou morar com você. –– Capturo seus olhos nos meus. Não era uma pergunta.
–– Assim como sempre fez. –– Sorrio.
–– Obrigada, tio Enzo.
–– Não agradeça, você é minha única família e eu vou cuidar de nós dois. Você sempre virá primeiro, princesa.
–– E quando você casar de novo? –– Minha voz sai desgostosa, minha mente produzindo a cena dele com uma esposa e bebê nos braços.
Um aperto se forma envolta do meu peito.
Amargura e dor transformam seu olhar. Ele fica em silêncio e estreita a testa, assim como faz sempre que tem pensamentos intrigantes rodando em seu cérebro.
–– Você sempre virá primeiro, Melissa. Como sempre foi. Nunca existirá outra pessoa mais importante na minha vida.––Fala recolhendo seu prato e deixando a cozinha, mas antes que seus pés alcancem o primeiro batente da escada, agarro sua cintura.
–– Amo você, tio Enzo. –– Sinto seu corpo relaxar em minhas mãos. Seu perfume chega ao meu nariz e inalo forte.
–– Eu também, princesa.
Por algum motivo, isso me deixa em pânico muito mais do que conforta. Seu gesto foi lindo, então por quê estou triste?