Sentiu seu corpo pesado e dolorido, tentou se mexer e não teve tanto sucesso. As únicas coisas que conseguiu mexer foram as pálpebras. Então abriu os olhos lentamente. Piscou algumas vezes tentando se lembrar onde estava e não conseguiu reconhecer o local. Ouviu um barulho de porta abrindo e tentou virar a cabeça para ver, mas não conseguiu. Em pouco tempo viu sua mãe se aproximar e a olhou surpresa. A mulher passou a mão em sua cabeça e abriu um enorme sorriso.
- Você acordou, July!
Ela estava dormindo? Olhou ao redor e viu luzes redondas no teto. Pelo jeito do lugar, parecia um hospital. Tentou perguntar o que estava acontecendo, mas parecia que sua voz tinha morrido. Olhou sua mãe com pavor.
- Está tudo bem. Não fique assustada. Você teve um pequeno acidente e está no hospital, mas vai ficar boa.
A menina olhou o teto de novo. Acidente? Que acidente? Ela estava ótima! E como a mãe dela chegou à terra de Adriel? Que lugar era aquele? Como assim? Onde está o Adriel?
- Fique calma, July... - Sentiu a mão de sua mãe apertar a sua. - Vou chamar ajuda.
July escutou o barulho da porta abrindo e depois fechando. Ela ficou encarando o teto respirando rápido. Em pouco tempo, um homem vestido de branco se aproximou dela.
- Entende o que digo, querida? Se sim, pisque uma vez.
July fez o que ele disse.
- Bom! Sente isso? - Segurou o braço dela com um pouco de força, ela piscou uma vez. - E isso?
Ele começou a fazer vários testes no corpo dela para saber se estava tudo bem. July sentia tudo o que ele fazia, mas não conseguia se mexer. Já estava entrando em desespero e não conseguia parar de pensar em onde o Adriel estava.
- Pelo que parece ela vai ficar perfeitamente bem. Só deve demorar um pouco a voltar os movimentos e a fala, afinal, ficou em coma por um bom tempo.
A menina arregalou os olhos. Coma? Como assim coma? Ela estava ontem mesmo muito bem! Estava na casa de Adriel esperando eles voltarem com a comida... O que aconteceu afinal?
July estava inquieta na cama, queria porque queria levantar e falar para eles que não tinha coma nenhum! Ela estava perfeita e não era para estar em um hospital! Tinha que estar esperando eles chegarem com a comida e ver o Adriel novamente. Estava tão nervosa, que uma mulher se aproximou e injetou alguma coisa no fio do soro que ela nem viu que estava em seu braço. Em pouco tempo sentiu um sono enorme e fechou os olhos.
-... Mas o que ele disse a respeito?
Sentiu seus olhos pesados e abriu com dificuldade.
- Disse que ela está bem e deve voltar a falar e se mexer em uns dias.
Era a mãe e o pai dela conversando ao lado da cama. Quando o homem viu que estava de olhos abertos, sorriu.
- Ei... Você gosta mesmo de dormir, não é?
July franziu a testa.
O homem se aproximou e lhe deu um beijo no rosto.
- Estou feliz que voltou.
Não tinha como negar, ela realmente tinha voltado. Não pensou que voltaria para casa, mas vendo por essa situação toda, estava na cara que voltou para a Terra. Não de uma maneira boa como ela foi para a terra de Adriel, mas voltou.
***
Alguns dias se passaram depois que ela acordou naquele quarto de hospital. Sempre que abria os olhos, esperava estar na casa de Adriel, mas nunca era. Já conseguia se mexer e ia ao banheiro, mas com ajuda de sua mãe para não cair no chão.
Estava sentada na cama e brincava com os dedos. Jane tinha saído do quarto para buscar o almoço e a deixou sozinha. Alguém entrou no quarto e ela nem se deu ao trabalho de olhar. Há dias estava deprimida e queria ir embora dali, mas não para a casa dos pais.
- Como está hoje?
- Na mesma.
- Sabia que se melhorar o humor, você melhora mais rápido e assim pode ir pra casa?
A menina suspirou e olhou a pessoa que conversava com ela. Era um homem de cabelos loiros e olhos verdes. Parecia ser muito novo para ser médico, mas não se esforçou muito para pensar sobre isso.
- E depois?
- Depois o que?
- Que estiver melhor.
- Vai voltar a sua vida normal.
July fez careta.
- Quer uma vida diferente?
- Na verdade, sim.
- Todos querem, mas com esse cara no poder não tem como.
- Kirovs?
- Sim, quem mais?
- Claro que não pode...
- Está sentindo alguma coisa?
- Quanto tempo eu dormi?
- Uns dez meses.
July arregalou os olhos.
- Isso tudo?
- Sim.
- Por que eu fiquei assim?
- Bem, na última guerra que ele inventou, atacaram antes do previsto e você estava em seu quarto no momento. Seu quarto foi o mais destruído da casa. - Observou a reação da menina, mas ela só ficou paralisada e com os olhos arregalados. - Teve sorte em estar viva, sabia? É uma garota forte.
July olhou o rosto dele e sorria. Será que tinha mesmo autorização para ser médico?
- Você é médico mesmo?
- Por que a pergunta?
- Parece ser tão jovem.
- Eu não sou velho.
- Mas parece ser muito novo. Tipo uns vinte anos.
- É quase isso - respondeu sorrindo.
- Como conseguiu virar médico?
- Cresci em uma família de médicos. Então, desde pequeno aprendi a cuidar das pessoas e lidar com a morte. E também estudei desde novo.
- Hum...
- Você também é bem nova, não é?
- Tenho dezesseis - respondeu simplesmente.
O homem concordou com a cabeça e ficou pensativo, como se bolasse algum plano ou pensasse em algo para conquistar.
- Posso fazer uma pergunta?
- Claro.
- Tem como sonhar quando se está em coma?
- Alguns dizem que não, outros que sim. Tem gente que diz que a pessoa escuta e sabe de tudo o que acontece ao redor dela, mas não tem provas sobre isso. Por quê?
- Nada não.
A mãe de July apareceu no quarto com a comida dela e sorriu ao ver o homem ali dentro.
- Está tudo certo?
- Sim. Só passei para ver se está se recuperando.
- Quando vamos poder ir pra casa?
- Assim que ela melhorar esse humor e conseguir ficar em pé sem desequilíbrio ou tontura - disse olhando July.
Ela fez careta e o homem sorriu.
Comeu um pouco e ficou vendo tevê. Depois de um tempo acabou pegando no sono.
***
Acordou respirando ofegante e engoliu em seco. O quarto estava com as luzes apagadas, mas a do corredor iluminava lá dentro. Olhou ao redor e não tinha ninguém no quarto. Deitou na cama de novo e ficou encarando o teto.
Tinha sonhado com Adriel e Kenup. No sonho eles brigavam feio, agarravam um no pescoço do outro com os dentes e ela conseguia ver o sangue brotar da pele deles e escorrer pela pelagem listrada. Os dois estavam com muita raiva um do outro, mas ela não sabia o motivo.
A luz acendeu, a obrigando a fechar os olhos. Ouviu passos e depois de piscar algumas vezes, conseguiu ver o médico parado ao seu lado.
- Está tudo bem?
- Sim.
- Uma das enfermeiras me chamou, pois você estava gritando.
- Tive um pesadelo - falou com um grande bico e fez o homem rir. - Onde está a Jane?
- Teve que dar uma saída, mas já deve estar voltando.
- Tudo bem.
- Precisa de alguma coisa?
July negou com a cabeça.
- Ok, se precisar, aperte esse botão e alguma enfermeira irá te ajudar.
- Obrigada.
O homem saiu do quarto e ela ficou sozinha de novo. Será possível que tudo aquilo não passou de um sonho? Nesse tempo, dormindo profundamente durante meses, sua mente criou aquele lugar com aquelas pessoas? E tudo não passou disso... Um sonho? Porque se ele disse que ela entrou em coma no dia que avisaram da guerra, foi o dia em que foi com Adriel para o mundo dele.
Seus olhos se encheram de lágrimas. Aquilo pareceu tão real, tão forte que ainda sentia aquelas coisas estranhas no corpo só de pensar nele. Como se realmente o amasse ainda. Poderia amar quem foi criado por sua própria mente?
Chorou até dormir com esses pensamentos.
***
Algumas semanas se passaram e July teve alta. Depois do que aconteceu na casa dela, os pais tiveram que se mudar e agora moravam em uma casa ao lado da escola dela. Para piorar ainda teria que voltar a estudar...
Entraram na casa e July observou cada cantinho. Era uma casa menor do que a que eles moravam, mas era boa. Estava acostumada com uma menor, que era a de Adriel.
Por que toda hora pensava nisso?
- Venha ver seu quarto. - Colocou a mão nas costas dela e a guiou.
As duas passaram pelo pequeno corredor e no final dele a mãe dela abriu uma porta. Lá dentro tinha uma cama de solteiro nova, um armário pequeno também novo e uma mesa de estudos.
- Gostou?
- Sim. - Sentou na cama.
- Olha... Consegui pegar algumas coisas no seu antigo quarto. - Puxou uma pasta de dentro da gaveta da mesa e sentou ao lado dela na cama. - Achei que ia gostar de ter de volta.
July abriu a pasta e viu seu caderno de sonhos e o desenho do tigre lá dentro. A menina olhou para sua mãe e ela sorriu levemente.
- Pensei que essas coisas fossem proibidas...
- Depois de quase perder você, não ligo pra isso.
July ficou surpresa.
- Mas lá fora você sabe que não pode comentar nada, não é?
- Sei.
- Que bom. - Beijou o rosto dela e levantou da cama. - Descanse.
- Obrigada, Jane.
A mulher se aproximou e segurou o rosto dela com as mãos.
- Me chame de mãe.
July ficou em silêncio sem reação.
- Só dentro de casa. - Piscou para ela e saiu do quarto.
Parece que quase morrer foi uma coisa boa afinal...
A garota pegou o desenho do tigre e ficou um tempo observando a pintura. Por que sua mente era tão criativa assim? Para criar uma coisa tão intensa e não conseguir deixar ela esquecer?
Melhor seria se livrar daquilo de uma vez. Assim não ficaria lembrando tanto ou esperando que virasse realidade. Ao mesmo tempo que queria jogar fora, queria guardar. Era incrível como a mente dela era poderosa! Apertou o desenho nas mãos com força e depois o jogou na parede com raiva. Logo ficou em transe olhando onde o papel bateu.
Na parede que era lisa e branca, tinha um buraco redondo e pequeno, mas dava para ver o lado de fora da casa. Ficou uns segundos com os olhos arregalados e depois olhou as mãos.
Talvez não tenha mesmo sido sonho.
Se aproximou do buraco e enfiou o dedo para ver se era de verdade. Vendo que o dedo atravessou, era mesmo um buraco e não coisa da sua mente. Mas o que aconteceu afinal? Estava tão confusa com tudo. Se lembrava de estar esperando eles voltarem para casa com a comida e depois o Kenup chegar. O que aconteceu depois disso? Por mais que se esforçasse, não conseguia se lembrar de jeito nenhum.
Pegou o desenho e desamassou. Respirou fundo e apertou o papel contra o peito. Como ela faria para ver o Adriel de novo? Será que eles sabiam o que tinha acontecido? Quem sabe não conseguiriam abrir um portal e fossem buscá-la?
Resolveu puxar o armário para onde estava o buraco para que ninguém visse aquilo e perguntasse o que aconteceu, ela não saberia responder. Depois ficou horas deitada na cama lendo o caderno dos sonhos. Era incrível que cada coisa que escreveu foi visto naquele lugar. Sorriu sozinha com as lembranças. Acabou dormindo com o caderno em cima do peito.
No dia seguinte sentiu uma cosquinha na bochecha e abriu os olhos. A mãe dela a acordava. Será que aconteceu algo com ela? Nunca foi uma mãe carinhosa e agora estava a acordando com carinhos em vez de gritos?
- Está bem?
- Sim.
- Vamos.
- Aonde?
- Pra escola, onde mais?
- Ah não! Eu ainda estou muito mal! - Cobriu a cabeça com o travesseiro.
- Você acabou de dizer que está bem, July.
- Mas eu perdi um tempo de aula!
- Não tem problema, os professores vão te ajudar. Foram só alguns meses.
July resmungou contrariada.
Ter que vestir aquele uniforme cafona de novo a fez ficar com um grande mau humor. Sem falar no grande calor que estava sentido! Já tinha se acostumado com o frescor daquele lugar, agora voltar para o forno ia ser difícil!
- Tenha um bom dia - o pai dela falou isso depois de beijar sua testa.
- Vocês estão bem? - perguntou com a testa franzida.
- Por que não estaríamos?
- Nunca foram assim comigo.
Os dois trocaram olhares e July percebeu que ficaram incomodados com o que ela disse.
- Quando chegar, vamos conversar melhor.
- Por que não conversamos agora e amanhã eu volto pra escola?
Os dois cruzaram os braços e ela suspirou.
Saiu de casa e respirou fundo, até respirar ali era mais difícil. Caminhou até a escola, que agora era bem perto e não vinte minutos de distância a pé. Praticamente se arrastou até sua turma e quando apareceu na porta, todos olharam para ela. Alguns vieram em sua direção e perguntaram se estava bem, se não ficou com sequelas.
July espantou os curiosos quando as perguntas começaram a irritar. Agora ela entendeu porque o Adriel reclamava tanto das perguntas dela! O professor entrou na turma e cumprimentou ela. No fim da aula, quando ia embora, ele pediu para que ficasse. Parou em frente à mesa do homem careca e esperou o que ele queria falar.
- Sei que está cansada e quer ir pra casa, só queria falar sobre a matéria que se acumulou.
- Eu vou repetir, não é? Perdi muito tempo.
- Não vai repetir se você se esforçar.
- Isso quer dizer estudar até morrer...
- Quer dizer estudar para conseguir nota. Você só perdeu quatro meses de aulas.
- Dá no mesmo - resmungou e o homem olhou a porta do lugar. Se alguém visse ela falando assim, poderia dar problemas.
- Controle-se! Acho que não esqueceu as regras sobre comportamento, ou esqueceu?
- Se eu tiver esquecido por causa do acidente, ninguém pode brigar comigo, não é?
July percebeu que ele segurou o sorriso.
- Melhor você ir descansar.
- Obrigada.
- Até amanhã.
Voltou para casa reclamando sozinha por ter que ficar com o nariz enfiado em livros. Quando entrou, viu seus pais parados em pé um ao lado do outro e tinham expressões suspeitas no rosto.
- Que foi?
Os dois se afastaram e ela viu um pequeno bolo de aniversário em cima da mesa. A menina se aproximou e deixou a mochila cair no chão. Se passaram dez meses desde a guerra... Era aniversário de dezessete anos dela.
Isso não podia ser bom!
- Feliz aniversário, minha filha!
A mãe dela a abraçou e depois o pai.
- Não pode ser meu aniversário! Eu perdi dez meses da minha vida?
Os dois trocaram olhares.
- Sei que ainda está tudo complicado para você, mas as coisas não pararam enquanto você estava lá - disse o pai dela e July olhou para o chão. Realmente enquanto ela estava com Adriel, o tempo não deve ter parado. Mas por que será que eles achavam que ela ficou em coma?
- Eu não quero comemorar, por favor, não me levem a mal.
- Claro que não. A gente entende.
- Obrigada. Só quero deitar na minha cama...
Ela foi para o quarto e encostou na porta. Precisava voltar para a casa de Adriel antes que começasse a aparecer homens querendo se casar com ela! Mas não fazia ideia do que fazer!
***
Os dias começaram a passar depressa. Quanto mais os dias passavam, mais aflita July ficava. Os pais dela já tinham recebido três pessoas em casa para se casar com ela e isso estava a deixando louca! Precisava agir e já!
Passou pelo corredor como uma bala e apareceu na sala com um short curtinho, que ela cortou com a tesoura. Os pais do garoto que estava se apresentando a olharam com os olhos arregalados.
- Com licença... - A mãe de July a agarrou pelos braços e a arrastou para o quarto. - O que está fazendo?
- Evitando uma tragédia!
- Aquele foi o melhor partido que encontramos até agora!
- É mesmo? E quem disse que eu ligo?
O rosto da mulher endureceu.
- Acho melhor você começar a se controlar, July. Sabe que as coisas têm que ser feitas perante a lei.
- Eu não ligo pra essa lei idiota! - falou alto.
- Fala baixo, July! - repreendeu com o rosto vermelho, a menina não soube dizer se de raiva ou vergonha. - Comece a se acostumar! E se ficar de gracinha, escolheremos o marido mais velho que chegar aqui! - Saiu do quarto batendo a porta e July sentou na cama.
Em pouco tempo começou a chorar de soluçar. Precisava fugir dali. Como se casaria com alguém depois de encontrar o Adriel? Se antes já era ruim, agora ficou pior ainda.
***
Entrou em casa depois de mais um tedioso dia de aula. Ao passar pela sala, ficou paralisada olhando sua mãe e um homem. Estava sozinha com ele. A mulher sorriu ao ver July e o homem a olhou também. July arregalou os olhos ao ver o médico que cuidou dela. Ele sorriu ao vê-la e a olhou de cima para baixo. July estava com a roupa da escola e um pouco descabelada, mas tinha a boina na cabeça. Não encontrou reação para aquela cena que presenciava. No fundo ouvia sua mãe dizer que era o melhor partido que tinha entrado naquela casa, mas parecia até sonho. As vozes pareciam estar baixas, como se fosse um rádio tocando no volume baixo.
Saiu do transe quando o homem parou na frente dela.
- Até mais, July.
Não respondeu, pois estava chocada demais para isso. Viu sua mãe se aproximar com um largo sorriso e revirou os olhos.
- É ele!
- E se eu não quiser?
- Você não tem que querer!
July bufou estressada. Jane passou a mão no cabelo dela e tirou a boina de sua cabeça. Ela analisou a garota.
- Que é?
- Seu cabelo está muito grande - falou apontando para o cabelo que batia na altura do cotovelo. - Vamos cortar.
Quando ela falou isso, a memória de Adriel colocando o cabelo dela atrás da orelha veio sem que pudesse evitar.
- Não vai cortar nada!
- July não piora as coisas!
- Eu não quero cortar o meu cabelo por causa de um cara que nem conheço! Não quero me casar com ele e viver, comer e dormir com uma pessoa que nem sei o caráter!
- Pare de falar besteiras, July!
- Eu me nego.
- Você não pode fazer isso. Quem escolhe somos eu e seu pai.
- Mas a vida é minha!
Jane segurou o braço dela com força.
- Pare de pedir para morrer, July! Você sabe que quando faz dezessete tem que se casar com alguém!
- Eu não quero mãe...
A mulher soltou o braço dela ao ver seus olhos cheios de lágrimas.
- Eu não quero...
- Eu sei que está assustada, July, mas estamos fazendo isso para te proteger. Se não fosse essa lei, você não se casaria tão cedo.
July fechou os olhos e as lágrimas escorreram pelo seu rosto.
- Vem cá.
Quando sentiu os braços de sua mãe em volta de sua cintura, chorou mais ainda. Nunca tinha acontecido isso antes e a mãe dela nunca conversou com ela sobre nada. Absolutamente nada!
- Estou escolhendo-o porque conheço e sei que vai te tratar bem. Entendeu?
July concordou.
- Confie em mim. Ele é o melhor de todos.
Não tinha muita opção mesmo, não é?
***
Alguns dias se passaram e o médico sempre visitava July depois do trabalho. Isso também era uma regra. O homem que quisesse se casar, deveria cortejar a garota até que firmasse o compromisso.
July estava sentada na varanda da casa com um grande bico. Ele chegaria a qualquer momento. Viu ele aparecer e revirou os olhos. Podia falhar pelo menos um dia, não é? Assim teria desculpa para falar que era ruim!
- Olá.
- Oi - respondeu emburrada.
- Não precisa ficar com raiva de mim.
- Não tenho raiva de você, só dessa situação.
- Você não tem travas na língua mesmo, não é? Por isso gostei de você.
Ela levantou o olhar que estava em seus pés e o encarou. O homem sorriu de lado.
- Já posso entrar?
Ele deu uma risadinha.
- Não. Vou te levar para sair hoje.
- Fala sério... - resmungou.
- Ande logo! - Agarrou o pulso dela e fez com que levantasse da cadeira.
- Não me apresse! Não gosto disso.
- Quanto mais rápido formos, mais rápido você volta.
July ficou pensativa.
- Aonde vamos? - perguntou já indo na frente dele e escutou sua risada.
- Vou te levar para conhecer meus pais.
Ela parou de andar na mesma hora e olhou para trás.
- Você está indo rápido demais!
- Pra que demorar tanto? - Ele deu de ombros.
- Não gosto que fiquem me pressionando...
- Olha eu sei que tudo isso deve ser horrível pra você. Tão nova e tendo que se casar. Mas eu estou disposto a te fazer feliz.
- Por que acha que consegue? - July riu.
- Muitas meninas queriam estar no seu lugar, sabia?
- Ótimo! Ainda por cima é convencido! - Revirou os olhos e o homem deu uma gargalhada alta.
- Vamos, eles estão esperando a gente.
- Droga! - reclamou e foi com ele.
Quando chegaram na casa dele, July ficou um pouco mais tensa do que já estava. A casa era imensa e muito bem arrumada. Olhou o loiro e ele sorriu. Entraram no lugar e ela reparou tudo. Tanta gente passando fome e eles com estátuas de ouro? Jura? Agora que não queria casamento mesmo!
- Olá! Bem-vinda! - Um homem baixinho e gorducho se aproximou e abraçou July.
Ela franziu a testa e olhou para o médico. Ele fez sinal para ela abraçar de volta e ela deu um leve tapa no ombro do homem.
- Meu nome é Augustin! É um prazer receber uma menina tão bonita como você!
July sorriu sem graça.
- Pena que eu já sou casado... - sussurrou para ela, que ergueu uma das sobrancelhas.
- Pai!
O homem deu uma risadinha.
- É brincadeira, filho! Entre! Minha esposa espera ansiosa.
Os dois seguiram o homem e entraram em um lugar bem grande com uma mesa lotada de comida. Logo uma mulher magra e bem vestida se aproximou dela. Usava um vestido extravagante até os pés e um salto alto enorme. Aparentava ter uns quarenta anos.
- Bem-vinda, querida! Estamos muito felizes em conhecer você.
- Obrigada.
- Sente-se. - Apontou para a cadeira e July seguiu até lá. - Anthony me disse que você era muito bonita, mas achei que estava exagerando.
- Talvez estivesse mesmo...
Os dois riram e July olhou o loiro, que sorria.
- Não, ele tem toda a razão.
July sentiu as bochechas esquentarem e desviou o olhar.
- Ela é tão fofa!
Depois de um longo jantar, Anthony a levou para casa finalmente. Não via a hora de sumir daquele lugar!
- O que achou? - perguntou coçando a nuca. - Sei que meus pais são meio malucos, mas são gente boa.
- Tanto faz - respondeu e o homem olhou o rosto dela. Estava olhando o nada e tinha expressão triste.
- Ei... - Segurou a mão dela e fez com que o olhasse com certa rapidez. - Não precisa ficar assim. Eu sei que é difícil pra você. Minha mãe me contou como foi pra ela quando fez dezessete.
- Quantos ela tem?
- Quarenta e um.
- Imaginei mais ou menos isso. E seu pai?
- Sessenta e oito.
- Uau!
- Pelo menos nossa diferença não é tão grande assim.
- Quantos você tem?
- Vinte e quatro.
- Hum...
- Amanhã venho marcar a data - falou acariciando a mão dela.
July engoliu em seco.
- Posso te fazer um pedido?
- Todos que quiser.
- Pode esperar mais um pouco? Eu quero me acostumar com isso tudo...
O homem ficou em silêncio por um momento.
- Tudo bem.
July suspirou aliviada.
- Mas você não tem que me ver como algo ruim ou forçado.
- Mas é forçado.
- Eu sei, mas seria menos tenso se você relaxasse mais - disse rindo.
- Impossível!
- Te dou dez dias.
- Só?
- Acha pouco?
- Óbvio!
- Você não tem como correr. Sabe disso, não é?
- Não me lembre...
O homem suspirou e se aproximou dela, fazendo com que ficasse tensa.
- Quando for morar comigo, vai ver que não sou nada do que pensa.
- Será? Você não sabe o que eu penso - falou com as sobrancelhas erguidas e ele sorriu.
- Sei que acha que sou carrasco e vou te fazer de empregada.
July balançou a cabeça, também pensou isso.
- Mas isso não vai acontecer.
- Tá.
- Agora vou indo. Diga a seus pais que em dez dias venho marcar a data.
- Tudo bem.
Ele sorriu e ficou olhando o rosto de July um momento. Ela desviou o olhar ao perceber que não tirava os olhos dela. Em pouco tempo ficou paralisada quando ele se aproximou e olhou para cima sem mexer a cabeça. Só conseguiu mexer os olhos. Viu ele curvar um pouco o pescoço e engoliu em seco. Quando chegou bem perto dos lábios dela...
- Você não pode me beijar.
Ele se afastou um pouco ao ouvir isso.
- Está nas regras. Somente depois de casados. - Sorriu, cínica.
- É, mas ninguém precisa saber que isso aconteceu antes. Não tem problema nenhum só a gente saber que você já beijou.
- Que bom saber que você pensa assim! Fico menos preocupada.
- Como assim?
- Ué, se só fica entre a gente, ótimo! Pois isso já aconteceu.
Os dois ficaram em silêncio depois do que ela disse. O homem a olhava surpreso e ela o encarava com um sorriso cínico. Ele sorriu e deu um passo à frente.
- Acha que por isso não vou querer mais casar?
- Quem sabe...? - Levantou os ombros.
- Não me importo com isso. Tem algumas regras que são bobas demais, mas a gente tem que respeitar as mais visíveis. - Começou a se aproximar dela e quando percebeu, foi dando passos para trás fugindo dele.
- Pensei que fosse do tipo respeitador...
- Depende do momento.
July engoliu em seco e parou de andar quando a parede lhe impediu de fugir mais. Anthony se aproximou dela e a cercou com os braços, apoiando-os na parede. July olhou para cima para olhar o rosto dele.
Não sabia o que fazer, se batia nele e entrava em casa correndo. Se chamava sua mãe e dizia que ele estava quebrando as regras, porém ele poderia contar que ela já tinha beijado. Pensou também em deixar ele fazer o que queria para acabar logo com aquilo. Qual era a melhor opção?
Viu o rosto dele cada vez mais perto e se encolheu. Anthony não ia beijá-la, só queria ver o que iria fazer, mas ao aproximar bem o rosto, mudou de ideia e capturou os lábios dela. July levantou as mãos para empurrá-lo, mas achou melhor não. Vai que ela o joga longe como com Kenup e ele morre? Fechou as mãos com força e ficou paralisada.
O loiro segurou o rosto dela com uma das mãos puxando e a obrigando a beijá-lo. July passou as unhas na parede pelo nervosismo. Por fim resolveu corresponder para ele ir embora logo, mas não tocou nele. Anthony se afastou e a olhou nos olhos. July estava emburrada e respirava rápido.
- Desculpe, não resisti.
- Não vi você fazer força para resistir!
- Eu não ia beijar você de verdade.
- Então por que não beijou de mentira? - perguntou irritada.
- Desculpe.
- Posso ir agora ou vai me agarrar mais?
- Pode ir.
- Ótimo! - Virou as costas e entrou em casa batendo a porta com força. Anthony respirou fundo e foi embora.
Seguiu direto para o quarto, ignorando seus pais que queriam saber como foi o jantar. Se jogou na cama e cobriu a cabeça com o travesseiro. Ouviu a porta abrir e resmungou frustrada.
- O que aconteceu?
- Eu não quero me casar! - falou alto.
- July entenda de uma vez que se não se casar, ele vai saber.
- Como? Tem tanta gente no mundo!
- E acha que não sabe?
July cobriu o rosto com o travesseiro.
- Eu também não gosto nada de entregar minha menina a um marmanjo qualquer, mas não posso fazer nada. Isso é o melhor pra você no momento - disse o pai dela.
- Tá bom, agora quero ficar sozinha.
Os dois saíram do quarto e July começou a chorar. Já estava perdendo as esperanças de voltar a ver Adriel e os outros. Não tinha nem uma luzinha que brotasse do nada para ajudar a saber o que fazer para ir até lá de novo. E mesmo pedindo, nenhum portal quis abrir para ela.
Sentou na cama e ficou encarando o caderno que estava em cima da mesa. Agora não precisava esconder ele embaixo da cama. Estava com tanta raiva de Kirovs e suas leis idiotas, raiva por não saber o que fazer, raiva por estar longe de Adriel e raiva por ter beijado aquele cara!
Cobriu o rosto com o travesseiro e deu um grito, que foi abafado por ele. Sentia como se fosse explodir a qualquer momento! Depois do grito, um forte choro lhe invadiu. Muitas emoções ao mesmo tempo dão nisso.
Olhou a janela e ficou paralisada. Viu alguém lá fora olhando ela. Piscou várias vezes e se aproximou da janela. Abriu o vidro e ficou de boca aberta. Ele estava ali! Estava ali!
Esticou os braços para ele segurar suas mãos e quando o fez, puxou para dentro do quarto. Foi tão forte que os dois caíram no chão fazendo um grande barulho. July caiu de costas e bateu a cabeça no chão.
- July está tudo bem?
A menina arregalou os olhos e Adriel, que caiu por cima dela, rolou para debaixo da cama. Em poucos segundos a porta se abriu.
- Está sim, mãe.
- Caiu? - Se aproximou e a ajudou a levantar.
- Sim. - Alisou a cabeça.
- Tenha mais cuidado, July.
- Estou bem - falou enquanto a mãe procurava algum machucado.
- E então, o que ele disse?
- Quem?
- Anthony.
- Ah... - Coçou a cabeça. - Que vai vir em dez dias.
- Dez dias?
- Sim.
- Por que essa demora toda?
- Não sei.
A mãe dela cerrou os olhos olhando-a com desconfiança.
- Falou alguma coisa errada, July?
- Não...Por que acha isso?
- Você sempre fala.
- Eu não disse nada.
- Aprenda a mentir, July! O que você fez?
- Pedi a ele para esperar, tá? Não quero isso e nunca vou me acostumar!
- Ele aceitou isso?
- Sim.
- A sua sorte é que ele gostou de você. Senão já teria desistido.
- Seria um favor que me fazia.
- Acho bom você começar a controlar sua língua, mocinha!
- Vou me esforçar.
A mulher respirou fundo para controlar a raiva.
- Agora durma e pense sobre o que está em risco. Sua vida! - Saiu do quarto batendo a porta. July engoliu o choro.
O garoto saiu debaixo da cama quando a mãe dela saiu do quarto. Os dois ficaram se olhando em silêncio. July estava literalmente acabada. Estava sem forças e só sabia chorar. Achou que o dia que encontrasse Adriel de novo, ia explodir, mas não. Isso porque a culpa estava consumindo-a. Ela beijou aquele cara há poucos minutos atrás...
Ele parecia hesitante e a olhava de um jeito estranho. Parecia ao mesmo tempo querer abraçá-la e brigar com ela.
- Como chegou aqui? - perguntou em meio as lágrimas.
- Eu que te pergunto isso.
- Eu não sei.
- Como não sabe?
- Acordei em um quarto de hospital e me disseram que fiquei em coma durante dez meses. Que atacaram a casa naquele dia que fui com você e o meu quarto foi o mais atingido e que eu estava nele na hora.
Adriel a olhou surpreso.
- Antes de acordar, do que se lembra?
- De esperar vocês.
- Que mais? - perguntou com semblante sério.
- Kenup...
O rosto dele se modificou e July franziu a testa.
- Sabia! - resmungou e mordeu o lábio com força.
- O que é?
- Descobri que o Kenup e a Clarisse estavam metidos com bruxas e queriam se livrar de você.
July arregalou os olhos.
- Mas não queria acreditar que ele fez isso - falou com raiva.
A lembrança veio como um raio e July se apoiou na mesa para não cair. Adriel se aproximou ao ver ela ficar pálida.
- Que foi?
- Eu me lembro.
- De que?
A menina olhou para o lado e ele estava bem próximo a ela. Engoliu em seco e desviou o olhar.
- Ele me tirou da casa falando que ia me levar para onde vocês estavam porque iam ficar à noite lá e você não queria que eu ficasse sozinha, então pediu para ele me buscar. Achei estranho porque você não o mandaria, mas fiquei com medo de ficar sozinha na casa e o segui.
- O que aconteceu depois?
- Andamos um pouco e chegamos em um lugar esquisito...
- Como era?
- Tinha árvores mortas... Lá tem árvores mortas? - Virou o rosto para olhar para ele e prendeu a respiração ao ver que estava mais perto ainda.
- Tem sim - disse olhando os lábios dela.
- Então... Quando chegamos eu fiquei confusa. Não deu tempo de perguntar nada. Ele me segurou e a mesma bruxa que quase matou a Safira jogou algo em mim. É só isso que me lembro.
O quarto ficou silencioso enquanto Adriel absorvia a história. July passava as unhas na mesa com nervosismo. Já estavam um pouco roídas pelo que ela fez na parede na hora que Anthony a agarrou. Tinha até sangrado um pouco por conta da força que ela usou.
Adriel puxou as mãos dela para que parasse de fazer aquilo e olhou seus dedos. Alguns ainda manchados de sangue. July escondeu as mãos.
- Você está namorando outra pessoa? - a pergunta foi como um sussurro.
July o olhou surpresa com a pergunta.
- Não.
- Então quem era aquele cara que estava ali fora com você?
A menina ficou sem ar.
- Você estava ali há quanto tempo?
- Estou vigiando você desde que foi pra escola.
- Por que não me chamou?
- Achei que a noite era melhor para te avisar que estava aqui. De manhã alguém poderia ver.
- Entendi... - Olhou os pés.
- Você não me respondeu.
- Respondi sim... - falou baixo.
- Tudo bem... - Virou as costas para ela e andou em direção a janela.
- Aonde você vai? - perguntou sentindo um certo desespero.
- Vou embora. - Colocou as mãos na janela e quando ia passar, sentiu os pequenos braços da menina apertarem sua barriga. Ela o agarrou antes que conseguisse sair e enfiou o rosto em suas costas.
- Por favor, não vá embora... - pediu com desespero.
Adriel soltou a janela e virou de frente para ela, deslizando em seus braços. Agora ela ficou com o rosto enfiado no peito dele. A menina apertou os braços ao redor dele e ele colocou as mãos em seus ombros. Sentiu eles subirem e descerem com os soluços dela.
Fechou os olhos com força e a envolveu em seus braços. Enfiou o rosto entre os cabelos e segurou a cabeça dela com uma das mãos.
- Me desculpa... - falou chorando e olhou para cima.
Adriel segurou o rosto dela com uma das mãos e limpou as lágrimas que rolavam sem parar. Vê-la daquele jeito estava deixando-o desnorteado.
- Pelo que?
July fechou os olhos com força e mais lágrimas caíram.
- Por causa daquele cara... - Apertou a cintura dele e enfiou o rosto em seu peito de novo.
Adriel a afastou dele segurando seus braços e olhou para seu rosto. Estava vermelha de tanto chorar e com o rosto todo molhado. Se aproximou da cama e sentou. Depois puxou July para se sentar com ele. A menina sentou em seu colo apoiando os joelhos na cama ao redor dele e agarrou seu pescoço com força. O loiro ficou surpreso com a atitude dela e envolveu sua cintura.
- O que tem ele?
- Você não viu?
- Você beijando-o? Vi.
July chorou mais forte.
- Eu não sabia o que fazer e queria que acabasse logo com aquilo...
- Quem é ele?
- Lembra que te disse que com dezessete anos as meninas têm que se casar?
- Sim.
- Eu já fiz dezessete...
Adriel fechou os olhos e respirou aliviado.
- Estão te obrigando a isso?
- Sim - respondeu soluçando.
- Fica calma - pediu acariciando os cabelos dela.
Parecia que estava mais longo do que antes. Ele colocou uma mecha atrás da orelha e acariciou o rosto dela. July sorriu com isso.
- Senti sua falta - falou encostando a testa na dela.
- Eu também - respondeu acariciando o rosto dele.
Sem demorar mais ele se aproximou e beijou ela. Pouco importava o que aconteceu antes! Só queria aproveitar o momento com ela.