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O outro mundo

O outro mundo

Autor:: Leide ustulin
Gênero: Fantasia
Gabi é uma jovem que sonha todas as noites com um homem desconhecido, em um lugar estranho, sem saber que uma criatura das trevas está atraindo ela para uma armadilha, ela tenta viver a sua vida normal, trabalhando e estudando até que num viagem que era para ser um passeio de fim de semana prolongado acabar lendo Gabi e seus amigos para um mundo mágico e cheio de perigos e monstro sanguinário e Gabi vai direto para as garras de seu predador.

Capítulo 1 Era uma vez

Gabriela

Sinto seus lábios quentes beijando a minha boca, enquanto suas mãos apertam meu corpo. Me perco no seu olhar escuro, que parece devorar minha alma. Deslizo minhas mãos pelo seu peito musculoso, e isso me deixa ainda mais excitada. Sua boca desce lentamente pelo meu corpo até chegar à minha intimidade. Quando sua língua me invade, naquele instante eu conheço o paraíso.

Meus gemidos ecoam pelo quarto enquanto ele me chupa com desejo. Seguro em seus cabelos longos, puxando-o ainda mais para perto. Grito ao alcançar o orgasmo, e ele me observa com os olhos escuros como a noite. Então me beija novamente, um beijo selvagem, que faz meu corpo incendiar. Eu quero mais. Quero ele dentro de mim. Preciso disso. E, quando ele finalmente se prepara para entrar em mim...

O celular desperta. É hora de trabalhar.

Acordo suada, ofegante, ainda tomada pelo prazer do sonho. Um desejo intenso permanece no meu corpo. Todas as noites, ele invade meus sonhos. Nunca o vi, mas já o amo loucamente. Ele é lindo: olhos negros, cabelos longos e escuros, corpo definido e musculoso - não exagerado, mas na medida certa. Seu olhar é hipnotizante, como se viesse de outro mundo. E talvez venha mesmo... do mundo dos meus sonhos, onde tenho o homem perfeito que me leva ao delírio todas as noites. Porque, no mundo real, esse homem não existe.

Levanto da cama de mau humor, pronta para mais um dia de trabalho.

O caminho inteiro até o trabalho, penso nele. Às vezes, ele chega voando - sim, ele tem asas, grandes como as de um morcego. Talvez seja um vampiro. Ou um demônio. Não importa o que ele é. O problema é que ele não sai da minha cabeça.

Antes, sonhava com ele algumas vezes por semana. Agora, é toda noite. Sempre o mesmo sonho: estamos em uma caverna repleta de cristais brilhantes. Estamos nus, fazendo amor sobre uma pedra gigantesca. Uns podem achar bizarro, outros, romântico. Eu acho... excitante.

"Era uma vez uma linda princesa salva por um príncipe encantado. Eles se casaram e viveram felizes para sempre." Assim minha mãe me fazia dormir, noite após noite, repetindo sempre a mesma história. Eu adorava. Imaginava meu príncipe num cavalo branco, vestindo capa vermelha, às vezes empunhando uma espada. Ele me pegava no colo, me beijava e me colocava no cavalo.

Pura ilusão.

Cresci. Não tem príncipe. E muito menos final feliz. A vida é feita de trabalho, contas para pagar e desilusões.

Voltando à realidade: sou Gabriela de Souza, 20 anos, solteira, sem namorado. Cabelos loiros, olhos verdes, 1,68 de altura, 60 kg. Agora estou aqui, nesse metrô lotado às sete da manhã, cruzando a cidade rumo ao escritório onde sou estagiária - ou escrava, porque é isso que um estagiário é. E o meu chefe não é exceção: me explora até o último segundo do expediente.

Voltando a falar de mim: já tive um namorado. Lindo, carinhoso, me tratava como uma princesa. Ou assim pensei... até descobrir que o "príncipe encantado" me traía com a minha melhor amiga - ou melhor, minha falsa amiga. Depois disso, não quero saber de homem nenhum. Só quero terminar minha faculdade de Direito e conseguir um bom emprego em um grande escritório aqui, em São Paulo.

Vim do interior, deixei minha casa e minha família para trás. Vim com uma ideia na cabeça - e ninguém vai tirá-la de mim. A traição de Roberto quase me levou à depressão. Íamos nos casar, fizemos planos, ele dizia que me amava. Mas tudo era mentira. A decepção me deu forças para enfrentar a vida sozinha nesta cidade enorme e agitada.

A única coisa boa que encontrei aqui foram os amigos. Alice e sua irmã Aline, junto com seus namorados, Paulo e Fernando. Sempre saímos juntos, vamos a baladas, barzinhos. Estamos até planejando uma viagem no próximo feriado - talvez descer a serra ou ir para o interior. Ainda não decidimos.

Chego ao trabalho e, como sempre, meu chefe está de mau humor. Começa a descontar a raiva em todo mundo - principalmente na pobre estagiária aqui. É um dia de estresse puro. Só ouço os gritos daquele homem escroto.

Depois de muita correria, finalmente o expediente termina. Corro para pegar o ônibus e chegar a tempo na faculdade. Hoje tenho prova.

Logo na entrada da faculdade encontro Alice. Ela faz o mesmo curso que eu, assim como seu namorado, Paulo. Aline, sua irmã, faz Odontologia, e Fernando, Educação Física. Mesmo assim, estão sempre juntos. Amo muito aquelas duas - são como irmãs para mim desde que cheguei a esta cidade.

- Espero que a prova seja fácil - diz Alice, abraçada a Paulo, dando-lhe um selinho.

- Eu também espero, porque não estudei nada - respondo, apressada, entrando no prédio de Direito.

- Relaxa, meninas. Dá pra recuperar com trabalhos - diz Paulo, sempre tranquilo.

A verdade é que eu detesto fazer trabalhos. Por isso, me esforço para tirar notas altas nas provas. Mas ultimamente está difícil me concentrar. Minha mente está um caos com esses sonhos todas as noites. Acho que vou precisar beber para conseguir dormir em paz.

Capítulo 2 Resaca e sonhos

Acordo com o corpo suado e o coração acelerado. Estou completamente molhada - mais uma vez. O mesmo sonho. O mesmo homem. Aqueles olhos intensos que me despem com um simples olhar, aquelas mãos grandes que tocam minha pele como se soubessem cada centímetro do meu corpo. Ele me olha com desejo, com fome... e depois desaparece como fumaça.

Suspiro, irritada. Isso está ficando ridículo.

- Eu não posso continuar assim - falo para mim mesma, jogando as cobertas para o lado.

Levanto da cama, ainda com as imagens quentes daquele sonho impregnadas na mente. Ligo o chuveiro no frio. Preciso de um choque de realidade. O vapor se espalha no banheiro, e fico ali, parada, deixando a água escorrer sobre meu corpo, tentando lavar a frustração junto com o suor.

Esse homem... ele nem existe. E mesmo assim, domina meus pensamentos como nenhum cara real conseguiu. Isso não pode ser normal.

"Preciso de um namorado urgente", penso. Alguém que exista, que me tire esse fantasma da cabeça. Talvez esse vazio todo venha da carência. Talvez seja só tesão acumulado mesmo. Vai saber?

Lembro do último idiota com quem saí: o Fábio. Bonitinho, simpático no começo, até abrir a boca no final do encontro e mostrar o babaca que era. Queria transar logo de cara, achava que isso era um mérito, uma prova de que ele era irresistível. Quando recusei, ele saiu espalhando para todo mundo na faculdade que eu era uma caipira fria, recalcada. Idiota. Nunca mais dei papo para ninguém daquele círculo. Prefiro ficar sozinha a lidar com esse tipo de gente.

Olho no relógio. São 6:30 da manhã.

- Ótimo. E agora nem vou conseguir dormir de novo.

Coloco minha roupa de ginástica, prendo o cabelo num rabo de cavalo e saio para correr no parque. O ar da manhã é fresco e úmido, o céu ainda está pintado com tons alaranjados. A cidade começa a despertar devagar, os poucos carros passam pelas avenidas e há gente caminhando com os cachorros, alguns rostos conhecidos, outros anônimos.

Gosto da rotina da corrida. Me faz esquecer das coisas, ou pelo menos colocar os pensamentos em ordem. A cada passo, imagino chutando longe minha ansiedade, minha carência, minha vontade de sumir. O coração acelerado por esforço físico é diferente do coração disparado no sonho. Um cansa. O outro enlouquece.

Hoje é sábado e, pelo menos, eu não tenho que trabalhar. Só algumas leituras da faculdade para organizar mais tarde. Se tudo der certo, à noite vou sair com o pessoal da turma. Vai ter um show em um bar novo ali no centro e eles combinaram de ir em peso. Talvez eu vá também. Preciso socializar, beber, dançar, esquecer o mundo. Quem sabe até dar uns beijos. Nada sério, só pra sentir que ainda estou viva.

O final de semana passa voando. No sábado, bebo demais. Bem mais do que deveria. Danço até minhas pernas doerem, rio alto demais, me divirto como se quisesse apagar tudo. No domingo, o preço vem pesado. A ressaca me derruba na cama o dia todo, e até pensar dói. A cabeça lateja, o estômago embrulha com qualquer cheiro, e a promessa de nunca mais beber é feita em silêncio entre goles de água com limão.

Então chega a segunda-feira. E, como sempre, parece um castigo divino.

Meu chefe está insuportável. Reclamando de tudo, cobrando prazos irreais, apontando erros que nem existem. Tenho vontade de gritar, mandar ele enfiar os relatórios no lugar que o bom senso não alcança. Mas não. Respiro fundo. Conto até dez.

- A vida não é um conto de fadas - sussurro para mim mesma, ajeitando os papéis em cima da mesa. - Temos que nos esforçar muito para viver.

Penso na minha casa no interior. No cheiro do bolo de fubá da minha mãe, nas galinhas ciscando no quintal, no meu pai acordando cedo para cuidar da roça. Nos meus irmãos rindo alto, brigando por qualquer coisa. Às vezes tudo que eu queria era voltar. Largar essa cidade, essa pressão, essas cobranças. Voltar a ser só eu, sem metas, sem sonhos distantes, sem fantasmas noturnos.

Mas também sei que não quero viver lá. Só queria um abraço, um colo. Um pouco de simplicidade de vez em quando.

O que me dá alívio, o que me faz aguentar firme essa semana, é saber que tem um feriado chegando. E, dessa vez, vamos viajar. Eu e mais quatro amigos da faculdade combinamos de descer para o litoral. Fizemos um sorteio entre campo, serra e praia. A praia venceu. E sinceramente? Ainda bem. Eu preciso de sol, sal, mar. Preciso mergulhar, flutuar e esquecer da terra firme.

Já estou contando os dias. Na sexta-feira, vamos colocar tudo no carro e pegar estrada. Três horas até o litoral sul. Alugamos uma casinha simples, mas perto da praia. É o suficiente. Quero andar descalça, beber cerveja olhando o pôr do sol e dormir ouvindo o som das ondas.

E quem sabe...

- Vai que eu encontro minha alma gêmea por lá - murmuro, com um sorriso quase infantil no rosto.

Não sei por que, mas estou sentindo isso. Como se o universo estivesse preparando alguma coisa. Como se aquele homem dos sonhos estivesse mais perto do que eu imagino.

Talvez eu esteja ficando maluca. Ou talvez não.

Talvez o destino só esteja esperando a hora certa para me surpreender.

Capítulo 3 A prisão do rei

Cem mil anos atrás, em algum ponto esquecido da vasta Floresta dos Sonhos, uma reunião sem precedentes estava prestes a acontecer. Os ventos sopravam com tensão, as árvores sussurravam segredos antigos e até os animais silenciaram diante da magnitude daquele encontro. Reuniam-se ali os líderes das quatro grandes raças da luz: o Rei dos Magos, o Rei das Fadas, o Rei dos Elfos e o Comandante Supremo dos Caçadores Humanos.

Esses quatro eram conhecidos como os Reis da Luz, os seres mais poderosos das raças ditas civilizadas. Embora não fossem aliados naturais - e, na verdade, muitas vezes inimigos - uniam-se agora por um único objetivo: aprisionar o mais perigoso e cruel ser já surgido no mundo de Lunares - o Rei das Trevas, Maginos Lúcidus.

Maginos era o terror encarnado. Um antigo anjo caído, agora transformado em demônio, governava com punho de ferro sobre um exército de criaturas sombrias: bruxas, vampiros, lobisomens e até magos corrompidos. Sua ambição não conhecia limites, e seu poder ameaçava destruir o equilíbrio do mundo. Se ele não fosse contido, tudo seria consumido pelas sombras.

Os Reis da Luz arquitetaram um plano arriscado e cruel: selar Maginos para toda a eternidade. Sabiam que, se falhassem, todos estariam condenados. Mesmo desconfiando uns dos outros, concordaram em unir suas magias. O local da armadilha seria uma caverna profunda, escondida sob as raízes da Árvore do Tempo, uma entidade viva que conectava todos os planos mágicos.

A criação da prisão exigiria um sacrifício imensurável: o uso das últimas gotas de poder de três dos Reis e um selo de sangue - o mais antigo e poderoso feitiço de contenção. Esse selo só poderia ser ativado com o sangue puro de uma virgem humana, alguém sem vínculos familiares, completamente inocente. Para garantir que sua linhagem jamais pudesse libertar o demônio, toda a família da garota foi exterminada, incluindo crianças, primos, tios. O ato foi frio, mas necessário. O mundo dependia disso.

O Rei dos Caçadores, um humano imune à magia, executou o ritual com precisão. Seu sangue, misturado ao da virgem, ativou um círculo de contenção impossível de ser quebrado - nem mesmo por Maginos.

A arrogância do Rei das Trevas selou seu destino. Ele foi sozinho ao encontro de seus inimigos, certo da vitória. Quase conseguiu. A batalha foi lendária, travada durante três dias e três noites sem cessar. As forças da luz estavam em desvantagem, mas o Rei dos Magos usou seu último suspiro para invocar a Magia do Esquecimento, lançando um véu sobre a memória de todos os que não participaram diretamente da guerra. O local da prisão foi apagado da mente dos sobreviventes. Quem ficou nas aldeias jamais saberia o que realmente aconteceu.

Todos os Reis morreram naquela batalha. Sabiam que não voltariam vivos. Sacrificaram-se por um bem maior. Com a prisão criada, Maginos foi selado nas profundezas da caverna, envolto em cristais de contenção e preso por uma magia alimentada com o sangue da virgem até o fim dos tempos.

Mas o fim da guerra não trouxe a tão sonhada paz. As raças nunca mais se uniram. Passaram a se odiar ainda mais. Os elfos se isolaram nas montanhas, desconfiados de todos. As fadas recuaram para a Floresta das Flores, guardando seus segredos e protegendo seus pequenos reinos com encantamentos poderosos. Os humanos, vulneráveis, foram forçados a se refugiar entre a Floresta dos Uivos, território dos lobisomens, e os limites dos antigos reinos mágicos.

Vampiros - civilizados, porém cruéis - fundaram uma cidade sombria nas proximidades das ruínas do castelo de Maginos. Vivem à margem da guerra, mas nunca deixam de caçar. Adoram o sangue de humanos e fadas. E, mesmo após milhares de anos, alguns ainda veneram o antigo rei, esperando seu retorno.

Havia uma regra antiga, escrita em pedra, cujos autores já não eram lembrados. A regra dizia:

"Jamais procriarás com outra espécie."

A miscigenação era proibida. Casamentos inter-raciais eram tabu, considerados abominações. Aqueles que ousavam desafiar essa norma eram perseguidos, mortos ou banidos. E, mesmo assim, mestiços nasceram, escondidos nas sombras, rejeitados por ambos os lados.

Dizem que em algum lugar, distante da civilização, a linhagem da virgem sacrificada sobreviveu em segredo, preservada por aqueles que sabiam que um dia o selo poderia enfraquecer. Porque toda prisão mágica, por mais poderosa que seja, está sujeita ao tempo.

A lenda diz que o selo de sangue será corrompido se for contaminado com emoções humanas - especialmente o amor. E o que era eterno pode se romper, caso uma descendente da virgem original deseje libertar o que há de mais sombrio dentro de si.

Hoje, Lunares vive fragmentado, à beira de um novo conflito. Magia e tecnologia coexistem de forma instável. As florestas já não cantam como antes. Os caçadores tornaram-se mercenários. Os magos vivem reclusos em torres distantes. As fadas se tornaram agressivas. Os lobisomens dominam as rotas noturnas. E os vampiros... bem, os vampiros esperam. Pacientes.

Eles sabem que o selo enfraquece.

Sabem que a princesa perdida existe.

E sabem que os sonhos são o primeiro sinal.

Porque é através dos sonhos que Maginos Lúcidus toca a mente das suas descendentes.

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