A cidade sempre parecia calma, com 10.000 habitantes, era difícil fazer qualquer coisa sem ser descoberto. Era o primeiro dia de aula e todos estavam no Átrio principal da Academia de Arcanos Místicos.
Havia uma mesa de banquete servindo muitos petiscos doces e salgados, além de bebidas à vontade. Sem teor alcoólico. A Comemoração de Abertura e Volta às Aulas era uma celebração tradicional. Ocorria em um ambiente acadêmico perfeito para conhecer os professores, rever amigos, enfim, uma celebração onde calouros e veteranos se encontram.
O local estava cheio, mas com espaço suficiente para circular e conversar. Não haviam cadeiras ou sofás, entretanto!
As aulas estavam começando e os estudantes resolveram fazer uma segunda festa de Boas-vindas no 'campus' de Stelivy, sem a supervisão dos professores. Os alunos fizeram um convite secreto para despistar os professores. A cerimônia teria que ser realizada no porão da universidade, pois era o único lugar que tinha espaço suficiente para acontecer um evento como aquele. E não transmitia o barulho que vinha de baixo.
Luz era aluna veterana na Universidade, mas gostava de socializar e conhecer novas pessoas. Seus cabelos loiros escuros estavam em um penteado solto, descendo pelos ombros em leves ondulações, mas eram seus olhos incrivelmente brilhantes e azuis que mais chamavam a atenção.
Passou para dentro do salão trajando um vestido preto que realçava lindamente seus olhos intensamente azuis. Esquadrinhou ao seu redor, irritada por conta da aglomeração:
- Cadê o supervisor? Este lugar está um caos!
- Se você está buscando ordem e supervisão na Academia de Arcanos mistos, definitivamente está num lugar errado. - Kayron murmurou se postando ao lado de Luz, equilibrando uma taça em uma mão e um livro na outra. Procurando um assento tranquilo que ali naquele banquete não existia. O Rapaz trajava calças pretas de linho, uma camisa de gola alta e de mangas compridas de veludo preto, com uma insígnia em forma de uma pequena cruz branca no meio do peito, e uma capa vermelha feita de cambraia e ligas de ferros.
Kayron lembrou que viu uma moça de roupa preta e crachá, há instantes, que estava desorientada perguntando "Posso ajudar?" para quem passasse ao lado dela e que tinha muitos panfletos na mão. Ele não sabia que ela estava assim para não chamar atenção dos professores.
Luz riu sarcástica levando os fios lisos para trás da orelha.
- Eu não procurava por uma resposta, mas aprecio sua comoção... - Luz finalizou com um murmúrio áspero se movendo para uma das cadeiras vazias próximo ao tablado.
O aluno veterano Dominic observou com atenção, aquela confusão, cumprimentou alguns de seus novos companheiros de universidade e se afastou do local, estava se sentindo claustrofóbico com toda a situação.
O rapaz de cabelos claros se moveu com agilidade digna de um guerreiro, mas tinha a habilidade de camuflar-se nas sombras e passar despercebido até pelos mais atentos colegas. Ele era como um ninja, mas usando um terno preto social com um peitoral de couro semelhante a uma armadura com uma capa cobrindo os ombros.
No outro lado do salão Kayron assentiu para si mesmo.
- Novatos! - Ele disse a palavra com acidez. Em seguida desviou de uma costela de porco que voou próximo a sua cabeça, e sem qualquer motivo aparente, se dirigiu à agitada garota que ainda distribuía energicamente os panfletos.
A moça que estava distribuindo os panfletos entregou um para Kayron. Ele leu cuidadosamente o que pareceu ser um itinerário comum, até perceber letras miúdas: "Festa no porão, bebida grátis". Ele apenas sabia que isso estava errado, festas com bebidas alcoólicas são proibidas no Campus. "Só podem ser aqueles lobisomens fedidos de novo..."
A moça ainda piscou se interessando por Kayron o achando um rapaz de aparência acima do normal. Ele era um rapaz muito bonito, de pele negra e cabelos brancos, com olhos sobrenaturalmente dourados, chamava bastante atenção para si.
- Te vejo lá? - Ela perguntou.
Ele confirmou com um sorriso discreto, e foi para um lugar mais calmo, ele tinha um objetivo essa noite, nada podia o distraí -lo.
De longe, Safira observava uma movimentação na frente do Campus. Ela colocou os óculos na cabeça e foi ao encontro da multidão.
- Olha... Olha uma festa proibida. Aposto que terá muitos corpos para eu me deliciar. - Falou pegando o papel de maneira nada educada. Piscou para Kayron, indo até suas amigas.
- Não acredito que ela vai nessa festa. - A morena de olhos azuis disse revirando os olhos.
- Ela acabou de chegar, mas é a garota mais popular da universidade, óbvio que ela vai, o pai dela é praticamente o dono dessa cidade. - Um rapaz alto e bonito comentou, passando por ela.
Safira era considerada a de beleza mais extravagante do Campus pelos garotos heterossexuais e, em simultâneo, uma vadia desgraçada, pelas garotas invejosas e heteronormativas.
Jovial em seus 18 anos, dona de olhos grandes castanhos claros, morena, com cabelos brancos cacheados, seu rosto redondo era perfeito, possuindo algumas sardas espalhadas pela sua face.
Ela se afastou rapidamente, saindo do Átrio pela porta da frente.
- Você vai né? - Algumas calouras e veteranas mais jovens se aproximaram de Kayron e perguntaram animadas.
Kayron deu um meio sorriso.
- Eu não sou de festas, mas posso me esforçar - Ele se afastou novamente pensativo. Não, definitivamente ele não iria à festa.
Kayron estava sendo a atração do momento de novo. Todas as garotas que não fossem lésbicas queriam conhecê-lo e saber quem era o rapaz tão bonito e tímido.
"Droga, lembrei que terei que ir nessa festa ridícula, maldita hora que fui me disfarçar de aluno. Não imaginei que eles fariam uma festa onde eu escondi minhas coisas."
Kayron, mesmo tendo chegado há poucos dias na cidade, conseguiu um trabalho de meio período como ajudante na biblioteca e sempre ajudava a limpar o porão nas suas folgas. Ele logo chamou a atenção dos alunos calouros e veteranos no Campus.
Naquele momento, ele não queria pensar em seu azar, apenas precisava chegar ao porão antes desses pirralhos – era assim que ele os chamava, esquecendo de que havia disfarçando-se com a aparência de um deles.
Ele havia escondido um objeto misterioso numa parte falsa da parede do porão, motivo que o fez mudar de ideia e fingir ser um rapaz normal de 18 anos. Pelo menos naquela noite ele não agiria como um vampiro velho que sempre se esconde em uma caverna. Ele teria que ir à maldita festa e resgatar o importante objeto. Só os deuses saberiam o que os lobisomens idiotas fariam com aquilo.
Quando ele saiu do Átrio indo em direção à festa, contornando pela lateral, avistou uma professora o observando.
Com os cabelos ao vento, Cassandra era uma professora de Artes Mágicas, belos cachos que desciam até suas costas, de olhos verdes de fúria, ela vestia uma camiseta branca social por baixo de uma jaqueta preta, e uma calça apertada desenhando suas curvas. Cassandra era bastante séria e observadora, fingia não prestar atenção no que estava acontecendo. Seus olhos foram atraídos por um dos seus novos alunos, Kayron que parecia estar agindo estranho.
Encostou-se no muro e abriu um dos botões da sua camisa, colocou uma bala na boca, enquanto observava que os alunos estavam em cochichos.
Mas ela estava mesmo interessada em Kayron, que achava bastante suspeito.
🩸🩸🩸🩸
O porão estava cheio e barulhento, como era possível acontecer uma festa com bebidas alcoólicas, alunos fumando, dançando libertinamente dentro da renomada Universidade de Stelivy, sem supervisão nenhuma. Será mesmo que os professores não sabiam?
Logo na entrada era possível ver Wei Zhou apoiado em sua bengala de madeira, determinado a entrar na festa. Ele era um homem de quase trinta anos, alto, medindo 1,81 m, de família chinesa.
"Dessa vez não passa", o homem de cabelos ondulados e na altura do ombro, presos em um coque, pensou. O problema foi que não conseguiu dar um passo e atravessar a porta da festa.
Uma graduação não havia sido o suficiente para livrá-lo de sua fobia social, mas agora Wei tinha uma segunda oportunidade para fazer tudo dar certo: ser corajoso, conhecer pessoas, fazer amigos... "Não pode ser tão difícil!"
Ele queria muito entrar, mas seu corpo não obedecia.
"Além disso, se eu entrar é capaz que estrague a festa."
Outros iam passando pelo homem de suéter cinza de gola alta e que segurava uma bengala de madeira. Todos eram mais corajosos do que ele.
Cassandra observou os alunos entrando no porão animados.
"Hummm. Então as crianças estão curtindo! Entres eles, deve estar quem está com adaga do meu clã. Preciso entrar nessa festa de qualquer jeito e descobrir mais sobre cada um desses alunos." Pensou.
Deu um sorriso, enquanto utilizou seus poderes para trocar de roupa por um vestido preto ousado para ocasião.
"Tenho que encontrar uma maneira, afinal não penso que os professores foram convidados."
No interior do porão, um grupo de lobisomens estava jogando strip poker com algumas belas ninfas, uma multidão ao redor deles. Na mesa de madeira escura cheia de cartas, dinheiro e bebidas, apenas uma pessoa continuava bem vestida, sem ter perdido uma peça de roupas... Essa pessoa era bem suspeita! Uma mulher, que estava bebendo uísque, rindo e se divertindo muito.
Ela não percebeu os olhares que suspeitavam dela, os jovens que pouco a pouco tinham seus destinos cruzados.
Sem perceber a aproximação deles, a bela e suspeita mulher se inclinou para um dos rapazes lobisomens de maneira 'sexy', fungando o ar ao redor. Uma luz branca como fumaça saiu do corpo dele, entrando pela boca da mulher. Os olhos dela brilharam vermelhos revelando ser uma succubus, ou mais precisamente: um demônio que se alimenta da energia sexual, podendo levar inocentes à morte.
Aquela mulher absorveu energia na frente de ninguém menos que Bomani, discípulo de uma Seita dos Tigres, que cuidava da ordem dos seres do Submundo, conhecida por assassinar demônios diversos que saiam da linha e matavam desenfreadamente. Ele era visto pela sua seita como manipulador, egocêntrico, observador e ágil. Sempre concluía suas missões com perfeição.
No instante em que reconheceu as intenções malévolas da mulher, Bomani pensou consigo mesmo:
"Um demônio! Eu sabia que precisava vir para estar festa ridícula, esses nojentos não perdem uma oportunidade!"
Bomani analisou a situação, sozinho e ponderou:
"O melhor será tirar a atenção dela do lobo... Não vou envolver ninguém, preciso deixar com que ela realmente pense que quero algo com ela. Se eu a prender em um lugar sem acesso a nada ela morrerá sozinha já que não terá sexo ou alimento humano"
Bomani, mesmo sendo gentil, humilde, justo e determinado, era visto por muitos como um 'gatinho manso', mas sempre lutava com destreza e precisão. Ele era um rapaz justo, com uma missão. Ele estava camuflado naquela festa de universitário, vestindo um jeans de lavagem escura e um cinto com um compartimento para as agulhas em sua bainha, que mantinha a espada segura e junta de seu corpo, tendo somente uma camisa laranja clara cobrindo o peitoral.
Nessa cidade, não havia problema em usar armas mágicas, afinal, somente os seres místicos poderiam atravessar o Manto e enxergar o que realmente havia por detrás das aparências.
Quase simultaneamente, Cassandra reconheceu aquela mulher: era Nazira, uma professora cujos boatos são de que vem colecionando processos e reclamações de alunos, acusando-a de se aproveitar deles.
- Professora, você aqui? - Uma aluna loira, que estava beijando um garoto perto do balcão, se assustou ao perceber a presença da professora.
Cassandra piscou para a garota, colocando o dedos nos lábios fez sinal de silêncio.
- Esse será nosso segredinho. - Ela sussurrou, mostrando um sorriso malicioso, a garota balançou a cabeça concordando rindo.
Cassandra tomou um gole da bebida deles e sumiu entre a garotada animada da festa.
🩸🩸🩸🩸
Dominic procurou um local, onde pudesse ter uma ampla visão do que estava acontecendo naquele porão agitado e turbulento. Ele observou de longe uma mulher percebeu rapidamente que na roupa daquela mulher havia um broche com o mesmo símbolo relacionado a um ataque que dizimou a existência de todos os homens em um vilarejo rural. Havia alguns anos que ele estava perseguindo aquelas pistas e finalmente encontrou algo de concreto!
Dominic percebeu Cassandra, mas sua atenção ficou presa no broche de Nazira:
- ...esse broche não é estranho. - Murmurou para si mesmo, sentindo-se um pouco confuso.
Resolveu chegar mais perto para ver melhor, confirmando a origem do símbolo:
"É aquele símbolo, o mesmo símbolo que encontrei naquela noite!" Sua respiração foi falhando e raiva vai consumindo o seu ser.
Enquanto caminhava até o demônio, Bomani apalpou os bolsos. Sempre preparado para defender a ordem do Submundo, carregava uma pequena algema mágica que seria capaz de prender a Succubus, mas havia um porém: aquele artefato místico só funcionaria uma única vez, precisaria ser usado com cuidado.
Ao mesmo tempo, Dominic percebeu que Bomani estava se movimentando com suspeita.
"Ele pode estar armado." Pensou.
Bomani, que estava atento ao movimento ao seu redor, viu um homem asiático se aproximar, seus olhos em fúria raivosa direcionada para o demônio de broche e sorriso sensual.
"Não pode haver erros, obviamente pegar demônios não é tarefa fácil e rápido, se eu deixar aquele cara se aproximar mais, pode estragar tudo!" Bomani pensou procurando se manter são em um momento tão tenso para si.
Kayron, que já estava no porão barulhento, não estava alheio à comoção devido à succubus que estava prestes a estourar em meio à festa.
"Preciso ser rápido" Pensou com urgência.
Com a discrição de um goblin ladrão, ele se esgueirou até os fundos. Apalpou uma leve protuberância na parede, um compartimento se desprendeu, revelando um punhal cuja lâmina era rubra como sangue fresco.
Ao ser tocado o punhal emitiu um som horrível, fatal para os ouvidos dos mais fracos, mas ele rapidamente envolveu o punhal nas suas vestes e o som gritante foi abafado.
Felizmente a algazarra infernal da festa não deixou ninguém ouvir um punhal gritar. Seria difícil explicar por que aquilo aconteceu.
Aquele momento não escapou aos olhos de Cassandra. Ela sabia que o punhal e a adaga de sua família eram o mesmo objeto, mas que ele mudava de forma conforme o portador. Por que Kayron estava de posse dele?
Sumiu irritada na multidão.
Pelo outro lado, Safira apareceu, caminhando ousadamente até Kayron antes que ele pudesse se virar. Ela percebeu que ele escondia algo em suas vestes e se aproximou.
O sorriso no rosto de Safira era incapaz de esconder seu interesse por Kayron:
- Oi gatinho. - Ela provocou, encostando na parede, mordendo os lábios.
Dominic estava pronto para atacar a succubus. Sua raiva ia aumentando mais e mais, consumindo a aura de felicidade das pessoas a sua volta. Ele envolveu a mão no cabo de sua espada mágica escondida nas sombras de sua roupa, preparando-se para sacá-la.
Mas naquele instante, Safira estava sorrindo na frente de Kayron, esperando uma resposta.
- Oi? - Kayron gaguejou, tentando saber onde estava o maior perigo; no punhal que ele tentava esconder, na succubus de aura maligna ou na garota provocante à frente dele.
Ele era um semideus recluso que usava uma identidade falsa. E mesmo que quisesse correr para longe daquela maré de estudantes bêbados, Kayron precisava manter as aparências. Se saísse sozinho, pareceria muito suspeito. Ele sabia que a professora Cassandra o estava observando há vários minutos, mas não queria dar sinais de ter percebido e isso definitivamente era mau. O certo seria observar o desenrolar daquela festa, e na pior das hipóteses, recorrer ao punhal carmesim.
Kayron abriu um sorriso torto para Safira:
- Me acompanha numa taça?
- Claro. - Safira aceitou, segurando em seus braços. - Você é novo, né? Por que não vi um gato como você por aqui...
Safira não recebeu resposta.
Dominic perdeu a paciência, tentou ao máximo manter o seu último fio de sanidade, caminhando pesadamente em direção àquela succubus.
Bomani percebeu o movimento brusco, em seu cinto havia um compartimento que abrigava agulhas paralisadoras, pegou uma e atirou certeiramente em Dominic, realizando uma tentativa de impedir que a succubus fosse atacada de repente, o que seria péssimo,
Sentindo um assovio sombrio, Dominic foi rápido para perceber que agulhas perigosas foram atiradas em cima dele e também identificou de que direção vieram os ataques.
- Ops! Kayron. - Safira parou assustada. - Parece que está acontecendo algo estranho aqui. - Comentou observando um rapaz que estava ameaçando outro.
As adagas voaram no ar, Dominic pensou rápido. Ele sacou sua espada e woooosh!
As agulhas foram desviadas com maestria.
- Quê? Por que você fez isso? - Dominic olhou para Bomani. Raiva estava fluindo de seus olhos.
🩸🩸🩸🩸
Luz deslizou as mãos pelo vestido preto de cetim, estufando o peito com um suspiro cansado. Ela estava no Átrio, acompanhando a movimentação de pessoas, perdida... Quando foi em busca de uma bebida forte para matar o tédio, percebeu haver apenas um coquetel de frutas sem álcool.
Duas moças se aproximaram de Luz, uma delas está segurando o panfleto e diz:
- Nossa, sem álcool? Que absurdo, é por isso que no porão estão fazendo uma festa.
- Shhh! Fale baixo, é clandestina, se o diretor ouvir, estamos com problemas!
Luz percebeu que há outra festa, que parece mais interessante.
Ela cruzou os braços deixando a bebida de lado, apoiando-se e na mesa. Observou às duas garotas, atenta às suas falas. Desviou o olhar, quando uma delas ri baixo e olhou para uma estreita porta que dava acessos às escadas de emergência.
- Nem se vocês falassem em sussurros, esconderiam a satisfação em falar sobre essa tal festa! - Resmungou.
Elas abaixaram o olhar e abriram espaço. Caminhou tranquilamente porta à dentro sendo envolvida por uma escuridão até chegar em outra porta.
Empurrou a porta dando de cara com um rapaz de suéter cinza que parecia ligeiramente entediado apoiado em uma bengala de velho. Decidiu ignorá-lo sendo atraída pela movimentação.
Apenas passou pelo rapaz, quando viu a confusão que desenrolava na festa.
Luz sentiu uma perturbação na mente, como se uma série de vozes falassem em simultâneo. A dor foi tão intensa que por alguns segundos ela sentiu que seus olhos fossem derreter.
Sem forças se rendeu ao chão em uma escuridão comum.
🩸🩸🩸🩸
No porão a confusão continuava:
- Eu não sei se você percebeu, mas aquilo ali não é um ser qualquer para você atacar como bem entender - Bomani se aproxima de Dominic - É um demônio sexual e é bem mais forte do que pensa.
- Essa... essa demônia está com um broche com mesmo símbolo que achei quando mataram meus companheiros, preciso descobrir da onde ela veio - Diz Dominic enquanto se aproxima de Bomani.
Eles ficaram frente a frente se encarando.
- Resolva suas pendências depois, não pode agir de qualquer jeito perto de seres demoníacos. - Bomani resmungou para o asiático na sua frente.
🩸🩸🩸🩸
Kayron assentiu para Safira:
- O homem não é o verdadeiro problema. - Kayron estalou os dedos e o gesto soou como uma ventania.
Pelos menos três esqueletos humanos emergiram, destruindo o chão e se prenderam à succubus. Eles a envolveram, formando uma prisão bizarra de ossos.
Kayron se curvou para o pescoço de Safira e sussurrou em seu ouvido num tom conspiratório:
- Você não viu nada. É o nosso segredinho.
Safira sorriu para ele, piscando. Ela observa a pulsação de Kayron, seus olhos vão direto em seu pescoço passando a língua pelos lábios antes de dizer:
- Gostaria de experimentar algo hoje, mas podemos deixar para outro momento.
🩸🩸🩸🩸
Wei estava há muitos minutos hesitando adentrar o porão quando uma mulher de intensos olhos azuis e um vestido cetim preto cruzou o corredor e atravessou em sua frente.
Um som de ventania soou estridente e três ossadas humanoides formaram uma prisão de ossos em volta de uma professora que estava há horas jogando strip poker com alunos.
A bela mulher de olhos azuis foi afetada pela onda sonora e desmaiou. Sem pensar no que fazia, Wei reagiu ágil como um soldado, agarrando-a por instinto. Sua bengala de madeira caiu no chão, mas o barulho foi quase metálico.
Ele deu um passo para frente, entrando no porão por acidente. Na parede, bem ao seu lado, uma caixa de som começou a zumbir afetada pela estática descontrolada que desprendia de seu corpo.
Raios elétricos percorreram queimando todos os seus músculos, causando uma fraqueza súbita em sua alma e um quase parar nas batidas do seu coração. Wei sentiu dor, mas era incapaz de controlar o surto elétrico.
As caixas de som explodiram uma a uma, soltando faíscas.
As luzes se apagaram resultando em um intenso corte de energia.
Os alunos do 'campus', que eram humanos, se assustaram. A Festa virou um caos de gritos estridentes e xingamentos. A correria desenfreada desaguou na direção da porta de emergência atrás do bar.
Devido ao curto-circuito no sistema elétrico, luzes laranjas de emergência se acenderam, depois se apagaram e ficaram piscando intermitentes.
🩸🩸🩸🩸
Enquanto a confusão se desenrolava na festa, o professor Valério, que lecionava aulas de Sociologia Interespécies, foi imediatamente atraído por uma mudança energética no ambiente.
Seus olhos viraram, ele quase derrubou sua bebida não alcoólica, enquanto confraternizava com colegas de profissão de maneira aleatória. Ele até sabia da existência da festa clandestina no porão, mas não havia se importado com ela, pelo menos, não até agora.
Sendo um vampiro muito poderoso, locomoveu-se com velocidade ímpar e chegou ao porão rapidamente.
- Tem alguém aí?
O corredor estava escuro, já sem alunos, mas um grunhido forte era possível de ser ouvido. Ele viu uma mulher desmaiada nos braços de um rapaz de suéter cinzento, pensou em ajudá-los, mas percebeu haver um problema ainda maior.
A professora Nazira estava transformada em um demônio, com garras nas mãos, chifres e um rabo em formato de seta. Seus cabelos mudaram para uma careca e seu rosto esgrouviado em uma careta feia.
Valério reconheceu a forma daquele demônio: uma succubus.
- Fique aqui com ela. - O Professor ordenou, passando para dentro do porão, onde mais pessoas se preparavam para uma batalha.
Em mesmo instante, Luz franziu o cenho sentindo seu corpo se mexer como se saísse do transe.
Com certo pesar ela conseguiu abrir os olhos azuis, dando de cara com um belo homem de suéter cinza, que parecia a ponto de entrar em combustão.
Seus pensamentos estavam desconexos. Com um fio de razão qualquer, ela perguntou:
- Quem são essas pessoas? O que aconteceu com você...?
Correndo com o mar de pessoas fugindo da confusão, Safira desapareceu na escuridão. Enquanto passou por Luz, pensou: "Ela cheira humana, mas não parece ser uma."
- Consegue ficar em pé? - Wei perguntou à bela moça em seus braços, ele tentou se levantar, mas não conseguiu, caindo para trás.
- Que patético, você perdeu as forças?
- Patética é você, desmaiando do nada no meio de uma situação dessas. - Respondeu como se estivesse bravo, mas acabou rindo de si mesmo e ficando em pé.
- O meu nome é Luz. - Sentada no chão, Luz tateou pegando a bengala, antes de segurar na mão do rapaz e se levantar.
Ele cambaleou um pouco com o peso extra, mesmo tendo braços fortes, como ela pôde perceber.
- Eu me levanto sozinha! - Luz enfureceu-se e ficou em pé com um salto acrobático.
- Eu sou Wei.
- Sua bengala, Patético Wei. - Ela olhou para suas pernas, reparando como ele evitava apoiar o peso do corpo na esquerda, nitidamente com sequelas de algum acidente.
Então era esse o problema? Ele tinha um joelho fraco.
- Obrigado, Patética Luz.
Por um instante os dois pensaram em seguir a multidão e dar o fora dali, mas Cassandra que vinha correndo na direção oposta os empurrou para dentro da sala de novo, sem querer:
- Saiam da frente!
Ela colocou a mão na cabeça e olhou fixamente para a Succubus à sua frente, bem alimentada e poderosa. Seria difícil vencê-la sozinha.
🩸🩸🩸🩸
Quando as luzes apagaram, o porão ficou entregue à escuridão sombria. Dominic se assustou com o barulho, as resolveu invocar o mundo das sombras para ajudá-lo a enxerga melhor.
- Saiam da frente! - Ele escutou uma voz feminina.
Cassandra tentou usar seus poderes e matar o inimigo apenas usando o pensamento, criando uma ilusão mortal.
Ela sabia que na maioria das vezes sua ilusão era tão poderosa que pode confundir a mente do alvo fazendo-o acreditar que realmente morreu, a succubus poderia até morrer, mas ela estava bravamente resistindo ao ataque.
Dominic conseguiu localizar com perfeição a Succubus. Ela estava sofrendo um ataque poderoso de Cassandra, gritando com dor. Sua aparência já era outra, refletindo o demônio maligno em seu interior.
"É o momento perfeito para unir forças em um ataque! A Succubus não parece ser capaz de se livrar de uma ilusão de morte." Dominic pensou.
Ele se moveu com rapidez e com sua espada apunhalou a Succubus pelas costas.
Um grito estridente de fazer tremer as paredes ressoaram.
Do outro lado, Valério atacou aquele demônio transformando-se em vampiro e mostrando suas presas. Deu uma mordida letal e venenosa na Succubus, deixando-a mais desnorteadas. Ele finalizou o ataque desferindo um golpe cruel, enfiando os dedos pelos olhos dela, até que explodiram com sangue.
- Quero ver qual energia sexual você vai poder vê neném - Valério se afastou, deixando-a cair de joelhos no chão.
Lambeu os dedos absorvendo a força poderosa do sangue de um demônio. Seu corpo ficou intensamente energizado.
Tudo que vinha à mente de Bomani era o quão irresponsável foram as ações passadas. Sabendo que somente um ataque de espada não seria suficiente, ele se livrou da sua, podendo usar então seu Fogo do Tigre, logo depois que o asiático se distanciou do demônio após realizar o ataque.
Kayron esquecido totalmente da própria regra de agir com discrição! Ele manipulou a escuridão presente no recinto e criou uma espada de pura energia sombria, com a qual desferiu um único golpe no estômago da succubus. Deu um salto e se afastou, misturando-se às sombras.
Aquele único ferimento feito pela espada de escuridão seria o suficiente para drenar gradualmente a vida do demônio. Suspirou, amaldiçoando a si mesmo por não ter deixado aquele problema para os estudantes metidos a serem heróis que também estavam no local.
A Succubus acabou sofrendo as mais diversas categorias de ataque. A junção de poderes foi imensa e o local ao redor dela explodiu soltando uma nuvem cinzenta de poeira.
Percebendo o perigo, Wei lutou contra sua fobia social, abraçou Luz protegendo-a:
- C-cuidado!
Os dois caíram e rolaram pelo chão, escapando dos destroços, Luz encolhida, com as mãos nuas contra a pele fria do pescoço de Wei.
Luz pensou em se levantar e procurar algo com o qual pudesse auxiliar no ataque, mas de repente sua mente foi inundada com memórias que não são dela... Nessa memória, ela percebeu-se em um acidente doméstico, conseguiu inclusive sentir a dor no joelho esquerdo com força, raios elétricos voando para todos os lados e culminando com a explosão no apartamento.
Ela viu seu reflexo dos pedaços de vidro da janela, caindo... não era o seu rosto, mas o de Wei.
Espasmos cobriram o seu corpo, ela sentiu a mesma dor que ele sentiu naquele dia, em um passado distante em sua vida.
Como ela foi capaz de sentir isso? De absorver aquelas memórias com um simples toque?!
Diante de todos a Succubus desapareceu, provavelmente desintegrando-se. Apenas um buraco de destroços muito fundo ficou no porão.
🩸🩸🩸🩸
Juntos, o grupo de heróis saiu do porão buscando ar limpo.
- É isso? Acabou? - Bomani analisou o local, ainda a espera de que a Succubus de repente ressurgisse, ou coisa parecida.
- Novatos! -Kayron ainda provocou.
De longe, Cassandra se certificou de que o demônio havia sido por completo dizimado. Ela não falou nada com ninguém. Estendeu a mão e usou bastante energia para utilizar seus poderes para apagar a memória dos humanos do Campus e esconder da existência de toda a cidade um problema tão grave.
Esgotada, sem poderes restantes, nada sobrou à Professora senão subir em sua motocicleta e sair pela rua.
Na cena, ainda restaram apenas Wei, Bomani, Luz, Kayron, o professor Valério e Dominic, com suas memórias intactas... Olhando para Cassandra indo embora em sua moto.
Capítulo Dois[Bomani - Autor: Hellen] & [Dominic - Autor: Mila Costa] & [Wei Zhou - Autor: DD Seven]
Dominic saiu em passos largos daquela festa desastrosa, sua roupa estava manchada com o sangue daquela maldita demônia Succubus. Estava com raiva de si mesmo, como podia ser tão impulsivo, poderia ter feito algo para contornar a situação.
Porém, não se controlou, estava movido pelo rancor e não pensou nas consequências. Abaixou-se num canto da parede, e não conseguiu segurar suas lágrimas, se sentia fraco com tudo que aconteceu, se levantou e limpou seus olhos.
"Vou descobrir quem matou meus companheiros." Pensou enquanto secava mais uma lágrima que insistia em cair.
Respirou fundo e resolveu ir para seu dormitório para tomar um banho e esfriar a cabeça. Depois dessa noite caótica, tudo que Dominic queria era dormir e esquecer os acontecimentos. Era mais proveitoso tomar um banho, descansar a mente e esfriar a cabeça.
Antes de abrir a porta ouviu um barulho vindo de dentro de seu quarto, já em alerta com a mão em uma adaga escondida em suas vestes, abriu a porta lentamente, dando de cara com um homem desenhando no chão. O quarto estava um pouco bagunçado, lápis coloridos espalhados e deu para perceber um pouco de tinta em suas roupas.
- Desculpa atrapalhar... Prazer, sou Dominic Dingy. E você? - Disse ainda surpreso com a situação. "Não sabia que teria um colega de quarto".
O lápis caiu dos lábios e Wei olhou para aquele jovem. O mais constrangedor foi estar desenhando as pessoas que viu naquela noite em uma cena que chegava a ser difícil de explicar, antes que a memória se esvanecesse. Um dos desenhados era exatamente o garoto na sua frente. Juntou os papéis e tentou guardar tudo o mais depressa possível.
- D-Dominic? Ah, cl-claro, muito prazer. Eu sou Wei Zhou. - Gaguejou. Olhou para a cama, que virara seu depósito de rascunhos e estojos de tinta. - A-cho que aquela é sua cama...
Foi quando Wei se levantou, com inúmeros desenhos e papéis nos braços, que percebeu os olhos injetados. Quis perguntar, mas não invadir o espaço alheio.
Dominic revirou os olhos e deu um suspiro cansado. Lamentavelmente não estava sozinho, mas até que um pouco que companhia seria agradável. Ele apontou para a cama:
- Vou tomar uma ducha, quando eu sair...
- V-vou arrumar, não se preocupe.
- A propósito, bela espada. - Dominic quis dizer a bengala, que estava depositada no canto do quarto.
Foi para o banheiro, onde tirou sua armadura e se despiu. Limpou suas lâminas e as guardou. Tomou uma ducha de água fria, sentiu seu corpo relaxar, lavando toda aquela sujeira que antes estava ali.
Quando finalizou o banho e voltou para o quarto, reparou que o local estava arrumado. Wei já estava em sua cama, escrevendo em seu moleskine. Era uma espécie de diário?
Dominic caminhou até sua cama, já pronto para dormir, olhou para o cordão que seu pai lhe deu.
- Vou fazer com que seus ensinamentos não sejam em vão meu pai, prometo-lhe dar o orgulho de ser um dos maiores guerreiros que essa cidade já viu. - Disse em voz alta.
Ele viu que Wei o espiou com o canto dos olhos, mas não ligou. Deixou o cordão no móvel de canto perto à cama e foi para janela de seu dormitório, sentiu o vento bater em seu rosto.
Dominic era um homem bonito, tinha aparência asiática, um olhar penetrante, bastante atraente. Ele ficou ali olhando as estrelas, calmo e sereno, momento em que lembrou de sua infância. Não tinha muitas lembranças de seus pais de sangue, era muito pequeno quando eles foram mortos por caçadores de seres místicos. Por muito tempo se perguntou do porque tudo aquilo havia acontecido com ele, era castigo do destino? Dos céus?
Teve uma vaga lembrança de sua mãe o ensinando a lutar Kung Fu e Kendo, seu pai explicando algumas técnicas do mundo das sombras. Parecia até que eles sabiam que a qualquer momento morreriam. Lembrou-se de que eles estavam sempre viajando como nômades sem morada fixa, até que numa noite tudo virou cinzas e ele foi jogado no mundo só.
Por muito tempo Dominic roubou para sobreviver e não morrer de fome, até que em um desses roubos ele foi pego por um ninja que protegia o vilarejo.
O homem o pegou e cuidou dele. De primeira ele recuou, depois foi criando afeto por aquele homem e hoje o tem como seu Mestre e seu pai adotivo. Graças aquele homem que Dominic parou de roubar e começou a treinar, até conseguir se tornar um dos guerreiros mais respeitados de seu vilarejo.
Deixou seus pensamentos de lado e permitiu o sono o consumir.
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Wei ficou desenhando em seu Moleskine, escrevendo um diário em tópicos com os acontecimentos daquela noite. Nome: Wei. Sobrenome: Zhou. Não que fosse muita coisa, mas seu passado era um emaranhado de problemas dos quais tinha o hábito de fugir.
Para alguns, Wei poderia ser simplesmente um covarde, mas para si mesmo, gostava de pensar que apenas não havia encontrado nada que realmente valesse a pena lutar por. Há muito tempo, era um jovem que tinha uma coleção de sonhos e aspirações que sonhava em realizar, mas nada deu certo. Nem mesmo o sentimento de fracasso permaneceu muito tempo, ele se acostumou a pensar que não restava mais nada para ser feito com sua vida.
Ele foi escravizado e se tornou General de um senhor cruel. Marcado no braço, roubaram sua força de vontade, transformado em uma marionete executora de ordens. Quando tentou conspirar contra seus Mestres e se libertar, fracassou de tal forma que acabou aprisionado. Foi torturado, teve suas forças comprometidas e quando havia pensado que não sobreviveria, conseguiu escapar.
Agora vivia camuflado, com medo, avariado...
Olhou para a cama ao lado, onde Dominic já havia adormecido. A Succubus que fora combatida certamente tinha ligação com as pistas que perseguia e que o levariam ao seu antigo Senhor, de quem pretendia se vingar. E Dominic estava envolvido de mesma forma... Que fosse como aliado!
"Será que eu poderia encontrar a cura para liberar meus canais de conexão e fluir a energia do Qi novamente?" Balançou a cabeça, com receio de se apegar demais àquela ideia. "Recuperar a totalidade dos meus poderes e equilibrar minha força yin yang, vai me permitir buscar vingança contra as pessoas que me escravizaram."
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Dominic acordou assustado antes do nascer do sol, despertou com mais um de seus pesadelos. Resolveu ir treinar, já que era a única maneira que achou para distrair sua mente.
Se vestiu, pegou sua espada e antes de sair do quarto viu Wei o encarando, talvez o barulho o tivesse acordado.
- Vou treinar, quer me acompanhar? - Dominic encarou o rapaz.
Não precisou perguntar duas vezes. Wei levantou da cama e prendeu os cabelos em um rabo de cavalo. Seu joelho direito deu uma fraquejada, sequelas do seu passado.
- Seja paciente que estou enferrujado, mas quero sim.
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Na sala de treinamento Bomani trajava vestes específicas de academia e manuseava sua própria espada no ar. Seus movimentos eram rápidos e precisos, qualquer um que o visse lutar com a arma de longa lâmina notaria o quanto ele é bem treinado e talentoso. Seu olhar era muito concentrado.
Recordava-se da primeira vez que pegou uma espada, era tão novo e ainda podia conversar e aprender com os pais. Tinha fresco em sua memória a paciência que seus genitores possuíam ao lecioná-lo, hora sua mãe o mostrando como dar golpes certeiros, hora era seu pai o ensinando a segurar e mover uma espada. Seus motivos para ser tão bom eram diversos, mas os principais são, com toda certeza, manter o Fogo do Tigre de sua família queimando forte e intacto dentro de si.
Ao acabar de fazer os movimentos diários, Bomani se senta bebendo um pouco de água. Seus pensamentos se voltam para a noite anterior, que foi bem movimentada e intensa.
Quando em ação, Bomani costuma capturar os demônios sozinho, então ter tanta ajuda de uma hora para outra foi chocante. Ainda assim, ele se sentiu pouco impressionado com todos os combatentes que se apresentaram: nenhum parecia realmente saber como agir e lutar diante de um ser das trevas, algo que, com toda certeza, seria perigoso se cometessem o mesmo erro.
Obviamente que Bomani notou o apagamento de memórias dos outros alunos, mas somente fazer com que nada tivesse acontecido não era a melhor escolha, tão pouco agir por impulso, como fez aquele asiático que não sabia de sua cabeça ou 'o ser misterioso' que havia trazido a gaiola de ossos para prender o demônio.
Pensando nos alunos que agiram diante do monstro, Bomani foi surpreendido quando o asiático de antes se manifestou na sala de treinos junto de outro homem, com os cabelos em um rabo de cavalo, que ele não reconheceu.
Como foi um observador na batalha da noite anterior, Wei reconheceu Bomani. A primeira coisa que notou foi o olhar de atrito entre ele e Dominic. Pensou que fosse um mau negócio treinar naquele instante, porém, não se sentia capaz de fazer muita coisa além de segurar firme no braço de Dominic, como um alerta para que o amigo não fizesse nada impulsivo.
Bomani desviou o olhar para o chão deixando a garrafa de água no seu lado direito do banco, ele sorriu incrédulo.
"O que esse cara julga que vou fazer? Atacar ele?" Pensou já se levantando e voltando a treinar, mas agora sem a arma.
- Tudo bem, eu não estou querendo arrumar briga, queria me redimir com você - Dominic disse, olhando diretamente para Bomani.
Bomani retribuiu o olhar para Dominic, parando de se alongar. Se sentiu interessado nas suas palavras, então deu a deixa para ele prosseguir:
- Continue.
- Esse é meu companheiro de quarto, Wei, estamos aqui para treinar. Gostaria de se juntar a nós? - Dominic apresentou, tentando quebrar o momento de tensão.
Wei esticou um quase sorriso e estendeu a mão cumprimentando Bomani:
- Ei! M-muito prazer.
O africano encarou a mão de Wei e sorriu apertando a mesma em um cumprimento cortês:
- Sou Bomani, é um prazer lhe conhecer também, Wei. Aliás, quem deveria se juntar ao treino são vocês, eu já estava aqui... - Sorriu amistosamente, deixando para Dominic completar sua apresentação. - Então...
- Acabei esquecendo de me apresentar, sou Dominic. É um prazer conhecê-lo. E desculpa por ontem, fui movido pelo rancor e acabou dando em tudo aquilo - Olhou para o africano.
Ouvindo suas palavras, Wei virou-se bruscamente para seu colega de quarto:
- Rancor de quê? Então, você sabia quem era aquela demônia?
- Sinceramente não, apenas vi o broche dela, que era feito com um símbolo que observei há muitos anos quando meus companheiros foram mortos. Acabei não me segurando, estava cego por vingança, mas agora estou com a cabeça no lugar. - Dominic respondeu seu amigo, um pouco sem graça.
Wei abriu bem os olhos e descolou os lábios, em surpresa:
- Para ser sincero, também reconheci aquele broche. Não sei o que significa. Há alguns anos, quando eu trabalhava de forma específica, eu estava em uma missão e meu grupo teve um conflito intenso com esse outro grupo, eles usavam o mesmo broche. Temo que os demônios de um e outro estejam relacionados com a Succubus.
Bomani não disse nada, embora estivesse colhendo as informações passadas.
Dominic, por sua vez, observou o africano e pensou, com um sorriso de lado: "Esse rapaz não é uma má pessoa".
- Vamos parar de falar e treinar! - Sacou sua espada e virou-se para Wei - Você está pronto?
- Por que estou com a impressão de que você não vai pegar leve no treino? - Wei resmungou.
Dominic deu uma risada alta:
- De tudo de si, não pego leve com ninguém
Bomani sorriu ainda mais, já se animando com a ideia de ter companheiros de treino. Sem enrolação, ele logo se colocou em posição de ataque com a espada em mãos.
Dominic ofertou o primeiro golpe, fazendo Wei se defender dando um passo para trás, girando o cabo da bengala e revelando uma espada oculta e flexível.
Golpes foram trocados, às três espadas tilintando com o encontro de lâminas. Faíscas soltaram pela rapidez dos golpes. Dominic lutou também com Bomani, testando suas forças. O treino correu bem intenso por pelo menos uma hora, eles ficaram suados, cansados, mas estavam se divertindo, e também se conhecendo através da arte das espadas.
Durante o treino o Bomani foi capaz de reparar que a técnica de luta de Dominic é muito poderosa, porém ele não conseguiu identificar a seita de origem. Certamente uma das muitas Artes dos Ninjas, que eram secretas.
Já o estilo ágil de Wei, não foi difícil de reconhecer, embora poucos tinham a sorte de terem sido treinados pelo Mestre do Solar dos Pessegueiros. Apesar de bem treinado, Wei perdeu o fôlego algumas vezes, definitivamente avariado pelo cansaço. Era nítido que havia algo de errado em seu campo energético, como se os meridianos não estivessem fluindo normalmente.
Cansados do treino em conjunto, os três se sentaram em um dos bancos para descansar. Bomani pegou sua água e bebeu. Ele ainda estava pensativo pelos dizeres de Dominic, então não mediu esforços para retomar o assunto sobre o demônio:
- Sabe Dominic, eu tenho uma observação sobre ontem... - Ele olhou diretamente para o outro ainda um pouco cansado. - Suas ações mesmo que fossem impulsivas, me deixaram com a certeza de que nunca ficou de frente para um real ser das trevas! Eu me pergunto se é realmente verdade.
Testemunhando a situação, Wei parou com a toalha nas mãos, já pensando que aquela cena se desenrolaria em briga. Ele revirou os olhos e pensou: "Imaturo!". Realmente Bomani tinha o hábito de não segurar seus pensamentos.
Dominic, que ainda estava ofegante, se virou para Bomani:
- O único ser das trevas com quem me lembro de ter contato foi o meu pai, porém isso ocorreu há muitos anos, então ontem foi a primeira vez.
Bomani riu.
Surpreendido e vendo que a conversa não se transformaria em uma briga eterna, Wei se secou com a toalha e sorriu para os amigos:
- E ai, vamos comer?
- Eu estava pensando em burritos - Bomani o respondeu.
- Nesse momento eu topo qualquer coisa! - Dominic alisou por cima do estômago.
Ele estava com muita fome, especialmente depois daquela luta calorosa, sentia como se pudesse comer um porco inteiro se deixassem.
Os três novos amigos sorriem um para o outro e saem do centro de treinos. Uma grandiosa amizade que se formou em pouco tempo.
[Kayron - Autor: Lane] & [Safira e Cassandra - Autor: Karol] & [Valério - Autor: Évany] & [Bomani - Autor: Hellen]
Kayron queria arrancar tufos de seu cabelo branco e rosnar para quem chegasse perto dele, tamanha a raiva que sentia. Seu plano de manter a discrição foi por água abaixo, e agora ele precisava tomar cuidado para não fazer nada suspeito na frente dos novatos com quem se envolveu no incidente com a succubus.
Após as aulas matutinas, o semideus rumou para a Biblioteca Arcana, onde auxiliou por meio período.
Era o álibi perfeito. Na biblioteca o fluxo de informações e conhecimentos fazia valer a pena toda aquela droga de identidade falsa. Ao tentar rastrear durante anos os assassinos do seu clã, descobriu que aquilo que parecia meramente um ardil dos orcs contra a sua família, era apenas a ponta da ponta do 'iceberg'.
Kayron sabia que um dos titeriteiros daquele 'show' de matança estava ali, na Academia dos Arcanos Mistos. Alguém que conseguiu encontrar uma forma de eliminar deuses imortais. Alguém que havia aprisionado as almas de seus parentes em eterna agonia na lâmina do punhal vermelho que ele escondia na barra da calça. Ele só não sabia quem era a figura abominável em questão.
Até que descobrisse, Kayron aprenderia o máximo possível do inimigo e buscaria uma forma de libertar as almas dos membros do seu clã. E então ele se livraria daquele punhal amaldiçoado.
Já na biblioteca, Kayron cumprimentou Qemeya, a minúscula e fofa bibliotecária meio-elfo, cujos óculos sempre escorregava pelo nariz delicado. Ele tentou não reparar demais no lindo sorriso com que Qemeya o brindou.
O semideus se escondeu atrás de uma prateleira para não ter que falar com o grupinho de garotas que se aproximava. Pior que ter que lidar com pessoas, era ter que lidar com pirralhos. Um grande problema quando se era um infiltrado numa escola cheia deles e principalmente quando se era tão antissocial como Kayron.
Nos fundos do recinto, o semideus retirou o punhal da barra da calça e por um segundo, o som de mil vozes agonizantes preencheu toda a biblioteca. Ele guardou rapidamente a lâmina dentro de um livro mágico que, por ora, seria a solução mais eficaz para selar a energia do punhal. Seria uma perturbação se ele fosse pego portando uma arma mágica amaldiçoada sem autorização.
Qemeya apareceu no exato momento em que Kayron selava o livro com magia. Atordoada, ela fitou o semideus com os olhos verde-mar.
- Kayron? O que foi isso? Pelos deuses, parecia até o grito dos mortos!
Como um fleumático, Kayron afastou uma mecha branca de seu cabelo que caía sobre a testa, e mirou Qemeya com uma expressão inocente nos olhos dourados feito ouro derretido.- Penso que está imaginando coisas, Srta. Qemeya. Está tudo no perfeito silêncio por aqui.
Ele endereçou seu sorriso mais tímido e singelo, feito um mestre da ilusão.
"Tudo vai se resolver", disse a si mesmo quando Qemeya se afastou, convencida de suas palavras. "Eu matarei cada um dos malditos que ousaram ferir minha família. Eu os farei provar do próprio veneno."
🩸🩸🩸
Na hora do almoço, Kayron estava fugindo das alunas que normalmente o perseguiam.
Qemeya reparou em como ele olhava para os lados, ansioso:
- Quer almoçar em um local mais reservado? Tem um belo jardim no fundo das escolas...
Ele quase não a escutou, visto que percebeu Safira no corredor de livros, ela estava pegando alguns livros, parecia distraída com seus fones de ouvido, ela estava tão concentrada, parecia ser uma garota tão doce. Ele a encarou e seus olhos se cruzaram, ela tirou o fone e segurou seu olhar ao dele. O olhar perscrutador de Safira o lembrava de alguém... Mas quem mesmo? Ele desviou os olhos, e soltou um suspiro, ele não percebeu que estava segurando o ar.
- Tudo bem? - Sua amiga perguntou o tirando do transe.
Ele balançou a cabeça afirmando que se voltou para Qemeya e tentou conter o impulso de ajeitar os óculos da bibliotecária fofinha.
- Eu... eu aceito sua oferta, Qemeya. Mas por favor vá à frente. Preciso resolver algo antes. Encontro você no jardim.
Qemeya anui com um sorriso que sacode algo no interior do semideus. Ele respira fundo para reprimir o que quer que fosse aquilo.
Kayron aproveitou o momento para se locomover até Safira. Ele não sabia exatamente o quê, mas havia algo naquela vampira... Era puro instinto. Ou talvez..., talvez não fosse nela. Não restava outra opção a não ser testar. Ao chegar perto da beldade cobiçada por quase todo o 'campus', ele falou em um sussurro que apenas ela escutou:
- Foi você quem pegou emprestado da biblioteca o livro Occulta Tenebris Pellibus? É um volume único, sabia? Não seja egoísta, outras pessoas podem querer ler.
A isca havia sido lançada. Era a oportunidade do semideus de conseguir mais alguma pista sobre os acontecimentos anteriores e sobre a forma de libertar seus pais.
Safira o encara séria, ela mordeu os lábios pensativa antes de responder o garoto que ela achava muito atraente. A vampira tinha que tomar cuidado com o que responderia, afinal ele estava falando dos livros proibidos da cidade, que poucas pessoas tinham acesso.
- Pois é fofo, são livros raros para pessoas únicas. - Ela disse se aproximando dele, até deixá-lo encurralado. - Você é bem curioso garoto. - Sussurrou em seu ouvido.
- Cuidado, nessa cidade pessoas curiosas não são tão bem vistas.
Kayron a encarou sorrindo.
- Sorte sua que você tem esse sorriso lindo... Tá legal te empresto o livro, vem na minha casa a qualquer hora, que podemos ler juntos - Ela disse se virando para ir embora.
- Ah! Você está me devendo uma bebida.
Ela piscou para ele e vai ao encontro de um grupo de garotas.
Deixando Kayron para trás.
Sorriso lindo? Ler juntos? Devendo uma bebida?
Kayron, embasbacado, observou Safira partir, os cachos dela meneando hipnotizantes em suas costas.
O que custava ela ter sido clara?
Ele balança a cabeça e riu para si mesmo, incrédulo. O semideus não sabia dizer se a garota havia entendido ou não o código. O livro era um pretexto. Havia uma senha no que ele disse. Mas e se ela tivesse captado a mensagem e o convite para que lessem juntos fosse a desculpa para que eles trocassem a informação que tinham? Kayron havia seguido sua intuição, e absolutamente não falhava. E o seu instinto gritava que Safira poderia levá-lo a mais pistas. Mas se ele estivesse enganado, teria que fazer algo para silenciá-la. Nada ficaria no seu caminho. Nem mesmo garotas sensuais e lindas de cabelos cacheados.
Kayron finalmente se mexe e lembra que Qemeya o espera nos fundos da escola.
Ele suspirou, derrotado. Teria que aceitar o convite de Safira. O que seria uma completa loucura. Kayron queria respostas. E Safira era a antítese disso; ela cheirava a perigo e enigmas.
🩸🩸🩸
Valério estava mexendo nas fichas dos alunos. Em suas mãos, os dossiês completos de matrícula e pagamento, além de informações sobre a grade curricular de todos aqueles que ele viu na cena da succubus na noite anterior.
O que essas crianças estavam fazendo se envolvendo com problemas?
Espalhou as fichas e suspirou. Sua mente não conseguia conectar os alunos aos acontecimentos, como se peças do quebra-cabeças precisassem ser encontradas antes de montar a figura completa.
Em seus dedos brincou com o broche da Succubus. Quando desferiu sua mordida potente e venenosa, conseguiu agarrá-lo. Na verdade, ele não se importava com aquela succubus e pouco menos se importava com os alunos, se eles morreriam ou sobreviveriam, seria sorte ou azar deles... Mas aquele broche...
As memórias foram para seu passado. Uma caixinha pequena e dourada ornamentada que sua ex-amante tinha. O mesmo símbolo.
Bom, se elas estiverem de alguma forma interligadas, seria proveitoso. Valério pensava que poderia seguir essa pista para ter sua vingança.
As horas passaram voando, ele simplesmente fechou todas as pastas, guardou o broche em seu bolso interno do paletó e seguiu para fora de sua sala. Era hora do almoço.
Após comer no refeitório dos professores normalmente e com gente entediante ao seu lado, Valério voltou do almoço.
Sua cabeça transitando entre os acontecimentos da noite anterior, suas memórias, suas novas descobertas e... ele ainda precisava preparar a aula para a turma da noite. De tarde o 'campus' é tranquilo para os professores, só algumas papeladas.
Ele abriu a sua sala, que estava trancada...
E quando a porta abre, ele pegou Cassandra no flagra, tentando abrir a janela para sair! Valério percebeu suas coisas reviradas...
"Ela mexeu, certeza!" pensou.
Cassandra deu um sorriso para o professor Valério, piscou um olho e saltou da janela antes que ele pudesse reagir.
"Maldita! Você não pense que poderá escapar!"
🩸🩸🩸
Na sala de aula, os alunos estavam com semblantes cansados, a festa parecia que fora ótima, mas, por que motivos estavam sem energia e sem força de vontade? Cassandra sentou na mesa analisando a sala, sem entusiasmo nenhum.
- Bom dia professora. - Cantarolou entrando na sala animada.
- Safira, bom dia, mas você está atrasada... - Cassandra sorriu vendo a animação da garota, que usava um vestido azul, que modelava seu corpo e usava um salto, a dando um pouco mais de altura.
- Então professora, ontem estudei muito anatomia dos lobisomens e dormir tarde, me desculpe. - Ela confessou fazendo 'beicinho'.
"Sei, ela deve ter chupando alguns pescoços". Cassandra pensou varrendo os olhos mais uma vez pela sala. "Ou talvez de todos".
Ela sorriu, sentindo-se mais energizada e levantou-se da cadeira, começando a aula.
Safira sentou no fundão, colocou sua bolsa de marca em cima da mesa e tirou seu caderno.
Safira não sabia os nomes das pessoas que estava interessada, mas quando as viu entrar pela porta, espiou com o canto do olho para a garota que a intrigou na noite passada, aquela que desmaiou.
Pensou que poderia ler a mente dela, mas não teria graça nenhuma! Como gostava de desafios, resolveu ir com calma. É, era isso que ela estava precisando. "Ou talvez aquele gatinho, que estava no porão. Ele me prometeu uma bebida, eu com certeza vou cobrar" Pensou mordendo os lábios pintados de vermelho carmim.
"Hummm, interessante! Meu pai precisa saber o que está acontecendo aqui... Ultimamente coisas estranhas aconteceram na cidade." Ela pensou secando o rapaz que se sentou ao seu lado. "Uma professora sexy que julga que manda nos alunos, um professor que é super bonito mesmo com o olhar frio costumeiro, um monte de alunos gatos que com toda certeza não são humanos e uma aluna misteriosa que não consigo nem ao menos identificar sua espécie." Ela pensou suspirando e admirando a vista pela janela de vidro. "Terei que descobrir. Ah pai, onde você está? Faz um mês que não tenho notícias suas."
Enquanto a Cassandra dava a sua aula de maneira animada, parecia que o sangue dos alunos voltou ao normal. A sala gradualmente agitou se com a aula.
- Licença professora? - Um dos alunos a chamou na porta da sala.- O professor Valério está chamando você em sua sala privada.
- Obrigada Bomani, já estarei indo, só passarei uma atividade. - Ela confirmou pegando um canetão e começou a escrever na lousa.
"Droga o que ele quer comigo, será que ele me viu na sala dele?" Pensou terminando as atividades e saiu da sala, na dúvida, me fingirei de sonsa ou inventaria uma desculpa tola.
🩸🩸🩸
Bomani se encontrava caótico! Além de se atrasar por ficar horas conversando com seus novos amigos até tarde da noite, tentava se equilibrar entre os cadernos e livros, o motivo?
O africano tinha se esquecido que precisa de pelo menos uma bolsa para carregar o básico. Ainda por cima estava ansioso para fazer uma pausa e ler um livro de espécies, dado por Wei, antes dele sair do quarto dos meninos com quem formou laços de amizade.
O corredor que ele precisava seguir para chegar na sala em que seria lecionada a próxima aula era no mesmo andar em que ficava a biblioteca. Coincidentemente, na mesma hora, Safira atravessou as portas duplas de vidro sem pressa alguma, diferente dele.
A vampira de olhar leviano colocou seus fones de ouvido e pegou suas coisas. Havia muitos pensamentos poluindo sua mente, questões que ela sabia precisar resolver. Estava com sede, parecia que alguns pescoços nunca seriam suficientes! Ela só bebia sangue de humanos, mas com novos moradores na cidade, já está questionando-se sobre um desejo novo que parecia surgir da sua mente.
Só sentiu o impacto do encontrão que deu em alguém.
- Que droga garoto. Você é cego? - Rosnou brava.
Os dois jovens não caíram ao chão, mas Bomani se sentiu ainda mais desesperado quando viu que havia derrubado todas as suas coisas e a da bela vampira, criando um caos no assoalho. O africano não respondeu de primeira, somente se abaixou para pegar tudo o mais rápido possível.
- Me desculpe... - Falou, já terminando de pegar suas coisas e se levantar ficando de frente para a vampira.
Safira bufou brava, sua bolsa cara ainda estava naquele chão sujo. Sim ela se importava com coisas banais daquele tipo. Contou até mil, enquanto fuzilava o garoto em sua frente com seus olhos escuros.
"Se não estivéssemos em público, você seria apenas um corpo, eu tomaria cada gota do seu sangue com vontade." Ela pensou ainda o fuzilando com os olhos, sem saber que aquele garoto a sua frente era um dos maiores assassinos de demônios do mundo.
- Você pode pelo menos tirar minha linda bolsa do chão? - Ela suspirou ainda o fuzilando.
- Você quer segurar minhas coisas para eu fazer isso, senhorita? – Ele retrucou estendendo suas coisas na direção da mulher.
Ela mostrou um sorriso, mas sua expressão era raivosa.
- Garoto, você sabe quem eu sou para estar falando assim comigo?
De forma debochada, um sorriso surge nos lábios do rapaz, os dentes brancos em contraste:
- Não é como se fosse importante para mim. Aliás, se está tão incomodada com a sua... – ele olha para o chão vendo o acessório ali – bolsa. Você que a pegue. Tenho mais o que fazer, tenha um bom dia.
Bomani saiu de perto da vampira sem nem mesmo encostar na bolsa. Safira ficou observando-o. Ela deu um grito de ódio, tão alto, que todos os que passavam por ali naquele momento se viraram para olhá-la.
- Você me paga! Nunca mais aparece na minha frente, senão você está morto. - Esbravejou.
Um garoto aleatório da universidade se aproximou dela, pegando suas coisas da maneira mais serviçal possível, entregando para a vampira de maneira muito feliz, nitidamente contente por falar com sua musa!
- Oi Safira, não sei se você me conhece...
Irada, Safira apenas pega as coisas das mãos do garoto. E dá as costas para ele, sem nem agradecer:
"Nunca mais quero ver aquele idiota na minha vida." Ela pensou em Bomani, enquanto procurava seu livro.
- Droga que livro é esse? - Assustou-se quando percebeu um objeto diferente em sua bolsa.
O livro havia sido trocado!
"Ah... aquele idiota... não". A bela vampira pensou colocando a mão na testa desacreditada.
A reação da vampira foi engraçada para Bomani, garotas mimadas são bem sensíveis com o ego. Quando chegou na sala, sentou-se deixando suas coisas sobre a mesa. Esticou o corpo, espreguiçando. Só então ele percebeu haver algo errado nos objetos que trouxe para a sala. Havia um livro estranho no lugar do livro de espécies de Wei.
- Eu não acredito nisso. – Murmurou olhando para o livro de capa dura.
🩸🩸🩸
Cassandra foi até a sala do professor Valério, que estava com sua porta aberta de maneira como se a convidasse para entrar. O belo homem de olhos azuis estava distraído em sua leitura, provavelmente revisando algumas notas.
Pigarreou para chamar atenção dele.
- Você me chamou? O que você quer comigo, Valério?
Ao notar que a Cassandra estava ali em sua frente, Valério levantou da cadeira e respondeu a sua pergunta, rodeando a mesa lentamente, até ficar de frente para a professora, muito próximo:
- Sim, chamei. Bom eu que te pergunto... O que você procurava na minha sala Cassandra?
"Bem direto", ela pensou. Um sorriso surgiu em seus lábios de batom. Devagar, ela se aproximou dele, encostando na mesa, tomando-a como assento.
- Não sabia que a sala era sua! Pensei ser do 'Campus'. - Ela o provocou mostrando um sorriso malicioso.
- Mas sabia muito bem que é aqui onde eu deixo minhas coisas... - Ele se aproximou mais dela, quase sussurrando em seu ouvido. O perfume foi jogado para as narinas da professora, que apenas absorveu o sedutor aroma amadeirado, como uísque e carvalho. - Já que estava mexendo nelas, então porque não me conta o que você procura? Talvez eu possa ajudá-la a encontrar.
Mordiscando os lábios enquanto retribuía o olhar intenso de Valério, Cassandra tomou fôlego:
- Acho que você não vai entender. - Em sua voz, um rastro de desdém, enquanto percorria o corpo dele com os olhos em uma poderosa secada. - Professor Valério, sinto muito. Acabei de chegar para lecionar e não estou habituada ao mapa da Universidade. Errei a sala. - Lutando contra o elo magnético entre eles, Cassandra se afastou, levantando-se.
De forma clara, ela se sentiu desconfortável com sua aproximação. Até então vivia de forma independente, uma vampira solitária. E a sensação elétrica que fluía entre eles a incomodou.
Percebendo o incômodo da professora, ele não deixou de sorrir de lado:
- Senhorita Cassandra, quem sabe um dia a gente não faz um tour pelo campus para que eu possa te ensinar em qual lugar você deveria entrar ou não. - Ele deslizou o indicador pelo braço da professora. - O que houve?
Um arrepio tirou Cassandra de seu cerne. Ela se afastou mais, acuada. Sem querer bateu o pé na mesa e derrubou os papéis e pastas empilhados. O som foi seco e forte, como um martelo batendo no chão e chamou sua atenção. Quando se abaixou para pegar o que derrubou, ela percebeu um livro muito específico, de uma coleção secreta e oculta na cidade.
- "História de Stelivy: Os segredos dos clãs". - Leu o título enquanto ficou em pé, arqueando uma sobrancelha e com o livro na mão, balançando. - O que você está fazendo com esse livro, Professor Valério?
Ela estava sorrindo. Ela sabia que seria interessante aquela conversa.
- Eu gosto de coisas históricas! - Ele simulou, com um sorriso fraco, pegando os livros das mãos da vampira.
Cassandra deu uma risada sexy.
- Ohhhh! Não duvido! Mas já que está me questionando, está sendo um hipócrita, pois que eu me lembre, esse livro foi retirado diretamente da coleção do Sr. Jones, que fica na Biblioteca escondida no porão. - Vitoriosa, agora ela quem se aproximava dele, arrumando sua gola da camisa social. - Ou você entrou magicamente na biblioteca secreta, ou você tem muitos segredos que vou adorar tirar... um a um... de você.
- Não sou um homem de segredos e nem de roubar. Eu só pego emprestado... - Valério a puxa para si, envolvendo o braço em sua cintura. - Eu adoraria tirar outras coisas de você...
Cassandra tomou fôlego para falar, mas não teve tempo. Um barulho estrondoso interrompeu vindo do lado de fora. Ela reconheceu o típico o som de uma hélice de helicóptero.
Afastou-se de Valério e dirigiu-se até à janela de vidro. Dali visualizou um luxuoso helicóptero branco pousando no gramado do 'campus'. Abriu um sorriso e balançou a cabeça: sabia bem de quem era.
Saiu da sala deixando o professor sem entender nada.
O helicóptero aterrissou no gramado verde e amplo, a ventania balançou violentamente a copa das árvores. Era uma cena inusitada, que criou uma aglomeração de jovens em volta e nas janelas do prédio da Universidade.
Todos observaram um homem descer do helicóptero. Não, aquele não era um homem qualquer. Muito bem vestido com um terno feito sob medida, na altura certa colado em seus ombros fortes, deveria ser bem alto, de aura imponente. Seus olhos verdes eram sagazes, tribulando por todos os rostos na multidão, analisando cada detalhe. Seus lindos cabelos estavam rigidamente penteados para trás. Ele passou a mão no cabelo perfeito. E foi atigindo por um abraço que o apertou animadamente.
- Pai, você voltou. - Sua filha disse, o enlaçando em um abraço de urso.
- Oh! Minha 'Safirinha'. - Um sorriso pairou no rosto, antes carrancudo, do homem. - Trouxe algo para você. - Ele disse pegando do bolso interno do paletó uma caixinha embrulhada com fitas de cetim vermelho. E entregou.
- Ah! Ah, papai, obrigada. - Safira aceitou o presente do seu pai.
- Olá senhor Jones.
- Senhor diretor Bronwen. - Jones disse aceitando a mão do senhor de idade, que era um puxa-saco dele. O senhor baixinho, de bigode, fazia tudo para agradar o homem que vinha a ser o maior investidor da cidade.
- Senhor Jones, tenho inúmeras questões para reportar. - O diretor disse, o guiando para que entrasse na Universidade pela porta dupla de madeira.
Safira agarrou nos braços do pai e fora desfilando ao seu lado, percebendo os olhares invejosos em sua direção.
- Nossa! O pai dela é tão lindo. - As meninas do 'campus' murmuravam animadas.
Chegando na sala do diretor, o Senhor Bronwen, mostrou a cadeira para que Jones se acomodasse, mas ele deu a volta e sentou na poltrona do diretor, colocando os pés sobre a mesa do reitor.
- Se acomode onde quiser Sr. Jones. - Ele sugeriu, sentando de frente para Jones. - Safira, fofa... - O diretor chamou a atenção da garota que mexia no celular. - Pode nos dar licença? - Ele pediu com todo cuidado do mundo, sobre os olhos de Jones.
"Pode ir filha, mas tarde conversamos." Ele pensou balançando a cabeça, concordando.
"Ok... Pai, te espero em casa." Ela se comunicou com o pai, pelo pensamento saindo da sala do diretor.
- E então senhor Bronwen, o que queria falar comigo?
- Ah! Senhor Jones, tenho tanta coisa para te contar... Nossa cidade virou um caos sem o senhor aqui. - O senhor confessou triste.
- Eu imaginei. - Jones suspirou se levantando. Ele foi até a janela, colocou a mão no batente e sorriu. - Não se preocupe, senhor Bronwen, o dono da cidade voltou.
Ele assobiou, vendo os alunos passearem pelos campos.
"Fiquei tempo demais fora, as pessoas devem saber quem manda nessa cidade."
Jones estava muito confiante, mas ele não imaginava que dentre as inúmeras coisas que haviam mudado na cidade, muitas delas ele não iria gostar.