Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Fantasia > Onde O Sol Se Perde
Onde O Sol Se Perde

Onde O Sol Se Perde

Autor: D.Rennard
Gênero: Fantasia
Em meio a uma guerra que já dura vinte e cinco anos, uma jovem desperta sozinha em um campo de batalha sem lembrar quem é, de onde veio ou como chegou ali. Ela veste as roupas de uma sacerdotisa, mas não parece saber o que isso significa. É Elías quem acaba assumindo a responsabilidade de levá-la até um templo, na esperança de que os registros dos sacerdotes possam revelar sua identidade e, talvez, conduzi-la de volta para casa. O que deveria ser apenas uma viagem até a próxima cidade acaba se transformando em uma longa jornada por um mundo marcado pela guerra, pela superstição e por coisas que nem sempre podem ser explicadas. Conforme os dias passam, os dois começam a aprender um sobre o outro. Ela, que parece estar descobrindo o mundo pela primeira vez, aprende aos poucos sobre as pessoas, seus costumes e seus sentimentos. Elías, inicialmente convencido de que só está cumprindo uma promessa, passa a se preocupar cada vez mais com aquela estranha companheira de viagem. Entre noites compartilhadas, pequenas conversas, silêncios e situações cotidianas, a relação entre eles vai mudando sem que nenhum dos dois saiba exatamente quando aconteceu. A jornada, então, deixa de ser apenas uma busca por seu passado. Torna-se também uma descoberta de quem ela é , e do vínculo que lentamente se forma entre duas pessoas que, em circunstâncias normais, talvez jamais tivessem se encontrado. Uma fantasia de mistério, descoberta e romance de construção lenta, em que o relacionamento dos protagonistas se desenvolve aos poucos, através da convivência, da confiança e dos pequenos momentos compartilhados, enquanto o passado da garota permanece como uma pergunta que os acompanha por toda a jornada.
Ler Agora

Capítulo 1 Em Lugar Nenhum

Era como se nada existisse. Apenas a escuridão se estendendo e desdobrando ao infinito e um pouco mais além. Aqui, neste lugar, nada existe. Coletivo ou individual, físico ou incorpóreo, nada disso importava. Seus pensamentos se juntavam e dispersavam antes de se formarem e desfazerem novamente.

Nada tinha cheiro, forma, tato, sabor ou som e, ao mesmo tempo em que tudo se convergia e se dissipava rapidamente, sempre ao alcance e eternamente distante o suficiente.

E então havia som. Um eco constante e ritmado, cada vez mais alto e imponente. Então, dentro desse vazio, em algum lugar com certeza havia algo, espreitando, esperando uma chance e que talvez fosse percebido, desejando ser reconhecido pela primeira vez.

- Seu tempo ainda não acabou. - Com uma única frase, todo o vazio estremeceu e pareceu encolher e dobrar em si mesmo. O espaço gemia e grunhia como se suportasse um peso inimaginável.

De repente havia luz. Ranhuras se estendiam indefinidamente, linhas finas em todas as direções, como se finalmente cedendo ao inevitável tudo colapsasse apenas para se condensar em um único ponto brilhante, uma pequena luz branca que parecia sugar toda a existência para si. Ao lado deste pequeno ponto uma figura disforme se fazia notável, seus traços impossíveis de distinguir.

- Este é seu. - O ser estendeu a pequena luz. - Eu vou esperar. Vá.

A luz branca se tornou opaca e então se estilhaçou. Logo havia forma e tato e a sua consciência retornou, os próprios pensamentos ainda além da compreensão, difíceis de interpretar e categorizar. E então o que lhe cercava já não era mais vazio.

Ela começou a cair.

- Espere... Por favor... - Sua própria voz clamava, fraca e mal compreendida por aquela que a pronunciava. Mas já era tarde. Suas mãos se estendiam em direção àquela figura disforme e enevoada que estava cada vez mais distante e inalcançável, até que o ser já não estivesse mais visível.

Ela continuou a cair, sem noção de nenhuma medida de tempo ou direção, até ser engolfada pelo frio. Um frio tão antinatural e invasivo que desfazia o próprio ser e incapacitava a mente. Ela tentou se mover, porém a queda continuava. O frio penetrava cada vez mais profundamente e então um impacto roubou seu ar e ela lembrou que podia respirar. Seu coração corria. O corpo foi tomado por tremores que nada tinham que ver com o frio. Os pulmões se encheram de água e os arredores se tornaram mais uma vez confusos e não familiares.

Em meio à sua luta desesperada por ar, ela notou, ali em meio à escuridão submersa e beirando a inconsciência, despretensiosamente, uma fenda de luz. A água se tornou pesada e pegajosa e se agarrava aos seus membros. A cada momento ficava mais difícil respirar. Era como se seu próprio corpo resistisse aos comandos e mãos lhe puxassem para cada vez mais longe. Arrastando-se desesperadamente, abrindo caminho e agarrando-se a montantes do que antes era água e agora era algo indistinto e lamacento, ela alcançou a fenda, agarrou com as duas mãos e forçou uma abertura.

Vá. Ela tinha que ir, ainda era incerto onde ou por quê. Porém, no fundo de sua mente, aquela voz irreconhecível lhe dizia para ir. Siga, não pare. Você tem que ir. Ela não ia parar. Não nesse lugar desconhecido e escuro. E não antes de alcançar onde tinha que ir, onde quer que esse lugar fosse.

Com mais força a fenda começou a se abrir, uma luz cegante emanando da abertura cada vez maior e o frio deu lugar ao calor. Mas, diferente do frio agressivo, esta luz era gentil e reconfortante, acolhendo e lhe embalando em um murmúrio suave. Ao fechar os olhos e se deixar envolver pela luz, ela pensou mais uma vez naquela figura misteriosa e sem forma e percebeu, no último instante antes de se entregar ao calor, que a voz lhe parecia intimamente familiar. Essa impressão logo foi absorvida pelo abraço da inconsciência. Não por muito tempo ela viria a recordar deste sentimento.

E então havia cheiro. Suas narinas ardiam e eram invadidas pelo odor pútrido, mas também adocicado. E havia gosto. Algo quente e amargo preenchia sua boca. Ela tentou abrir os olhos. Seus cílios tremeluziam com o esforço e pequenas gotas de orvalho pendiam dos fios delicados. Ao abrir uma pequena fenda rapidamente os fechou devido à ardência. Havia mais luz. Então tentou novamente, desta vez mais devagar, e se deu tempo para se acostumar à queimação daquela luz brilhante que vinha de cima.

O sol, ela pensou, colocando as mãos em frente ao rosto, encarando por um momento seus dedos ossudos e pálidos, e se pôs a estrela brilhante acima, aproveitando somente por mais um momento o calor do astro.

Ouvindo com mais atenção, ela percebeu o farfalhar de folhas. Com cautela desviou o olhar do céu límpido e cristalino para seus arredores.

A cor azul do dia, enganosamente radiante acima de sua cabeça, poderia mascarar o cenário devastador a poucos metros de seus pés. À frente corria um rio caudaloso cortando uma planície que se estendia até onde a vista conseguia alcançar, porém as águas estavam paradas, não havia corrente. Já às suas costas se erguia uma floresta esparsa. Estranhamente todas as árvores pareciam ter o mesmo tipo de tronco e folhas, presumivelmente todas eram da mesma espécie, quase como se alguém as tivesse plantado.

Porém havia um fator que perturbava o cenário natural. A água do rio, as raízes das árvores e cada lâmina de grama que cobria o chão da planície estavam manchadas de vermelho brilhante.

A intensidade do cheiro metálico aumentava a cada momento e além da própria respiração e do farfalhar das folhas em suas costas, não se escutava mais um único ruído em toda a planície.

Até onde a vista pudesse alcançar, estandartes rasgados tremulavam ao vento onde estavam fincados no solo, metal retorcido abandonado no chão ao lado das figuras imóveis de homens e cavalos.

Com um impulso instável, ela começou a caminhar em direção ao rio, o corpo trêmulo e enfraquecido, seus músculos doloridos mal funcionando. Os pés se arrastando mal saíam do solo em cada passo. Desviando dos desconhecidos que deitavam sem a esperança de um dia abrirem os olhos novamente e com cuidado para não tropeçar, ela alcançou a borda do corpo de água, que antes presumia ser cristalino e agora estava maculado com um tom rosado.

Ajoelhando-se e encarando a superfície reflexiva, encarando o que se presumia ser seu próprio rosto no lago, foi com surpresa e perplexidade que então percebeu.

Não houve sequer um traço de reconhecimento.

Ela não fazia ideia de quem era.

Mas de alguma forma sentia como se tivesse perdido algo extremamente valioso, algo que não se podia pôr em palavras. Ela havia deixado isso em algum lugar, só não se recordava onde. Tudo mais podia esperar para ser lembrado. Ela precisa começar a buscar aquilo primeiro.

Capítulo 2 À Sombra do Sol

Olhando por mais um momento para o reflexo, uma sensação de perplexidade começou a se instalar, um arrepio percorreu sua espinha e dormência começou a se espalhar pelas extremidades. Caindo de joelhos à beira do lago e tomada pela falta de ar, cada vez que encarava a imagem refletida naquela superfície espelhada, seu coração batia alto o suficiente para que fosse possível escutar nos próprios ouvidos.

Não é possível, de quem é esse rosto? Esse rosto não me pertence, ela pensou. Porém a realidade da situação foi ficando cada vez mais aparente. Esse realmente não é o rosto dela? Como era o rosto? E onde ela está? Como ela veio parar nessa zona de guerra?

Quanto mais ela pensava sobre isso, mais sentia sua visão se estreitar. O mundo se inclinava e desfocava nas bordas. Uma dor de cabeça perfurante lhe atingiu, fazendo com que levasse as mãos ao cabelo, pressionando a cabeça com força e agarrando os fios escuros e sujos dos detritos da cena ao redor.

Quem eu sou? Quem eu sou? Quem eu sou?

Quanto mais ela pensava mais a dor de cabeça se aprofundava. Sem conseguir obter nenhuma epifania, ela começou a hiperventilar. Seus olhos se encheram de lágrimas, seus pulmões cada vez mais doloridos ao serem privados do ritmo de respiração adequado. Aos poucos pequenos fragmentos de memória ressurgiram. Tudo que ela podia lembrar era um pequeno fragmento de luz e a sensação pegajosa de algo agarrando seu corpo. Esta última lhe fazia se sentir ainda mais suja e desgastada do que a combinação de terra, sangue, suor e lágrimas reais que cobriam seu corpo.

Quando a dor se tornou cegante e as bordas de sua consciência começaram a escurecer, uma mão agarrou seu ombro de forma brusca, tirando-lhe à força do torpor e do estado de pânico.

- Que porra você tá fazendo? - Uma voz masculina rouca e áspera. Apesar de faltar um pouco de força por trás da pergunta, seja devido ao estado da pessoa ou realmente pela falta de intenção ao xingar, a voz parecia firme e determinada. - Sobreviver esse desastre pra morrer afogada por ter caído em um lago sujo não é muito inteligente.

Olhando para cima, bloqueando a luz do sol, a silhueta de um homem se destacava. O cabelo escuro e olhos verdes brilhantes. Apesar da sujeira que claramente impregnava as roupas e a pele do mesmo, ainda era possível afirmar que este homem era alguém cuja aparência é extremamente marcante.

- Quem é você? - Ela falou pela primeira vez desde que acordou, se dando conta do quão seca sua garganta estava. Essa pequena frase exigiu um grande esforço e ainda assim sua voz soava extremamente rouca, fazendo uma pequena careta de desagrado tanto pela sensação de areia na boca quanto pelo som da própria voz.

O homem levantou a sobrancelha, parecendo um pouco confuso e ao mesmo tempo intrigado. Mesmo assim pareceu aceitar a pergunta.

- Elias... - Ele pareceu aguardar um momento, os olhos analisando-a de cima a baixo e catalogando, como se esperasse algo mais antes de perguntas. - E você? Não parece que você devia estar aqui - afirmou, como se fosse óbvio, como se ela devesse saber o que ele queria dizer.

- Eu não sei.

- O quê? - Ele lhe lançou um olhar exasperado.

- Eu não lembro - ela esclareceu. O mundo parecia um pouco menos confuso agora que tinha algo mais em que focar. Elias aparentava estar ainda mais confuso antes de perguntar um pouco mais bruscamente.

- Como você não lembra?

Ela sentiu algo estalar. Sua enxaqueca parecia que poderia voltar a qualquer momento. Ela estava no meio do nada, não se lembrava de nada e não sentia que pertencia à própria pele, e agora havia um estranho querendo informações que ela não tinha.

- Eu não sei! Não lembro! - respondeu, se sentindo irritada. Ela deu um tapa na mão que segurava seu ombro, fazendo com que ele recuasse. - Se você sabe algo me diz! Não consigo saber se você não me disser, não lembro nada!

Elias recuou, jogando as mãos para cima, ofendido, e olhou para a mão que foi atingida como se não pudesse acreditar que ela tivesse feito aquilo. Ele suspirou mais uma vez antes de comentar em um tom arrependido.

- Tudo bem, desculpe. Pelas suas roupas você não devia estar aqui. Essa é, ou melhor, era uma zona de conflito da vanguarda. - Ele olhou ao redor com um pouco de arrependimento e esperou uma resposta da mulher ainda ajoelhada. Percebeu que a informação não trazia nenhuma familiaridade. Ele suspirou novamente antes de continuar. - Você está usando roupas do templo, provavelmente é uma sacerdotisa. Devia estar na área de cura ou entrar com uma equipe depois que o conflito tivesse acabado, para, sabe... abençoar os mortos e os feridos, coisas assim. - Ele acenou com a mão para o campo aberto.

A única resposta que ele recebeu foi uma inclinação de cabeça confusa. Era como se ele estivesse falando outra linguagem. A garota parecia um passarinho que bateu em uma janela, tão confusa que não conseguia se pôr em pé, mas ele não conseguia ver nenhum ferimento grave. Além da sujeira, algumas contusões, havia um pouco de sangue no canto dos lábios dela, mas ela parecia saudável.

Ou ele pensou até que ela tomou a iniciativa de se levantar, instável e com os joelhos trêmulos como um filhote recém-nascido. Agora que ele conseguia vê-la por completo, pensou que algo não parecia certo.

Ela tinha cabelos longos e escuros, um porte delicado e postura firme. Não parecia abaixo do peso. Com exceção de arranhões nos joelhos e cotovelos nada parecia fora do lugar. Se excluísse a imundície das roupas poderia facilmente categorizá-la como uma jovem dama de média ou alta posição, que em nenhuma circunstância sequer respiraria próximo a uma zona de guerra. Mas aqui estava ela, numa cova a céu aberto de uma vanguarda falha, vestindo o manto de sacerdotisa. Que tipo de família deixaria uma filha tão bem cuidada se dedicar ao templo?

Uma mão delicada se estendeu para afastar os cabelos do rosto com uma careta. Os fios estavam claramente emaranhados e sujos. Ao ver os pulsos da jovem, Elias segurou a respiração. Um anel escuro envolvia o pulso da mesma. Abaixando o olhar, ele percebeu uma lesão igual no outro pulso.

Ouvindo o som da inspiração, ela ergueu os olhos rapidamente, com uma pergunta escrita no rosto. Elias não sabia o que responder ou explicar. Olhando para o pescoço da mesma, agora que a encarava de frente, de repente se sentiu sem palavras. Ali, ao redor da garganta, fazendo um conjunto com as marcas dos pulsos, repousavam as marcas arroxeadas e extremamente definidas de dez dedos. As marcas foram impressas com tal violência que cada um dos dedos podia ser contabilizado.

Elias sentiu o impulso de estender a própria mão para verificar as marcas mais de perto, porém ao receber o olhar desconfiado e arisco se sentiu um pouco estranho e retraiu a mão após pausar por um instante.

Era uma situação verdadeiramente estranha. Nenhum dos dois deveria estar vivo e, de alguma forma, eram os únicos em pé ao meio de algumas centenas de outros mortos. A única outra pessoa sobrevivente sequer parece lembrar como sobreviveu. O mais estranho ainda, apesar de claramente sofrer de perda de memória, ela parece alerta. Após o pequeno colapso seus olhos agora estão afiados e já observando tudo ao redor. Ela não parece ter perdido o senso racional ou a capacidade lógica e, apesar de não ter noção da própria identidade, ainda mantinha seu temperamento, um forte por sinal.

De repente Elias sentiu que não queria se envolver mais do que o necessário. E quanto mais olhava para a jovem que parecia estar debatendo o que fazer, ele rapidamente fez questão de se despedir.

- Já que você não parece mais que vai se matar por acidente, vou indo, boa sorte! - Assim que a última parte da sentença foi falada e ele se virou para começar a caminhar, sentiu um par de olhos afiados cravarem na sua nuca. Um arrepio imediatamente percorreu o local e ele sentiu o couro cabeludo formigar.

Sem dúvida, logo havia alguém caminhando ao seu lado. Não importava o quão trêmula a jovem estava antes, agora não importava o ritmo que ele caminhasse, desde que não corresse ela conseguia acompanhá-lo.

- Por que você está me seguindo? - Ele perguntou entre dentes, parando para encarar sua agora sombra.

- Você parece saber para onde ir - a resposta foi simples e desapegada, acompanhada de um breve encolher de ombros.

Pressionando os olhos por um momento, Elias podia começar a sentir uma enxaqueca se aproximando.

- Você ao menos sabe até onde tem que ir?

Sua pergunta foi recebida com outro encolher de ombros. Então ela pareceu pensar por um momento antes de seus olhos brilharem como se entendesse algo. Elias se sentiu esperançoso, mas então ela pôs os pensamentos em palavras.

- Eu tenho certeza de que perdi alguma coisa, então tenho que encontrar, mas não está aqui - ela disse apontando para os próprios pés.

Tentando não iniciar mais uma discussão com alguém que claramente ainda estava instável, Elias perguntou uma última vez.

- Você sabe em qual região você deixou o que quer que seja isso?

- Não.

Frustrado e ainda mais derrotado do que quando acordou após a batalha, Elias soltou uma respiração exasperada e, escolhendo uma direção aleatória, começou a caminhar novamente.

Dando uma última olhada para a zona de guerra que ficava para trás e então para a jovem ao seu lado, ele não conseguiu afastar a sensação de mau agouro que caía sobre si mesmo como um cobertor e que não tinha nada a ver com a aura de morte que ficava para trás com os corpos dos soldados derrotados.

Capítulo 3 Quando O Sol Se Apaga

Por um longo tempo nenhum dos dois falou nada. Seguiram caminhando na direção que Elías havia escolhido, em silêncio. Em algum momento encontraram uma trilha disforme e mal pavimentada, onde a floresta se estreitava em ambos os lados, provavelmente aberta por um dos exércitos responsáveis pelo massacre de antes.

Conforme a aura de morte ficava para trás e o sol, antes alto no céu, começava a dar sinais de repouso, ela refletia sobre a própria situação. Já havia desistido de tentar lembrar de algo algum tempo atrás. Não importava se era uma árvore particularmente retorcida ou uma pedra com alguma forma estranha, nada parecia familiar. Assim, acomodando-se à ausência de suas memórias, decidiu focar na próxima coisa mais tangível ao seu redor: o homem alto de cabelos escuros.

Elías.

Assim como ela, pelo pouco que conseguia perceber, ele também não parecia alguém que deveria estar naquele lugar. Era alto e esguio. Tinha músculos, mas seu físico era mais tonificado e leve do que o adequado para suportar as armaduras e armas pesadas espalhadas pelo campo de batalha. Seu corpo não se parecia com o dos soldados adormecidos.

Se não fosse pela arrogância natural com que observava tudo ao redor, talvez pudesse até ser descrito como desajeitado.

- Como você sobreviveu?

Elías quase tropeçou com a quebra repentina do silêncio e olhou para ela, estupefato.

- Como assim sobrevivi? Eu lutei como todo mundo. Só aconteceu que fui o último de pé.

Sua resposta foi seguida por um silêncio reservado, quase julgador. Ela não se virou para encará-lo e apenas continuou caminhando normalmente.

- Você não acredita? Eu obviamente fui o único que sobreviveu. Minhas habilidades com certeza serviram, sabe...

- Você, sua pirralha, por que perguntar se vai me ignorar?

Ela parou abruptamente, virando-se ligeiramente para ele e levantando uma das sobrancelhas. Elías quase se engasgou com a própria saliva, incrédulo, antes de começar a resmungar.

- Eu estava na parte de trás do batalhão. Um tempo depois de o conflito começar, levei uma pancada na cabeça e desmaiei. Quando acordei, estava embaixo de um monte de corpos. Acho que a vitória do inimigo foi tão unilateral que ninguém se deu ao trabalho de verificar se alguém tinha sobrevivido... e não sobrou ninguém do meu lado. Então só tinha você, quase caindo de cabeça no rio... e eu.

- Então você perdeu e teve sorte. Entendi.

Vendo como ela acenava com a cabeça com seriedade, Elías de repente se sentiu estranhamente ofendido.

- Sua pirralha! Você! Por que-

Elías não teve tempo de terminar o que provavelmente seria um longo discurso em defesa da própria honra. Um barulho de marcha se aproximava rapidamente pela frente.

Ele agarrou o pulso dela e a puxou para a vegetação à beira da estrada, cobrindo sua boca com a própria mão quando os olhos dela se arregalaram. Em seguida levou o indicador aos lábios, pedindo silêncio.

Ela assentiu cautelosamente, e Elías a orientou a se agachar entre as árvores e arbustos.

Não precisaram esperar muito.

O som de vários passos e cascos ficou cada vez mais alto. Prendendo a respiração, os dois se encolheram ainda mais.

O grupo parecia conter algumas dezenas de pessoas. Alguns montavam cavalos, e o tilintar de metal denunciava armas e armaduras.

Quando os passos começaram a diminuir, os dois ouviram latidos.

Os olhos esverdeados de Elías pareceram ficar ainda maiores. Ele cobriu a própria boca com as duas mãos, e sua companheira rapidamente imitou o gesto.

Os latidos ficaram mais próximos.

Em vez de se afastar, aproximavam-se.

Os corações dos dois dispararam. O sangue corria como se fossem coelhos prestes a serem capturados pelas mandíbulas dos cães.

Talvez os animais pegassem o rastro de seu cheiro: uma jovem sacerdotisa acompanhada de um soldado sem armadura, mas ainda vestindo a segunda pele do equipamento nas cores do inimigo.

Talvez fossem decapitados ali mesmo.

Ou levados para interrogatório e executados depois.

Ou mantidos em cativeiro até perceberem que nenhum dos dois tinha valor algum.

- Que porra tem de errado com esses bichos? Eles não param há horas! Vamos, seus idiotas, não tem nada aí! A vanguarda escorraçou todo mundo. Até os bichos devem ter abandonado o mato!

O responsável pelos cães xingou e assoviou, chamando a atenção dos animais. Após alguns instantes, eles finalmente abandonaram qualquer rastro que pudessem ter captado e seguiram em frente, ganindo.

Quando o chão já não tremia mais e os passos desapareceram ao longe, ela e Elías finalmente puderam respirar.

Baixaram as mãos e tocaram o solo com os dedos, como se precisasse se ancorar. Hiperventilavam, os joelhos fracos, levando alguns minutos para recuperar o fôlego.

- Vamos seguir um pouco mais - disse Elías por fim. - Depois entramos na floresta e procuramos um lugar para passar a noite. Amanhã mudamos de direção. Se continuarmos assim, vamos acabar dando de cara com o acampamento principal.

Ele respirou fundo.

- Tivemos sorte. Quando acordamos, a vanguarda deles já tinha ido embora. Estão com pressa para avançar. Esse grupo deve ter vindo limpar e segurar o território.

Ela franziu levemente a testa.

- Quem são "eles"?

-Nosso reino vizinho. Acho que ainda estamos bem perto da fronteira. Uns cinquenta anos atrás uma nova família real assumiu nosso trono. Eles começaram a anexar os reinos menores um atrás do outro até que só sobraram o nosso e mais três reinos maiores. O apetite da família real não diminuiu mesmo depois de tanto tempo, e eles continuam ameaçando os vizinhos que restaram. Acho que a gota d'água para o reino inimigo foi que a família real impôs uma mudança de religião no continente... Não sei se eu devia falar esse tipo de coisa para uma sacerdotisa.

Ele riu, como se achasse a situação engraçada.

Ela, por sua vez, ignorou o comentário e respondeu com expressão séria, sem hesitação.

- E como você sabe que sou uma sacerdotisa? Pelo que você sabe, posso ter roubado a roupa de alguém.

- Roubar do templo é crime!

- Eu não lembro. Você pode condenar alguém por algo que a pessoa não sabe se cometeu? Além do mais... talvez eu realmente seja uma sacerdotisa e te denuncie para o templo.

- Para alguém sem memória você raciocina rápido...

- E para alguém da sua idade você suspira muito.

Elías não conseguia deixar de se sentir perplexo. Como essa garota conseguia falar qualquer coisa sem contrair um músculo do rosto ou sentir o mínimo de vergonha? Realmente um talento a ser apreciado.

Vendo o sol se escondendo e a escuridão manchando os arredores, Elías sinalizou para que parassem. Olhando ao redor da floresta densa, franziu a testa e de repente percebeu um problema fatal.

- Seria um ótimo momento para você realmente ser uma sacerdotisa e invocar uma faísca, porque eu não sei fazer fogo -.

- Que tipo de soldado é você? Mesmo se eu for, é claro que não sei fazer nada. Eu-

- Não lembra, eu sei!

Ele completou a frase e rapidamente agarrou a faixa de couro desgastada que estava presa à própria coxa. Com a outra mão segurou o pulso dela, que sequer piscou.

Ela realmente devia ter um instinto de preservação maior, ele pensou. Porém, a essa altura não adiantava ela estar alerta contra ele. Se algo fosse dar errado por culpa dele, já teria acontecido.

Ele começou a amarrar as mãos deles juntas o mais forte que conseguia, chegando a usar os dentes para puxar a faixa.

Quando terminou, vendo o sol em sua última faixa de luz, explicou rapidamente:

- Escuta. Vamos sentar aqui, bem embaixo dessa árvore. Não vamos nos mexer até amanhecer. Não importa o que aconteça, o que você escute ou sinta, não vamos soltar as mãos um do outro até o sol aparecer de novo.

- E se alguém aparecer e ver a gente parado? Não devíamos estar mais perto da estrada?

Ela olhou para o caminho de onde vieram e depois para as mãos amarradas.

Elías lançou um olhar estranho para ela, e ela teve a sensação de que estava perdendo alguma informação importante.

- Ninguém vai encontrar a gente. Não vamos conseguir ver nada. Não tem luz à noite. Mesmo que conseguíssemos fogo, só ia aumentar nosso campo de visão em alguns palmos.

Ela não compreendeu exatamente o que Elías quis dizer, mas o seguiu até a árvore e se sentou ao lado dele. Além das mãos amarradas, ele fez questão de segurar as palmas com força.

- Se prepare.

Com esse aviso ele fechou os próprios olhos e encostou a cabeça na casca da árvore, como se fosse dormir.

E logo ela compreendeu o significado das palavras anteriores.

Assim que o sol deu seu último suspiro pelo dia, como se alguém tivesse soprado o astro como a chama de uma vela, toda a luz do mundo se extinguiu.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022