Que mala é minha chefe.
Sinceramente, no fim das contas vou ter que pensar igual à metade da empresa: que
ela e Miguel, meu colega que se acha o máximo, têm um caso. Mas não. Não quero ser
maliciosa e entrar na onda de todo mundo. O disse me disse das fofocas.
Desde janeiro eu trabalho na Müller, uma companhia farmacêutica alemã. Sou a
secretária da chefe das sucursais e, embora eu goste do meu emprego, muitas vezes me
sinto explorada. Sério... só falta minha chefe me amarrar na cadeira e enfiar um pedaço
de pão na minha boca em vez de me deixar almoçar.
Quando por fim termino a pilha de trabalho que minha querida chefe me encarregou
de concluir até o dia seguinte, deixo os relatórios na mesa dela e volto à minha. Pego
minha bolsa e vou embora sem olhar para trás. Preciso sair do escritório ou acabarei em
todos os jornais como assassina em série de chefes que se acham o centro do mundo.
São 23h20... Tarde pra caramba!
Na rua cai um dilúvio. Perfeito! Tempestade de verão. Chego à porta e, depois de
tomar coragem, corro até o estacionamento, onde me espera meu amado León. Entro
ensopada na garagem e, após apertar o botão de comando, Leonzinho pisca suas luzes
me dando as boas-vindas. É tão fofo...!
Logo me enfio no carro. Não sou medrosa, mas não gosto de estacionamentos, e
menos ainda quando ficam assim tão desertos a uma hora dessas. Automaticamente,
começo a me lembrar de filmes de terror em que uma mulher caminha por um desses
estacionamentos e um desalmado vestido de preto aparece e a apunhala até a morte.
Caraca, que situação!
Entro no carro, aciono as travas, abro a bolsa, tiro um lenço de papel e enxugo o rosto.
Estou encharcada! Mas, justo quando vou enfiar as chaves na ignição... putz!, elas caem.
Solto um palavrão no escuro e me abaixo para procurá-las.
Passo a mão pelo assoalho. À direita elas não estão. À esquerda também não. Droga...
encontro o pacote de chiclete que fiquei dias procurando. Ótimo! Continuo tateando o
chão do carro e por fim encontro as chaves. Então ouço umas risadas próximas e olho ao
redor com cuidado para que não me vejam.
Ai, meu Deus!
Entre risadas e carícias vejo se aproximarem minha chefe e Miguel. Parecem
entretidos. Isso me irrita. Eu me matando de trabalhar até as onze e tanto e eles na
farra. Que injustiça! Logo minha chefe e Miguel se apoiam na coluna lateral e se beijam.
Olha isso...!
Não acredito!
Semi agachada no interior do meu carro pra que não me vejam, contenho a respiração.
Por favor... por favor! Se eles descobrirem que estou aqui, vou morrer de vergonha. Não,
isso não pode acontecer. De repente, minha chefe larga a bolsa e sem a menor cerimônia
toca com determinação no meio das pernas de Miguel. Está tocando ele!!!
Minha nossa! Mas o que é que estou vendo?
Meu Deus! Agora é Miguel quem enfia a mão por baixo da saia dela. Ele levanta minha
chefe, a empurra para cima contra a coluna e começa a se esfregar nela. Uau!
Ai, meu Deus! Que é que eu faço?
Quero dar o fora. Não quero ver o que estão fazendo, mas também não posso ir
embora daqui. Se eu arrancar, eles vão saber que eu estava espiando. Então, agachada e
sem me mexer, não posso deixar de ver o que eles fazem. Logo Miguel a obriga a virar
de costas. Ele a coloca sobre o capô do carro, abaixa a calcinha, primeiro com a boca e
em seguida com as mãos. Caraca, estou vendo a bunda da minha chefe! Que horror! E
nesse momento escuto Miguel perguntando:
- Diz, o que você quer que eu faça contigo?
Minha chefe, como uma gata no cio, murmura completamente entregue:
- O que você quiser... o que você quiser.
Uau, que isso, meu Deus, que isso! E eu na primeira fila. Só falta a pipoca.
Miguel volta a empurrá-la sobre o capô. Abre suas pernas e chupa ela. Ai, minha
nossa! Mas do que estou sendo testemunha? Minha chefe, dona Maníaca, solta um
gemido e eu tapo os olhos. Mas a curiosidade, a atração pelo proibido, ou seja lá como
isso se chame, me domina e eu os destapo. Sem piscar vejo como ele, após se deliciar,
se afasta dela uns centímetros e lhe enfia um dedo, logo dois, e, levantando-se, agarra
sua cabeleira escura e a puxa para si, enquanto mexe seus dedos a um ritmo que, por
que negar?, faria qualquer uma suspirar.
- Siiiiiiiiiiiim! - escuto minha chefe gemer.
Respiro com dificuldade.
Vou ter um troço.
Que calor!
Goste ou não, ver tudo isso está me dando um frenesi, e não é porque eu tenho
andado nervosa. Minha vida sexual é supermorna, beirando o previsível, então essa cena
ao vivo e em cores está me excitando.
Miguel abre a braguilha de sua calça cinza. Põe para fora um pênis mais que aceitável.
Ai, Miguel! E fico boquiaberta quando vejo que ele mete tudo de uma vez só. Assim eu
morro! Mas de prazer... E justo pelo que faz minha chefe gemer.
Meus mamilos estão duros, e logo me dou conta de que estou tocando neles. Mas em
que momento enfiei a mão por dentro da blusa? Depressa eu tiro a mão dali, mas meus
mamilos e o meu desejo protestam. Eles querem mais! Mas não. Assim não pode ser.
Não faço essas coisas. Minutos depois, após vários gemidos e sacolejos, Miguel e minha
chefe se recompõem. Uau! Já terminaram! Eles entram no carro e partem. Respiro
aliviada.
Quando por fim volto a ficar sozinha no estacionamento, saio do meu esconderijo e me
ajeito no banco do carro. Minhas mãos tremem. Os joelhos também. E percebo que
minha respiração está acelerada. Excitada pelo que acabo de presenciar, fecho os olhos
enquanto vou me acalmando e penso em como seria fazer sexo nessa intensidade.
Caliente!
Dez minutos depois, arranco com o carro e deixo o estacionamento. Vou beber cerveja
com meus amigos. Preciso me refrescar e refrescar minha... febre.
No dia seguinte, quando chego ao escritório, todos parecem felizes. Cruzo com Miguel e
não posso deixar de sorrir. Ele e a chefe. Se eles soubessem que os vi... Mas, como não
quero pensar nisso, vou até minha mesa e, enquanto ligo o computador, vejo que ele
vem vindo.
- Bom dia, Judith.
- Bom dia.
Miguel, além de ser meu colega, é um sujeito muito simpático. Desde meu primeiro
dia no escritório, ele tem sido um amor comigo e nos damos muito bem. Quase todas no
trabalho babam por ele, mas, não sei por quê, em mim ele não surte o mesmo efeito.
Será que não gosto dos caras meiguinhos e sorridentes? Mas, claro, agora, sabendo o
que sei e tendo visto como é bem-dotado, não posso deixar de olhá-lo de outra forma
enquanto tento não gritar: "Garanhão!"
- Está sabendo que hoje à tarde tem reunião geral?
- Aham.
Como era de se esperar, ele sorri, segura meu braço e diz:
- Vem, vamos tomar um café. Sei que você adora um cafezinho e uma torrada da
cafeteria.
Sorrio também. Como me conhece, esse desgraçado... Além de simpático e gato, o
cara não deixa passar uma. Isso, somado a seu sorriso constante, é o grande atrativo de
Miguel. Sempre gentil. É assim que ele enrola todas na conversa.
Quando chegamos à cafeteria do nono andar, vamos ao balcão, fazemos os pedidos e
nos dirigimos à nossa mesa. Digo "nossa mesa" porque sempre sentamos ali. Paco e Raul
se juntam a nós. Um casalzinho gay com o qual me dou muito bem. Como sempre, me
dão um beijinho no pescoço e me fazem rir. Começamos a conversar e eu logo me
lembro do que vi na noite anterior no estacionamento. Miguel e a chefe! Que trepada
insana, e bem na minha frente. Que menino-prodígio, esse meu colega!
- O que houve? Você parece distraída - pergunta Miguel.
Sua abordagem me desperta. Olho para ele e respondo, tentando esquecer as
imagens que surgiam na minha mente:
- Estou meio fora do ar, eu sei. Meu gato está cada dia mais fraquinho e...
- Que pena, o Trampinho - murmura Paco, e Raul faz uma cara compreensiva.
- Ah, sinto muito, querida - responde Miguel, enquanto segura minha mão.
Por alguns instantes conversamos sobre meu gato e isso me deixa ainda mais triste.
Adoro o Trampo e, inevitavelmente, a cada dia que passa, cada hora, cada minuto, seu
tempo de vida diminui. É algo que aprendi a admitir desde que o veterinário me alertou,
mas ainda assim me dói. Me dói muito.
Logo minha chefe chega, rodeada por vários homens, como sempre. É uma galinha!
Miguel a vê e sorri. Eu fico quieta. Minha chefe é uma mulher muito atraente. Cá entre
nós, uma cinquentona poderosa, uma morena cheia de si, solteira mas não solitária, e
que dizem ter vários casos na empresa. Cuida-se como ninguém e vai todo dia à
academia. Ou seja, ela gosta... que gostem dela.
- Judith - me interrompe Miguel. - Falta muito?
Volto a mim e deixo de olhar minha chefe para olhar meu café da manhã. Bebo um
gole de café e respondo:
- Terminei!
Nós quatro nos levantamos e saímos da cafeteria. Temos de começar a trabalhar.
Uma hora mais tarde, após tirar umas cópias e finalizar um documento, me dirijo à
sala da minha chefe. Bato na porta e entro.
- Aqui está o contrato pronto para a sucursal de Albacete.
- Obrigada - responde secamente enquanto passa os olhos pelo documento.
Como de hábito, fico parada diante dela à espera de suas ordens. O cabelo da minha
chefe é lindo, tão ondulado, tão cuidado. Nada a ver com meu cabelo castanho e liso que
costumo prender num coque no alto da cabeça. O telefone toca e antes que ela me olhe
eu atendo.
- Sala da senhora Mónica Sánchez. Quem fala é a secretária, senhorita Flores. Em que
posso ajudá-lo?
- Bom dia, senhorita Flores - responde uma voz profunda de homem com leve
sotaque estrangeiro. - Aqui é Eric Zimmerman. Eu gostaria de falar com sua chefe.
Ao reconhecer aquele nome, reajo depressa.
- Um momento, senhor Zimmerman.
Minha chefe, ao escutar aquele sobrenome, larga os papéis que até então segurava e,
após literalmente arrancar o telefone das minhas mãos, diz com um sorriso encantador
nos lábios:
- Eric... que bom você ter ligado! - Depois de um breve silêncio, continua: - Claro,
claro. Ah! Mas você já chegou a Madri?... - Então solta uma gargalhada superfalsa e
sussurra: - Claro, Eric. Te espero às duas na recepção pra almoçar.
E, após dizer isso, desliga e olha para mim.
- Marque um horário pra mim no cabeleireiro para dentro de meia hora. Depois, uma
reserva pra dois no restaurante da Gemma.
Dito e feito. Cinco minutos mais tarde, ela sai voando do escritório e volta uma hora e
meia depois com seu cabelo mais brilhante e bonito e com a maquiagem retocada. Às
13h45, vejo Miguel batendo na sua porta e entrando. Olha isso! Não quero nem pensar
no que estarão fazendo. Passados cinco minutos, ouço gargalhadas. Às 13h55, a porta se
abre, os dois saem e minha chefe vem falar comigo.
- Judith, você já pode ir almoçar. E lembre-se: estarei com o senhor Zimmerman. Se
às cinco eu não tiver voltado e você precisar de qualquer coisa, ligue pro meu celular.
Quando a bruxa má e Miguel vão embora, eu enfim respiro aliviada. Solto o cabelo e
tiro os óculos. Depois pego minhas coisas e caminho até o elevador. Meu escritório fica
no 17º andar. O elevador para em vários andares para pegar outros funcionários, e com
isso ele sempre demora a chegar ao térreo. De repente, entre o quinto e o sexto andar, o
elevador dá um tranco e para completamente. As luzes de emergência se acendem, e
Manuela, do almoxarifado, começa a gritar.
- Ai, minha Nossa Senhora! O que está acontecendo?
- Fique calma - respondo. - Acabou a luz, mas com certeza vai voltar daqui a
pouco.
- E vai demorar quanto?
- Não sei, Manuela. Mas, se você ficar nervosa, vai se sentir mal aqui dentro e esse
tempo vai parecer uma eternidade. Então respire fundo e você vai ver como a luz volta
num piscar de olhos.
Mas, vinte minutos depois, a luz ainda não tinha voltado, e Manuela, com várias
meninas da contabilidade, entra em pânico. Percebo que tenho de fazer alguma coisa.
Vejamos. Não gosto nada de estar presa num elevador. Fico agoniada e começo a
suar. Se eu entrar em pânico, vai ser pior, então decido buscar soluções. Primeiro, junto o
cabelo na nuca e prendo com uma caneta. Depois passo minha garrafinha d'água para
Manuela beber e tento brincar com as meninas da contabilidade enquanto distribuo
chicletes de morango. Mas meu calor vai aumentando, então tiro um leque da minha
bolsa e começo a me abanar. Que calor!
Nesse momento, um dos homens que estavam apoiados num canto do elevador fica
mais perto de mim e me segura pelo cotovelo.
- Você está bem?
Sem olhar para ele e sem deixar de me abanar, respondo:
- Uf! Quer que eu minta ou diga a verdade?
- Prefiro a verdade.
Achando graça, me viro em sua direção e, de repente, meu nariz roça contra um
casaco cinza. Cheira muito bem. Perfume caro.
Mas o que ele faz tão perto de mim?
Imediatamente dou um passo pra trás e fixo o olhar nele pra ver quem é. Devo logo
dizer que é alto - eu chego apenas à altura do nó da gravata. Também tem cabelo
castanho, beirando o louro, é jovem e de olhos claros. Não me lembra ninguém, e, ao
perceber que ele me observa à espera de uma resposta, eu cochicho para que só ele
possa ouvir:
- Cá entre nós, jamais gostei de elevadores e, se as portas não se abrirem logo, vou
ter um troço e...
- Um troço?
- Aham.
- O que é "ter um troço"?
- Isso, na minha língua, significa perder a compostura e ficar louca - respondo, sem
parar de me abanar. - Pode acreditar. Você não ia gostar de me ver nessa situação.
Inclusive, se eu não tomo cuidado, solto espuma pela boca e minha cabeça gira como a
da menina de O exorcista. É um espetáculo e tanto! - Meu nervosismo aumenta e eu lhe
pergunto, numa tentativa de me acalmar: - Quer um chiclete de morango?
- Obrigado - responde ele e pega um.
Mas o engraçado é que ele abre e coloca o chiclete na minha boca. Aceito, surpresa, e,
sem saber por quê, abro outro chiclete e faço a operação inversa. Ele, divertindo-se,
também aceita.
Olho para Manuela e para as outras. Continuam histéricas, suadas e pálidas. Então,
decidida a não deixar minha própria histeria aumentar, tento puxar conversa com o
desconhecido.
- Você é da empresa?
- Não.
O elevador se move e todas começam a gritar. Eu não fico atrás. Seguro no braço do
homem e torço a manga de sua camisa. Quando volto a mim, eu o solto em seguida.
- Perdão... perdão - me desculpo.
- Fique calma, não foi nada.
Mas não consigo ficar calma. Como vou ficar calma presa num elevador? De repente
sinto uma coceira no pescoço. Abro minha bolsa e tiro um espelhinho da nécessaire. Me
observo nele e começo a xingar.
- Merda, merda! Estou me enchendo de brotoejas!
Percebo que o homem me olha com espanto. Afasto o cabelo do pescoço e mostro a
ele.
- Quando fico nervosa, minha pele se enche de brotoejas, está vendo?
Ele faz que sim e eu me coço.
- Não - diz, segurando minha mão. - Se você fizer isso, vai piorar.
E sem pensar duas vezes se inclina e sopra meu pescoço. Ai, Deus! Como ele é
cheiroso e como é gostoso sentir esse ventinho! Dois segundos mais tarde, me vejo
caindo no ridículo ao soltar um pequeno gemido.
O que estou fazendo?
Tapo o pescoço e tento desviar o assunto.
- Tenho duas horas para almoçar e, como ainda estamos aqui, hoje não almoço!
- Suponho que seu chefe entenderá a situação e te deixará chegar um pouco mais
tarde.
Isso me faz sorrir. Ele não conhece minha chefe.
- Acho que você supõe demais. - Cheia de curiosidade, digo: - Pelo sotaque você
é...
- Alemão.
Não me espanta. Minha empresa é alemã, e gringos como aquele aparecem todos os
dias por aqui. Mas, sem conseguir evitar, eu o olho com um sorrisinho malicioso.
- Boa sorte na Eurocopa!
Com expressão séria, ele dá de ombros.
- Não me interesso por futebol.
- Não?
- Não.
Surpresa com o fato de um cara, um alemão, não gostar de futebol, me encho de
orgulho ao pensar na nossa seleção e sussurro para mim mesma:
- Pois você não sabe o que está perdendo.
Calmamente ele parece ler meus pensamentos e se aproxima de novo de minha
orelha, provocando-me arrepios.
- De qualquer forma, ganhando ou perdendo, aceitaremos o resultado - ele me
sussurra.
Ao dizer isso, dá um passo atrás e volta a seu lugar.
Será que meu comentário o irritou?
Eu o imito e viro pro lado para não ter de vê-lo. Olho no relógio: 14h15. Merda! Já
perdi 45 minutos do meu almoço e não dá mais tempo de chegar ao Vips. Com a vontade
que eu tinha de comer um Vips Club... Enfim! Vou parar no bar de Almudena e engolir um
sanduíche. Não tenho tempo para mais nada.
Logo as luzes se acendem, o elevador retoma seu movimento e todos nós aplaudimos.
E eu sou a primeira!
Movida pela curiosidade, volto a olhar para o desconhecido que se preocupou comigo e
vejo que ele continua me observando. Uau, com as luzes acesas ele é ainda mais alto e
mais sexy!
Quando o elevador chega ao térreo e as portas se abrem, Manuela e as moças da
contabilidade saem como cavalos desenfreados entre gritinhos e gestos de histeria.
Como me alegro por não ser assim. A verdade é que sou meio moleca. Meu pai me criou
desse jeito. Porém, quando saio, me vejo diante da minha chefe.
- Eric, pelo amor de Deus! - eu a ouço dizer. - Quando desci para te encontrar e
irmos almoçar e recebi seu Whatsapp avisando que você estava preso no elevador, quase
morri! Que angústia! Você está bem?
- Estou ótimo - responde a voz do homem que falou comigo apenas uns momentos
antes.
Na hora minha cabeça rebobina. Eric. Almoço. Chefe. Eric Zimmerman, o chefão, foi a
ele que eu disse que sou como a menina de O exorcista e em quem enfiei um chiclete de
morango na boca? Fico vermelha como um tomate e me recuso a olhá-lo na cara.
Meu Deus! Como sou ridícula!
Gostaria de escapar daqui o quanto antes, mas então sinto que alguém me segura
pelo cotovelo.
- Obrigado pelo chiclete... senhorita?
- Judith - responde minha chefe. - Ela é minha secretária.
O agora identificado como senhor Eric Zimmerman faz que sim com a cabeça e, sem se
importar com a expressão no rosto da minha chefe, porque não olha para ela mas para
mim, diz:
- Então é a senhorita Judith Flores, certo?
- Sim - respondo como uma boba. Como uma idiota completa!
Minha chefe, que fica entediada quando não é a protagonista do momento, o agarra
possessivamente pelo braço, puxando-o.
- Que tal irmos almoçar, Eric? Já está supertarde!
Sentindo que eles vão embora, levanto a cabeça e sorrio. Instantes depois, aquele
homem incrível de olhos claros se afasta, embora, antes de passar pela porta, se vire e
me olhe. Quando por fim desaparece, suspiro e penso: "Por que não fiquei quietinha no
elevador?"
Na manhã seguinte, quando chego ao escritório, a primeira pessoa que encontro ao
entrar na cafeteria é o senhor Zimmerman. Noto que ele ergue o olhar e me observa,
mas eu me faço de sonsa. Não estou a fim de cumprimentá-lo.
Agora já sei quem ele é, e sempre acreditei que os chefões, quanto mais longe
estiverem, melhor. Sem-vergonha, safado... Mas a verdade é que esse homem me deixa
nervosa. Do seu lugar e escondido atrás de um jornal, intuo que está me observando,
que está me estudando. Levanto os olhos e... não é que tenho razão? Bebo rapidamente
o café e vou embora. Preciso trabalhar.
Durante o dia volto a esbarrar com ele em vários lugares. Mas, quando assume a
antiga sala de seu pai, que fica bem em frente à minha e ligada pelo arquivo à da minha
chefe, quero morrer! Em nenhum momento se dirige a mim, mas posso sentir seu olhar
onde quer que eu esteja. Tento me esconder atrás da tela do computador, mas é
impossível. Ele sempre arruma um jeito de cruzar o olhar com o meu.
Quando saio do escritório, vou direto para a academia. Uma aula de spinning e um
tempinho na jacuzzi me tiram todo o estresse acumulado, e chego em casa superrelaxada, pronta pra dormir.
Nos dias seguintes, mais do mesmo. O senhor Zimmerman, esse chefão gato com
quem comecei a sonhar e que o escritório inteiro venera e puxa o saco, aparece por
todos os lados aonde quer que eu vá, e isso está me deixando nervosa.
É um cara sério, antipático, e se limita a sorrir. Mas percebo que me procura com o
olhar, e isso me desconcerta.
Os dias vão passando e, finalmente, uma manhã a gente se esbarra e troca
sorrisinhos. Mas o que estou fazendo? Nesse dia ele já não fecha a porta de sua sala, e
seu ângulo de visão é ainda melhor. Consegue me ter totalmente sob controle. Que
agonia, meu Deus!
Como se não bastasse, a cada dia que cruzo com ele na cafeteria, ele me observa...
me observa... e me observa. Se bem que, quando me vê com Miguel ou os outros caras,
vai embora depressa. Que coisa!
Hoje estou atoladíssima com as pilhas de papel que a maníaca da minha chefe me
pediu. Como sempre, parece esquecer que Miguel, embora seja o secretário do senhor
Zimmerman, é quem deve se ocupar de cinquenta por cento da papelada que
gerenciamos.
Na hora do almoço aparece no escritório o objeto dos meus sonhos úmidos e, após
cravar seu olhar insistente sobre mim, entra na sala da minha chefe sem bater na porta,
e dois segundos depois eles saem juntos e vão almoçar.
Quando fico sozinha, me sinto enfim aliviada. Não sei o que acontece, mas a presença
desse homem me dá calor e faz meu sangue ferver. Depois de arrumar um pouco a
minha mesa, decido fazer o mesmo que eles e ir comer. Mas é tamanha a confusão de
papéis que me esperam que, em vez de usar minhas duas horinhas para o almoço, saio
apenas por uma hora e volto em seguida.
Ao chegar, enfio minha bolsa no gaveteiro, pego meu iPod e coloco os fones de
ouvido. Se há algo de que gosto nesta vida, é música. Minha mãe ensinou a meu pai,
minha irmã e a mim que quem canta seus males espanta. Este é, entre outros tantos, um
de seus legados, e talvez por isso adoro ouvir música e passo o dia cantarolando. Após
ligar meu iPod, começo a cantar enquanto me ocupo dos papéis. Minha vida se reduz à
papelada!
Entro carregada de pastas na sala da maníaca da minha chefe e abro uma espécie de
aparador que usamos como arquivo. Esse aparador se comunica com a sala do senhor
Zimmerman, mas, como sei que ele não está, relaxo e começo a arquivar enquanto
cantarolo:
Te regalo mi amor, te regalo mi vida,
a pesar del dolor, eres tú quien me inspira.
No somos perfectos, somos polos opuestos.
Te amo con fuerza, te odio a momentos.
Te regalo mi amor, te regalo mi vida,
te regalaré el Sol siempre que me lo pidas.
No somos perfectos, sólo polos opuestos.
Mientras que sea junto a ti, siempre lo intentaría
¿Qué no daría...?
- Senhorita Flores, a senhorita canta muito mal.
Essa voz. Esse sotaque.
Assustada, derrubo no chão a pasta que eu segurava. Me abaixo para pegá-la e, putz!,
dou uma topada nele. No senhor Zimmerman. Com a angústia que tenho estampada na
cara pela quantidade de gafes que estou cometendo com esse superchefão alemão...!
Olho para ele e tiro os fones do ouvido.
- Me desculpe, senhor Zimmerman - murmuro.
- Não tem problema. - Toca meu rosto e pergunta com familiaridade: - Você está
bem?
Como um bonequinho, desses instalados na parte traseira de alguns carros, faço que
sim com a cabeça. Outra vez me pergunta se estou bem. Que fofo! Sem poder evitar,
meus olhos e todo o meu ser o examinam em profundidade: alto, cabelo castanho com
mechas louras, trinta e poucos anos, musculoso, olhos azuis, voz profunda e sensual...
Convenhamos, um espetáculo.
- Lamento tê-la assustado - acrescenta. - Não era minha intenção.
Volto a mover a cabeça como um boneco. Como sou boba! Levanto com a pasta nas
mãos e pergunto:
- A senhora Sánchez veio com o senhor?
- Veio.
Surpresa com a informação, já que não a vi entrar em sua sala, começo a tentar sair
do arquivo, quando o alemão agarra meu braço.
- O que você estava cantando?
Aquela pergunta me pega tão de surpresa que estou prestes a soltar: "E o que você
tem com isso?" Mas, felizmente, contenho o impulso.
- Uma música.
Ele sorri. Meu Deus! Que sorriso!
- Eu sei... Gostei da letra. Que música é essa?
- Blanco y negro, de Malú, senhor.
Mas parece que está achando engraçado. Será que está rindo de mim?
- Agora que você sabe quem eu sou, me chama de senhor?
- Desculpe, senhor Zimmerman - esclareço com profissionalismo. - No elevador eu
não o reconheci. Mas, agora que já sei quem é, devo tratá-lo como merece.
Ele dá um passo na minha direção e eu dou outro para trás. O que está fazendo?
Ele dá mais um passo e eu, ao tentar fazer o mesmo, me grudo ao aparador. Não
tenho saída. O senhor Zimmerman, esse cara sexy em cuja boca enfiei há alguns dias um
chiclete de morango, está quase em cima de mim e se agacha para ficar da minha altura.
- Eu gostava mais quando você não sabia quem eu era - murmura.
- Senhor, eu...
- Eric. Meu nome é Eric.
Confusa e descontrolada pela excitação que esse cara imenso está me despertando,
engulo a enxurrada de sensações que formigam por todo o meu corpo.
- Me desculpe, senhor. Mas isso não me parece correto.
E, sem me pedir permissão, tira a caneta que prendia meu coque, e meu cabelo liso e
escuro cai sobre meus ombros. Eu o encaro. Ele me encara também. E nossos olhares são
seguidos por um silêncio mais que significativo, durante o qual nós dois ficamos com a
respiração entrecortada.
- O gato mordeu sua língua? - me pergunta, rompendo o silêncio.
- Não, senhor - respondo, à beira de um colapso.
- Então onde escondeu a garota brilhante do elevador?
Quando vou responder, ouço as vozes de minha chefe e Miguel, que entram na sala.
Zimmerman cola seu corpo ao meu e me manda ficar quieta. Sem saber muito bem por
quê, obedeço.
- Onde está Judith? - ouço minha chefe perguntar.
- Deve estar na cafeteria. Foi tomar uma Coca. Vai demorar - responde Miguel e
fecha a porta da sala da minha chefe.
- Tem certeza?
- Tenho - insiste Miguel. - Vamos, vem cá e deixa eu ver o que você está usando
hoje debaixo da saia.
Meu Deus! Isso não pode estar acontecendo!
O senhor Zimmerman não deveria ver o que eu acho que esses dois estão prestes a
fazer. Penso. Penso em como distraí-lo ou despistá-lo, mas nada me ocorre. Aquele
homem está quase em cima de mim, sem parar de me olhar.
- Tudo bem, senhorita Flores. Vamos deixar que eles se divirtam - me sussurra.
Quero morrer!
Que vergonha!!
Instantes depois, não se ouve nada exceto o som das bocas e línguas deles dois se
encontrando. Assustada com aquele silêncio incômodo, espio pela abertura da porta do
arquivo e tapo a boca ao ver minha chefe sentada sobre sua mesa e Miguel acariciandoa. Minha respiração se acelera e Zimmerman sorri. Passa a mão pela minha cintura e me
puxa ainda mais para si.
- Excitada? - pergunta.
Olho para ele e não digo nada. Não pretendo responder essa pergunta. Estou
envergonhada pelo que estamos presenciando juntos. Mas seus olhos curiosos se cravam
em mim e ele aproxima sua boca da minha.
- O futebol a deixa mais excitada do que isso? - insiste.
Ai, Deus! Ele é que me deixa excitada. Ele, ele e ele.
Como não ficar excitada com um homem como esse em cima de mim e diante de uma
situação como essa? Que se dane o futebol! No fim, volto a fazer que sim com a cabeça
como um bonequinho. Que sem-vergonha eu sou.
Zimmerman, ao me ver tão alterada, também move a cabeça. Espia pela fresta e me
arrasta até ficarmos os dois diante do vão da porta. O que vejo me deixa sem palavras.
Minha chefe está de pernas abertas sobre a mesa, enquanto Miguel passeia sua boca
com vontade no meio das coxas dela. Fecho os olhos. Não quero ver isso. Que vergonha!
Instantes depois, o alemão, que continua me segurando com força, me empurra de novo
contra o arquivo e me pergunta ao pé do ouvido:
- Está assustada com o que vê?
- Não... - Ele sorri e eu acrescento, cochichando: - Mas não acho certo a gente ficar
espiando, senhor Zimmerman. Acho que...
- Espiá-los não vai nos fazer mal e, além do mais, é excitante.
- É minha chefe.
Faz um gesto afirmativo e, enquanto passa sua boca por minha orelha, sussurra:
- Eu daria tudo para que fosse você que estivesse em cima da mesa. Passearia minha
boca por suas coxas, para depois enfiar minha língua dentro de você e te possuir.
Boquiaberta.
Perplexa.
Alucinada.
Mas... o que foi que esse homem disse?
Impressionada e absurdamente excitada, me preparo para dar uma resposta atrevida
quando, de repente, todo meu corpo reage e eu sinto meu ventre se contraindo. O que
esse homem acaba de dizer está mexendo comigo e eu não consigo disfarçar, por mais
grosseiro que tenha sido o comentário dele. Então, o percurso de seus lábios se detém
diante da minha boca. Sem tirar os olhos de mim, põe para fora sua língua molhada,
passa por meu lábio superior, depois pelo inferior e, finalmente, me dá uma leve e doce
mordidinha no lábio.
Não me mexo. Não consigo nem respirar!
Ao ver que estou ofegante, volta a esticar a língua e, sem pensar, eu abro a boca.
Quero mais. Suas pupilas se dilatam. Confiante, enfia a língua na minha boca e, com uma
habilidade que me deixa atordoada, começa a movê-la até me fazer perder os sentidos.
Esquecendo tudo, correspondo a suas exigências e em seguida sinto que sou eu quem
se aperta contra seu peito musculoso em busca de algo mais. Me deixo levar pelo meu
desejo. Durante alguns segundos, nos beijamos apaixonadamente no mais absoluto
silêncio, enquanto escutamos os gemidos da minha chefe. Meu corpo treme ao contato
de seu corpo. Sinto suas mãos agarrando minha bunda e tenho vontade de gritar... mas
de prazer! Logo retira sua língua da minha boca e, sem tirar de mim seus olhos azuis,
pergunta:
- Janta comigo?
Volto a balançar a cabeça, mas desta vez para negar. Não pretendo jantar com ele. É
o chefão, o dono da empresa. Mas minha resposta não parece agradar, e ele afirma:
- Sim. Você vai jantar comigo.
- Não.
- Gosta de me contrariar?
- Não, senhor.
- Então?
- Não janto com chefes.
- Comigo sim.
Sua proximidade é irresistível, e o novo ataque à minha boca é arrebatador. Se antes
houve faíscas, agora é puro fogo. Ardor... Calor... E, quando consegue me ter derretida
em suas mãos, tira novamente a língua da minha boca e insinua um sorriso. Adoro essas
insinuações!
Sem fala e perturbada, eu o encaro. Que merda estou fazendo? Sem se mexer um
milímetro sequer, pega do bolso um Blackberry preto e começa a digitar. Minutos depois,
ouço baterem na porta da minha chefe, ao mesmo tempo que ele me pede silêncio.
Miguel e ela se recompõem rapidamente e eu não consigo deixar de me surpreender com
sua capacidade de reação. Segundos mais tarde, Miguel abre.
- Desculpe, senhora Sánchez - diz uma voz que não reconheço. - O senhor
Zimmerman quer tomar um café com a senhora. Está esperando na cafeteria do nono
andar.
Através da porta entreaberta e ainda com o alemão em cima de mim, vejo Miguel indo
embora e minha chefe tirando uma nécessaire de uma das gavetas de sua mesa. Retoca
o batom rapidamente e, depois de ajeitar o cabelo e a roupa, sai da sala. Nesse
momento, sinto que a pressão desse homem sobre mim diminui, e ele me solta.
- Ouça, senhor Zimmerman...
Mas ele não me deixa falar. Volta a pôr um dedo na minha boca. Sinto vontade de
mordê-lo, mas me contenho. E, após abrir as portas do arquivo, me olha e diz:
- Tudo bem. Não nos trataremos por "você". - Caminha até a porta e acrescenta
com uma segurança esmagadora: - Passo na sua casa às nove. Esteja linda, senhorita
Flores.
E eu fico olhando para a porta como uma idiota.
Mas qual é a desse cara?
Quero gritar "não!", mas, se eu fizer isso, o escritório inteiro vai me ouvir. Cheia de
calor e agitada, saio do arquivo e, enquanto caminho até minha mesa, meu celular apita.
Uma mensagem. Abro e fico espantada quando leio: "Sou seu chefe e sei onde a
senhorita mora. Nem pense em não estar pronta às nove em ponto."