Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Jovem Adulto > Por causa de um beijo
Por causa de um beijo

Por causa de um beijo

Autor:: Tati Domingues
Gênero: Jovem Adulto
Depois da morte misteriosa de sua irmã Eva, Filipa encontra nos escritos deixados por ela pistas que podem ajudar a descobrir o seu assassino e o motivo pelo qual foi assassinada. Em uma arena de competições, jovens se encontram para digladiar-se pelo grande prêmio, onde surgem amores, amizades, traições e por fim, o terrível assassinato.

Capítulo 1 Prólogo

Todos os anos a competição era acirrada. Os guerreiros queriam mostrar seu verdadeiro potencial e principalmente angariar aquela enorme quantidade de moedas em ouro. Muitos lutavam apenas pela necessidade em adquirir grandes haveres, outros detinham enorme necessidade de exibir aos quatro cantos o quão eram valentes ou fortes. Contudo, a maioria só queria unir o útil ao agradável.

Os jogos duravam alguns meses e eram a grande sensação em Avaluni tudo na cidade, girava em torno da competição. Visitantes de outros lugares vinham até Avaluni somente no intuito de acompanhar o festival. As pessoas ficavam eufóricas. Surgiram até mesmo casas de apostas, onde muito dinheiro era injetado.

Muitos competidores já haviam se tornado famosos na cidade por participarem todos os anos e já ter ganho mais de uma vez. Havia também os novatos que surgiam todos os anos e almejavam chegar ao patamar daqueles guerreiros tão admirados.

A grande competição era conhecida por sua seriedade e legitimidade dos resultados. Fora criada há mais de duzentos anos pelo rei daquela época, Asafe Silamen. Todavia, os primórdios das competições eram bastante sombrios. Entediado e com uma alma obscura, Asafe criou as competições para que as lutas fossem até a morte, os competidores eram escolhidos e não tinham opção de não aceitar. Ninguém queria fazer parte de algo tão horrível. Porém, com a morte de Asafe, seu herdeiro que não compartilhava da forma de pensar de seu progenitor, retirou a obrigatoriedade de participação, proibiu que o perdedor fosse assassinado ao final da luta e ainda decidiu ofertar premiações aos vencedores. Os mais conservadores acharam absurda a drástica mudança, mas logo perceberam que a nova fórmula começou a atrair mais pessoas. Com o passar dos anos, mais riquezas vieram para Avaluni através do festival.

A verdade era que a vida de muitas pessoas sempre mudava após as competições. Naquele ano não seria diferente. Os jogos estavam prestes a começar.

Capítulo 2 Um

– Você realmente está pronta, Eva? Acha que vai conseguir vencer este ano o festival de Avaluni?

– Eu fiquei os dois últimos anos seguidos em segundo lugar, Filipa. Não venci a última competição por um deslize bobo meu. Ainda pergunta se estou pronta? Que questionamento mais sem sentido, minha irmã? Eu sempre estive pronta.

– É que fico preocupada com você, desculpe. Você ficou cheia de hematomas na última competição, mas pior do que isso, ficou tão triste... Fiquei triste com você.

– Eu sei. – Eva abraçou carinhosamente à irmã. – Se não fosse você ao meu lado, não sei o que seria de mim. Mas, os hematomas fazem parte. São provas da minha força. – sorriu.

Eva tinha vinte anos e Filipa tinha três anos menos que a irmã. Moravam com a avó Ana há dez anos. A mãe das meninas, que se considerava uma grande atriz, abandonou-as com a avó para seguir sua carreira no teatro. Entrou para uma companhia que viajava o mundo e para entregar-se de cabeça a sua carreira, decidiu abdicar-se do papel de mãe.

Entre muitas brigas e discussões com dona Ana, a mãe das meninas fora irredutível e as deixou para trás sem nenhum remorso. As meninas sofreram muito com isso, principalmente Filipa que era bem menor que Eva. A garotinha chorava todos os dias pela falta da mãe e Eva acabou se tornando grande suporte para a irmã menor ao lado da avó.

Ao longo dos anos, Eva nutriu grande rancor por sua mãe, sequer gostava de tocar no assunto. Filipa, ao contrário, não sentia raiva, apenas ressentimentos, e ainda nutria desejo de poder um dia rever sua progenitora. Todas as vezes que Filipa tocava no nome de Helena, sua mãe, Eva ficava zangada e não gostava de prosseguir com o assunto. Chegava a xingar ou maldizer a mesma.

Eva treinava muito com uma espada velha que tinha, esta que era a única coisa que possuía de seu pai. Helena não gostava de falar sobre ele. Havia sumido pouco depois do nascimento de Filipa, nunca se soube a razão de seu sumiço.

Quando a mãe foi embora, Eva pensava muito sobre o assunto e começou a ponderar sobre seu pai ter motivos para deixá-la. Acreditava que sua mãe era uma mulher egoísta, que não amava ninguém, principalmente as próprias filhas. Ao pensar no pai e com as vagas lembranças que possuía dele, um dia tomou sua espada em mãos e resolveu treinar todos os dias, até que decidiu que participaria das competições de Avaluni. Isso tornou-se ideia fixa em sua cabeça. Sua avó achou estranho no início, mas depois acostumou-se com a ideia e até mesmo a apoiou. Percebeu que aquilo aliviava a mente da garota de tantos pensamentos destrutivos que vez ou outra pairavam em sua cabeça. Todo o foco e energia de Eva estavam voltados a isso.

As competições eram abertas para mulheres também desde que provassem ter capacidade para isso. A primeira mulher a participar surgiu no novo reinado, contudo recentemente, uma mulher vencera, a primeira da história, seu nome era Bárbara Anvero. Isso encheu Eva e outras competidoras de esperanças. Bárbara iria participar novamente e era bem cotada nas casas de apostas.

Eva e Filipa possuíam um grande amigo há mais de cinco anos, seu nome era César. Um pouco mais velho do que Eva, ele logo enveredou-se pelo caminho das competições. Ele era o grande treinador da moça. Era muito bom com a espada e em sua primeira participação, ficou entre os dez primeiros colocados. Dois anos depois, ficou em segundo lugar. Seu nome estava sempre entre os apostadores de Avaluni.

Quando Eva pediu para que ele a treinasse, no início, César achou que era bobagem, porém a insistência da moça acabou o convencendo.

Após um ano de treinos incessantes, César ficou impressionado com a evolução de Eva. Definitivamente, ela estava preparada para estar entre os competidores.

– Sabe de uma coisa, Eva?

– O quê? – a moça treinava com sua espada no ar enquanto ouvia Filipa.

– Eu também quero competir.

– Você o quê?! – ela riu com deboche. – Você é uma fedelha delicada demais para isso.

– Ora. Qual o problema? Você conseguiu por que eu não posso também?

– É que não imagino você fazer isso. Você é doce, gentil, delicada... Totalmente o oposto de mim. O primeiro tapa que tomar irá chorar feito criança.

– Que preconceito é esse? – Filipa fez bico. – Você é muito chata! Eu sou muito capaz sim.

– Está bem, desculpe. – Eva riu novamente, não conseguia levar a irmã a sério. – É que não consigo imaginar minha irmãzinha cheia de hematomas assim como eu.

– Mas é só durante as competições. Você não fica assim durante o ano todo.

– Muito bem. Segure a espada desta forma e faça este movimento. Preste bem atenção.

Filipe observou atentamente e ao apossar-se da espada, reproduziu da melhor maneira possível.

– Olha! Até que não está tão mau. – Eva ficou admirada. – Posso até dizer que você leva jeito.

– Então você pode me treinar como César treinou você? – Filipa empolgou-se.

– Você tem certeza? – Eva mostrava-se um pouco descrente do desejo da irmã.

– Claro que tenho. Por favorzinho...

– Está bem. – respondeu evasivamente.

– Ótimo e quando começamos?

– Assim que as competições se encerrarem. Sabe que vou ter que ficar confinada naquele castelo durante este tempo.

– Mas, ainda falta uma semana...

– Sim, Filipa, mas durante esta semana não vou ter cabeça para isso. Desculpe.

– Está bem. – a garota ficou bem desapontada.

– Será que um dia irá competir contra mim? – Eva tentou desmanchar a face desanimada da irmã. Não gostava de vê-la triste ou chateada.

– Nossa! Isso seria incrível. Mas fique sabendo que não é porque é minha irmã que irei dar moleza para você viu.

– Ora essa! Já está me desafiando? – Eva riu divertida.

– Pode apostar que sim, mas fique tranquila que se eu ganhar algum dia, divido o dinheiro com você. Afinal, você é minha treinadora e a irmã que mais amo no mundo.

– Se levarmos em consideração que sou a única irmã que você tem... Agora chega de conversa mole, precisamos fazer as entregas da vovó. Há uma carroça cheia de repolhos, cenouras e beterrabas nos esperando.

– É verdade. Se não ela virá com aquela lista de sermões outra vez.

– Não estou disposta a ouvir nenhum.

– Sabe, às vezes você é meio malcriada com a vovó. Não deveria responder tão mal à ela.

– Ah, Filipa... Eu não tenho muita paciência para esses falatórios. É sempre a mesma ladainha.

A avó das meninas tinha uma enorme horta onde plantava de tudo um pouco e vendia na cidade. Era dali que tirava seu sustento e de suas netas. Tinham uma vida simples e humilde. O dinheiro que Eva ganhou durante as duas vezes que ficou em segundo lugar fora de grande ajuda para elas. Claro que o montante entregue ao vencedor seria de maior serventia, mas o que Eva ganhou já fazia boa diferença na vida delas. Afinal, foram dois anos consecutivos. Os três primeiros colocados eram premiados.

As meninas subiram na velha carroça e rumaram até a cidade, onde iam entregar a preciosa mercadoria. Ao final do dia, voltaram com um punhado de moedas e mais algumas provisões para a família.

Eva era quem negociava tudo. Seu jeito petulante e a forma como lidava com as pessoas, era importante para que não tirassem vantagem das moças. Alguns a achavam um pouco mal educada, outros gostavam da forma como ela agia. Filipa observava e tentava aprender com a irmã.

Assim levavam suas vidas, entre o trabalho, os treinos e sonhos, muitos sonhos.

Capítulo 3 Dois

– Como é bom estar com vocês. – Eva tomava uma sopa ao lado da irmã e da avó. – Todas as vezes que vou às competições, fico com meu coração apertadinho por estar longe de casa. Além do mais, tem um povo tão irritante naquelas competições.

– Mas, você também tem amigos por perto. – Filipa redarguiu. – Sei que lá, pode ficar mais perto da Cecília do que no dia a dia. Você gosta muito dela.

– Tem que haver compensações por estar longe de vocês.

– Além do mais, nós iremos assisti-la como sempre e estaremos na torcida, não é vovó?

– Claro, minha filha. Se meu coração aguentar... – ela exibiu a falta de dentes num sorriso sincero.

– Vó, seu coração é mais forte do que imagina. – Eva respondeu. – Já passamos por tantas coisas e a senhora está aí, firme e forte.

– Minha força vem de vocês duas. Vocês são a razão de eu estar de pé. Vê-la digladiar-se naquela arena contra homens ou mulheres tão fortes, me deixa com medo.

– Não se preocupe, vovó. – Filipa segurou sua mão. – Ninguém morre ali.

– Mas ficam bem machucados, para mim já é o suficiente.

– Para tudo tem uma compensação. – Eva prosseguiu firme. – Olhe só a carroça que conseguimos com o que ganhei. Foi um grande passo em nossa vida.

– Não vou discutir isso, minha querida. Mas que meu coração fica assustado, ele fica. – a velha concluiu. Filipa depositou-lhe um beijo na face enrugada.

Terminaram a sopa quentinha feita com legumes colhidos da própria horta e um pedaço de carne comprado pelas meninas naquele mesmo dia. Após ajeitar as coisas na pequena cozinha, recolheram-se ao seus aposentos. As irmãs dividiam o mesmo quarto.

Eva começou a devanear sobre mais uma luta. Sonhava em finalmente poder se tornar campeã. Seria a segunda mulher a vencer, claro que teria que enfrentar Bárbara Anvero e sabia que não seria nada fácil vencê-la. Enfrentaria Cecília novamente, uma grande amiga que fizera naquele lugar no ano anterior. Elas tiveram seu embate, mas não deu para Cecília, a moça precisava se preparar mais para ser páreo para Eva. Contudo, elas se deram muito bem naquele lugar.

Elas aproveitaram para curtir o lugar juntas nos momentos de descanso e até mesmo para admirar os rapazes. Eram jovens e não podiam negar o desejo por alguns daqueles rapazes. Cecília afirmava ter se apaixonado por um deles; Kasimir. Ele era um competidor novato, nunca ficou entre os dez melhores, porém no coração da moça, já tinha um lugar cativo.

Eva divertia-se ao ouvir as narrativas poéticas de Cecília sobre o amor e Kasimir. Achava-as bobas e engraçadas. Em alguns momentos, chegava a zombar de Cecília. Sabia que neste ano, viriam muito mais explanações.

Eva também familiarizou-se com outros competidores, assim como criou rusgas com alguns. Eva não era doce e gentil como Filipa, por isso se algo a incomodasse, não deixava de falar ou se não gostasse de alguém, provavelmente criaria inimizade facilmente. Era o caso de Gaspar, achava-o inconveniente demais. Havia o enfrentado na grande final e perdeu para ele na última competição. O modo como ele interagia com ela, a irritava profundamente, e acredita que sua desconcentração diante das palavras dele, foram o motivo para perder a peleja, pois lutavam de igual para igual e chegaram a ficar empatados em pontuação. Foi um embate bem acirrado. César também não gostava de Gaspar, havia tomado as dores da amiga.

Com Bárbara, Eva não tinha problemas, porém havia uma certa amizade. Elas eram vistas de conversa, vez ou outra. Bárbara era uma mulher um pouco mais reservada, preferia não se misturar muito com ninguém, raramente era vista de conversa fiada com outro competidor. Na última competição foi eliminada por Gaspar também por isso não houve um enfrentamento direto com Eva.

Uma outra pessoa que Eva gostava muito, era Raul. Ele cuidava da alimentação dos competidores e tinha aproximadamente a idade deles. Era um jovem franzino e sua única habilidade era cozinhar, porém adorava estar ao lado dos competidores e muitas vezes, delirava sobre ser um deles, mas sabia que era algo impossível.

Muitos dos participantes não tinham muita paciência com ele ou lhe davam atenção. Eva, ao contrário, era muito receptiva e chegava a conversar por horas com o rapaz. Raul dizia a todos que ela era sua favorita e torcia fervorosamente por Eva. Havia construído uma amizade muito agradável com a moça.

Bárbara, Cecília, César, Kasimir, Raul, Gaspar. Logo estaria ao lado deles novamente. Uma infinidade de sentimentos pairava em seu cerne. Competitividade, amizade e quiçá até amor, lembrou-se de Cecília e riu. Ela definitivamente não combinava com aquele ambiente, no entanto havia muita garra naquela moça.

Pensou sobre Filipa e seu desejo de juntar-se a isso. Ela era muito parecida com Cecília, talvez não fosse uma boa ideia subestimar sua irmãzinha. Ela poderia surpreender e fazer história, por que não? Sorriu mais uma vez com seus pensamentos. Ao mesmo tempo, ponderou sobre haver um ambiente bem hostil naquele lugar, nem todos eram amigos, eram competidores diretos e muitos levavam isso muito a sério. Não gostaria de ver Filipa sendo hostilizada por ninguém.

– Eu estarei lá para protegê-la. – sussurrou. Filipa já dormia e não ouviu suas palavras.

Fechou seus olhos com tantas imagens e pensamentos pairando ainda em seu cérebro. Estava ansiosa, eufórica e feliz. Aquilo definitivamente era algo que gostava de fazer. Espantava todo e qualquer fantasma do passado. Embora seu cérebro a traísse e pensasse em como seus pais veriam suas conquistas na arena. Ficariam felizes? Teriam orgulho ou apenas medo por ela como a avó? Como seria tê-los a assisti-la? Por mais que não tocasse no assunto com ninguém ou até mesmo evitasse ouvir sobre, sua mente sempre resgata tais sentimentos, isso a deixava frustrada. Almejava apagar definitivamente aquelas lembranças, tinha raiva de si mesma muitas vezes por sentir tudo o que sentia. Mostrava-se sempre forte diante de todos, mas somente ela sabia o quanto seu coração sangrava ao pensar na família que as abandonou sem nenhum remorso. Abriu seus olhos mais uma vez e viu a face de Filipa adormecida, mesmo com a penumbra de seu quarto. Respirou profundamente e pensou que seria o suporte de sua irmã e de sua avó sempre. Faria tudo o que fosse possível pela felicidade delas. Fechou seus olhos novamente e desbravada pelo sono, finalmente adormeceu.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022