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Quando a Morte Revela a Verdade

Quando a Morte Revela a Verdade

Autor:: Xi Ying
Gênero: História
Por três anos, a minha vida foi um campo de batalha. Eu, Juliette Lawrence, a cantora de Fado, vivia uma guerra fria com Hugo Gordon, o meu marido. Éramos o casal mais disfuncional de Lisboa, consumidos por um ódio que nos devorava por dentro. Aquele ódio trivializou-se subitamente quando o médico pronunciou as palavras: "cancro no pâncreas, fase terminal." Seis meses. Era tudo o que me restava. Desesperada por paz, liguei a Hugo, a implorar por uma trégua. Mas a sua voz fria, seguida pela risada sarcástica da minha melhor amiga, Cecilia Perez, a convidá-lo para a cama, reduziu a minha esperança a cinzas. Eles estavam juntos. A minha melhor amiga e o meu marido. A traição esmagou-me, um golpe mais forte que a notícia da morte. Hugo, cego de ódio e manipulado por Cecilia desde o início da nossa união – ela editara uma gravação para fazê-lo crer que eu era uma caça-fortunas, levado depois à falência a adega da minha família – recusava-se a ver a verdade. Ele exibiu Cecilia na nossa mansão, humilhou-me publicamente, e até permitiu que ela, por inveja pura, me destruísse a herança mais preciosa: a guitarra da minha avó. Como ele podia ser tão cruel? Como podia acreditar nas mentiras dela, mesmo quando eu me desfazia à sua frente? A injustiça queimava. Não entendia o propósito de tanto sofrimento. Porque é que eu estava a pagar por uma mentira arquitetada pela minha suposta amiga, e porque ele, que outrora me amava, agora me queria destruir? A dor tornou-se física, quando, num ato de desespero e para o silenciar, cortei a minha própria mão. A apatia tomou conta de mim. Foi nesse abismo que tomei uma decisão radical: fazer o procedimento experimental para apagar Hugo Gordon da minha memória. Eu queria viver os meus últimos dias em paz, mesmo que essa paz fosse uma ilusão. Ele não existiria mais para mim. Para esquecer o homem que me causou tanta dor, para apagar essa parte sombria da minha vida e, quem sabe, encontrar um alívio antes do fim.

Introdução

Por três anos, a minha vida foi um campo de batalha. Eu, Juliette Lawrence, a cantora de Fado, vivia uma guerra fria com Hugo Gordon, o meu marido. Éramos o casal mais disfuncional de Lisboa, consumidos por um ódio que nos devorava por dentro.

Aquele ódio trivializou-se subitamente quando o médico pronunciou as palavras: "cancro no pâncreas, fase terminal." Seis meses. Era tudo o que me restava. Desesperada por paz, liguei a Hugo, a implorar por uma trégua. Mas a sua voz fria, seguida pela risada sarcástica da minha melhor amiga, Cecilia Perez, a convidá-lo para a cama, reduziu a minha esperança a cinzas. Eles estavam juntos. A minha melhor amiga e o meu marido.

A traição esmagou-me, um golpe mais forte que a notícia da morte. Hugo, cego de ódio e manipulado por Cecilia desde o início da nossa união – ela editara uma gravação para fazê-lo crer que eu era uma caça-fortunas, levado depois à falência a adega da minha família – recusava-se a ver a verdade. Ele exibiu Cecilia na nossa mansão, humilhou-me publicamente, e até permitiu que ela, por inveja pura, me destruísse a herança mais preciosa: a guitarra da minha avó.

Como ele podia ser tão cruel? Como podia acreditar nas mentiras dela, mesmo quando eu me desfazia à sua frente? A injustiça queimava. Não entendia o propósito de tanto sofrimento. Porque é que eu estava a pagar por uma mentira arquitetada pela minha suposta amiga, e porque ele, que outrora me amava, agora me queria destruir? A dor tornou-se física, quando, num ato de desespero e para o silenciar, cortei a minha própria mão. A apatia tomou conta de mim.

Foi nesse abismo que tomei uma decisão radical: fazer o procedimento experimental para apagar Hugo Gordon da minha memória. Eu queria viver os meus últimos dias em paz, mesmo que essa paz fosse uma ilusão. Ele não existiria mais para mim. Para esquecer o homem que me causou tanta dor, para apagar essa parte sombria da minha vida e, quem sabe, encontrar um alívio antes do fim.

Capítulo 1

A guerra fria entre Juliette Lawrence e Hugo Gordon já durava três anos, transformando-os no casal mais notoriamente disfuncional da alta sociedade de Lisboa. O ódio entre eles era tão puro e intenso que se tornara uma espécie de espetáculo perverso para os outros.

Hoje, contudo, algo mudou.

Sentada no consultório do médico, Juliette olhava para o relatório nas suas mãos, as palavras "cancro do pâncreas, fase terminal" a queimarem-lhe a retina. Restavam-lhe, no máximo, seis meses de vida.

O mundo lá fora continuava a girar, mas o dela tinha parado.

A hostilidade constante, as provocações calculadas, a dor que se infligiam mutuamente... tudo isso pareceu subitamente trivial, cansativo. Pela primeira vez em anos, ela não queria lutar. Só queria paz.

Com as mãos a tremer, ela pegou no telemóvel e ligou para Hugo. Talvez, apenas talvez, pudessem ter uma trégua.

O telefone chamou várias vezes antes de ele atender, a sua voz fria e impaciente como sempre.

"O que queres, Juliette?"

Ela respirou fundo, tentando manter a voz firme. "Hugo, podemos conversar? Sem brigas, só por um momento."

Houve uma pausa, seguida de uma risada sarcástica do outro lado. "Conversar? Sobre o quê? Sobre como és uma estátua de gelo tanto no palco como na cama? Não, obrigado. Prefiro algo com mais paixão."

O coração de Juliette afundou-se. Antes que ela pudesse responder, ouviu uma voz feminina familiar ao fundo, uma voz que conhecia desde a infância.

"Hugo, querido, com quem estás a falar? Deixa isso para lá e vem para a cama."

Era Cecilia Perez, a sua melhor amiga.

A traição atingiu Juliette com a força de um golpe físico, tirando-lhe o ar. A sua melhor amiga e o seu marido. Juntos.

Hugo pareceu saborear o seu silêncio chocado. "Ouviste? A Cecilia está à minha espera. Ela sabe como aquecer um homem. Ao contrário de ti, que só sabes cantar sobre dor, mas és incapaz de sentir qualquer outra coisa."

Ele desligou.

Juliette ficou a olhar para o telemóvel, o som do tom de desligado a ecoar no silêncio do consultório. A dor da traição era tão aguda, tão avassaladora, que quase suplantou o medo da morte.

As memórias voltaram sem serem convidadas. O início de tudo, em Coimbra, durante a universidade. Um romance intenso, apaixonado, que parecia saído de um conto de fadas. Ele, o herdeiro de um império vinícola. Ela, a promissora cantora de Fado de uma família tradicional.

O mal-entendido que destruiu tudo aconteceu no dia do casamento. Cecilia, roída pela inveja, editou uma gravação de uma conversa privada. Na gravação manipulada, Juliette parecia confessar que só se casaria com Hugo pelo prestígio e fortuna da família Gordon.

A verdade era o oposto. Ela admitia que, embora o interesse inicial pudesse ter sido superficial, acabara por se apaixonar perdidamente por ele.

Mas Hugo ouviu a mentira. Cego pela dor e pela traição, ele retaliou da forma mais cruel que conseguiu imaginar: arruinou a adega da família de Juliette, levando o pai dela à falência. Ele queria forçá-la a admitir que o amava, a implorar.

Mas o orgulho ferido de Juliette e a dor pela destruição da sua família fizeram-na dizer exatamente o que ele esperava ouvir: que nunca o amou.

Esse foi o início do abismo entre eles.

Agora, confrontada com a morte e uma traição dupla, Juliette tomou uma decisão. O médico tinha-lhe falado de um tratamento experimental, um procedimento arriscado que poderia induzir uma amnésia seletiva. Apagar memórias específicas.

Ela não queria passar os seus últimos meses a odiar Hugo. Não queria lembrar-se da dor, da humilhação, da traição de Cecilia.

Ela queria esquecer.

"Doutor," disse ela, a voz rouca mas firme. "Eu quero fazer o procedimento. Quero apagar Hugo Gordon da minha memória."

Queria viver os seus últimos dias em paz, mesmo que essa paz fosse uma ilusão construída sobre o esquecimento.

Capítulo 2

Juliette voltou para a mansão que partilhava com Hugo, um mausoléu frio cheio de memórias amargas. O stresse e a dor emocional desencadearam os sintomas da sua doença. Correu para a casa de banho, curvando-se sobre a sanita enquanto uma onda de náuseas a dominava.

Ela vomitou, e o branco da porcelana foi manchado de vermelho vivo. Sangue.

Ela limpou a boca, ofegante, e puxou o autoclismo, vendo a prova da sua mortalidade a ser levada pela água. No momento em que se levantou, a porta abriu-se de repente.

Hugo estava ali, o seu olhar a varrer a divisão, parando nela.

"O que se passa contigo? Estás mais pálida que um fantasma."

O coração de Juliette disparou. Ele não podia saber. Não agora.

"Apenas um problema de estômago," mentiu ela, a voz mais calma do que se sentia. "A comida do almoço não me caiu bem."

Hugo olhou-a com desconfiança, mas antes que pudesse questionar mais, a voz de Cecilia ecoou pelo corredor.

"Hugo, querido! Onde te meteste?"

A atenção de Hugo desviou-se, e ele saiu da casa de banho sem outra palavra. Juliette encostou-se à porta, fechando os olhos, o alívio a percorrer-lhe o corpo.

No dia seguinte, Hugo cumpriu a sua ameaça. Ele trouxe Cecilia para morar na mansão. Não como uma convidada, mas como a nova senhora da casa. Ele exibia o seu afeto por ela abertamente, beijando-a no corredor, rindo das suas piadas à mesa de jantar, tudo para provocar uma reação de Juliette.

Mas Juliette não lhe deu essa satisfação. Ela observava-os com uma indiferença gélida, uma apatia que parecia perturbar Hugo mais do que qualquer ataque de ciúmes. Ela estava a desapegar-se, pedaço por pedaço.

A escalada do conflito atingiu um novo patamar quando Cecilia entrou no pequeno estúdio de música de Juliette, onde ela guardava as suas posses mais preciosas. O olhar de Cecilia pousou numa guitarra antiga, encostada a um canto.

"Que guitarra velha e feia," disse Cecilia, com um sorriso desdenhoso. "Acho que ficaria melhor na lareira."

"Não lhe toques," a voz de Juliette foi baixa, mas carregada de aviso. "Pertenceu à minha avó."

A sua avó, uma lenda do Fado, era o seu ídolo. Aquela guitarra era mais do que um objeto; era um elo com o seu passado, com a sua paixão, com a única parte da sua vida que ainda parecia pura.

Cecilia riu-se e estendeu a mão para a guitarra. "Acho que vou experimentar."

"Cecilia, não," a voz de Hugo soou da porta. Ele entrou, mas não para proteger a herança de Juliette. Ele colocou-se ao lado de Cecilia, um braço possessivo à volta da sua cintura. "Deixa as coisas dela em paz."

O seu gesto, supostamente protetor, teve o efeito contrário. Cecilia, sentindo-se encorajada pela sua proximidade, empurrou a guitarra deliberadamente.

O instrumento caiu no chão com um som horrível de madeira a estalar. O braço partiu-se.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Juliette olhou para a guitarra partida, o seu coração a partir-se com ela. Era como se a última ligação à sua identidade tivesse sido destruída.

As lágrimas que ela segurara por tanto tempo finalmente vieram, silenciosas e incontroláveis. Ela caiu de joelhos, tocando nos destroços da guitarra, o seu corpo a tremer com soluços silenciosos.

Pela primeira vez em anos, Hugo viu a dor crua e desprotegida de Juliette. A sua fachada de indiferença tinha-se desmoronado, e o que restava era uma vulnerabilidade que ele não via desde os tempos de Coimbra.

Um vislumbre de desconforto passou pelo seu rosto. Ele sentiu um impulso estranho de a consolar, de reparar o que tinha sido quebrado.

"Não chores por causa de uma coisa estúpida," disse ele, a sua voz mais áspera do que pretendia. "Eu compro-te uma nova. Uma melhor."

As suas palavras, insensíveis e desajeitadas, apenas aprofundaram a ferida. Ele não entendia. Nunca entenderia.

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