A dor aguda no meu ventre foi um lembrete cruel do inferno que eu já havia vivido uma vez.
Abri os olhos para o quarto que dividia com Pedro, sentindo o pânico subir com as memórias: a festa, o anúncio, a dor do parto, o porão, o sangue, um filho chorando e o outro em silêncio.
Eu tinha morrido, mas agora, minha barriga grande e pesada provava o impossível: meus dois filhos ainda estavam aqui, e eu tinha voltado.
Voltei para o dia exato do baile de gala, o mesmo dia em que meu mundo desabou.
A voz de Pedro, vinda do banheiro, a voz que eu amei e que me condenou, perguntou: "Joana? Você está bem, meu amor?".
Forçando um sorriso, menti sobre estar ótima, enquanto ele beijava minha barriga, falando dos "herdeiros" ansiosos pela festa.
Ele não sabia que, nesta vida, eu já entendia. Ele era infértil, e essa obsessão por um herdeiro mascarava uma teia de mentiras e traições.
Testei as águas, mencionando a surpresa que seria anunciar os gêmeos, e vi um flash sombrio em seus olhos antes que ele recompusesse o sorriso.
Ele mentia. Patrícia, a influenciadora e sua amante, já esperava o "primeiro filho" dele, resultado de um esquema com mães de aluguel.
Eu não seria mais a vítima ingênua que foi arrastada para o inferno sem lutar.
Eu iria àquele baile, não como a esposa amorosa, mas como uma guerreira.
Lembrei-me do frio do cimento do porão, da solidão do parto, do primeiro filho forte e da minha menina, tão frágil, que nasceu em silêncio.
Segurei seu corpo frio, chorei até não ter mais lágrimas, enquanto Pedro nunca veio.
Essa memória era meu combustível: a dor, a raiva, a perda.
Desta vez, eu protegeria meus filhos. Custe o que custar.
Escolhi meu vestido com cuidado: não o branco da sonhadora da vida passada, mas um vermelho sangue. A cor da raiva. A cor da guerra.
Quando Pedro me viu, ele ficou sem fôlego.
"Joana... você está... deslumbrante."
"Eu sei," respondi, minha voz cortante.
No salão luxuoso, eu sabia que o show estava prestes a começar.
E desta vez, eu não seria a única a sangrar.
Minha bolsa estourou ali mesmo, na frente de todos, no palco da humilhação de Pedro e Patrícia.
A dor era dilacerante, o pânico me dominava.
"Pedro!" gritei, a voz rasgada. "O bebê... os bebês estão vindo!"
Mas ele, cego pelas mentiras de Patrícia, rugiu: "Seguranças! Tirem essa mulher daqui!".
Fui arrastada para a calçada fria, sob a garoa fina, em trabalho de parto, sozinha, enquanto ele me acusava de farsa.
"Mentira!" ele gritou, "Você fingiu essa gravidez para tentar roubar minha fortuna!".
A humilhação era insuportável.
Ele levantou a mão e me bateu. A dor do tapa somada à traição era pior que as contrações.
"Você não precisa de um médico, você precisa de uma lição," ele disse, antes que eu sentisse a dor da agressão.
Mas o que me atingiu mais foi a terrível clareza: Patrícia o manipulava, e sua história sobre meu pai era uma invenção.
Ele me odiava por uma mentira que ela criou, uma vingança que não fazia sentido.
Presa em um quarto, em agonia, sem ninguém acreditando em mim, ele me ofereceu divórcio em troca de silêncio.
Então, sua mãe, Eleonora, me encontrou. Chocada, ela viu a verdade.
"Pedro, o que você fez?" ela exigiu, "Chame uma ambulância! Agora!".
"Eu não sei que mentiras aquela mulher colocou na sua cabeça, mas isso acaba agora. Você vai sair deste quarto. Eu vou cuidar da sua esposa."
Eleonora tinha um plano de fuga, uma faísca de esperança.
Mas Patrícia, com sua performance digna de Oscar, apareceu, fingindo terror, brandindo uma tesoura contra a própria garganta.
"Pedro, não! Abaixe isso! Eu faço o que você quiser!"
Ele me agarrou, a fúria cega em seus olhos. "Eu vou ligar para o meu contato na polícia federal e mandar prender seu pai por fraude e negligência médica."
"Ele não salvou minha vida, Joana. Ele a arruinou. Ele é a razão pela qual eu não podia ter filhos. Patrícia me contou a verdade."
A mentira era muito mais profunda, mais antiga, mais venenosa.
"É mentira! Meu pai nunca faria isso!"
Me debati, mas um segurança me agarrou. Senti um novo fluxo de sangue.
"Estou sangrando..."
Patrícia mostrou uma falsa mensagem. A dúvida de Pedro se transformou em fúria.
Ele me deu um soco no estômago. O ar foi expulso de mim.
"Levem-na para o porão," Pedro ordenou, "Sem comida, sem água. Até ela aprender a lição."
Enquanto era arrastada, o celular de Pedro tocou. O policial informou: "O carro do Dr. Alencar, seu sogro, foi encontrado em uma ribanceira."
"Lamento, senhor. Ele não resistiu."
Não. Meu pai. Assassinado.
"ASSASSINO!" Gritei para Pedro. "VOCÊ O MATOU! MONSTRO! ASSASSINO!"
Ele não vacilou. A última coisa que vi antes da escuridão do porão foi o sorriso vitorioso de Patrícia.
No hospital, os médicos confirmaram a pior notícia: Joana, morta. E os gêmeos, um vivo, outro morto.
O mundo de Pedro desabou. A lembrança da primeira vida o atingiu.
"MENTIRA!" ele gritou.
Ele se lembrava de tudo. A verdade cruel de Patrícia, a inocência de Joana e de seu pai.
Ele havia cometido os mesmos erros. Ele havia sido o monstro novamente.
A dor e a culpa de Pedro se transformaram em uma fúria gelada.
Ele ligou para o hospital, descobriu que Patrícia nunca tinha trabalhado lá. Eleonora confirmou: "O bebê... não é seu. Ela tem um histórico de se envolver com homens ricos e depois chantageá-los."
A verdade era esmagadora. Ele tinha sido completamente enganado.
Pedro reuniu os seguranças. "Eu quero a verdade. Quem ajudou Patrícia? Quem sabia que a mensagem de Joana era falsa? Quem sabia do meu sogro?"
Os seguranças confessaram, revelando toda a farsa de Patrícia.
Ele sacou a arma e atirou no seu chefe de segurança.
"Ninguém sai desta sala," ele rosnou.
Pedro arrastou Patrícia até o porão, forçando-a a ver Joana e sua filha mortas.
"Olhe para o que você me fez fazer."
Ele a abandonou lá, com os mortos. Pegou seu filho sobrevivente dos braços do médico.
"Eleonora," ele sussurrou, "Leve-o. Dê a ele o nome que Joana teria escolhido. Diga a ele que sua mãe era uma heroína. Nunca diga a ele sobre mim."
Ele entregou o bebê para sua mãe.
Pedro voltou à mansão, jogando Patrícia e o bebê dela de volta ao porão.
"Uma família reunida," ele disse.
Ele ateou fogo à mansão. Os gritos da sala de jantar e do porão foram rapidamente silenciados pelo rugido do incêndio.
A mansão Ferreira, o símbolo de seu império, tornou-se sua pira funerária.
Longe, à beira do bosque, uma mulher observava as chamas iluminarem o céu noturno.
Joana não estava morta.
Eleonora e o médico a resgataram, junto com seu filho sobrevivente.
Ela segurava seu filho e não sentia nada. Apenas um vazio silencioso.
Ela deu as costas para o fogo, para as cinzas de sua vida passada.
Ela não olhou para trás. Ela caminhou em direção ao futuro, uma mãe solitária, com o coração partido, mas finalmente livre.
A dor aguda no meu ventre me despertou.
Abri os olhos, confusa. A luz do sol entrava pela janela do nosso quarto, o quarto que eu dividia com Pedro.
Meu coração martelava no peito, um ritmo frenético de pânico.
As memórias vieram como uma enxurrada. O salão de festas, o anúncio de Pedro, a dor do parto, os seguranças me arrastando, o porão escuro e úmido, o sangue, o choro fraco de um bebê e o silêncio mortal do outro.
Minha morte.
Eu toquei minha barriga. Estava grande, redonda e pesada. Meus filhos... eles ainda estavam aqui. Os dois.
Eu respirei fundo, o ar enchendo meus pulmões. Eu estava viva. Eu tinha voltado.
Voltei para o dia do baile de gala. O dia em que meu mundo desabou.
Um soluço escapou dos meus lábios, uma mistura de alívio e pavor. Eu tinha uma segunda chance. Uma chance de salvar meus filhos.
"Joana? Você está bem, meu amor?"
A voz de Pedro veio do banheiro. Aquela voz que eu amei com toda a minha alma, a mesma voz que me condenou à morte.
Forcei um sorriso quando ele saiu, enrolado em uma toalha, o cabelo molhado. Ele era lindo, carismático, o magnata do agronegócio que todos admiravam. O monstro que se escondia por trás daquele rosto.
"Estou ótima," menti, a voz trêmula. "Acho que os bebês estão agitados hoje."
Ele sorriu, aquele sorriso que costumava derreter meu coração, e se aproximou, ajoelhando-se ao lado da cama para beijar minha barriga.
"Meus herdeiros estão ansiosos para a festa de hoje à noite," ele disse, os olhos brilhando.
Herdeiros. Na minha vida passada, eu não entendia a obsessão dele. Agora, eu sabia. Ele era infértil, uma condição rara que o impedia de ter filhos. Meus gêmeos não eram a surpresa que eu pensava. Eles eram um milagre que ele acreditava ser impossível.
E ele já tinha um herdeiro. Ou pelo menos, achava que tinha.
"Mal posso esperar para ver a cara de todos," continuei, testando as águas. "Principalmente quando anunciarmos sobre os gêmeos."
Ele endureceu por um instante, um flash de algo escuro em seus olhos antes que o sorriso voltasse.
"Sim, claro. Vai ser uma grande noite."
Ele estava mentindo. Ele já sabia que Patrícia, a influenciadora digital com quem ele tinha um caso, daria à luz seu "primeiro filho". Ele tinha contratado várias mães de aluguel pelo Brasil, prometendo a vasta fortuna da família para aquela que lhe desse um filho primeiro.
Ele não me contou sobre sua infertilidade. Ele me deixou acreditar que éramos um casal normal, construindo uma família. Que traição cruel.
Levantei-me, a decisão se formando em minha mente. Na minha vida passada, eu fui ingênua. Fui uma vítima. Fui arrastada para o inferno sem lutar.
Desta vez, seria diferente.
Eu não iria fugir. Eu não iria me esconder. Eu iria àquele baile. Mas não como uma esposa amorosa planejando uma surpresa.
Eu iria como uma guerreira.
Passei o dia me preparando. Ignorei as ligações da minha mãe, ignorei as mensagens dos meus amigos. Meu foco era um só.
Lembrei-me do porão. O frio do chão de cimento contra as minhas costas. A escuridão total. A dor lancinante das contrações, sozinha. O som do meu próprio grito ecoando nas paredes.
Lembrei-me de dar à luz ao meu primeiro filho, um menino forte. E depois, a dor de novo, a exaustão, e o nascimento da minha menina, tão pequena, tão frágil. Lembrei-me do seu silêncio.
Eu a segurei junto ao meu corpo, tentando lhe dar meu calor, mas ela já estava fria. Eu chorei até não ter mais lágrimas, meu corpo partido, minha alma destruída.
Pedro nunca veio.
Quando seus homens finalmente abriram a porta, eu já estava morta, abraçada aos meus dois filhos. Um vivo, outro morto.
Essa memória era meu combustível. A dor, a raiva, a perda. Elas me davam uma força que eu não sabia que possuía.
Eu iria àquele baile e enfrentaria Pedro. Eu não deixaria que ele me humilhasse. Não deixaria que ele me destruísse.
E acima de tudo, eu protegeria as duas vidas dentro de mim. Custe o que custar.
Escolhi meu vestido com cuidado. Não o branco que eu usei na vida passada, o vestido de uma sonhadora. Escolhi um vermelho sangue. A cor da raiva. A cor da guerra.
Quando Pedro me viu, ele ficou sem fôlego.
"Joana... você está... deslumbrante."
"Eu sei," respondi, minha voz fria.
Ele franziu a testa, desconcertado pela minha mudança de atitude, mas não disse nada.
O caminho até o salão de festas foi silencioso. Eu podia sentir o nervosismo dele. Ele achava que estava no controle. Ele não tinha ideia do que estava por vir.
Ao entrarmos no salão luxuoso, todos os olhos se voltaram para nós. O casal poderoso. O rei e a rainha da alta sociedade de São Paulo.
Uma farsa.
Eu mantive minha cabeça erguida, minha mão protetoramente sobre minha barriga. Respirei fundo. O show estava prestes a começar.
E desta vez, eu não seria a única a sangrar.
Uma pontada aguda atravessou meu baixo-ventre, fazendo-me vacilar.
"Você está bem?" Pedro perguntou, sua mão firmemente no meu braço.
"Foi só uma contração de treinamento," menti, endireitando as costas. "O médico disse que é normal."
O médico não tinha dito nada, porque eu não tinha contado a ele sobre as dores que começaram naquela manhã. Eu não podia arriscar que ele me mandasse para um hospital. Não hoje.
Eu precisava estar aqui.
Pedro subiu ao palco, o microfone na mão, o sorriso de um bilhão de reais no rosto. O salão ficou em silêncio.
Meu coração começou a bater descontroladamente. Estava acontecendo. De novo.
"Meus amigos, minha família," ele começou. "Hoje é uma noite muito especial. Uma noite que marca o início de um novo legado para a família Ferreira."
Eu observei os rostos na multidão. Vi minha sogra, Dona Eleonora, sorrindo com orgulho. Vi os parceiros de negócios, os rivais, os jornalistas. Todos pendurados em cada palavra dele.
"Como muitos de vocês sabem, construir um legado, garantir o futuro, sempre foi minha maior obsessão. E hoje, tenho o prazer de anunciar... que meu futuro chegou."
Uma mulher entrou no salão pela porta lateral.
Patrícia.
Ela usava um vestido branco, angelical. Em seus braços, um pequeno pacote enrolado em um cobertor azul. Ela caminhava em direção ao palco, o rosto uma máscara de humildade e felicidade.
Os murmúrios começaram, se espalhando pela multidão como fogo.
"Eu quero apresentar a vocês," a voz de Pedro trovejou pelo salão, "meu filho. Meu primeiro filho e herdeiro."
O mundo pareceu girar. Mesmo esperando por isso, a dor da traição pública foi como um soco no estômago. Outra contração me atingiu, mais forte desta vez. Eu me segurei em uma cadeira para não cair.
Minha visão focou em Patrícia. Ela olhou diretamente para mim, um brilho de triunfo em seus olhos. E então eu vi. A pulseira de ouro em seu pulso. Era idêntica a uma que Pedro me deu.
Na minha vida passada, eu não tinha notado. Eu estava cega pela dor e pelo choque. Mas agora, eu via tudo com uma clareza terrível. Patrícia não era apenas uma amante. Ela era uma das outras. Uma das mulheres que ele contratou. E ela tinha ganhado a corrida.
O caos explodiu. As pessoas estavam de pé, chocadas, sussurrando, apontando.
Foi então que minha bolsa estourou.
Um líquido quente escorreu pelas minhas pernas, encharcando o vestido vermelho. A dor se tornou insuportável, uma onda avassaladora que me derrubou de joelhos.
"Pedro!" Eu gritei, a voz rasgada de agonia. "O bebê... os bebês estão vindo!"
Por um segundo, vi pânico genuíno no rosto de Pedro no palco. Mas Patrícia sussurrou algo em seu ouvido, o rosto contorcido de preocupação fingida. O pânico dele se transformou em fúria.
"Seguranças!" ele rugiu. "Tirem essa mulher daqui!"
Dois homens de terno preto me agarraram pelos braços.
"Não! Por favor! Eu estou em trabalho de parto!" Eu implorei, tentando me soltar.
Eles me arrastaram pelo salão como um saco de lixo. As pessoas se afastaram, seus rostos uma mistura de pena e horror. Ninguém me ajudou.
Eles me jogaram para fora, na calçada fria sob a garoa fina. A porta do salão se fechou, abafando os sons da festa.
Eu estava sozinha, em trabalho de parto, na rua.
Pedro apareceu na porta, o rosto uma máscara de desprezo. Patrícia estava ao seu lado, segurando o bebê, parecendo uma santa ultrajada.
"Como você ousa?" Pedro rosnou, caminhando até mim. "Como você ousa tentar arruinar este momento? Tentar roubar o que é do meu filho?"
"Do que você está falando?" Eu solucei, a dor me cegando. "Eu estou grávida de seus filhos! Nossos filhos!"
"Mentira!" ele gritou, seu rosto a centímetros do meu. "Você é uma mentirosa invejosa! Patrícia me contou tudo. Você descobriu sobre o bebê dela e fingiu essa gravidez para tentar garantir um pedaço da minha fortuna!"
A acusação era tão absurda, tão cruel, que me deixou sem ar.
"Isso não é verdade! Pedro, por favor, olhe para mim! Eu preciso de um médico!"
"Você não precisa de um médico, você precisa de uma lição," ele disse, a voz baixa e perigosa.
Ele levantou a mão.
Eu fechei os olhos, esperando o golpe.
E ele me bateu. Com as costas da mão, com toda a sua força, no meu rosto.
Minha cabeça estalou para o lado. O gosto de sangue encheu minha boca. A dor da humilhação foi pior do que a dor física. Pior do que as contrações.
O homem que eu amava, o pai dos meus filhos, tinha acabado de me agredir na frente de todos, convencido de que eu era uma fraude.
E tudo por causa das mentiras de Patrícia. A mulher que, de alguma forma, o tinha convencido de que ela era a vítima.
Enquanto eu estava caída na calçada molhada, uma nova compreensão me atingiu, tão chocante quanto o tapa. A forma como Patrícia o manipulava, a forma como ela se inseriu na família... era familiar.
Ela não era apenas uma das mães de aluguel. Havia algo mais. Uma conexão mais profunda e sombria entre ela e Pedro que eu ainda não entendia.