Antes
Há muito tempo atrás os semideuses desceram à terra, eles se divertiam distribuindo magia e causando o caos na terra.
Mas não é sobre eles que iremos falar e sim sobre o que eles deixaram para trás, pois os deuses só davam bênçãos para os humanos através de sacrifícios e mesmo depois que eles se foram os humanos continuaram com a tradição.
Em Tárcia, a cada sete anos sete meninas são dadas como tributos para o deus da guerra para saciar sua sede de sangue e a paz reinar. Porém nem tudo é o que parece
início
O cheiro do frango que minha mãe assava me fazia perder a concentração, era a quinta flecha que passava longe do centro do círculo que meu pai tinha feito na árvore, ele estava do outro lado cortando lenha e uma hora ou outra me olhava, não me pressionava, mas sabia que era importante para ele que eu acertasse.
- Esse eu acerto. - Afirmei, ajeitei meus ombros e então foquei no meio do círculo, respirei fundo e me preparei para atirar, mas um barulho estranho tirou a minha concentração e a flecha entrou para a floresta.
Me virei para olhar meu pai que apenas faz um movimento para que eu me aproxime dele. O som das patas dos cavalos sobre o chão da floresta estava cada vez mais alto, eles deviam estar próximos e eu sabia que eram mais de um.
- Dominique! - Minha mãe saiu da casa e olhou para o meu pai, ambos pareciam estar com medo, não entendi o porquê, meu pai era um guerreiro e não deixaria nada acontecer.
- Vá até a sua mãe! - A ordem do meu pai era clara, ele parecia estar se preparando para uma batalha.
Eram os soldados da rainha, meu pai se aproximou dos cavaleiros que tinham armaduras douradas.
Não consegui ouvir o que eles diziam, meu pai pegou a carta na mão e então agradeceu. O homem sorriu e cumprimentou minha mãe que logo me jogou para trás do seu corpo, como se para me proteger.
E antes do meu pai falar qualquer coisa, minha mãe declara.
- Ela foi escolhida, não foi?
- A rainha de Tárcia a escolheu. - Meu pai baixou seu olhar, como se sentisse vergonha.
- Para que papai? - Perguntei curiosa, e então ele me olha de uma forma estranha, nunca vi meu pai com o olhar tão triste.
- Não se preocupe, ficará tudo bem. - Ele me pega no colo e me abraça forte. - Eu farei com que fique tudo bem.
Ao seu lado estava minha mãe que apenas chorava. E naquele momento, mesmo sem entender exatamente o que acontecia, eu sabia que algo terrível estava para me acontecer.
Estava me vendo em um belo vestido branco, meus cabelos negros eram a única coisa que tinha cor ali, meus olhos castanhos faziam semanas que não brilhavam, minha pele clara se perdia na cor branca do vestido. Três mulheres enfiam alfinetes no vestido e minha mãe chorava sem parar.
- Elisabeth, por que está chorando tanto? - Uma das mulheres pergunta, enquanto enfia um alfinete no vestido.
- De felicidade! Não é mamãe? - Digo antes que minha mãe possa dizer algo que nos comprometa.
- Sim, não podia estar mais feliz. - Minha mãe diz com seus lindos olhos verdes tristes.
E eu a compreendia, afinal quantas vezes uma mãe pode ver sua filha vestida com sua mortalha, antes de estar morta?
- Pode tirar o vestido, estará pronto para o grande dia. - A mulher carrancuda diz.
- Obrigada! - Digo gentilmente e comecei a tirar os laços que estavam me sufocando.
- Filha, gostaria de ajuda?
- Não precisa. -Tirei o vestido que tanto eu odeio do meu corpo e coloquei meu outro vestido de cor lilás. - Preciso que me ajude a amarrar o laço nesse aqui. - Eu odeio todas essas fitas e laços que me tiram o fôlego, mas ela exige que todas nós usemos, dessa forma não seriam confundidas com as camponesas.
Minha mãe transou a fita quase me deixando sem ar.
- Está me sufocando! - Falei puxando o ar.
- Desculpa! - Ela diz pisando no vestido branco que acabei de tirar.
- Não fique nervosa, tudo vai ficar bem. - Mentir para ela tinha se tornado um hábito, sempre usava palavras que ambas sabíamos que eram mentira, porém a verdade era inevitavelmente cruel.
- Não, não irá. - Ela olha para o vestido branco, eu não disse nada. -Olha só o que eu fiz! - Ela tenta em vão limpar com suas mãos, mas ela acaba chorando em cima do vestido.
- Mãe! - Ela seca as lágrimas. - Não se preocupe, irão conseguir tirar a mancha.
- Sim querida, nada atrapalha o grande dia. - A mulher diz se virando para pegar o vestido, outra mulher se aproxima e ela dá um largo sorriso.
- Você deve está feliz por ser uma das escolhidas?
- Quem não estaria? - Minha mãe fala, olhando para filha da mulher que está brincando com as fitas no chão.
- Quem não estaria? - Repito tentando sorrir, chamando atenção para mim e não para minha mãe.
- Eu daria tudo para estar no seu lugar! - Sinto uma enorme vontade de dizer: "então porque não vai, no meu lugar?", mas apenas digo...
- Sou sortuda! - Dou o mais largo sorriso que consegui.
- Não sabe quanto. - Ela diz piscando.
Eu realmente desejo ter a boa vontade dessa mulher.
- Vamos filha? - Minha mãe diz me puxando.
Todos me olhavam como se eu fosse da realeza e de certa forma é o que sou. Moramos mais próximo do castelo que qualquer um, temos as melhores casas, os melhores vestidos e joias, cada pequeno desejo pode ser realizado com um estalar de dedos.
Mas tudo tem um preço, é assim que as coisas funcionam em Tárcia e o preço que nós escolhemos temos que pagar é com nossas vidas.
Escutei alguns cochichos de uma mulher que fala com sua filha. "É ela filha, ela que é uma das escolhidas".
Não costumávamos sair, nunca gostei dos olhares e presentes que recebia, não gosto de ter que parecer agradecida, sorrir e fingir que não sou um porco sendo preparada para o abate. Mas havia coisas que me obrigavam a ter que andar pelo reino e o vestido para a grande cerimônia era um desses motivos.
- Eu odeio sair nas ruas. - Eu cochicho para minha mãe, que me olha e balança a cabeça.
- Também filha. - Minha mãe sempre foi bonita, cabelos escuros, pele bem clara e olhos verdes, mas mesmo assim tristes. Não haveria ninguém que não concordasse comigo, ela era a camponesa mais linda que alguém já viu. - Porque está sorrindo?
- Eu queria ter nascido com seus olhos. - Falei, ela rapidamente ficou vermelha, minha mãe ao contrário de mim, não gostava de elogios.
- Pare com isso! É linda exatamente como é.
- Diz isso porque nasci sua cópia. - Ela sorri e revira os olhos, ela já havia se conformado comigo, mas a única coisa que realmente puxei do meu pai foram os olhos e o gênio.
Chegamos à enorme casa, que segundo eles era "a nossa casa." Meu pai está sentado olhando pela janela. Ele não me olha, nem ao menos parece perceber que eu estava lá, não reconheço o homem que ali está, tem os mesmos olhos castanhos profundos como os meus, mas agora não tinha vida ali. Meu pai sempre estava triste, ele tinha se tornado a sombra do guerreiro que um dia foi, mas nas últimas semanas isso tem sido pior, ele tem ficado mais distante e eu não consigo mentir para ele, não posso abraçá-lo e dizer que tudo irá ficar bem, não tenho força para isso e acho que ele sabe disso.
- Vamos filha. - Minha mãe me puxa quando percebe que eu estava prestes a chorar. Eu a sigo até o meu quarto.
- Não sei o que eu faço! - Digo me jogando na cama. - Ele sabe que não sou culpada, não sabe?
- Ele mais do que ninguém sabe. - Ela se aproxima e faz uma carícia em meus cabelos.
- E o que eu faço?
- Não há o que fazer!
- Eu não quero ir e deixá-lo assim! - Digo irritada. A verdade é que estou muito irritada nos últimos dias, estou irritada com tudo e com todos, porque eu não quero morrer, porque não quero deixá-los.
- Como se você estivesse escolhendo! - Minha mãe diz, sem me olhar, tanto ela quanto o meu pai sabiam que não havia escolha, não quando meu destino foi traçado pela rainha de Tárcia.
- Não tenho. - Sinto a minha garganta doer, mas não ia chorar, não ali, não perto dela.
- Minha filha... - Ela não terminou de falar, apenas me abraçou, não havia muito o que falar, não quando sabíamos onde a conversa iria terminar, meus pais estavam devastados e eu não podia fazer nada para mudar isso e era o que mais me doía.
Às vezes desejo que eles fossem como os outros pais, queria que eles estivessem felizes pela honra de ter uma escolhida em sua família, mas meus pais não eram assim, eles não se importavam com o bem do reino...
- Podíamos caçar, ele sempre se alegra quando caça. - digo e minha mãe deu o que era à sombra de um sorriso.
- Sabe que isso não irá acontecer.
- Só queria saber o que fazer. - Eu me sentia impotente, como se minhas mãos estivessem amarradas, eu não podia lutar pela minha própria vida e não podia mudar o que meus pais sentiam quanto a isso.
- Eu também, querida. - Ela beija o topo da minha cabeça, já havia se passado muito tempo desde que ela havia feito isso, muito tempo desde que eu era uma menininha que precisava de colo e consolo.
Veio à imagem de uma casinha humilde sem muito espaço e com muitas espadas, minha casa ficava longe do castelo em uma floresta, não tínhamos muito, mas nada nos faltava e, com certeza, fui mais feliz lá do que nessa casa enorme e vazia.
Essa casa não tem vida e, com certeza, nunca teve alegria. Quando nos mudamos, meus pais já sabiam que em sete anos eles perderam sua única filha e a bela casa não mudava isso.
- Filha, você quer um chá?
- Não, vou ir ver a Elaine.
- Não demore muito. - Minha mãe disse se virando para sair. - E não desça pela janela!
- Não se preocupe. - Digo olhando para janela, mas então decidi obedecê-la e sai pela porta.
Caminho até a enorme casa ao lado e bato na porta.
- Sim, o que deseja? - A criada baixinha de cabelos ruivos pergunta, não gosta muito de mim, na verdade. Poucas são as pessoas que gostam, sou um exemplo do que uma escolhida não deve ser.
- Elaine está?
- Sim, pode entrar. - Ela diz se virando para ir chama Elaine, fiz uma careta, mesmo sabendo que era algo infantil, mas não havia muito que se fazer além disso.
A enorme casa da Elaine era bela e cheia de flores, ao contrário da minha que estava sem vida.
Elaine entra na sala com seu lindo vestido verde, ao contrário de mim, ela é o exemplo do que uma escolhida deve ser. Muito calma e conformada, fingi muito bem estar feliz por morrer pelo nosso reino, mas não estava, minha melhor amiga não está conformada, apenas aceita porque sua família acha que é uma honra morrer para o bem do reino.
- Foi fazer a prova do vestido hoje? - Ela perguntou de forma gentil, sempre gentil demais para o meu gosto, mas eu a adorava e por isso suportava tanto sua personalidade dócil e gentil.
- Sim, o seu dia é amanhã?
- Sim. - Ela diz, pegando um de seus cachos loiros e fazendo uma careta. - Estou nervosa!
- Ficará lindíssima. - Ela sorri, mas seus olhos azuis não me enganam, ela estava triste e não tinha ninguém além de mim e de Caio com quem pudesse demonstrar sua insatisfação.
- Eu a odeio! Por nos fazer passar por isso. - Falei e me arrependi ao olhar Elaine.
- Fique quieta! - Elaine me repreende com o olhar.
- Desculpa! - Eu digo, olhando para os lados para ter certeza que ninguém estava nos escutando. Ao contrário dos meus pais, os pais de Elaine achavam uma honra entregar sua filha para o bem do reino.
- Meu pai te proibiu de vir aqui.
- Não se preocupe, não direi mais nada aqui.
- Que tal ir para o jardim? - Elaine diz.
- Claro.
Entramos em um belo jardim e não tive tempo de apreciá-lo já que Elaine começou a resmungar.
- Dominique, você tem que parar com isso! - Ela fala irritada. -É a nossa rainha e temos que aceitar o nosso destino.
- E quem foi que disse que esse é o meu destino? - Digo arrancando uma rosa. - O destino dela não era ser arrancada, era?!
- Como a rosa não temos escolha. - Elaine sorri e pega a rosa. - Seja como a rosa e não reclame.
- Não quero, não posso fingir que estou feliz.
- Não diga isso, muitas querem estar em seu lugar. - Ela fala de forma paciente como se falasse com uma criança.
- Não, não querem! Só dizem por que é bonito porque é algo que os outros esperam ouvir.
- Pare com isso!
- Não é certo, não devia ser considerado certo nem um privilégio morrer sem lutar, morrer sem honra, sem uma história.
- Do que está falando? Somos os bens mais preciosos do nosso reino. - Por um momento Elaine fala como as outras, ela era mais como elas do que como eu, e por algum motivo isso me incomoda, me incomoda saber que eu estou sozinha, que ninguém irá se rebelar ou lutar do meu lado.
- Até as próximas escolhidas, então depois seremos esquecidas, não se lembrarão de nada sobre nós, não vão lembrar o quanto nos amavam porque terão outras para amar.
- Não penso assim, somos únicas e todas nós podemos trazer paz para nosso reino. - As palavras que nos foram enfiadas goela abaixo quando crianças agora ela repetia, como se fosse verdade.
- Morreremos pelo nosso reino! - Não podia acreditar nela, mesmo sabendo que Elaine como as outras precisavam acreditar nisso, precisavam acreditar que nosso sacrifício seria bom para o reino. Mas o que seria para nós? Ninguém pensava o quanto iríamos perder, ninguém nos perguntava se estávamos dispostas a sacrificar tudo pelo bem do reino.
- É assim que tem que ser. - Elaine disse segurando o choro, ela era melhor nisso do que eu.
- Não consigo concordar em apenas aceitar a morte.
- Dominique, não deve contrariar o seu destino. - Ela disse o que sempre nos foi dito.
Tínhamos aulas sobre a história do reino, éramos ensinadas a amar nosso reino, doutrinadas a nunca questionar a escolha da rainha. Então por motivos que não sabemos ao certo, nosso destino é a morte.
- Eu não quero morrer! - Eu quase supliquei, mesmo sabendo que Elaine não poderia me salvar.
- Mas...
Ela tenta dizer algo, mas ela para, eu estava desabando e ela sabia disso.
- Quem vai cuidar deles? Eu não tenho um irmão como você.
- Eu não sei. - Ela me abraça. - Queria poder ajudá-la, queria te proteger disso.
- Não devia ser assim, sabia?
- Não reclame, sabe que sonhar não torna nada em realidade. - Ela se afasta para secar suas lágrimas
- O que poderia fazer, além disso? - falo irritada.
- Apenas aceite. - Elaine diz simplesmente.
- A morte?! - digo exasperada com seu conformismo.
- Você não devia pensar assim, nem sei por que ainda falo com você! - Ela parece enfim irritada, sempre ficava quando tocamos nesses assuntos,
- Por que sabe que estou certa ou me diga que você não gostaria de se casar com Lúcio, ter filhos e ficar bem velhinha?
- Seria maravilhoso, mas esse pensamento não me pertence, Dominique ter esses pensamentos te faz sofrer, pensar no futuro nos faz sofrer.
- Por quê? Alguém que você não conhece disse que deve morrer?
- É a rainha, não seja abusada. - Elaine me olha irritada.
- Eu quero lutar, eu quero conhecer o mundo em um barco, eu quero experimentar de tudo, eu quero viver.
- Você é mulher e mesmo que não fosse morrer, não iria fazer essas coisas.
- Eu odeio regras, odeio esse vestido, acho que deve ser bem melhor usar calças!
- Isso é impossível! - Ela me olha horrorizada
- Nada é impossível. Não sei como se conforma com tudo.
- Meu pai diz que é o melhor para mim, quem sonha demais se torna triste.
- Seu pai é mentiroso!!!
- Não diga isso! - Ela se enraiveceu. - Você é muito abusada. - Elaine sai me deixando sozinha.
Acho que exagerei desta vez, mas não fiquei sozinha por muito tempo, o lindo irmão dela logo veio ao meu encontro.
- Por que minha irmã passou bufando? - Caio pergunta.
- Por que eu disse que seu pai é um mentiroso. - Digo com toda a certeza do mundo para o menino de cabelos loiros e olhos azuis, que sorria para mim.
- Há entendi por que ela estava dizendo "Abusada, abusada". - Ele se senta ao meu lado, o adoro. Caio é irmão gêmeo de Eliane, mas ao contrário da irmã ele tinha uma grande tendência a dizer sim para mim.
- Não sei como ela pode aceitar a morte! - Digo colocando minha cabeça em seu ombro.
- Você usa essas mesmas palavras há sete anos. - Ele disse virando seus olhos azuis para me olhar.
- Lembra quando nós três queríamos fugir? - Eu digo tentando sugerir uma ideia absurda, então ele ficou sério.
- Não deu certo. - Ele sabia o que eu estava pensando, mas nada disse, ele se ajeitou, parecia desconfortável.
- E se tentarmos de novo? - insisti e ele pareceu pensar, Caio não disse sim e nem sorriu, o que não era algo comum nele.
- Não. - Ele disse sem me olhar, sem me dizer o motivo apenas "não" foi o que disse me surpreendi e me irritei com ele.
- E por que não?
- Você só diz coisas insanas. - Ele não sorriu dessa vez, se arrumou para me olhar, sabia que estava me magoando, mas não disse nada para me consolar.
- Caio! - Minha voz saiu mais rouca do que normal, sentia minha garganta doer. - Sei que você não quer que ela morra.
- Ela é minha irmã, claro que não quero vê-la morta. - Ele disse simplesmente, mas dessa vez ele desviou o olhar.
- Então?! - Caio me olha e sorri, mas não do jeito certo, não do meu jeito favorito, era apenas um sorriso sem emoção alguma.
- Eu não posso.
- Por quê? - Eu precisava entender, precisava saber o que foi feito com Caio.
- Você sabe que não tem para onde fugir! - Ele passou a mão por meus cabelos. - Não tem como fugir.
- Então está me dizendo que devo morrer? - Ele vira o rosto, mas posso ver que está lutando com as palavras.
- É o seu destino. - Foi como um tapa, assim sem perceber sem me dar conta ele tinha me machucado, conseguiu me pegar desarmada.
Eu apenas o olhei, queria machucá-lo, queria que ele sentisse o que eu estava sentindo.
- Seu covarde! - Cuspi as palavras que magoaram qualquer bom cavaleiro.
- Não seja injusta! - Ele me olha ofendido. - Não quis dizer isso.
- Você desistiu dela! Desistiu de mim! - Eu me afastei dele e me levantei, não o olhei enquanto corria.
- Dominique espere! - Ele grita, mas finjo não escutar.
Corro o máximo que posso e quando canso encosto-me a uma árvore, seco as lágrimas e me sento olhando para o enorme castelo na minha frente. Lembro-me de olhá-lo de longe, lá da floresta, era tão pequeno e distante, era um sonho, eu me imaginava sendo a primeira cavaleira mulher, eu realmente acreditava que daria certo, que eu seria como o meu pai.
Caio se aproxima e se senta ao meu lado.
- Eu não posso fazer isso. - Ele diz e coloca a mão na cabeça, cobrindo o rosto, parecia desesperado, como se estivesse com medo.
- E por quê? - Digo tentando ver seu rosto, mas ele pega minha mão e me encara.
- Sejamos sinceros para onde iríamos? E como garantirmos que ela não irá nos achar?
- E não quer me salvar?! - Digo soltando minhas mãos da sua, apenas para ele a pegar novamente.
- Eu te amo tanto, mas temos nossa família.
- Não entendo! - Digo me afastando dele.
- Quem acha que irá pagar por nossa insolência? - Ele me olha com raiva, mas não era de mim, Caio estava com raiva de tudo, podia ver, podia sentir.
- Eu...
- Não pensou, eu sei! Sempre imprudente! Meu pai me fez ver que não temos escolha. - Ele se aproximou novamente. - Sua família e a minha não irão ser perdoados, sabe disso.
- Eu só....
- Meu pai me fez ver isso. - repetiu. - Ele disse que tentaria me convencer, que isso nos levaria para morte e não só eu, não seria apenas nós, toda nossa família pagaria. - explicou melhor a conclusão que seu o pai o fez enxergar. - Não tem como fugirmos e deixarmos eles e não tem como levá-los.
- Eu só não quero morrer! - Falei e ele sorriu novamente sem qualquer brilho no olhar.
- Também não quer que eles morram? - questionou se aproximando para me abraçar e eu deixei.
- Não!
- Vê como isso é impossível? - Ele sussurrou. - Não temos como fugir, não sem uma consequência terrível.
- Eu sei. - Falei e me aproximei mais do seu corpo, podia sentir seu coração batendo e com isso me acalmei. - Por que eu?
- Não sei! - Ele sussurra.
- Isso deve ser meu destino e devo aceitá-lo. - Falei desanimada.
- Como se pudesse. - Não podia ver, mas sabia que sorria, Caio sempre sorri.
- Eu tenho que tentar aceitar. - Ele me aperta com mais força, posso sentir que ele puxa o ar, como se estivesse lutando para não chorar.
- Talvez podemos encontrar uma saída.
- Não temos esperança, sabe disso, não queira se enganar. - Digo me afastando para ver seu rosto.
Ele é bonito, eu não penso muito nisso, mas agora quando estamos tão perto não tem como não pensar que ele é perfeito, seus cabelos são ondulados e loiros e quando sorri, e quase sempre ele o faz tudo ficar bem.
Mas ela conseguiu estragar isso, ela está destruindo tudo.
- Só de pensar em você...
- Eu sei! - Eu coloco as pontas dos meus dedos em seus lábios. - Não fica preocupado, gosto quando sorri. - Ele tira minha mão e me beija. O beijo era suave, maravilhoso e por um momento eu me esqueci de tudo, mas uma vozinha irritante me lembrou de que era mais uma coisa que eu teria que perder.
Meu coração acelera, sinto minha face ruborizar, mas não penso muito antes de me afastar e começo a correr.
- Espere! - Ele grita. - Não queria magoá-la.
Ele não entende, eu não queria sentir aquilo, não queria sonhar com coisas que não cabiam no meu futuro.
Continuo correndo até entrar na floresta, aqui é onde me sinto bem, encosto-me a árvore e passo a mão em meus lábios, a sensação boa vem outra vez. Quero sentir mais dessa sensação, eu não quero morrer. Mas como ficar viva sem machucar as pessoas que amo? Eu queria poder lutar, poder saber até onde devo ir, não consigo de forma alguma aceitar a morte.
- Não quero desistir! - Digo determinada a lutar, mas lutar contra quem? Não era só a rainha, não era só um oponente para vencer, eu teria que lutar contra o meu reino.
- Que mocinha mais determinada. - A voz veio do nada.
Me levantei e olhei por entre as árvores e não havia ninguém, olhei para minhas costas e levei um susto, havia uma coisa, não podia ser um homem, mas tão pouco era um animal. Se parecia muito com um homem, seus olhos eram de cobra, amarelos e assustadores, mas sua face lembrava a de um homem muito cansado e envelhecido, seu nariz era torto e quando sorriu pude ver que seus dentes eram afiados e amarelados se parecia muito com animal enquanto sorria.
E quando percebi que ele poderia ser um animal, tentei correr, mas ele apareceu na minha frente com rapidez, ele se vestia diferente havia uma capa vermelha que cobria todo o seu corpo.
- Não tenha medo! - Ele falou em uma voz doce e amável, como se falasse com uma criança, seu olhar era humano de alguma forma.
- Não se atreva a me machucar! - Eu tentei me manter o mais distante possível daqueles dentes, e então eu me afastei um pouco.
- Não posso te machucar! - disse e logo percebe o que disse. - Não quero machucá-la.
Eu balancei a cabeça negando. O que essa coisa queria comigo? Respirei fundo, tentando me acalmar, olhei em seus olhos e percebi que havia algo errado, era como se ele estivesse vendo algo além do que eu podia, ele se aproximou e tocou em meu rosto, mas me afastei rapidamente.
- Sabe o que me encanta em você? - Ele não esperou eu responder. - Este seu olhar que me diz mais do que qualquer palavra, mas uma coisa está me intrigando.
- O que? - Ele procurava algo em meu olhar.
- Ainda não tem o olhar que procuro. - E então ele sorri. - Mas posso mudar isso.
O homem ou coisa diz como se me conhecesse, como se soubesse muitas coisas sobre mim.
- Não te conheço. - Falei dando mais um passo para trás.
- É não estava preparado para conhecê-la, tinha me esquecido. - Ele parecer perceber que não o compreendo. - Percebo o quão inocente você ainda é.
- Ainda? - Ele se afastou e acenou me chamando.
- Venha comigo, quero te mostrar algo. - Cada parte do meu corpo dizia para não segui-lo, mas havia alguma coisa que me dizia, que eu ia ficar bem, e por algum motivo eu comecei a andar.
Nós estávamos a caminho do lago e ele estendeu a mão.
- Posso te levar a um lugar? - Olhei para todos os lados, não havia para onde ir, estávamos de frente para o lago e eu não iria entrar lá com aquela coisa.
- Não tem como sair daqui, só sermos para o lago ou voltarmos para a floresta. - Ele sorri.
- Me dê a sua mão e mostrarei algo.
- O que seria? - Digo dando um passo para trás me afastando dele.
- Venha comigo e vai entender. - Ele sorri. - Precisar entender tudo.
Eu estava com medo, muito medo dele ser algum bicho do lago, mas sou muito curiosa e havia algo que me dizia que eu devia confiar, algo muito estranho e familiar sobre ele, me deixando muito confusa.
- Prometa que não irá me fazer mal!
- Não o farei. - Ele diz, e aquilo me tranquiliza por algum motivo, dou a mão a ele.
Em um segundo, já não estávamos no lago e sim em um lugar lindo. Havia um homem com roupas pomposas, ele era velho, tinha barba branca e olhos azuis muito escuros, diferente dos de Caio e Elaine que eram claros como o céu, mas além da diferença havia tristeza em seus olhos o tipo de tristeza que eu via nos olhos do meu pai. Ele estava sentado em um trono de ouro e havia outras três pessoas (contar como são as três pessoas). Então um homem de cabelos negros se aproxima dele.
- Onde estamos? - Perguntei aflita para a criatura que me acompanhava.
- Estamos no passado, estamos no passado de sua rainha. - Eu olhei novamente para tudo, parecia que estávamos ali invisíveis para eles, fiquei tentada a dançar apenas para ter certeza que não nos viam.
- Ele é o pai dela?
- Preste atenção! - Ele diz simplesmente, não respondendo meu questionamento e apontando para o trono.
O homem se posiciona ao lado da porta e anuncia:
- Vossa majestade a rainha! - uma bela senhora de cabelos negros e olhos castanhos entra na sala, ela faz a reverência ao rei, percebo que seus olhos estão cheios de lágrimas.
- Sua majestade... - Sua voz está trêmula. - Nossa filha está cada dia mais doente!
- Não é possível! - O rei levanta irritado. - Mandei trazer o melhor curandeiro do reino.
- Não entende que o que ela tem ninguém sabe dizer o que é ou como tratar?
- Mande chamá-lo! - O rei estava furioso.
- Sim, Majestade. - Ela faz uma reverência e sai.
O Rei caminha de um lado para o outro, parecendo aflito com toda a situação
- O curandeiro do reino! - O homem anuncia.
Um homem já de idade entra, ele usa roupas brancas e seus olhos se enchem de lágrimas quando vê o estado do Rei.
- Majestade! - Ele diz já fazendo uma reverência.
- Me diga o que há de errado com a princesa?
- Fiz tudo que pude, mas o que ela tem não é deste mundo.
- O que está dizendo? - o Rei cospe as palavras indignado com o que escuta.
- Sua filha está condenada à morte, não a nada que eu ou outro curandeiro possamos fazer. - o pobre homem explica mesmo sobre o medo que claramente sentia.
- Eu sou o Rei! E se digo que minha filha vai viver, ela vai viver!
O homem parece desesperado, por um momento parecer duvidar do que iria falar, mas por fim ele fala.
- Sim, há um jeito. - Percebo que direciono meu corpo para ouvi-lo melhor assim como todos que ali estavam.
- Me diga qual é imediatamente! - o Rei ordena deixando as palavras ecoarem pela grande salão.
- Há um ser com grande poder... Não sei como o encontrar majestade. - O homem não encara o rei, que parece perceber isso.
- Não acredito! - O Rei grita.
- Majestade eu...
- Está com medo? - O rei parece ofendido.
- Ele não gosta de ser procurado, e dizem que quando ele dá algo a alguém ele dirá outra.
- Mas sou o rei! - ele diz e posso perceber o orgulho em suas palavras. - Ele não é nada para mim!
- Ele não se importa, ele foi abençoado pelos deuses.
- Então é um deles, pensei que todos tinham ido embora, pois bem, faça com que ele venha aqui.
- Faria tudo pela vossa graça, mas apenas sei de rumores, nada sei sobre o seu paradeiro, pode ser só rumores.
- Saia! Antes que mande cortar sua cabeça por sua incompetência. - Porém o rei já não o olhava, ele estava pensativo, como se procurasse uma resposta.
- Agradeço majestade. - o homem sai.
- Ele merece morrer, não acha? - O rei olha para um homem, que eu ainda não tinha reparado.
- Ninguém deve ser negar a dizer algo ao rei. - O Homem tinha olhos negros seus cabelos eram brancos e vi uma dor ali, escondida por trás do sorriso.
- Ele era seu avô, o homem mais digno que já viveu nesse castelo. -o ser que estava do meu lado surrou para mim, olhei mais atenta para o homem, ele parecia cansado, mas eu podia ver traços do meu pai ali, tentei me movimentar para me aproximar dele, mas o ser me puxa.
- Preste atenção agora. - Ele diz novamente e eu olho para os dois homens à minha frente.
- Me traga o mago. - O rei olha para o homem.
- Majestade, se ele foi deixado, talvez não seja um mago.
- Apenas o traga, e decidimos o que ele é.
Olho para o meu acompanhante que agora pega em minha mão me puxando.
- Vamos, nada interessante irá acontecer por agora.
Estávamos outra vez no lago, olhei para todos os lados, para ter certeza que estamos no mesmo lugar que saímos e estávamos, a água clara e gelada estava cobrindo os meus pés não tinham indo a lugar nenhum, estávamos lá na floresta, no mesmo lugar, me abaixei e peguei uma pedra do chão, queria sentir, queria ter certa de tudo.
- O que foi isso? - Olhei para a coisa, que me observava, queria ter certeza do que ele tinha feito, de como ele tinha feito, eu teria saído do lugar? Ou será que ele colocou aquilo na minha cabeça?- O passado? - Ele disse pensativo, eu me afastei dele.
- Como o senhor fez isso? Como me fez estar lá e estar aqui ao mesmo tempo?
- Saberá tudo no tempo certo. - Ele parecia estar me analisando, como se esperasse outra atitude minha.
- Mas...
- Temos apenas uma solução para que você viva. - ele continua a me ignorar, mas suas palavras chamam minha atenção. - Eu sei que você está maravilhada com tudo.
- Porque você está tentando me ajudar? O que quer, porque eu não tenho nada, eu...- Porque preciso! - Ele falou antes que eu pudesse terminar a frase. Mas isso não era o suficiente, não aqui, não em Tárcia, ninguém ajuda uma escolhida, ainda mais alguém que possua esse tipo de poder.
- Por quê? Não tenho nada valioso que possa querer nada que valeria para um ser como o senhor.
- Vamos dizer que um dia terá. - Ele se vira para me olhar, e posso sentir que ele diz a verdade. - Muito mais do que pensa.
- Como assim? - Era insano, eu não devia confiar nele, talvez fosse algum truque da rainha, algo para ter certeza que eu não desistiria,
- Teremos muito o que conversar, mas só quando você estiver a salvo.
- Não disse que aceitava a sua ajuda. - Eu não podia confiar nele, eu nem sei por que me deixei levar, isso era perigoso demais.
- Eu vou dar uma razão para você não tomar a decisão errada.
Ele simplesmente desapareceu sem me deixar terminar a pergunta. Fiquei ali pensando em tudo que tinha acontecido, se eu comentasse isso com alguém eles iriam me achar insana e duvidaram. Eu devia pensar sobre tudo, seja lá o que aquela coisa for, ela pode me ajudar, pode ser a minha única chance, mas e se essa coisa for a mesma que fica ao lado da rainha, a que o povo nunca ver a face, a que só aparece na noite do sacrifício e some, não se fala sobre isso, o reino fingir não saber e nem ver esse ser, mas há boatos sobre ele, sobre o que ele pode fazer. E se esse ser for o mesmo? E se for uma armadilha, que todas devem passar? Eu acho que eu não passei, devia ter me recusado, devia ter me negado, dito algo como: "meu sacrifício para servir o reino" seja lá o que ele esperava ouvir.
Subo em uma árvore e fico olhando o castelo, logo estarei lá e serei bem tratada, ganharei uma coroa, logo depois me levarão para o altar os sacrifícios acontecem, não sei muito sobre essa parte apenas que ficamos rodeados por nosso povo, que esperarão que eu e as outras seis meninas estejamos mortas e depois celebraram, mais sete anos de prosperidade para o reino. E logo tudo acabará, morrerei "com honra". Bem, é isso que dizem, Mas que honra se têm em morrer sem lutar?
Já estava anoitecendo quando desci da árvore para voltar pra casa. Minha mãe já fazia o jantar, ela amava cozinhar, uma das poucas coisas que não havia sido tirado dela. Como eu minha mãe foi instruída a não andar por aí fazendo coisas que camponeses comuns fazem.
- Onde esteve Dominique? - Ela me dá aquele olhar fulminante. Minha mãe se esquece de que não sou mais a menininha pentelha que destruía os jardins alheios.
- No lago. - Era melhor falar um pouco da verdade, porque ela sempre sabia quando eu mentia.
- É perigoso! – me repreende, dessa vez olhando para o meu pai, que nada disse, ele estava apenas nos observando.
- Não para mim! - Falei pronta para lhe dar um beijo.
- Só porque seu pai te ensinou coisas de homem não quer disse que você é um! - Ela se afasta zangada. - Não ache que um beijo resolve qualquer coisa acha.
- Mamãe! - Eu a beijo na bochecha antes que ela se afaste novamente. - Não deve se preocupar.
- Vá lavar as mãos, o jantar já está pronto! - Ela fala zangada, mas sorri.
- Sim, senhora! - Vou até o banheiro e lavo minhas mãos rapidamente, quando volto fico olhando meu pai ali parado encarando a janela e percebo a grande semelhança entre ele e o velho que eu vi hoje.
- Papai, por que você nunca me disse que meu avô foi conselheiro do rei? - Meu pai virou-se rapidamente e me olhou com os olhos levemente arregalados, ele parecia estar assustado.
- Quem te disse isso? - Ele grita e isso me assusta, meu pai nunca grita, não comigo.
- Eu soube...
Dei-me conta que nem devia falar sobre aquilo.
- Não repita isso! - Ele brada me interrompendo para então se virar novamente para a janela. - Nunca mais repita isso!
- Me perdoe pai. - Senti as lágrimas rolarem e eu só queria fazer elas pararem, ele nunca foi assim, nunca me tratou assim.
- Dominique venha cá! - Minha mãe me chama, ela parece está angustiada e então vou até ela. - O que meu pai tem?
- Vá para o seu quarto! - Ela ordena e eu a olho indignada. O que eu tinha feito de errado?
Mesmo a contragosto eu faço o que ela manda e sigo para meu quarto. Eu nunca soube nada sobre a família do meu pai, minha mãe disse que ele não gostava de falar sobre isso, mas nunca achei que tocar no assunto o deixaria assim. Alguns minutos se passaram até que minha mãe bateu na porta me tirando dos meus pensamentos.
- Pode entrar!
- Trouxe sua comida. - Seu rosto demonstra preocupação.
- Por que aquele ataque todo por uma pergunta? - questiono, ela me olha como se estivesse cansada.
- Entenda seu pai. - Ela fala deixando a bandeja na cama e eu a encaro com as sobrancelhas erguidas em um incentivo para que ela continue. Ela solta um suspiro cansado e então fala. - O seu avô foi um dos homens que ajudou a princesa a tomar o poder!
- Como assim?
- Ele armou para derrubar o rei. - Minha mãe estava sugerindo que de alguma forma meu avô tinha contribuído para a queda do rei.
- Mas por que ele faria isso? - Nada fazia sentido, minha mãe sorri, e mexe os ombros, a verdade é que eu sabia que meu pai não contaria nada sobre um traidor. - Meu pai tem vergonha dele, entendo, mas ele parecia um homem tão digno!
- Do que está falando? - Minha mãe me olha confusa, o meu erro tarde de mais.
- Nada é só que pensei uma bobagem. - Minto, mas o que eu poderia dizer, além disso.
- Sempre pensando demais. - Minha mãe revira os olhos, ela acha que eu sou uma sonhadora sem solução.
Ela se aproxima e me dá um beijo na testa antes de sair, me deixando ali com meu jantar. Após comer eu me deito em minha cama e fico pensando em como tudo o que tinha acontecido hoje não fazia sentido.
O beijo de Caio, a briga, o homem na floresta e aquela visão do passado, sem contar no segredo que minha mãe tinha me confidenciado. Eram tantas coisas para um dia que o sono me tomou antes que conseguisse processar todas.
- Acorde! - Minha mãe me sacode do jeito delicado que só um cavalo conseguiria.
- O que foi mãe? - Digo me levantando, irritada, não havia forma mais delicada de alguém ser acordado?
- Levante para tomar café! - Ela grita abrindo as cortinas. - Tem que ser mais cuidadosa, porque deixou a janela aberta?
- Não sei. - Falei sonolenta, cobrindo o rosto com o cobertor.
- Poderia ficar resfriada! - Então ela para de falar, como se compreendesse que não faria diferença alguma um resfriado para alguém que estava sentenciada a morte.
- Estou sem fome. - Dei um pulo da cama e lhe dei um beijo na bochecha, ela sorriu amável novamente.
- Seu pai não queria gritar com você, é só que as coisas não estão fáceis...
- Eu entendo, mas o que posso fazer? Logo estarei morta e só queria que ele ficasse um pouco comigo. - Senti as palavras afiadas, mas não consegui pará-las antes de atingir o alvo errado.
- Algumas pessoas não sabem como lidar com a dor. Tem quem se torne forte com a dor e tem quem é consumido por ela.
- E meu pai foi consumido, não é?
- Podemos dizer que sim. - Minha mãe me olhou com aqueles grandes olhos verdes, ela era forte, ninguém esperaria que ela fosse a forte da família, meu pai um guerreiro que um dia foi respeitado, não tinha a coragem daquela mulher.
- Quando seu pai a segurou pela primeira vez, depois de ter servido na guerra entre nosso reino e o reino inimigo ele disse "Ela é especial! Irá me dar dor de cabeça ``. - ela me contou se sentando na beirada da cama.
- Por quê? - Porque perguntei curiosa, amava as histórias que meus pais sempre tinham para me contar.
- Talvez seu pai consiga ver o futuro. - Ela sorri com a fala. - Ele te ama muito, até quando você nos faz ficar de cabelos em pé, nós te amamos. - Ela me beijou na testa e eu pude sentir as lágrimas escorrendo, ela estava chorando. - É difícil olhar para você e saber que logo não vai estar aqui nos deixando de cabelos em pé.
- Não chore! - Eu beijo seu rosto querendo apagar a tristeza de seus olhos. - Não deve se preocupar com isso.
- Eu preferia aquela casa simples, aquelas roupas velhas, do que ficar sem você. - Ela puxou o ar, enquanto tentava não chorar.
- Eu sei! - Eu não queria chorar, estava cansada de resumir meus dias a chorar e me entristecer pelo meu futuro.
- Não deveria ser assim, não é a ordem certa, uma mãe não devia ver a filha morrer.
- Mãe! - Eu digo a abraçando e me quebrando com suas palavras. A verdade é que não sabia se suportaria ver ela e meu pai mortos.
- Não queremos perdê-la, é só isso. - Ficamos ali por um bom tempo, sem dizer nada.
Era tudo muito ruim, tudo muito injusto, porque eu tinha que morrer para o bem do reino? Porque minha mãe tem que perder sua única filha? Porque coisas ruins precisam acontecer? Tudo era cansativo, tudo era mau.
Minha mãe sai e olho pela janela, sinto uma enorme vontade de rever minha antiga casa. Onde coisas boas aconteceram, lá o mau ainda não existia, vesti um vestido leve branco, precisava de algo confortável, a caminhada seria longa.
Pulei a janela decidida, seria bom me despedir da minha antiga casa, seria bom sair desse lugar. Eu levaria toda manhã para chegar, era distante, e um pouco perigoso, já que ficava afastado do castelo, mas eu precisava disso, precisava me afastar disso tudo, e saindo cedo eu poderia voltar antes do anoitecer, caminhei o mais rápido possível para a floresta, eu conhecia muito bem esse lugar, o povoado fica um pouco distante de nossas casas que está mais próxima da floresta, o que é a única coisa boa nisso tudo.