O cheiro de fumaça e cinzas, que um dia foi celebração, agora era o fedor da perda de tudo que amei.
Eu, Maria, a Rainha do Samba que salvou o Carnaval, vi o homem que coloquei no trono, João, me cuspir na cara e me chamar de bruxa.
Ele, seduzido pela inveja venenosa de Sofia, não só destruiu minha reputação, mas ordenou a queima de cada fantasia que eu havia criado, o berço do meu filho ainda não nascido, a essência do samba que corria em minhas veias.
Com as cinzas da minha arte e a dor da comunidade no ar, João, cego por sua loucura, ainda arrancou meu coração, matando-me.
Mas ele não matou a Phoenix, ele a despertou.
Enganado por Sofia e traído até pelo próprio irmão, João não sabia que a verdadeira Fênix era meu filho, que em seu último suspiro, me transformou na própria essência do renascimento.
E agora, eu, Maria, renascida das cinzas e da lama, prometo: para cada vida que você tirou, João, para cada sonho que você queimou, o Carnaval cobrará seu preço, uma dança de purificação que fará seu corpo se desintegrar, e sua alma nunca encontrará descanso.
A vingança é um samba que apenas a Phoenix pode dançar.
O cheiro de fumaça e cinzas enchia o ar, um aroma que antes significava a celebração do fim de um desfile glorioso, mas que agora era o fedor da perda.
Maria se lembrava de outro tempo, não muito distante, quando essa mesma cidade estava de joelhos. O Carnaval, a alma da cidade, estava morrendo. Patrocinadores haviam sumido, a prefeitura cortara os fundos e as escolas de samba estavam à beira do colapso.
Foi João quem a procurou. Naquela época, ele não era o "Rei do Carnaval", era apenas um homem desesperado, com o peso do legado de sua família nos ombros. Ele se ajoelhou diante dela, no meio do barracão poeirento, e implorou. Suas lágrimas molharam o chão de cimento.
"Maria, só você pode nos salvar", ele disse, a voz embargada. "O espírito do samba em você, a Phoenix... use-o. Salve nosso Carnaval."
E ela o fez. Maria trabalhou por dias e noites, sem dormir, sem comer. Ela canalizou a energia ancestral da Phoenix, o espírito do samba que vivia nela, para criar as fantasias mais espetaculares que a avenida já vira. Ela usou sua própria força vital para bordar cada lantejoula, para colar cada pluma, transformando tecido e arame em pura magia. Sua comunidade, inspirada por sua devoção, uniu-se a ela. O Carnaval daquele ano não foi apenas salvo; foi o mais lendário de todos. A cidade a aclamou como sua Rainha eterna. E João, graças à sua glória, foi coroado Rei.
Agora, esse mesmo homem a olhava com desprezo. O amor e a gratidão em seus olhos haviam sido substituídos por um gelo cortante. Ele não estava mais de joelhos, mas de pé, imponente e cruel, com a mão possessivamente na cintura de outra mulher.
Sofia.
Uma dançarina rival, cujo talento sempre fora ofuscado pelo brilho de Maria. A inveja de Sofia era uma coisa viva e venenosa, e ela finalmente encontrara uma arma para usá-la: o coração de João.
"Bruxa", João cuspiu a palavra, e ela atingiu Maria com a força de um tapa. "Você e essa coisa amaldiçoada em sua barriga. Vocês vão trazer a desgraça para o nosso Carnaval."
A crise de Maria não era apenas a perda de seu amor, era uma ameaça à vida que carregava. Seu filho não era uma criança comum, ele era o receptáculo da próxima geração da Phoenix, um espírito que precisava de alegria, de música e da energia vibrante do samba para se formar.
Sofia se encolheu nos braços de João, a mão delicadamente sobre o próprio ventre, ainda liso.
"João, querido", ela sussurrou, fingindo fraqueza. "Sinto uma energia tão sombria vindo dela. Acho que... acho que está afetando nosso bebê."
A mentira era tão óbvia, tão transparente, mas João a engoliu como se fosse a mais pura verdade. Seus olhos se endureceram, a loucura da paixão e do poder o cegando completamente.
"Eu não vou permitir", ele rosnou. "Este Carnaval será puro. Será nosso. Só a Sofia merece ter um filho meu."
Ele se virou para seus homens, capangas que antes eram membros leais da comunidade do samba, agora corrompidos pela promessa de poder de João.
"Tranquem-na no barracão dos fundos. E queimem tudo. Cada fantasia, cada adereço, cada pluma. Não quero que sobre nem poeira do samba de Maria."
O pânico gelou o sangue de Maria. Não as fantasias. Eram mais do que meros objetos, eram a essência de seu trabalho, a manifestação física da energia da Phoenix. Eram o berço de seu filho.
Os homens a arrastaram, suas unhas cravando em seus braços. Eles a jogaram no chão de terra do barracão menor, um lugar usado para guardar ferramentas velhas e carros alegóricos quebrados. A porta de metal bateu com um som final, e a escuridão a engoliu.
Do lado de fora, ela ouviu as ordens de João. Ouviu o som de suas criações sendo arrastadas, rasgadas. Então, o cheiro. O cheiro de tecido queimado, de plástico derretido, de penas se transformando em fumaça acre.
Ela se arrastou até uma fresta na porta e olhou. Uma fogueira gigantesca ardia no pátio, consumindo anos de sua vida, de sua arte. As fantasias que salvaram a cidade agora eram combustível para o ódio de um homem.
"Não!", ela gritou, a voz rasgando a garganta. "João, por favor! Meu filho! Ele precisa dessa energia para sobreviver! A Phoenix dentro dele vai morrer!"
Ela batia na porta de metal até seus pulsos sangrarem.
A porta se abriu de repente. João estava lá, a luz da fogueira dançando em seu rosto, fazendo-o parecer um demônio. Sofia estava ao seu lado, um sorriso vitorioso e sutil nos lábios. Ele a abraçava, uma mão protetora sobre a barriga dela.
Ele riu do desespero de Maria, um som feio e cruel que ecoou na noite.
"Seu filho?", ele zombou, o desprezo gotejando de cada sílaba. "Seu filho amaldiçoado merece morrer! Só o meu herdeiro com a Sofia viverá para ver o próximo Carnaval."
Ele fechou a porta na cara dela, trancando-a novamente com o som de sua própria alma se partindo.
Lá dentro, na escuridão, Maria sentiu. Uma agitação fraca em seu ventre, uma dor que não era física. Era a Phoenix, seu filho ainda não nascido, se desfazendo. A energia que o sustentava estava sendo queimada, transformada em cinzas inúteis. Ele estava se dissolvendo em lágrimas espirituais, um eco silencioso de dor que só ela podia sentir.
Mais tarde, o silêncio foi quebrado novamente. Desta vez, pelos gritos de um homem.
Maria se encolheu no canto. Ela reconheceu a voz. Era a de seu Mestre-Sala, um senhor de idade que dançava com ela há anos.
"O que está acontecendo?", ela sussurrou para a escuridão.
Então ela ouviu a voz de João, clara e fria.
"A Sofia sentiu um enjoo. A culpa é da sua bruxaria, Maria. Isso é um aviso. Para cada desconforto que ela sentir, um dos seus pagará o preço."
Um novo grito cortou o ar, seguido pelo som de um golpe surdo.
Maria fechou os olhos, as lágrimas finalmente escorrendo por seu rosto sujo de poeira. A crueldade de João não tinha limites. Ele não estava apenas destruindo seu passado e seu futuro, ele estava aniquilando seu presente, sua família, sua comunidade, um por um, usando o pretexto mais frágil e perverso.
Os dias que se seguiram se fundiram em um pesadelo de fome, escuridão e dor. A agitação em seu ventre cessou completamente. Onde antes havia um calor vibrante, uma promessa de vida e samba, agora havia apenas um vazio frio e pesado.
A Phoenix estava morta.
Seu filho se fora.
Com o coração partido e o corpo fraco, Maria realizou um funeral. Na solidão do barracão, ela embalou seu próprio ventre, cantando baixinho as canções de ninar do samba que sua avó cantara para ela. Ela rasgou um pedaço de seu vestido e o dobrou cuidadosamente, como se fosse a mortalha de seu bebê. Foi um ritual silencioso, um funeral simbólico para uma vida que nunca teve a chance de começar. A dor era tão profunda, tão absoluta, que transcendia as lágrimas.
Foi no meio desse luto silencioso que a porta do barracão foi arrancada de suas dobradiças. A luz do dia a cegou momentaneamente. A silhueta de João se materializou na entrada.
"Levante-se", ele ordenou, a voz desprovida de qualquer emoção.
Maria não se moveu. O que mais ele poderia tirar dela?
"Sofia entrou em trabalho de parto", ele disse, a impaciência crescendo em seu tom. "Ela está fraca. O curandeiro disse que ela precisa de uma grande fonte de energia para sobreviver ao parto. Ela precisa da energia da Phoenix."
Maria o encarou, o absurdo da situação quase a fazendo rir. Um riso seco e quebrado escapou de seus lábios.
"A Phoenix está morta", ela disse, a voz rouca. "Você a matou."
João se aproximou e a agarrou pelo braço, forçando-a a se levantar. A força dele era brutal.
"Não minta para mim!", ele gritou em seu rosto. "A Phoenix é um espírito ancestral, não pode morrer! Está aí dentro, com esse seu bastardo. Dê-me a energia dela agora!"
Maria olhou para o ventre dele, para o lugar onde seu filho não existia mais. Com um movimento lento, ela pegou a pequena fantasia que havia conseguido bordar em segredo, antes de tudo, usando fios de seu próprio cabelo e pedaços de tecido que guardava. Era minúscula, feita para um recém-nascido. Ela a estendeu para ele.
"Ele está morto, João. Este era o manto dele."
João olhou para a pequena peça de roupa e riu. Uma gargalhada alta e desdenhosa.
"Morto? Esse bastardo não pode estar morto! A Phoenix é poderosa, ela pode até trazer os mortos de volta! Você está tentando me enganar!", ele a sacudiu com força. "Se algo acontecer com a Sofia ou com o meu herdeiro, eu juro, vou destruir cada tijolo da sua comunidade! Vou queimar suas casas e salgar a terra onde dançavam!"
Ele a arrastou para fora do barracão, para o salão principal da escola de samba. O lugar, antes vibrante e cheio de vida, estava agora silencioso e sombrio. Os membros restantes da comunidade de Maria estavam encurralados em um canto, vigiados por homens armados. Seus rostos estavam marcados pelo medo e pela exaustão.
"Dê-me a energia!", João rosnou, empurrando-a para o centro do salão.
"Eu não tenho mais nada para dar", Maria sussurrou, a verdade pesando em suas palavras. A energia que ela usara para salvar o Carnaval, a maldição da qual ela secretamente salvara João meses atrás, e a dor de perder seu filho a haviam deixado vazia.
João não quis ouvir. A loucura em seus olhos era completa. Ele sacou uma faca.
"Se você não me der por bem, eu vou tirar por mal."
Ele avançou. A lâmina brilhou sob a luz fraca.
"Não!", uma voz gritou.
Clara, a jovem assistente de Maria, que a via como uma irmã mais velha, se jogou na frente dela. Clara era jovem, mal passava dos dezessete anos, mas sua lealdade era inabalável.
"Pare, por favor!", ela implorou a João. "Ela está dizendo a verdade! Eu a vi! Eu a senti! A Phoenix se foi! Ela está vazia!"
João a olhou com um desprezo gelado.
"Saia da minha frente, garota tola."
"Não! Eu não vou deixar você machucá-la!", Clara gritou, com os braços abertos, protegendo Maria. "Você já tirou tudo dela! O filho dela... ele..."
A paciência de João se esgotou. Com um movimento rápido e cruel, ele não atacou Maria. Ele se virou para Clara. O som da lâmina cortando o ar foi seguido por um grito agudo de dor.
Clara caiu de joelhos, olhando incrédula para suas próprias mãos. Ou para onde elas costumavam estar. João, com uma crueldade impensável, havia cortado as duas mãos da menina. O sangue jorrou, manchando o chão do salão sagrado.
O horror paralisou a todos. O grito de Clara ecoou no silêncio chocado.
Maria, ignorando sua própria fraqueza, sua própria dor, se arrastou até a menina que sangrava.
"Clara! Clara!", ela chorou, tentando estancar o sangue com pedaços de seu próprio vestido. O desespero a consumia. Ela era uma curandeira, uma líder, mas agora estava impotente.
Ela olhou para João, o homem que um dia amou, e viu um monstro. Um monstro que ele mesmo havia criado, alimentado por poder e pela veneno de Sofia.
"Seu animal!", ela gritou, a voz cheia de uma fúria que ela não sabia que possuía. "Olhe o que você fez!"
João nem sequer olhou para a garota mutilada no chão. Seus olhos estavam fixos em Maria, sua obsessão intacta.
"Isso é só o começo", ele disse, a voz terrivelmente calma. "A energia, Maria. Agora."