DIAS ATUAIS
Um dia minha mãe me disse:
"A vida é cheia de amores e um deles será o certo, aquele que vai se
encaixar perfeitamente no seu coração."
Dez anos se passaram desde que ouvi essas palavras.
Levou algum tempo até eu entender o que ela quis dizer.
Já tive alguns amores nesta vida, alguns deles me deixaram boas
lembranças, outros nem tanto, mas todos me serviram de aprendizado.
Nenhum dos meus amores foi desperdiçado, de cada um deles eu tirei uma
lição, mas a principal delas, a que levo até hoje como um mantra e que
costumo dizer em voz alta todos os dias ao me olhar no espelho, antes de sair
do quarto e viver o meu dia é:
- Simplifique, não complique!
Foi assim que nasceu Talia Price, meu novo eu.
Quando me casei com Richard e nos mudamos para Londres, eu sabia
que seria definitivo.
Foi amor à primeira vista.
Estou falando de Londres, não do meu marido.
Com Richard as coisas foram um pouco mais devagar, mas de qualquer
forma era definitivo. Estávamos casados há quatro anos e não me imaginava
vivendo de outra forma a não ser em sua companhia. Ele foi se encaixando
perfeitamente no meu coração e finalmente aceitei que era a pessoa certa e
que me faria feliz.
- Oi, amor. - Richard me deu um beijo na testa assim que saiu do
banheiro.
Estava lindo em seu terno azul-marinho. O cabelo castanho com um leve
tom dourado contrastava com a pele alva e os olhos de um leve azulacinzentado.
Meu marido era tão lindo como quando nos casamos.
Percebendo que o estava analisando, Richard semicerrou os olhos e fez
seu típico beicinho sedutor.
Ah, sim!, meu marido sabia ser sexy propositalmente, mas em grande
parte do tempo ele nem sequer se esforçava, era tão natural quanto respirar.
Sua elegância com certeza foi herdada do pai inglês, mas, a sua sensualidade
foi da mãe brasileira.
Meu James Bond particular não era um superagente secreto, mas suas
missões diplomáticas para a embaixada brasileira o afastavam de mim por
bastante tempo. Por isso eu o admirava sempre que estávamos a sós, era
como se tentasse capturar sua imagem para minhas lembranças, seu sorriso
torto e seu olhar penetrante me seduziam todos os dias.
Eu sabia que era uma mulher de muita sorte.
- Se ficar me olhando desse jeito, vou levar um belo esporro do
embaixador, porque eu estou prestes a tirar toda a minha roupa - disse
fazendo um gesto dramático para si mesmo, em seguida apontou para mim
com o semblante sério, mas totalmente falso. - E a sua roupa.
Sorri ternamente.
- Proposta tentadora, mas vou ter que recusar - desconversei.
Meu marido era sério demais, profissional demais e eu jamais o faria
sujar sua imagem diante do embaixador.
- Tenho que terminar meu relatório para a loja de antiguidades do Sr.
Smith.
- Aquela da Church Street?
- Uhum.
Ele deu um sorriso debochado.
- Você pode me trazer um souvenir?
- Que tal um queijo? - Pisquei para ele.
- Do mercado de laticínios? - Fez uma careta. - Dispenso! Pode ser
um relógio de bolso, de algum famoso da realeza antepassada.
- Ei, não brinque com isso - repreendi. - A loja do Sr. Smith é
pequena, mas ele tem itens realmente valiosos lá. Avaliar as peças e traçar
um perfil histórico para elas aumenta a possibilidade de venda e a
valorização, já que torna as peças ainda mais interessantes.
- Tudo bem, você é minha contadora de histórias favorita. Mas eu
preciso ir trabalhar.
Fomos até a sala, onde o desjejum estava servido. Marie iniciava seus
serviços bem cedo, para que tudo estivesse pronto assim que levantássemos.
Richard serviu-se de uma xícara de chá e nem sentou para tomá-la.
- Ei bonitão, senta aí e beba esse chá direito. - Empurrei seus ombros
para baixo, fazendo-o se sentar. - Ainda tem cinco minutos antes de sair de
casa.
- Você acordou mandona demais! - Brincou com um sorriso
malicioso no rosto. - Sempre que eu te deixo ficar por cima você acorda
assim, toda dominadora.
- Pare com isso, a Marie pode ouvir!
- Não está mais aqui quem falou.
Tomamos o desjejum em silêncio, Richard se despediu assim que o
motorista o chamou, indo para a embaixada. Continuei tomando meu café,
devagar, deliciando-me com o croissant de chocolate que Marie tinha
preparado.
Aquela mulher tinha mãos de fada na cozinha.
Richard não gostava de dirigir, por isso tínhamos Donald, o motorista,
que era companhia constante de Richard e o acompanhava durante o
expediente na embaixada. Por outro lado, eu amava dirigir e tinha meu
próprio carro.
Meu trabalho como freelancer exigia que eu me locomovesse para
qualquer lugar, a qualquer hora, portanto não queria usar dos serviços de
Donald e tirá-lo de Richard. Além disso, preferia ir sozinha.
Cheguei à loja do Sr. Smith eram quase oito horas, antes disso, enrolei
um pouco pelo Alfies, uma antiga loja de departamento com mais de setenta
comerciantes, espalhados por quatro andares. Como boa historiadora que era,
eu me encantava com tudo que lembrasse o antigo, passear por aquelas
lojinhas poderia não ser um grande desafio, mas me animava e gostava de
perambular por ali antes de iniciar um dia de trabalho.
O Sr. Smith estava atendendo um cliente quando entrei no
estabelecimento.
- Bom dia - cumprimentei os senhores com um gesto rápido de
cabeça.
- É com essa moça que você deveria conversar. - Ouvi o Sr. Smith se
referindo a mim para o homem à sua frente.
Observei-o com atenção para ver se o reconhecia, mas não. Nunca o
tinha visto na vida.
Franzi a testa e aguardei que me chamassem.
- Sra. Price, este homem está procurando uma especialista para ajudálo na organização de uma grande exposição.
Meus sentidos ficaram em alerta.
Organizar uma exposição?
Seria um sonho!
- Olá. - Aproximei-me do homem que aparentava uns sessenta anos.
- Sou Talia Price. No que eu poderia ser útil, senhor...
- Lewis, meu nome é Charles Lewis - Apresentou-se cordialmente,
exibindo um sorriso simpático que me deixou aliviada.
Eu odiava apresentações formais, nunca sabia o que dizer.
Todavia aquele nome...
- Espere aí, o senhor é diretor do Museu Britânico, estou certa? -
perguntei com expectativa.
- Sim, o próprio - confirmou o que eu já imaginava.
Meu sorriso não poderia ter sido mais radiante. O famoso "de orelha a
orelha".
- Sou grande admiradora do seu trabalho, a exposição daquelas oito
múmias do Egito e Sudão foi estupenda! - Eu parecia uma adolescente
diante de seu ídolo teen do momento. - Superou aquela sobre a Dinastia
Ming, mas fiquei igualmente impressionada com a riqueza do material
histórico. A curadoria dessas exposições temporárias é realmente impecável.
Parabéns.
- Vejo que a senhorita é apaixonada por história - Observou bastante
satisfeito. - As exposições têm sido um sucesso, temos recebido mais de
doze milhões de visitantes por ano. Não estou entre os curadores dessas
exposições temporárias, mas sou quem os seleciono, portanto, aceito o elogio
e repassarei aos verdadeiros responsáveis.
- Desculpe o meu entusiasmo - disse corando -, mas tenho visitado
o museu desde que me mudei para Londres e nunca tive a oportunidade de
conhecê-lo, Sr. Lewis. É um grande privilégio para mim.
- O privilégio é meu. Paul estava me falando sobre o seu trabalho, ele
me deu ótimas referências suas.
Paul, o Sr. Smith, nunca havia mencionado que conhecia o diretor
Lewis. De certa forma, ser lembrada por alguém como referência seria ótimo
para o meu currículo.
- Nunca trabalhei em um grande museu, mas me envolvi bastante em
trabalhos freelancer para colecionadores, casas de leilões e lojas de
antiguidades.
- Qual exatamente é a sua especialidade?
- História Antiga e Medieval.
Ele pareceu ficar feliz com a minha revelação.
- Talvez a senhorita seja quem eu esteja procurando.
- Senhora. Sou casada.
- Ah, sim!, perdão. Mas como eu disse anteriormente, Sra. Price, talvez
seja a pessoa ideal para o trabalho.
Um frio na barriga tomou conta de mim ao ouvir a palavra trabalho.
- Que trabalho?
- Estou em busca de uma nova curadoria, responsável para a próxima
exposição temporária no museu.
Meus olhos brilharam com a possibilidade.
- O senhor está falando sério?
Charles Lewis franziu o cenho, parecendo um pouco confuso.
- Por que eu não estaria?
- Ah, desculpe. É que nunca ouvi falar de uma curadora mulher
trabalhando no Museu Britânico.
- Realmente, tivemos poucas mulheres trabalhando como curadoras no
museu, principalmente nas últimas exposições. Isso não significa que temos
alguma restrição quanto à contratação de profissionais do sexo feminino,
apenas que homens tenham se destacado para a vaga, com um currículo mais
rico. Antes que a senhora me entenda mal, venho a esclarecer que esse fato se
dá pelas candidatas terem família constituída, portanto os filhos e marido são
sempre a prioridade, já os homens, na ocasião, tinham um currículo mais
extenso por serem solteiros e se dedicarem inteiramente aos estudos e ao
trabalho.
- Entendi. Sou uma mulher casada, mas acredito que meu currículo
acadêmico e profissional seja bem amplo para minha idade.
- Posso perguntar quantos anos a senhora tem, com todo o respeito do
mundo, é claro.
Essa coisa de que mulheres não gostavam de revelar sua idade era um
pouco ultrapassada. Ao menos, eu nunca me importei em dizer a minha, mas
talvez fosse porque ela ainda não era avançada demais.
- Vinte e nove anos, desde a semana passada.
O senhor Lewis retirou a carteira do bolso e, abrindo-a, sacou um cartão
e o estendeu em minha direção.
- Encaminhe-me um currículo seu, para o museu. Se possível, entregue
pessoalmente à minha secretária, no setor administrativo. Diga-lhe que eu
pedi que levasse. Irei analisar as referências e em breve entro em contato com
você para uma entrevista formal. Tudo bem?
Se estava tudo bem para mim?
Estava ótimo!
Richard nem acreditaria quando eu lhe contasse.
- Claro, seria um sonho poder fazer parte de uma exposição no Museu
Britânico.
- Não está nada concretizado, mas há grandes possibilidades. Agora,
preciso ir.
- Foi um prazer conhecê-lo, Sr. Lewis.
- O prazer foi todo meu, Sra. Price.
Despedindo-se em seguida do Sr. Smith, o Sr. Lewis saiu pela porta do
antiquário enquanto eu permanecia de queixo caído, mas acreditando que
aquilo realmente estava acontecendo comigo.
- Vamos ao trabalho, Sra. Price? - O Sr. Smith me tirou dos
devaneios e acordei para a realidade.
- Mas é claro! - Eu não conseguia tirar o sorriso do rosto. - Muito
obrigada por me recomendar, Paul Smith.
Passei a manhã toda redigindo os documentos necessários para as peças
que o Sr. Smith havia solicitado. Assim que assinei e carimbei as páginas,
expliquei a ele algumas dicas para seduzir os clientes e fazê-los se interessar
ainda mais pelas peças.
Encerrando o trabalho no pequeno antiquário, recebi meu pagamento em
dinheiro, conforme o combinado, e fui embora da Church Street.
****
Um emprego como curadora honorária do Museu Britânico seria um
sonho se realizando.
Jamais me imaginei com um cargo de tamanha responsabilidade.
Sabia que era muito competente, que meu currículo era bem extenso e
minhas especializações bastante significativas, mas nunca me candidatei a
uma vaga tão conceituada, mesmo que meu sonho de juventude universitária
tenha sido trabalhar lá.
De todos os museus de Londres, o Britânico era meu favorito.
Foi o primeiro museu nacional público do mundo, em funcionamento
desde 1753, com entrada gratuita aos visitantes. O Museu Britânico possuía
um arsenal com mais de oito milhões de artefatos históricos. Embora nem
todas as peças estivessem em exibição, já que muitas delas ficavam
guardadas em depósitos, elas pertenciam a diversas fases da história cultural
da humanidade, desde o início dos tempos até os dias atuais, o que
significava mais de dois milhões de anos. Ter acesso a alguns dos artefatos
guardados seria no mínimo excitante. Imaginar-me pesquisando e
descrevendo as peças, elaborando uma exposição, era mais do que eu
ambicionaria para minha carreira como historiadora.
Cheguei em casa a tempo para Marie preparar um almoço rápido. Queria
contar ao Richard sobre o encontro com o Sr. Lewis, pois sabia que ele
ficaria extasiado com a possibilidade tanto quanto eu.
Desde que nos mudamos para Londres e obtive meu grau de mestre na
universidade de Aberdeen, Richard me incentivou a procurar emprego ou
algum estágio em museus renomados da capital britânica.
Sempre fui afiada para correr atrás dos meus estudos e ambicionei ser
uma grande profissional, com um currículo invejável, mas quando se tratava
de dar a cara a tapa e me aventurar em um museu renomado, eu era a
primeira a desistir da ideia. Sentia-me tão insegura e o medo de ser recusada
acabava falando mais alto.
Quando o Sr. Lewis disse que existia uma grande possibilidade, algo
dentro de mim despertou para que todo aquele medo e insegurança fossem
por água abaixo. Era uma grande oportunidade, quase nenhuma mulher tinha
conseguido o cargo de tamanha importância.
Eu seria uma dama em meio aos cavalheiros, o que era bastante
desafiador.
Não quis incomodar Richard no trabalho, optei por contar a novidade
assim que ele estivesse em casa. Pedi à Marie que preparasse um jantar
especial para nós e deixasse a mesa posta.
Redigi meu currículo e como tinha a tarde livre, aproveitei para ir até o
Museu Britânico a fim de entregá-lo no setor administrativo. Não queria
parecer afobada demais, mas também não queria ser esquecida e preferi ir o
quanto antes para que Charles Lewis pudesse se impressionar comigo e me
contratar.
****
Chegando ao museu, admirei a praça coberta. Sempre me impressionava
a beleza daquele lugar, as paredes todas em tons claros, com pilares gigantes
e o teto de vidro.
Eu moraria naquele lugar, mesmo que para isso precisasse dividir o
espaço com múmias.
Assim que entrei no setor administrativo, pedi para ser encaminhada até
a secretária do diretor Lewis. Um senhor gentil, com uniforme da segurança,
encaminhou-me até uma moça chamada Lane.
- Boa tarde, sou Talia Price. Estive nessa manhã com o diretor Charles
Lewis, ele pediu que eu viesse pessoalmente trazer meu currículo e que o
entregasse em suas mãos, aos cuidados dele.
A moça me observou por um pequeno período, mas continuou sorrindo
quando aceitou o meu envelope.
- Deixarei imediatamente na mesa do Sr. Lewis.
- Obrigada.
Não querendo interromper o trabalho de Lane, despedi-me cordialmente
e saí da área administrativa. Aproveitei que já estava por ali e fiz um pequeno
tour por algumas galerias do museu, das quais estavam algumas exposições
temporárias.
Passeando e observando tudo, peguei-me imaginando como seria
perfeito se eu finalmente conseguisse o emprego dos meus sonhos.
Já em casa, despedi-me de Marie que havia deixado tudo pronto para o
jantar.
Tomei um banho e me arrumei para esperar por Richard.
Não aguentando de ansiedade, enviei uma mensagem para o celular
dele, pedindo que chegasse cedo, pois eu tinha uma novidade para dividir.
Conhecendo Richard, ele já estava maquinando as possibilidades e
chegaria assim que pudesse.
Não demorou muito para que eu ouvisse o barulho da porta do hall se
abrindo. Corri até meu marido e joguei-me em seus braços, deixando-o
surpreso e todo sorridente.
- O que significa isso, mulher? - perguntou em meio aos beijos que
eu depositava por todo o seu rosto. - Saudade?
Richard me segurava no colo enquanto eu firmava minhas pernas,
enlaçadas em torno de sua cintura. Ao chegarmos na sala ele se sentou no
sofá, mantendo-me em seu colo. Apertando minha bunda com um pouco mais
de força, colou sua boca na minha em um beijo quente e avassalador.
Não havia como descrever seus beijos.
Tudo em Richard era intenso e sensual, sem meio termo.
Desde que nos conhecemos foi assim.
Atração imediata, a necessidade do toque, da pele contra a pele.
Enquanto nossas línguas dançavam na mesma sintonia, Richard passava
suas mãos por todo o meu corpo, puxando-me contra si.
- Te amo... Te amo... Te amo... - sussurrou ao pé do meu ouvido,
mordendo o lóbulo da minha orelha, assoprando meu pescoço, causando-me
arrepios na espinha, fazendo-me fechar os olhos e me entregar ao prazer do
seu toque.
- Também te amo...
Richard sempre foi o mais carinhoso de nós dois. Aquele que não tinha
medo de demonstrar os sentimentos, eu sempre fui mais travada, reservada
com as três palavrinhas. No momento que me senti pronta, quando finalmente
entendi que ele era o homem com quem eu passaria o resto da minha vida,
não tive medo de dizê-las, de fazê-lo ouvi-las e saber que vinham direto do
meu coração.
Fizemos amor ali mesmo, no chão da sala.
Lento.
Sem pressa.
Desfrutando um do outro.
Estávamos deitados, abraçados e nos olhando sem dizer nada.
Richard sorria feito bobo e eu retribuía.
- Por favor, me diga que vamos ter um bebê...
Meu corpo se retesou e em um gesto involuntário me sentei
apressadamente, encarando-o perplexa, como se ao invés de perguntar se eu
estava grávida ele tivesse pedido o divórcio.
- Por que você acha que estou grávida? - perguntei com calma,
recuperando-me do susto.
Richard continuou sorrindo, achando graça da situação.
Sentando-se ao meu lado ele alisou meus ombros, suas mãos quentes me
faziam querer derreter em seus braços.
- Você disse que tinha uma surpresa, assim que cheguei se atirou em
mim e então aqui estamos, no chão da sala. Enquanto eu te observava,
pensava em como seria ter uma menininha com as suas feições. Por alguns
segundos pude fantasiar estar segurando um filho nosso nos braços, e em
como você seria uma mãe maravilhosa.
Impossível não me emocionar com aquelas palavras.
Acariciei o rosto do meu marido que em momento algum parou de me
fitar com um sorriso.
- Não estou grávida - contei em um sussurro. Não queria decepcionálo. - Nem sabia que você queria ter um bebê.
- Ei, não estou te pressionando. Apenas me antecipei em perguntar. É
claro que quero ter um filho seu, mas não precisa ser agora se não quiser.
Temos tempo.
Respirei aliviada.
No fundo tive medo de que o desejo de ser pai se tornasse um problema
entre nós, havia muitas coisas que eu queria fazer antes de ser mãe, não me
sentia preparada, ainda queria realizar outros sonhos antes da maternidade.
- Tudo bem, me assustei um pouco. Também quero ter um filho seu,
mas por que não um menino com esses olhos azul-acinzentados? - Brinquei
para descontrair.
- Seja menina ou menino, será um pedaço nosso e eu vou amá-lo mais
que tudo na vida.
Richard recomeçou seus beijos e se aprofundou novamente nas carícias,
pude sentir que ele estava mais do que pronto para o segundo round, mas o
jantar iria esfriar, se já não o tivesse.
- Amor... podemos continuar isso mais tarde, na nossa cama. Marie
preparou um jantar especial e, além disso, quero conversar com você.
Diminuindo as carícias pelo meu corpo, Richard fez seu biquinho
sedutor e não resisti meus impulsos de mordê-lo.
- Ai! Você é uma vampira. - Fez-se de ofendido.
- Sabe que tenho fetiche pelos seus lábios carnudos. Principalmente
quando faz esse biquinho lindo.
- É assim que você quer deixar para mais tarde? Provocando-me desse
jeito?
Levantei, fugindo de seu toque, e comecei a vestir minhas roupas.
Que se demorasse ele me faria mudar de ideia.
- Vamos jantar e conversar, depois poderemos tomar um banho juntos,
o que você acha?
Levantando-se também, começou a se vestir com pressa.
- Estou faminto e curioso.
Jantamos em silêncio, saboreando o delicioso risoto e um vinho da
adega de Richard.
Após o jantar, deitamos no sofá e assistimos um pouco de televisão, meu
marido era expectador do telejornal noturno e só desligou o aparelho ao final
do programa.
- Você vai me contar como foi seu dia hoje?
- Terminei meu trabalho na loja do Sr. Smith.
- Ele deve ter ficado muito satisfeito com o resultado.
- Ficou sim, inclusive, quando cheguei à loja, ele estava me
recomendando para Charles Lewis.
Richard franziu a testa, tentando se lembrar de algo, ou alguém.
- Esse Charles é o diretor do Museu Britânico, você praticamente
endeusa o cara.
- Eu não faço isso! - retruquei. - Mas ele é brilhante. Tive a
oportunidade de conhecê-lo nesta manhã e adivinha? O Sr. Lewis pediu que
eu enviasse um currículo através de sua secretária, pois estava bastante
interessado nos meus serviços e havia recebido boas recomendações,
inclusive do Sr. Smith.
- Isso é maravilhoso! - Seu semblante não deixava dúvidas do quanto
ele se sentia orgulhoso de mim. - Pode ser a oportunidade que você tanto
desejava.
- Não é? Nem acreditei quando o vi, quase me belisquei para ver se
estava sonhando.
Richard soltou uma gargalhada gostosa.
- Eu gostaria de ter visto essa cena, caso acontecesse.
- Sem piadinhas, amor. Deixe-me terminar: hoje à tarde fui até o
museu e deixei meu currículo com a secretária. Só preciso aguardar que entre
em contato.
- Mantenha a calma e não fique ansiosa demais. Você é uma
profissional muito competente e tenho certeza que essa vaga será sua. Assim
que receber a resposta, que será positiva, iremos comemorar.
- E que tal eu dar um banho em você agora? - sugeri dando a ele um
olhar cheio de promessas.
- Excelente ideia.
- Você está falando sério? - perguntei perplexa ao idiota do meu
namorado, ou melhor, ex-namorado.
- Foi mal, princesa, mas não dá mais.
Engoli o choro e a raiva que me consumiu por dentro.
- Caio, eu não acredito que você está terminando o nosso namoro de
dois anos, por telefone!
Ouvi sua respiração pesada do outro lado da linha.
- Perdão, Lia, mas já tem um tempo que eu quero terminar, só não
tinha coragem para falar isso olhando nos seus olhos, então acho que é
melhor assim.
- Melhor pra quem, Caio?
- Princesa, eu...
- Princesa é o caralho! Vá para o inferno, Caio! - interrompi,
engolindo o choro e recolhendo o pouco de dignidade que ainda me restava.
- Tudo bem, se você não é homem o suficiente para terminar comigo
pessoalmente, não sou eu quem vai dificultar as coisas para você. Está tudo
acabado entre nós. Não se preocupe, não vou ficar no seu pé.
- Podemos ser amigos...
- Na boa, Caio. Corta essa, não quero ser sua amiga, você é um idiota.
- Desliguei antes que ele pudesse argumentar.
Que babaca!
Depois de dois anos de namoro, sem nunca termos rompido, o filho da
puta terminou tudo por telefone.
Vai entender!
Percebi que estava chorando. Era só o que me faltava.
Que raiva!
Eu gostava do Caio, não era aquele amor de causar frio na barriga
sempre que o via, mas a gente se dava bem. Dois anos não são dois meses,
você se acostuma a ter a companhia constante da pessoa, compartilha
momentos inesquecíveis, faz planos, pensa no futuro. Não acredita que vai
acabar em um simples telefonema sem sentido.
Não havíamos brigado.
Não tinha um motivo claro.
Depois de um tempo chorando e buscando entender em que momento
nosso relacionamento se desgastou, não consegui chegar a nenhuma
conclusão, mas de uma coisa eu tinha certeza, não ficaria em casa chorando
enquanto ele sairia para se divertir com os amigos e quem sabe com alguma
piranha. Eu podia jurar que havia mulher nessa história.
Meus pais não estavam em casa, tinham ido a um evento organizado
pelo banco, onde papai era gerente, não voltariam tão cedo. Era sexta-feira e
eu era maior de idade, não precisava de autorização para sair.
Peguei o celular e digitei o número da Pamela, minha melhor amiga.
- Oi, Pam! Vão sair hoje à noite? - perguntei de forma casual.
Era praticamente um hábito, Caio e eu sairmos com Pamela e mais
alguns amigos que tínhamos em comum. Pam e eu nos conhecíamos desde o
colegial e nos tornamos inseparáveis.
- Claro! Estamos a fim de irmos naquela boate famosa. Você e o Caio
querem ir com a gente? Vamos fechar um camarote.
- Então - comecei a dizer - o Caio e eu, bem... nós não estamos
mais namorando.
- O quê? - Pamela gritou do outro lado da linha, fazendo-me afastar o
celular do ouvido. - Do que você está falando?
Soltei um suspiro desanimado antes de responder.
- Isso mesmo que você ouviu.
Contei o que aconteceu, dando alguns intervalos para ela digerir a
informação e ainda xingar Caio dos piores adjetivos possíveis.
- Uau! Você tem um vocabulário bem extenso se tratando de ofensas.
- Isso é pouco para descrever a raiva que estou sentindo daquele
babaca.
Não contive uma risada.
- Pare com isso, até parece que o namorado era seu.
- Cruz credo! Sai pra lá, se ele fizesse isso comigo, eu mandava cortar
as bolas dele.
Novamente, soltei outra risada.
Somente Pamela era capaz de me fazer rir em um momento como
aquele.
Suspirei abatida.
- Eu te liguei para avisar que esta noite não vai rolar o programa em
turma. Pensei em te convidar para dar uma volta, fazer algo mais tranquilo
sabe? Não quero ficar em casa pensando naquele babaca.
- Amiga, sai dessa - disse despreocupadamente. - Homem é tudo
igual, não pense que o Caio vai ficar em casa de luto ou chorando o término
de vocês. Pode apostar que ele já estava todo arrumado para sair antes de te
ligar.
Pensando bem, a Pam tem razão...
- É verdade - sussurrei com a voz fraca.
- O que você vai fazer é o seguinte: Se arruma, coloca uma roupa bem
sexy, capricha na maquiagem e deixa esse cabelo maravilhoso, solto. Eu
estou indo agora mesmo pra sua casa e a gente vai se divertir muito naquela
boate.
Franzi o cenho. Não estava no clima para boate.
- Melhor não, Pam...
- Melhor sim! Eu não aceito recusa, até parece que você não me
conhece. E quer saber mais? Espero que o Caio esteja lá, para te ver linda e
gostosa, arrasando na pista, assim ele vai perceber o idiota que foi ao
terminar com você.
Sorri.
- Duvido muito que isso aconteça. O Caio sempre foi bom em disfarçar
os sentimentos.
- Que seja! Se arrume. Em vinte minutos estou passando na sua casa.
- Está bem. - Eu me rendi.
A Pamela tinha razão, não deveria ficar me lamentando em casa o
término do meu namoro.
Se fosse realmente sincera, diria que não era loucamente apaixonada
pelo Caio, apenas estávamos acomodados com a companhia um do outro,
nosso namoro já havia perdido o sabor há um bom tempo.
Só que sempre rola uma mágoa com o fim de uma relação,
principalmente da forma covarde como acabou.
- Você supera, Lia! - falei para mim mesma, tentando me animar.
Tomei um banho e olhei para o meu guarda-roupa.
Depois de dois anos namorando, pensei que não saberia mais ser
solteira.
Fiquei extremamente indecisa sobre qual roupa deveria usar para uma
balada, onde não precisaria me preocupar com o ciúme bobo de um
namorado. No final, optei por um vestido tubinho vermelho, estilo tomara
que caia, com detalhes em renda. Um sapato preto, bastante confortável, que
me deixava com as pernas mais longas, porém permitiria que aproveitasse a
noite sem cansar os pés.
Fiz uma maquiagem básica, com pó, blush e rímel, marquei o côncavo
com uma sombra marrom opaca, esfumando um pouquinho para deixar meu
olhar marcante. Eu tinha a pele levemente bronzeada e não gostava de
exageros na maquiagem, mas passei um batom vermelho, quase semelhante
ao meu vestido. Combinado com meu tom de pele e meu cabelo castanho
escuro, eu aparentava ter pouco mais que meus dezoito anos, talvez uns vinte
e cinco.
Olhando-me no espelho, quase não reconheci a Lia que ali estava. Os
fios ondulados e volumosos caiam sobre meus ombros de uma forma natural
e muito sexy, não costumava dividir o cabelo ao meio, sempre jogava um
pouco mais para o lado esquerdo, deixando-o com um aspecto casual, porém
planejado.
Para finalizar, meu perfume favorito.
Olhei-me no espelho.
- Seja bem-vinda de volta, Lia Solteira!
Sorri satisfeita. Sentia-me pronta para uma nova fase da minha vida.
A campainha tocou e fui logo atender. Ao abrir a porta, observei uma
Pamela de queixo caído ao me olhar dos pés à cabeça!
- Menina, o que foi isso? Você está muito gostosa! O Caio foi um
burro em terminar com você.
Meu sorriso esvaiu-se.
- Não quero ouvir o nome desse babaca. Não me permitirei derramar
nenhuma lágrima por causa dele. Quero sair e curtir, beber e dançar, sem me
preocupar com os motivos que fizeram ele me deixar. Sinceramente? Já não
me importo.
Pamela me deu um sorriso perplexo, mas feliz.
- Uau! Estou adorando essa nova Lia. Vamos?
- Demorou!
Chegamos à boate e fomos logo entrando, tivemos que parar no caminho
para desviar de alguns rapazes que insistiam em nos paparicar com cantadas
baratas. Não dei 'bola' para nenhum deles, mas me senti satisfeita, ao menos
eu continuava sendo desejável para os homens.
A música era alta e contagiante, fomos até um camarote onde nossa
turma costumava ficar. Assim que chegamos, dei de cara com o Caio
agarrando uma ruiva baixinha, que vestia uma microssaia daquelas que mais
pareciam um cinto.
- Uau! Ele é rápido, hein - comentei desdenhosa no ouvido da
Pamela, apontando discretamente na direção dos dois, que por sorte não
haviam me visto.
- Não acredito que o cachorro teve coragem de vir pra cá, com outra
garota! - Pamela estava puta da vida com a cena, mas por mais que eu
estivesse chateada, não deixei transparecer.
- Deixa, amiga. É a oportunidade perfeita para eu mostrar a ele que não
me importo.
Pamela franziu o cenho.
- Como assim, Lia? O que você vai fazer?
- Vou dançar muito naquela pista, faço questão que ele veja e vou ficar
com o primeiro que aparecer na minha frente.
- Lia, vai com calma, amiga - Alertou-me Pamela, cautelosa. -
Você sabe como são essas baladas, são cheias de caras safados querendo
levar qualquer uma pra cama, e você não é qualquer uma!
A Pamela tinha razão, eu não precisava me rebaixar tanto.
- Tudo bem, acho que me precipitei, mas uma coisa é certa, vou
provocar e se no meio do caminho tiver alguém interessante, não vou recuar.
- É isso aí, ao menos seja seletiva.
- Eu serei.
O DJ começou a tocar música nacional, Caio ainda não tinha me visto
então eu e a Pamela falamos com alguns amigos no camarote e fomos todos
para a pista de dança. Eu estava de mãos dadas com a Pamela, mas com a
boate lotada, acabamos soltando as mãos ao tentar passar entre as pessoas.
- Droga, Pamela! Podia ter me esperado - Ralhei para mim mesma, já
que com a música alta, ninguém me ouviria.
Continuei em direção ao centro da pista, sabia que seria lá o ponto de
encontro da turma. Estava quase chegando quando me esbarrei em alguém
muito maior que eu. Foi um encontrão meio brusco e acabei indo para trás,
quase caindo no chão, embora a pista estivesse lotada. Sorte que ele me
segurou, suas mãos prenderam-se em minha cintura, impedindo-me de cair.
Respirei aliviada, mas, ao mesmo tempo, senti uma corrente elétrica
percorrer por todo o meu corpo, então, lentamente, levantei meu olhar e
encontrei o dele.
Foi como naqueles filmes quando tudo se passa em câmera lenta, os
figurantes ficam desfocados e a música extremamente baixa, os olhares se
cruzam e se interrogam, tentando descobrir o que se passa na cabeça um do
outro.
Ele era lindo.
Muito lindo.
Então a música voltou a ficar alta e os figurantes voltaram a ganhar foco,
ele me deixou de pé, soltando-me em seguida.
- Cuidado - gritou perto do meu ouvido.
- Desculpe - respondi, também gritando.
Sorrindo, ele se foi.
Permaneci parada por um instante, olhando-o desaparecer entre as
pessoas.
Não parecia ser o tipo de homem que frequentava uma danceteria, não
era um garotão, ou um daqueles playboys empresários que saem à noite para
ostentar riqueza, ao menos, não se parecia com um.
Ele tinha um jeitão sério e pareceu ser bastante educado.
Era um homem, daqueles com H maiúsculo.
- Lia! Achei você! - gritou Pamela ao me encontrar.
Revirei os olhos.
- Fui praticamente abandonada aqui. - Fiz beicinho.
Ela riu.
- Venha, escuta só? - disse levantando a mão. - Essa música é a sua
cara, tem tudo a ver com o seu momento, vamos dançar!
Puxando-me para o centro da pista, Pamela começou a dançar batendo o
seu quadril no meu, comecei a prestar atenção na letra da música e a sorrir
feito uma boba.
Sim! Tinha tudo a ver com o meu momento.
"Mas quem pensou que ela tava, depressiva em casa
Só porque o namorado terminou com ela,
Que ela só pensava em chorar, muito errado você tá
E a partir desse momento a cena é toda dela..."
[1]
Fechei meus olhos e dancei como nunca. A música terminou e outra
começou em seguida, Pamela e eu continuamos dançando com nossa turma.
Durante um tempo, tive a leve sensação de ser observada, pensei que fosse
coisa da minha cabeça até que meu olhar se encontrou com o dele.
Caio, o babaca do meu ex-namorado. Enquanto eu dançava, ele se
esfregava na ruiva, mas não tirava os olhos de mim. Desviei o olhar e
continuei dançando.
- Você viu, Lia? - Pamela gritou próxima a mim. - O Caio não para
de te encarar.
- Pois, ele que fique apreciando o que perdeu. Não quero mais saber
dele.
Fazia tempo que não me divertia tanto, Pamela estava tão animada
quanto eu e juntas dançamos muito. Quando as músicas nacionais cessaram,
o DJ começou uma sequência de música eletrônica. Eu estava suada e
ofegante de tanto requebrar até o chão.
- Ei, Pam - chamei. - Estou com sede, vamos ao bar?
Percebi que minha amiga estava paquerando um carinha e acabei indo
sozinha.
- Uma Coca, por favor - pedi ao bartender entregando meu ticket.
Enquanto aguardava meu refrigerante, senti duas mãos pegajosas
segurarem com força a minha cintura e um hálito quente em meu ouvido.
- Nossa, Lia! Você está muito gostosa hoje.
Caio.
- Tire essas mãos de cima de mim, seu otário.
Ele tirou, assustando-se com a maneira com que eu falava com ele.
Nunca fui de ofender ninguém de graça, muito menos de chamar Caio
de qualquer coisa desagradável, mas nunca haviam terminado comigo pelo
telefone, então estávamos quites.
- Foi mal, princesa!
Virei para ele dando o olhar mais gélido que consegui, apontando o dedo
em riste, no seu nariz.
- Não me toque, não fale comigo, finja que não me conhece - falei
sem emoção na voz, tentando ser indiferente, embora a raiva que eu sentia
fosse quase indisfarçável.
O bartender trouxe meu refrigerante e me virei de costas para Caio,
fingindo que ele não estava presente. Infelizmente minha estratégia não
funcionou, pois, ele continuou ali, indo para o meu lado, sorrindo
cinicamente como se eu quem estivesse o importunando.
- Sabe, acho que a gente podia sair daqui - sugeriu - e conversar
sobre o nosso namoro...
- Que namoro? - interrompi. - Nós não somos namorados. A
propósito, cadê a ruivinha? Já cansou de você?
- É você quem eu quero, Lia.
- Sem chance - desdenhei.
Tomei um gole do meu refrigerante e não voltei a encará-lo.
Droga!
Eu não queria odiar o Caio, nosso namoro foi pacífico, não tínhamos
que virar inimigos, mas eu não conseguia disfarçar a raiva e ele não ajudava
em nada falando daquele jeito comigo.
Aproximando-se novamente, ele pegou na minha cintura e puxou-me
para si.
- Pare de se fazer de difícil, Lia.
- Não torre a minha paciência, Caio. Já disse que não quero mais nada
com você! - Elevei o tom de voz e afastei-me, dando um passo para trás e
me esbarrando em alguém. Alguém que envolveu seus braços em torno de
mim de uma forma bastante protetora.
- Opa! Cuidado, querida. Já está se tornando um hábito eu resgatar
você de um tombo - disse aquela voz masculina que já não me era estranha.
Olhei para ele que sorria de forma gentil, seu comentário não havia sido
arrogante, como a maioria dos homens costumava fazer. Ele poderia muito
bem ter imaginado que eu estava me jogando propositalmente para cima dele,
mas não era o que parecia.
Seu sorriso era gentil e seu olhar era... Como descrever aquele olhar?
Profundo! Hipnotizante.
- Desculpe - sussurrei, tinha certeza que minhas palavras foram
silenciosas, mas ele entendeu.
O abraço continuou e estranhei o conforto que sentia com seu toque. Era
um completo estranho, mas me passava segurança.
- Será que você pode soltar a minha namorada? - disse Caio, sendo
arrogante como jamais eu havia presenciado.
Franzi o cenho, mas não precisei me explicar, o meu salvador não
recuou seus braços e continuou ali, cuidando de mim.
- Ela não é mais a sua namorada - revidou ele, surpreendendo-me.
Como ele sabe?
- Ela era, há umas cinco horas ...- argumentou Caio.
- Mas não é mais. Como você pode ver, ela já encontrou um substituto.
O quê?
A surpresa de Caio foi tão grande quanto a minha, senti meu corpo ficar
tenso, mas o estranho continuava me abraçando, puxando-me contra seu
peito, suas mãos acariciando meu braço, querendo me tranquilizar.
Caio me encarou com fúria.
- Quer dizer que pode sair e se esfregar no primeiro cara que aparece?
- Sua voz era desdenhosa. - Nunca pensei que você fosse esse tipo de
garota, talvez eu tenha terminado no momento certo.
- Caio - falei com a voz enojada - por que não vai até a ruiva e fica
por lá a noite toda? Acho que você não tem motivos para me julgar.
- Estou bêbado e somente bêbado eu viria até você novamente, Lia -
debochou, voltando o olhar para o homem atrás de mim. - Não sabe o favor
que me faz ao ficar com essa garota, assim posso me sentir menos culpado
por tê-la largado.
- Eu é que te agradeço por tê-la deixado - revidou meu protetor. -
Se não fosse isso, eu não teria conhecido a Lia. Talvez esse seja o seu
problema, Caio. Você a trata como uma menina, quando ela é uma mulher.
Sem dizer mais nada, Caio saiu dali em disparada, deixando-me
estupefata por ter agido daquela forma. Jamais havia me tratado com tamanho
desprezo, ele estava mudado ou eu nunca havia percebido o quão babaca ele
poderia ser.
Virando-me para o homem que me defendera, não consegui desviar
meus olhos dos seus. Ele sorriu e afrouxou o abraço, subindo uma das mãos
até meu rosto, secando uma lágrima que eu nem sabia que estava ali.
- Shhh... Não chore por ele - murmurou, aproximando-se de mim.
Sua respiração quente estava tão próxima da minha, seu olhar cativante
me encarava esperando que eu recuasse, mas não fiz. Seus lábios entreabertos
chegaram mais perto e aquela sensação de câmera lenta voltou a me invadir.
Estávamos a um passo de nos beijarmos e eu não conseguia pensar em outra
coisa, quando aconteceu, tive que me segurar nele para não me desmanchar
ali mesmo.
Foi perfeito.
Não existia aquele clima de pegação na balada, parecia que nem
estávamos em um ambiente tão agitado. Foi calmo e lento, seus lábios
tocando os meus, sua língua explorando a minha, seus braços firmes me
apertando contra ele, enquanto meus braços permaneciam em volta do seu
pescoço. Ele não acariciava meu corpo, não passava a mão em minha bunda e
nem apertava a minha cintura, apenas me abraçava e beijava.
Estranho, mas bom.
O homem era experiente, não estava sendo tímido, seu beijo era
adocicado e sabia exatamente o que estava fazendo, mas havia uma grande
diferença entre todos os outros garotos que eu já havia beijado: havia respeito
e ternura.
Foi então que me dei conta que não estava beijando um carinha qualquer
na balada. Eu estava beijando um homem de verdade.
- Oh, droga! - Soltei assim que encerramos o beijo. - Você fez
parecer que tínhamos alguma coisa quando eu ainda namorava ele. Vou ter
que trocar o status de namorada abandonada para namorada traíra.
Ele riu.
- Nada disso, você não tem que se preocupar com o que as pessoas vão
pensar. A vida é sua.
- Não é tão fácil assim. - Revirei os olhos.
- Mas não tem que ser difícil, as pessoas é que dificultam tudo.
Simplifique, não complique.
- Sábias palavras, você tem o quê? Cinquenta anos? - Brinquei.
- Eu pareço ter cinquenta anos? - perguntou, franzindo a testa.
- Não.
- Ótimo, já estava ficando preocupado.
O maldito silêncio constrangedor surgiu, aquele que aparecia quando
duas pessoas querem muito conversar, mas não tem assunto.
- Valeu por me segurar, pela segunda vez esta noite.
- Duas?
Maravilha! Ele nem percebeu que nos esbarramos na pista de dança.
- Na pista, eu quase caí e você me segurou.
Olhando-me nos olhos ele respondeu:
- Eu sei.
- Então por que perguntou se foram duas vezes?
- Porque eu queria ter certeza de que você se lembrava.
Como eu me esqueceria?
- Tio Greg! Finalmente te achamos!
Tio?
Duas garotas idênticas se aproximaram de nós, uma delas usava um
vestido preto e a outra, vermelho, ambos eram do mesmo modelo.
- Finalmente vocês apareceram - disse Greg, virando-se para encarálas. - Eu já estava ficando preocupado.
- Relaxa tio, a gente só tava dançando - respondeu a gêmea de
vestido preto.
Enquanto isso, a gêmea de vestido vermelho me encarava de um jeito
nada amigável. Recuei um passo, mas Greg puxou-me para perto dele,
mantendo-me em um abraço.
- Meninas, essa é a Lia.
- Oi, Lia - disseram juntas, não muito animadas.
Greg sorriu, ignorando os modos pouco simpáticos de suas sobrinhas.
- Essa é Aline - disse apontando para a garota de vestido preto - e
essa é a Alice - apresentou a de vestido vermelho.
- Olá, meninas - foi tudo o que consegui dizer.
Que situação esquisita!
O que eu estava fazendo ali?
Nem sabia o nome do cara até uma delas o chamar e de repente estava
sendo apresentada às sobrinhas dele como se já nos conhecêssemos.
- Podemos voltar pra pista? - perguntou Alice, entediada. - Só
queríamos saber onde o senhor estava.
- Tudo bem, vão - autorizou. - Estarei aqui, no mesmo lugar.
Encontrem-me em uma hora.
De mãos dadas elas voltaram para o meio da multidão na pista de dança.
O silêncio constrangedor retomou seu lugar entre nós.
- Minhas sobrinhas são bastante ciumentas - comentou depois de um
tempo me encarando. - Espero não ter assustado você.
- Nos beijamos e eu nem sabia o seu nome. - Sorri, envergonhada.
- Eu te salvei de um ex-namorado pé no saco - gracejou.
- Por isso me beijou? Por que queria algo em troca depois de me
ajudar?
- Claro que não! Eu te beijei porque me encantei por você, fiquei te
observando no bar e o tal do Caio apareceu. Senti uma vontade imensa de te
proteger. Ele estava sendo um cretino.
- Ele é um babaca, não sei porque agiu daquele jeito comigo. Nunca
brigamos em dois anos de namoro, de repente terminou tudo e acabei
descobrindo o quão idiota ele consegue ser - suspirei, cansada.
Greg me encarou e se aproximou ainda mais.
- Esqueça ele, fique aqui comigo - pediu suplicante.
- Nem nos conhecemos, cara.
- Isso pode ser resolvido - esticou sua mão. - Sou Gregory Cadore.
É um prazer imenso conhecê-la.
Observei desconfiada, antes de ceder.
- Lia Scussel.
O aperto de mão foi firme e muito sensual, era como se seus dedos ao
prenderem minhas mãos, fizessem promessas.
Aquele lance da eletricidade percorreu meu corpo novamente.
- Vamos para perto do balcão, você nem terminou seu refrigerante -
disse puxando-me com ele para uma parte vazia. - Você não bebe nada com
álcool?
Dei de ombros.
- Bebo, mas hoje não estou a fim. Vim para dançar, beber me deixa um
pouco zonza. E você?
- Não estou bebendo hoje, vim para tomar conta das garotas. Minha
irmã está viajando e fiquei responsável por elas.
Mordi o lábio, inconscientemente. Ele era tão sério, mas tão lindo. O
beijo ainda estava presente nos meus pensamentos.
- Não faz isso, Lia! - pediu com a voz rouca.
- Isso o quê? - Prendi a respiração.
Ele apontou para minha boca.
- Não morda os lábios.
- Por que, não?
Olhando-me de um jeito sombrio, sua resposta deixou-me excitada.
- Porque me dá vontade de fazer o mesmo.
- Morda os seus lábios, então - provoquei.
Dando um sorriso de lado, Gregory tomou um gole do refrigerante que
havia pedido e em seguida me ofereceu. Aceitei e bebi um pouco, afinal, o
meu já devia estar quente.
- Eu quero morder os seus...
Quase me afoguei quando ouvi o que ele tinha acabado de dizer.
O que eu faço? Ah, quer saber, vou curtir a noite. Eu bem que mereço!
Deixando a latinha de refrigerante no balcão, cheguei perto de Gregory e
o puxei pela camisa. Lembrei-me do que havia comentado com Pamela, se eu
encontrasse alguém interessante, não iria recuar. Gregory era muito mais que
interessante, ele era absolutamente perfeito.
- Eu quero morder os seus - sussurrei em seu ouvido antes de colar
meus lábios nos dele.
Se o primeiro beijo foi ótimo, o segundo foi sensacional.
Continuei segurando-o pela camisa, mas Gregory colocou meu rosto
entre suas mãos enquanto me beijava com vontade, mal dando-me espaço
para respirar. Havia mais volúpia daquela vez, o fato de eu tê-lo provocado
pode ter sido o motivo, ele deu algumas mordiscadas em meu lábio inferior e
sem querer deixei escapar um gemido baixinho, abri os olhos rapidamente ao
me dar conta, repreendendo-me mentalmente por estar tão excitada com um
único beijo. Vi que ele abriu um sorriso travesso, com certeza estava se
vangloriando por estar conseguindo me atiçar.
- Vamos sair daqui - sugeri pegando-o pela mão e indo até o corredor
que levava em direção aos banheiros, lá era mais escuro e teríamos um pouco
mais de privacidade, nunca gostei de ficar me agarrando com o Caio em
público, não seria com um desconhecido que eu começaria.
- Aonde estamos indo? - perguntou Gregory, sua voz abafada pela
música alta.
- No corredor, é mais calmo lá.
Gregory soltou minha mão e segurou minha cintura, enquanto eu nos
guiava até o corredor escuro.
Assim que chegamos, alguns casais já estavam ali no maior clima de
pegação, escorei-me de costas na parede e o puxei para mim.
- Onde estávamos? - perguntei lhe dando um sorriso malicioso.
Sem dizer uma só palavra, ele tornou a me beijar com força,
aproveitando o ambiente escuro para ousar um pouco mais em suas carícias.
Enquanto eu segurava firme em seus cabelos negros, puxando uma vez
ou outra quando o beijo se intensificava, ele passava as mãos pelo meu corpo,
alisando, apertando, descobrindo minhas curvas naquele vestido colado.
Subindo para meus seios, pousou sua mão ali, segurando delicadamente, não
parando um segundo de me beijar.
A sensação era maravilhosa, não que fosse o momento de ficar
comparando, mas Caio jamais havia me beijado daquela maneira, talvez fosse
porque eu não me sentia realmente apaixonada pelo meu ex-namorado,
porque nunca havia sentido o que estava sentindo naquele momento, com
aquele homem.
Era indescritível, mas incrivelmente maravilhoso.
- Você é tão linda, Lia! - Acariciou meu rosto enquanto me olhava
nos olhos, o beijo teve que ser interrompido, pois ambos estávamos sem ar.
Lindo era ele, pele clara, o queixo quadrado e bem desenhado, pequenos
traços de sua barba aparecendo, os olhos castanhos. Era com certeza mais
velho do que eu, uns bons anos. Só que a idade não me importava, na verdade
era o que me deixava ainda mais atraída por ele, afinal, era um homem e não
um garoto.
Seu corpo era grande e ele era bem mais alto do que eu. Fazia com que
me sentisse protegida, bem cuidada, e ainda mais mulher ao ser abraçada e
acariciada por suas mãos grandes e macias.
Estava adorando cada momento e me sentindo realmente linda por ter
conseguido chamar a atenção de um homem como Gregory, mas ouvi-lo
dizer em voz alta, pegou-me desprevenida.
- Diz isso porque nunca me viu sem maquiagem ou sem esse vestido
curto e colado ao meu corpo. - Levei na brincadeira. Realmente não sabia
como responder ao elogio sem avermelhar feito um pimentão.
Adotando uma expressão séria, Gregory levantou meu queixo e me fez
encará-lo novamente.
- Não diga isso, estou sendo honesto com você. Não sou o tipo de
homem que costuma sair à noite para pegar mulher. Não frequento esses
lugares, vim pelas minhas sobrinhas. Então te encontrei e fez valer a minha
noite. Eu não vi a Lia de vestido curto e maquiagem quando te segurei no
meio da pista, eu vi a Lia que estava por trás da casca, a verdadeira, não a que
veio pra balada porque terminou com o namorado e só queria curtição. Eu
não estaria aqui se você fosse apenas isso, um belo corpo e uma bela
maquiagem. Tem muito mais por trás disso, não tem?
Merda. Como ele conseguiu ir tão além?
Senti-me nua diante de suas palavras, como se ele tivesse me
desmascarado.
A Lia festeira era uma farsa que estava apenas começando e Greg já
tinha tirado toda a graça da brincadeira. Eu não estava chateada, pelo
contrário, sentia-me impressionada por ele ter conseguido me ver como
nenhum outro cara naquela danceteria me veria, nem o Caio, conhecendo-me
como me conhecia, só se aproximou de mim novamente por me ver usando
aquele vestido e dançando na pista. Meu ex-namorado não estava
conseguindo enxergar o que esteve diante de seus olhos em dois anos de
namoro, mas um completo estranho levou alguns minutos para descobrir e se
interessar.
O que tudo isso significa?
- O que há de errado em querer estar bonita, usando um vestido curto e
maquiagem? Ou dançar no meio da pista sem se importar com nada? -
perguntei na defensiva, minha única arma para tentar me manter no controle,
sem deixá-lo perceber que havia tocado em um ponto sensível.
Balançando a cabeça em negativa, ele deu um sorriso triste.
- Não é sobre você ser a mais gostosa, é sobre você se amar em
primeiro lugar. Se você fez tudo isso para você mesma se sentir bem, está no
caminho certo. Mas se fez isso para mostrar aos outros que consegue ser o
que os outros pensam que não conseguiria, aí então está tudo errado. Você é
tão linda, Lia. Não é preciso te conhecer muito para perceber que também é
muito inteligente. Não é com vestido curto e maquiagem que você prova aos
outros que é uma mulher incrível. Só um idiota não percebe como você é
especial.
- Você nem me conhece - revidei.
- Não preciso, eu te vi por dentro e é isso que está te assustando.
Eu só queria dar uns amassos no corredor da boate, não uma sessão de
análise com um desconhecido.
Suspirei, aquela conversa tinha acabado com todo o clima.
Por que eu simplesmente não aceitei o elogio com um beijo?
Maldita mania de arrumar desculpa quando não tinha uma resposta
adequada!
- Psiu! - Greg chamou a minha atenção. - Não faz essa cara, Lia.
Sei que eu disse muita coisa, me perdoe. Mas já passei da fase de levar uma
mulher para o corredor escuro de uma boate e ficar aos beijos. Eu te quis
assim que coloquei meus olhos em você, mas não dessa maneira. Você
merece mais do que isso.
Se um buraco se abrisse naquele momento, eu me jogaria dentro.
- Eu ainda estou nessa fase, bonitão - consegui responder, levando na
brincadeira. Tentei me recompor do "tapa na cara" que levei ao ouvir suas
palavras. - Acho que existe uma diferença de anos entre nós.
Ele sorriu de lado.
- Só quis dizer que, se eu estivesse procurando mulher apenas para
sexo, eu teria te trazido aqui antes. Mas quis conversar com você e te
conhecer melhor.
- Só conversar?
Já estávamos caminhando em direção ao bar, novamente.
Estava intrigada com ele, tão diferente dos outros caras. Se eu tivesse
escolhido qualquer um naquela boate, com certeza já estaria no carro,
fazendo algo que muito provavelmente me arrependeria no dia seguinte.
Que cara iria se importar se eu estava usando sexo para tentar esquecer o
término de um namoro?
Nenhum me dispensaria, mas de todas as minhas opções, escolhi o único
homem que não faria aquilo comigo.
Dando um sorriso torto, ele não respondeu.
- Você não costuma vir aqui, não é? - perguntei assim que voltamos
ao bar e nos escoramos em uma parte vazia do balcão.
- Na verdade, não. Eu vim pelas meninas. Elas têm dezesseis anos,
então só entram acompanhadas de um responsável. Semana que vem é
aniversário delas, vir aqui hoje foi um presente antecipado.
- Muito legal da sua parte. Elas devem te adorar!
Ele abriu um sorriso sincero.
- Até demais. - Fez uma careta. - Elas perderam o pai muito cedo,
minha irmã mais velha não tornou a se casar. As garotas enxergam em mim
uma influência paterna. Eu voltei ao Brasil há pouco tempo, desde então
tenho ficado na casa da minha irmã, até arranjar um apartamento que me
agrade.
Uma de suas mãos tocou meu ombro, acariciando de leve.
Eu gostava da sensação que seu toque causava em minha pele.
Olhar para seus lindos olhos castanhos também exercia algum tipo de
influência sobre mim. Sentia-me encantada por ele de uma forma que nunca
imaginei ser possível. Isso que só estávamos conversando, em um ambiente
que não era propício ao diálogo, visto que a iluminação precária e o som alto
não ajudavam em nada. Contudo, Gregory não parecia se incomodar, sua
atenção estava voltada totalmente para mim e eu estava me perdendo nele.
- Onde você morava?
De repente, senti que precisava saber tudo a seu respeito. Dançar já não
era interessante, ouvir músicas que pareciam terem sido escritas para mim
também não.
- Londres. Eu morei lá por três anos, mas voltei quando Daniela,
minha irmã, começou a ter dificuldades para lidar sozinha com as garotas. -
Fez uma breve pausa, molhando os lábios antes de continuar. - Nossos pais
já faleceram, somos só nós dois. E claro, as meninas.
Sorri, ainda mais admirada pelo homem a minha frente.
Mesmo que fosse uma conversa bastante reveladora para quem havia
acabado de se conhecer, eu sabia que existia a chance de ser mentira, afinal,
éramos dois estranhos e eu não era tão ingênua ao ponto de acreditar em tudo
de primeira. Ainda assim, algo dentro de mim dizia que ele não estava
tentando me seduzir com aquele papo de bom moço, mas se abrindo comigo.
De toda forma, eu estava impressionada, ainda que cautelosa.
- Sou filha única - revelei. - Meus pais são muito presentes na
minha vida e ainda não consegui cortar o cordão umbilical, por assim dizer.
Moro com eles, embora meu grande sonho sempre foi ter meu próprio canto.
Não consigo imaginar o quanto deve ser difícil para as gêmeas crescerem sem
o pai, nem para você e sua irmã lidarem com isso sozinhos. Família é algo tão
precioso.
Ele tocou meu rosto com a mão que acariciava o ombro, esfregando o
polegar em um gesto de carinho, que me fez fechar os olhos por alguns
instantes.
- Tenho certeza que você é muito preciosa para os seus pais, Lia. -
Senti o polegar escorregando para meu lábio inferior e assim que abri meus
olhos, vi o quanto ele parecia ávido a me beijar de novo.
Naquele instante, eu queria ser preciosa para ele também.
Gregory se aproximou ainda mais e nossos lábios estavam prestes a se
colarem outra vez, quando uma movimentação estranha começou na pista de
dança.
De repente, ele me puxou para trás de si enquanto observava e tentava
entender o que acontecia.
- É uma briga - explicou com a voz aflita. - Droga! As meninas.
Olhando-me suplicante, ele parecia desesperado.
- Preciso ir atrás delas!
- Tudo bem, vai logo. Eu te espero aqui.
Fiquei nervosa com a movimentação das pessoas, uma empurrando a
outra, tentando se afastar do foco da briga. Recuei para perto do balcão do
bar, onde não havia risco de esbarrar com ninguém.
Lembrei-me da Pamela e fiquei imensamente preocupada.
- Espero que ela não esteja lá...
Foi quando minha amiga apareceu do meio do nada e quase me matou
de susto.
- A coisa está feia lá na pista de dança! - gritou ela nervosa. -
Vamos embora daqui, pelo amor de Deus, Lia!
Pamela estava a ponto de chorar, a briga tinha começado justamente do
lado dela. Puxando-me com força pelo braço, minha amiga me arrastou para a
porta de saída, sem deixar eu me explicar.
Queria dizer a ela que estava acompanhada, precisava esperar Gregory
encontrar as sobrinhas, mas ela não permitiu.
A música alta e as vozes alteradas por causa da briga impediram-me de
conversar com Pamela. Sem conseguir me soltar dela, logo chegamos à rua.
- Que confusão!
- Eu não podia ter saído daquele jeito - reclamei frustrada.
- Por que, não? - Pamela franziu a testa.
- Eu estava com uma pessoa.
- Você o quê?
- Não grite comigo, já estamos na rua, não tem nenhuma música alta
aqui.
- Você estava com alguém?
- Foi o que eu disse, mas agora não vou conseguir encontrá-lo.
Obrigada, Pamela!
- Ei! A briga estava feia lá dentro, tive sorte de conseguir sair do meio
da pista sem ser pisoteada, não tinha como eu adivinhar as coisas.
Dei de ombros, sabia que ela estava nervosa.
- Vamos pra casa, você pode dormir comigo se quiser. Assim não
chega em casa nervosa, não te quero dirigindo sozinha.
- Tudo bem, vamos. Você dirige? Realmente não estou em condições.
Segurando minha amiga pelos ombros, sorri.
- Vamos nessa, eu cuido de você.
Então lá fomos nós para a minha casa.
Minha noite foi de decepcionante à esquisita, de interessante à
incrivelmente perfeita, voltando a ficar esquisita. Quando as coisas poderiam
ter começado a ficar novamente interessante, a maldita briga fodeu com tudo
e lá se foi meu encontro com um cara que gostava de levar as mulheres a
sério. Novamente decepcionante.