A tela do computador piscava, o prazo final para a PUC-Rio se esgotava, mas meu mouse tremia por outro motivo: não era mais nosso sonho.
A foto de Sofia e Camila sorrindo, antes um tesouro, agora zombava de mim, um lembrete de uma amizade que parecia uma mentira.
Com um clique abrupto, abandonei nosso plano para o Rio, e digitei "USP", "Engenharia", "São Paulo"-para bem longe delas.
Em minha "festa" de aniversário, Gabriel, o intruso que me roubou a atenção e o afeto delas, usava meu terno e, pior, o relógio do meu avô.
Elas me chamaram de mesquinho, defenderam aquele impostor cega e cruelmente.
A amizade, que achei inquebrável, fragmentou-se ali, sob o sorriso triunfante de Gabriel.
Pouco depois, um rojão lançado por ele explodiu em minha perna, quase me custando a vida; a dor era imensa, mas a delas, cegas e defensivas, era maior.
No hospital, ao invés de compaixão, recebi acusações de delírio, enquanto elas corriam para o lado do meu agressor.
Como eu poderia perdoar a traição delas, essa devoção doentia a um monstro?
Mas o destino me reservava um novo começo, uma nova vida com Ana Clara, um refúgio de paz em um mundo que elas não podiam mais alcançar.
Enquanto eu construía meu futuro em São Paulo, longe do passado tóxico, sabia que elas, perdidas em sua obsessão, jamais poderiam me encontrar novamente.
A tela do computador brilhava no escuro do quarto, o cronômetro no canto da página da PUC-Rio piscava em vermelho, faltavam menos de dois minutos para o fim das inscrições. O mouse tremia um pouco na minha mão. Era o sonho da minha vida, o nosso sonho. Eu, Sofia e Camila, juntos na mesma faculdade, no mesmo campus, como sempre planejamos desde que éramos crianças.
A foto das duas sorrindo para mim, presa na moldura do monitor, parecia zombar de mim. Sofia e Camila, minhas melhores amigas, a minha vida inteira. Mas agora, tudo parecia uma mentira.
Com um movimento brusco, fechei a aba da PUC-Rio. Abri uma nova, digitei "USP" na barra de busca. Meus dedos voaram pelo teclado, preenchendo o formulário de inscrição para um curso completamente diferente, em uma cidade completamente diferente. Engenharia. São Paulo. Longe.
Cliquei em "enviar" quando faltavam dez segundos. A página carregou, e uma mensagem de confirmação apareceu. "Inscrição Realizada com Sucesso". Suspirei, um ar pesado saindo dos meus pulmões. O som do relógio marcando meia-noite pareceu um tiro de largada para uma nova vida, uma vida sem elas.
Desliguei o computador e a escuridão tomou conta do quarto, mas não era um breu completo. As luzes da rua desenhavam formas nos objetos que enchiam cada canto, cada prateleira, cada parede. Eram presentes delas, fotos nossas, lembranças de uma amizade que eu agora via como uma prisão.
Levantei-me, movendo-me com uma calma que eu não sentia por dentro. Fui até a estante e peguei o primeiro porta-retrato, uma foto nossa no Pão de Açúcar, com a cidade do Rio de Janeiro aos nossos pés. Nós três, abraçados, sorrindo como se o mundo fosse nosso. Tirei a foto da moldura e a rasguei ao meio, depois em quatro, depois em pedaços tão pequenos que eram irreconhecíveis. Joguei os pedaços no lixo.
Fiz o mesmo com todas as outras fotos. Uma a uma, as lembranças foram destruídas. Peguei uma caixa de papelão vazia e comecei a enchê-la com os presentes, os livros que elas me deram, os ingressos de cinema guardados, tudo. O último item foi um álbum de fotos de couro, um presente de aniversário de quinze anos delas. Não o abri. Não conseguia. Apenas o coloquei dentro da caixa, em cima de todo o resto, e fechei as abas. Aquela caixa continha a minha vida inteira, e eu a estava jogando fora.
A mudança não foi repentina, foi uma erosão lenta e dolorosa. Começou com a chegada de Gabriel. Ele apareceu do nada, um amigo de um amigo de Sofia, e em poucas semanas, ele estava em todos os lugares. Gabriel era charmoso, tinha um sorriso fácil e uma história triste sobre sua família pobre e suas dificuldades. Sofia e Camila o acolheram imediatamente, com uma devoção que me assustava.
Eu me lembro de uma tarde, sentados num quiosque na praia. Eu tentava contar sobre uma descoberta que fiz no laboratório da escola, algo que me deixava animado, mas elas não ouviam. Seus olhos estavam fixos em Gabriel, que contava pela décima vez como ele trabalhava duro para ajudar a mãe. Sofia passava a mão no braço dele, consolando-o. Camila o olhava com admiração. Eu era apenas um ruído de fundo, invisível.
A gota d'água foi na minha festa de aniversário surpresa, há algumas semanas. Elas organizaram tudo, mas a festa não parecia ser para mim. Quando cheguei, a atenção de todos estava em Gabriel. E então, eu o vi. Ele estava usando o meu terno, um presente caro dos meus pais que eu guardava para a minha formatura. E no pulso dele, o meu relógio, a única herança do meu avô.
Meu sangue gelou. Aproximei-me dele, a raiva subindo pela minha garganta.
"O que você está fazendo com as minhas coisas?", perguntei, minha voz baixa e trêmula.
Gabriel sorriu, aquele sorriso falso e desarmante. "Calma, João Vítor. Eu só queria ficar bonito para a sua festa. Você tem tantas coisas, achei que não se importaria."
Sofia e Camila se aproximaram, já na defensiva. "João Vítor, para com isso", disse Sofia. "Não seja mesquinho. Ele só queria se arrumar."
"Mesquinho?", repeti, incrédulo. "Ele pegou minhas coisas sem pedir. O relógio do meu avô!"
"Ai, que drama", Camila revirou os olhos. "É só um relógio. Gabriel não tem as mesmas condições que você, tenha um pouco de empatia."
Olhei para elas, para as minhas amigas de infância, e não reconheci as pessoas na minha frente. Elas estavam defendendo um cara que mal conheciam, um cara que tinha invadido minha privacidade e roubado algo de valor sentimental imenso, e a culpa era minha por ser "mesquinho". A lealdade delas não era mais para mim.
Eu não discuti mais. Apenas dei um passo para trás, sentindo um vazio gelado onde antes havia carinho. Levantei meu copo, um sorriso amargo no rosto.
"Um brinde", eu disse, alto o suficiente para que eles ouvissem. "Ao Gabriel. Que parece que usa minhas roupas e meu relógio melhor do que eu."
Dei as costas e saí da minha própria festa. Naquele momento, a amizade deles já estava morta. Eu só precisei de algumas semanas e da tela de inscrição da faculdade para oficializar o enterro.
No dia seguinte, a primeira coisa que fiz foi trocar a senha do meu computador e do meu celular. Depois, peguei a caixa de papelão cheia de memórias e a levei para a área de serviço. Ao lado das latas de lixo, abri a caixa e comecei a jogar tudo fora, item por item, dentro do saco preto. Os porta-retratos vazios, os ingressos, os presentes. Por último, o álbum de fotos. Hesitei por um segundo, depois o joguei com força. O som oco que fez ao bater no fundo do saco de lixo foi o som do fim.
Levei o lixo para a calçada, bem na hora em que o caminhão estava passando. Assisti enquanto os garis jogavam o saco preto na caçamba e a máquina o esmagava. Um alívio estranho tomou conta de mim. Estava feito.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Sofia e Camila apareceram na minha porta. Elas não tocaram a campainha, simplesmente usaram a chave que tinham. Quando entraram na sala, viram a parede vazia onde antes ficavam as fotos.
"Ué, cadê as fotos?", perguntou Sofia, confusa.
"Eu tirei", respondi, sem tirar os olhos do livro que estava lendo.
"Tirou por quê? A gente pode colocar de volta", disse Camila, já se aproximando da parede.
"Eu joguei fora", falei, com a mesma calma.
As duas pararam e me encararam. A confusão em seus rostos se transformou em choque.
"Você o quê?", Sofia gaguejou. "João Vítor, você tá maluco? Por que você faria isso?"
"Porque eu não as queria mais ali", respondi, virando uma página do livro. Eu agia com uma tranquilidade que era pura fachada, por dentro, meu coração batia descontrolado.
"Isso é por causa da festa, não é?", Camila cruzou os braços, já assumindo um tom de acusação. "Você ainda está com raiva por causa daquela bobagem do terno. A gente já pediu desculpas."
"Vocês não pediram desculpas", corrigi, finalmente olhando para elas. Meu olhar era frio, distante. "Vocês me chamaram de mesquinho e defenderam o Gabriel."
"Ah, pelo amor de Deus, João! Supera!", disse Sofia, impaciente. "Foi só um mal-entendido. O Gabriel se sentiu super mal com a sua reação."
Eu ri, um som sem alegria. "Tenho certeza que sim."
Elas se entreolharam, claramente sem entender a profundidade da minha decisão. Para elas, era só mais um dos meus "dramas". Elas achavam que em alguns dias eu esqueceria e tudo voltaria ao normal. Elas não podiam estar mais enganadas.
"Olha, o Gabriel está organizando uma noite de jogos na casa dele hoje", disse Camila, mudando de assunto, como se isso fosse resolver tudo. "Ele te convidou. Vamos, vai ser legal."
"Não, obrigado", recusei prontamente.
"Ah, qual é, João! Não seja infantil", insistiu Sofia. "É uma chance de vocês se resolverem. O Gabriel gosta muito de você."
A simples menção do nome dele me causava náuseas. Eu podia ver claramente a manipulação, o jeito como ele as usava para me alcançar, para me manter no círculo delas, sob o controle delas.
"Eu não vou", repeti, firme. "Tenho mais o que fazer."
Elas bufaram, irritadas com a minha teimosia. "Tudo bem, você que sabe", disse Camila, pegando a bolsa. "Mas você está perdendo a chance de se divertir. O Gabriel comprou até aquele queijo fedorento que você gosta."
A ironia era quase cômica. O queijo que eu gostava, mas que Sofia e Camila odiavam e sempre reclamavam do cheiro. Agora, por causa de Gabriel, o queijo era bem-vindo.
Elas saíram, batendo a porta. Fiquei sozinho no silêncio da sala, olhando para a parede nua. Minutos depois, meu celular vibrou. Era um e-mail. Abri e li o título: "USP - Confirmação de Matrícula". Um sorriso genuíno, o primeiro em semanas, apareceu no meu rosto. Era real. Minha nova vida estava começando.
No final de semana, elas voltaram. Insistiram que eu fosse com elas a uma festa na casa de um colega. Disseram que "todo mundo" ia. Eu sabia que era uma desculpa, que Gabriel estaria lá e que elas tentariam forçar uma reconciliação. Recusei várias vezes, mas elas não desistiram, chegaram a ponto de falar com a minha mãe, que, sem saber de toda a história, me incentivou a ir para "não ficar tão isolado".
Cansado de lutar, eu cedi. Fui para a festa, mas me arrependi no instante em que cheguei. A música era alta demais, o lugar estava lotado, e a primeira pessoa que vi foi Gabriel, no centro de uma roda, contando uma piada e fazendo Sofia e Camila rirem como se ele fosse a pessoa mais engraçada do mundo.
Tentei ficar num canto, quieto, mas elas me arrastaram para perto do grupo. O cheiro forte de cigarro misturado com perfume doce me deixou enjoado. Eu era alérgico à fumaça, e elas sabiam disso. Mas Gabriel estava fumando, então, aparentemente, minha alergia não importava mais. Comecei a tossir, meus olhos lacrimejando.
"Você está bem, João?", perguntou Sofia, mas sem muita preocupação, seus olhos já voltando para Gabriel.
"É a fumaça", consegui dizer entre as tosses.
"Ah, é só um cigarro", disse Camila, dando de ombros. "Não seja fresco. Vem, vamos pegar uma bebida."
Ela me puxou pelo braço, mas eu me soltei. Olhei para elas, para o novo centro do universo delas, e senti uma náusea que não tinha nada a ver com o cigarro. Era o sentimento de ser completamente e totalmente descartado.