Meu namorado de infância me disse que iríamos juntos para a faculdade em Minas Gerais. A Universidade de São Paulo, meu sonho e minha bolsa de estudos, seria deixada para trás. "Estaremos juntos lá", ele prometeu, com aquele sorriso charmoso que eu tanto conhecia.
Mas a mentira desabou quando vi uma foto: Bruna Costa, a garota mais popular da escola, comemorando com ele a matrícula na USP, onde ele seria calouro de Engenharia. Meu sangue gelou. Ele havia orquestrado a recusa da minha própria bolsa na USP, usando minhas senhas e agindo pelas minhas costas.
A verdade se tornou um abismo frio na festa de aniversário de Bruna, quando Lucas, sob os holofotes, pediu Bruna em casamento, diante de todos. Senti-me uma peça em seu jogo, humilhada e reduzida a uma "sombra", um "projeto de caridade". Ser jogada fora como um lixo, depois de ter meu futuro roubado, era a dor que agora me consumia.
Para selar minha humilhação, Bruna "acidentalmente" derramou vinho tinto em meu vestido, e Lucas, com uma fúria desproporcional, me acusou de estragar a noite dela. Fui arrastada para um depósito escuro e frio, trancada como um animal, ouvindo-o gritar que eu era egoísta e ingrata.
A dívida de "gratidão" que eu sentia por ele e sua família, por ele ter sido meu protetor na infância, desmoronou. Percebi que ele me usava como um fardo, não como uma amiga.
Quando ele me ordenou que preparasse café para Bruna e uísque para ele, eu o fiz. Mas, a "doçura" venenosa de Bruna, dizendo que eu era apenas "útil" e um "cachorrinho leal", quebrou algo em mim. Com um sorriso calmo, virei o café quente sobre a cabeça dela. "Cuidado com as pontes que você queima", eu disse a Lucas, "você pode precisar delas para voltar." Enquanto saía, senti o gosto amargo da vingança. Mas o inferno estava apenas começando. Sua vingança estava longe de terminar, e ele estava apenas começando a usá-la contra mim.
Mas a liberdade tinha um gosto amargo de café de baunilha e cheiro de vingança. O inferno, para mim, estava apenas começando, mas para ele, estaria ainda por vir.
"Sofia, eu já decidi por nós," disse Lucas Silva, com aquele sorriso charmoso que eu conhecia desde a infância.
Ele estava sentado na minha cama, no meu quarto pequeno e abarrotado de livros, folheando distraidamente um dos meus manuais de direito. O sol da tarde entrava pela janela, iluminando a poeira que dançava no ar e o brilho nos seus cabelos castanhos.
"Nós dois vamos para a Universidade Federal de Minas Gerais. É uma boa universidade, e o mais importante é que estaremos juntos. Já imaginei tudo, vamos alugar um apartamento perto do campus."
Senti uma pontada de hesitação.
"Mas Lucas, e a USP? A bolsa de estudos... eu me esforcei tanto por ela."
A Universidade de São Paulo era o meu sonho, a melhor faculdade de direito do país, e a bolsa integral era a minha única chance de frequentá-la. Minha mãe, Dona Clara, uma costureira que trabalhava dia e noite, não teria como pagar por uma universidade daquele calibre.
Lucas fechou o livro com um baque suave e pegou minha mão. Seu toque era quente e familiar, mas algo em seu olhar parecia diferente.
"Sofi, sejamos realistas. A vida em São Paulo é cara, mesmo com a bolsa. E você ficaria sozinha. Em Minas, estaremos juntos, eu posso te ajudar. Meus pais concordaram. Pense nisso, será o nosso futuro."
Seu tom era tão convincente, tão cheio de uma certeza que me desarmava. Talvez ele estivesse certo. Talvez a solidão em uma cidade gigante fosse um preço alto demais a pagar por um sonho.
Naquela noite, depois que Lucas foi embora, uma inquietação me manteve acordada. Abri meu notebook, sem um propósito claro, e comecei a navegar em uma rede social popular entre os estudantes. Foi então que eu vi. Uma foto postada por um amigo em comum. Era uma festa de comemoração. No centro da imagem, sorrindo e abraçada a um grupo de pessoas, estava Bruna Costa, a garota mais popular da nossa escola. A legenda dizia: "Parabéns, Bruna! Futura advogada da USP! Comemorando com a galera e o futuro calouro de Engenharia, Lucas Silva!"
Meu sangue gelou.
Lucas Silva. Futuro calouro da USP.
Li a frase de novo e de novo. A tela do notebook brilhava na escuridão do meu quarto, e as palavras pareciam queimar meus olhos. Não podia ser. Era um engano, um erro de digitação. Lucas tinha acabado de me dizer, com toda a convicção do mundo, que iria para Minas Gerais. Comigo.
No dia seguinte, encontrei Lucas perto da escola. Tentei manter a voz casual, um desafio quase impossível com o coração batendo descontrolado no peito.
"Ei, Lucas. Eu estava pensando... você tem certeza sobre Minas? Ouvi dizer que o curso de Engenharia da USP é incrível este ano."
A mudança em sua expressão foi instantânea. O sorriso desapareceu, substituído por uma carranca de irritação.
"Por que você está falando sobre isso agora, Sofia? Já não tínhamos decidido?"
Sua voz era ríspida, defensiva.
"Foi só um comentário," eu disse, recuando. "Não precisa ficar bravo."
"Eu não estou bravo," ele retrucou, o que era uma mentira óbvia. "Só estou cansado dessa sua indecisão. Eu estou tentando construir um futuro para nós e você fica questionando tudo. Esqueça a USP, ok? A nossa vida vai ser em outro lugar."
A forma como ele disse "nossa vida" soou oca, falsa. A suspeita dentro de mim se transformou em uma certeza dolorosa.
Ele não esperou por uma resposta. Percebendo que eu ainda estava paralisada pela dúvida, ele agiu com uma velocidade assustadora. Ele pegou meu notebook da minha mochila, abriu-o sobre um banco de praça e seus dedos voaram pelo teclado.
"O que você está fazendo?" perguntei, a voz trêmula.
"Estou te ajudando a parar de pensar demais," ele disse, sem me olhar. "O prazo para recusar a bolsa da USP e confirmar a matrícula em outra instituição termina hoje. Estou resolvendo isso para você."
Eu assisti, paralisada, enquanto ele navegava pelas páginas dos portais universitários. Ele digitou meu CPF, minha senha – ele sabia todas as minhas senhas – e com alguns cliques, um aviso apareceu na tela: "Sua bolsa de estudos para a Universidade de São Paulo foi oficialmente recusada."
Um sentimento de impotência me invadiu. Era como assistir a um ladrão roubar meu futuro bem na minha frente.
"Pronto," ele disse, fechando o notebook e o colocando de volta na minha mochila com uma satisfação perturbadora. "Agora está decidido. Sem mais dúvidas."
Ele me deu um beijo rápido na bochecha e se levantou.
"Preciso ir. Tenho que encontrar a Bruna para ajudá-la com umas coisas da matrícula dela. Nos falamos mais tarde."
Bruna. O nome saiu de seus lábios com uma naturalidade que me causou náuseas. Ele se virou e foi embora, me deixando sozinha no banco da praça, com o peso de uma decisão que não era minha esmagando meus ombros. Minutos depois, meu celular vibrou. Era uma notificação da mesma rede social. Um novo post, desta vez da própria Bruna Costa. Era uma foto dela e de Lucas, sorrindo, em frente a um prédio com o logotipo da USP. A legenda era: "Oficialmente matriculados! São Paulo, aqui vamos nós! Obrigada ao melhor namorado do mundo por tornar tudo isso possível!"
Namorado.
A palavra ecoou na minha cabeça. Ele não estava apenas mentindo sobre a universidade. Ele estava mentindo sobre tudo.
Com as mãos tremendo, disquei o número de Dona Isabel, a mãe de Lucas. Ela e minha mãe eram amigas há anos.
"Alô, Sofia, querida! Como você está?" a voz dela era sempre calorosa.
"Dona Isabel, estou bem. Só uma dúvida rápida... a senhora sabe para qual universidade o Lucas decidiu ir?"
Houve uma pausa do outro lado da linha.
"Ué, querida, ele não te contou? Ele está tão feliz! Conseguiu entrar em Engenharia na USP, assim como a namorada dele, a Bruna. Vão juntos para São Paulo. Não é maravilhoso?"
Maravilhoso.
Desliguei o telefone. A verdade era um abismo escuro e frio se abrindo aos meus pés. O amigo que eu amava, o futuro que ele havia pintado para mim, tudo era uma farsa. E eu, a tola ingênua, havia acabado de entregar meu sonho nas mãos do meu próprio carrasco.
A percepção de ser uma peça em um jogo maior não me trouxe desespero. Pelo contrário. Trouxe uma raiva fria e cortante. Se eu era uma personagem em uma história, então a história ainda não havia terminado. E talvez, apenas talvez, a personagem secundária pudesse aprender a reescrever seu próprio roteiro.
Essa percepção não veio como uma voz ou uma visão, mas como um conhecimento intrínseco, uma súbita compreensão da estrutura da minha própria realidade. E com essa compreensão, as memórias começaram a se encaixar, formando um mosaico de enganos que eu havia ignorado por muito tempo.
Lembrei-me perfeitamente do dia em que Lucas conheceu Bruna. Foi no início do ano letivo. Bruna havia se transferido para a nossa escola. Depois da aula, Lucas veio até mim, revirando os olhos.
"Você viu a aluna nova? Bruna Costa," ele disse com desdém. "Ela não parou de me olhar durante a aula de química. Que garota irritante. Tenta demais ser o centro das atenções."
Na época, eu apenas concordei, sentindo uma pontinha de satisfação por ele compartilhar sua irritação comigo. Eu via Bruna da mesma forma: bonita, barulhenta e desesperada por popularidade.
Mas Bruna era persistente. Ela começou a aparecer em todos os lugares onde Lucas estava. Se ele ia para a biblioteca, ela estava "coincidentemente" estudando na mesa ao lado. Se ele ia treinar futebol, ela estava na arquibancada com uma garrafa de água "extra" para ele.
"Lucas, você é incrível! O melhor jogador do time," ela dizia com uma admiração que beirava a adoração.
"Lucas, essa matéria é tão difícil, você poderia me explicar?" ela pedia, mesmo sabendo que a especialidade dele era exatas, e não a matéria em questão.
Lucas continuava a reclamar dela para mim, em nossos momentos a sós.
"Essa garota não me deixa em paz," ele suspirava, mas eu comecei a notar uma mudança sutil. A irritação em sua voz parecia menos genuína, quase performática.
E então, vieram os pequenos sinais que eu escolhi não ver. Um dia, eu estava esperando por ele na saída da escola. Ele estava conversando com Bruna. De longe, eu o vi rir de algo que ela disse, um riso genuíno e aberto. Mas quando ele me viu, seu rosto se fechou. Ele se despediu dela apressadamente e veio até mim, com a expressão entediada de sempre.
"Vamos, Sofi. A Bruna estava me enchendo o saco de novo."
Mas eu tinha visto. Eu tinha visto o sorriso.
Houve outras vezes. Ele me dizia que ia para casa estudar, mas depois eu via fotos dele com o grupo de amigos de Bruna. Ele me dizia que o celular estava sem bateria, mas Bruna me contava no dia seguinte sobre a longa ligação que tiveram na noite anterior.
Agora, na quietude do meu quarto, essas memórias me assaltavam com uma clareza brutal. Eu não era apenas cega; eu era cúmplice da minha própria enganação. Eu queria tanto acreditar na nossa amizade, na nossa história, que ignorei todas as evidências em contrário. Ele me mantinha por perto como uma rede de segurança, uma presença constante e leal que massageava seu ego, enquanto seu coração e seus planos já estavam em outro lugar.
O plano dele era diabólico em sua simplicidade. Ele precisava de mim fora do caminho. Minha presença na USP, independente e bem-sucedida, seria uma complicação. Seria um lembrete de uma lealdade que ele havia descartado. Então, ele criou uma fantasia para mim, um futuro falso em Minas Gerais, para me manter dócil e controlada até que fosse tarde demais para eu voltar atrás. E, como a personagem secundária obediente que eu era, eu havia desempenhado meu papel perfeitamente. Até agora.
A percepção de ser uma peça em um jogo maior não me trouxe desespero. Pelo contrário. Trouxe uma raiva fria e cortante. Se eu era uma personagem em uma história, então a história ainda não havia terminado. E talvez, apenas talvez, a personagem secundária pudesse aprender a reescrever seu próprio roteiro.