Lorena
Parecia-me um dia comum de outono: as folhas das árvores caíam silenciosamente, enquanto o vento soprava suavemente carregando-as pelo ar e o sol lhes dava uma coloração avermelhada. Um lindo cenário! Eu estava à janela admirando a bela arte que a natureza compunha e pensando na minha vida.
O tempo parecia passar muito rápido ultimamente. Fazia pouco tempo que eu tinha completado dezessete anos. Em poucos meses terminaria o terceiro ano do Ensino Médio. O que eu queria para a minha vida? O que seria dali em diante? Um vazio enorme me preenchia enquanto eu pensava em um futuro incerto. Por eu gostar de quase todas as matérias, estava tendo dificuldades para escolher um curso universitário.
De repente, um som agudo e estridente quebrou aquele momento de reflexão em que eu estava, me fez perceber que minhas preocupações poderiam ser adiadas e que o presente estava ao meu alcance.
- Lorena, o sinal já tocou! Sai da janela antes que o professor chegue.
Era Beatriz, uma grande amiga minha. Tinha uma pele bem branquinha e cabelos castanhos que desciam em cachos por sobre os ombros. Seus olhos cor de mel revelavam certa preocupação, mas eu sabia que não era comigo. Teríamos prova de matemática naquele dia, e ela tinha dificuldades na matéria.
- Está tudo bem Bia.... Você estudou a matéria, não é? Sei que fará uma boa prova!
- Não tenho tanta certeza disso, amiga.
Olhei para a porta e lá estava o professor com um envelope amarelo na mão. Ele sempre se atrasava alguns minutos quando ia dar aula, mas em dia de prova gostava de ser pontual. Direcionei-me para minha cadeira que ficava na terceira fila em direção a porta, mais na frente.
A turma rapidamente se organizou e logo o professor começou a distribuir as provas. Eram duas páginas de questões, mas as respostas exigiam várias folhas. Não estava difícil, pois, em quarenta minutos terminei minha prova e já estava liberada.
Peguei minha mochila e saí em silêncio da sala, mas antes, olhei de relance para a Beatriz. Ela, assim como a maior parte da turma, parecia tensa, e isso me preocupava.
A sala em que eu estudava ficava no segundo andar. Fui caminhando lentamente pelo corredor enquanto observava o ambiente. Era bonito, tinha colunas arredondadas, e os azulejos nas paredes formavam mosaicos.
Olhei para o lado. Dava para ver bem os jardins dali de cima. Eram gramados, com arbustos bem podados e árvores que pareciam estar lá há bastante tempo. Havia alguns bancos de concreto espalhados pelo pátio, em lugares sombreados e dispostos de forma simétrica. Pensei comigo mesma que arquitetura poderia ser um curso interessante a se fazer.
Quando me virei para prosseguir meu caminho, deparei-me com um homem estranho. Possuía cabelos brancos até os ombros, olhos castanhos e pele clara. Tinha uma barba não muito comprida e a estranheza estava nas roupas que vestia. Sua vestimenta não habitual era uma túnica azul-marinho com as bordas brancas. Usava calças brancas por baixo da túnica e estava descalço. Além disso, havia alguma coisa em sua mão que eu ainda não tinha conseguido identificar.
Eu tinha certeza de que não havia ninguém no corredor e, de repente, lá estava ele! Fiquei pasma... ele aparecera como num piscar de olhos. Várias perguntas me vieram à mente: Quem era? De onde surgira? Como chegara ali sem que eu percebesse?
Ele me encarava de uma forma estranha e percebi uma pontada de medo surgindo dentro de mim. Resolvi me esquivar e continuar meu caminho sem dizer nada. Quando fui passar por ele, senti um aperto no meu braço que me impediu de prosseguir. Ele o tinha agarrado e começado a pronunciar palavras estranhas.
Tentei me soltar, mas não consegui. Ele segurava meu braço com muita força. Pedi educadamente para que me soltasse, mas ele não o fez. Meu medo foi só aumentando, mas, eu não estava sozinha, então estava claro o que eu tinha que fazer: comecei a gritar por ajuda. Esperava que algum professor, aluno ou funcionário viesse me ajudar.
Comecei a gritar cada vez mais alto para que alguém viesse me socorrer, mas nada aconteceu. Eu conseguia ouvir as vozes dos alunos na sala ao lado e o professor chamando a atenção deles. Por que ninguém abria a porta para ver o porquê de eu estar gritando? Será que não tinham me ouvido? Decidi gritar mais alto, enquanto lágrimas começaram a escorrer pelos meus olhos. Olhei de novo para aquele senhor que me segurava e tentei me libertar.
Ele estava concentrado, olhava fixamente para a frente e voltou a pronunciar palavras que eu não entendia. Comecei a bater nele com minha mão que estava livre. Tentei chutá-lo também, mas tudo parecia inútil. Ele permanecia imóvel como uma estátua até que, de repente, um brilho estranho surgiu. Comecei a me sentir fraca e então percebi, finalmente, o objeto que ele carregava na mão: uma pedra esverdeada incrustada em um círculo prateado.
Virei-me para ver o brilho. Era tingido de muitas cores: vermelho, laranja, azul, preto, branco e estava aumentando. Meu coração disparou mais uma vez, mas dessa vez não era só medo. Uma estranha curiosidade começou a me dominar.
A luz foi aumentando e começou a nos envolver. Minha cabeça começou a girar, e eu já não conseguia ficar de olhos abertos. Por alguns segundos, o chão no qual eu pisava parecia não existir, e tive a sensação de que estávamos flutuando. Talvez eu estivesse sonhando.... Sim eu estava sonhando! É a única coisa que podia explicar aquilo.
Uma pressão começou a surgir à minha volta e, em algum momento, meu braço foi solto e eu caí. Havia novamente um chão onde tocar, um aroma estranho no ambiente e a gravidade parecia pesar menos.
Alguma coisa estava muito errada! Eu não queria abrir meus olhos, não queria ver o que estava acontecendo. Um medo muito grande tomou conta de mim ao perceber que tudo ao redor era real, bem como o chão rugoso que minhas mãos tocavam. Comecei a ouvir vozes, mas não pude compreendê-las.
Alguma coisa me tocou nos ombros. Abri meus olhos e me vi numa sala pequena e escura. Reuni coragem para me sentar e olhar para os lados. Havia quatro homens. O que eu tinha visto na escola estava de pé ao lado do homem que me tocava nos ombros, sendo que este estava agachado perto de mim. Era alto, tinha cabelo preto e liso, usava várias joias finas e me olhava de forma que eu não conseguia compreender. Era um olhar sereno, tranquilo, tomado de emoção e ternura. Estava conversando com o velho estranho que me levara até lá.
O chão da sala parecia ser feito de uma pedra semelhante ao mármore. Havia poucas coisas no cômodo, uma mesa no canto esquerdo com um candelabro em cima, e um tapete azul escuro com três formas circulares brancas, que estava pregado na parede, como se fosse um brasão. À direita, havia uma tábua com tecidos por cima que me parecia mais uma cama improvisada.
Não havia janelas, e a única porta se encontrava do lado oposto ao brasão, por cima de uma escada onde os outros dois homens se encontravam. Eles estavam de pé, vestindo roupas semelhantes às do homem que me trouxe até esse lugar. Procurei por sinais de perigo, tentando discernir suas intenções, mas nenhum deles parecia estar armado.
O que eu estava fazendo naquele lugar? Por que eu estava ali? O medo era tão grande que me paralisava, impedindo-me de falar ou agir. Eu não sabia o que aqueles homens queriam nem do que eram capazes. Como fui me meter nessa situação? Cheguei a um lugar desconhecido, de forma misteriosa e cercada por estranhos. Será que as coisas poderiam ficar ainda mais insanas?
Minha cabeça começou a girar diante de tantos pensamentos. Comecei a me sentir sufocada e me deitei novamente, encostando minha testa no chão. Eles continuavam conversando entre si, falando palavras em uma língua que eu não compreendia. Quando achei que não poderia piorar, pegaram minha mochila e a jogaram de lado.
- Parem, por favor! - implorei, a voz sufocada pela angústia, enquanto tentava reunir forças para me levantar e correr ao perceber um movimento suspeito.
Tentei ficar de pé, mas cambaleei para trás, atordoada, e caí novamente. Desesperada, tudo o que consegui fazer foi rastejar para trás, tentando fugir do que acreditava ser o líder. De repente, senti minhas mãos e pés sendo amarrados juntos.
Não havia visto cordas no cômodo, então com o que eu tinha sido amarrada? Eu não sabia dizer. Tudo o que pude fazer foi fechar os olhos e implorar para que esse pesadelo acabasse. Senti alguém me pegar nos braços e, quando dei por mim, estava deitada na cama improvisada.
Reabri meus olhos, forçando-me a permanecer alerta. O homem que antes me olhara de forma terna agora me encarava com um olhar sério. Ele começou a falar alto com o velho que me havia trazido até ali, como se estivesse dando ordens, e seu tom de voz era de irritação. O velho respondeu passivamente, como se estivesse argumentando. Quando suspirou, percebi que havia perdido a discussão. Em seguida, ele fechou os punhos em minha direção e, ao abrir a mão, uma estranha energia veio em minha direção. Senti um impacto que me deixou ainda mais atordoada. Meu corpo começou a doer e minhas mãos ficaram geladas.
Eu não sabia o que estava acontecendo, mas era desesperador. O que eu poderia fazer para me livrar dessa situação? Como poderia fugir? Por mais que eu pensasse, não conseguia encontrar respostas.
Assim que a dor começou a diminuir, senti outro impacto, desta vez mais forte. Minha cabeça doía, meu abdômen latejava, e meus pés e mãos se debatiam, tentando se libertar como se isso pudesse conter a dor. Comecei a gritar, era a única forma que eu via para tentar amenizar o que estava sentindo, mas foi em vão.
Novamente uma energia me pegou, só que dessa vez era diferente, o oposto da de antes. Senti minhas forças se esvaindo de mim. Eu estava cansada e ainda sentia dor. Tudo estava ficando escuro, cada vez mais escuro, até que não senti mais nada.
Zuldrax
Meu nome é Zuldrax, também conhecido como Zuldrax, o Temerário. Sou o atual rei de Zafis e sou temido por muitos, pois herdei de meus pais todo o potencial real de um zafisiano. Não sabia quanto tempo levaria, mas certamente eu venceria Alister, rei de Halis, na guerra que estamos destinados a lutar. O ódio entre os reinos de Zafis e Halis já existia há séculos, e eu não permitiria que a vida de tantos guerreiros tivesse sido perdida em vão.
Após o último ataque, há cerca de um mês, algo aconteceu que deixou Alister atordoado. Parecia que ele tinha encontrado algo importante, tão importante que recuou suas tropas e voltou para Henir, a cidade central de Halis. Pensei que talvez fosse o momento oportuno para invadir, no entanto, minhas tropas estavam cansadas e as fronteiras de Halis possuíam uma magia especial de dispersão.
Somos muito mais fortes e hábeis que os halisianos. Possuímos um tipo de energia especial que aumenta nosso potencial em combate corpo a corpo; no entanto, eles têm uma aura mágica, algo com que poderíamos lidar facilmente, desde que estivéssemos preparados.
Decidi também recuar minhas tropas para que pudessem descansar e recuperar suas forças. Momentos de trégua ocorriam com certa frequência, e sua duração podia variar de semanas a meses, ou até se estender por anos, dependendo da situação. Eu precisava revisar minhas estratégias e, principalmente, descobrir o que Alister estava tramando.
Ao final do dia, recolhi-me em meus aposentos e, com uma dióxy de comunicação, entrei em contato com meu espião chamado Haigar, guarda real de Alister e de inteira confiança dele. Ele só aceitou se submeter às minhas ordens para que eu poupasse a vida de seu filho, que mantinha cativo numa prisão em Zaríon, cidade central de Zafis.
A função para a qual eu o designara era simplesmente carregar uma dióxy especial que me permitia ver através de seus olhos e ouvir através de seus ouvidos, pois suas funções sensoriais se refletiam no meu dióxy espelho.
Dióxys são pedras raras capazes de canalizar nossa energia e reverter para um efeito específico. Dióxys normalmente são únicas, não sendo encontradas duas pedras de igual efeito. Para acionar uma dióxy é necessário estar em contato físico direto.
Vislumbrei Alister numa sala de reuniões. Ele estava com três de seus mais fortes guerreiros, magos de muito talento e, para minha surpresa, Hiratamino estava ali. Hiratamino é o mago mais velho no reino de Halis e serviu ao rei Helgon e à rainha Rainessya, pais de Alister.
Após a morte deles e da recém-nascida princesa Lenissya, Hiratamino abdicou do papel de mago real, pois fracassara ao proteger seus reis. Alister, como único sobrevivente da família real, herdou o trono e se tornou meu maior inimigo. O que estaria Hiratamino fazendo ali? Eu estava prestes a descobrir.
- Acha que é possível, Hiratamino? - questionou Alister, entregando-lhe uma dióxy e aguardando ansiosamente sua resposta. - Consegue sentir, certo?
- Impressionante! Sua energia vital permanece intacta. Não há dúvidas, ela está realmente viva!
Alister arregalou os olhos e não se conteve. Lágrimas começaram a cair, mas havia um sorriso em seus lábios que me irritava profundamente. Quem estava viva, afinal?
- Como é possível? Sua aura vital havia se dissipado. Não havia indícios de que ela pudesse ter sobrevivido - disse Hiratamino. Seu rosto de espanto foi, aos poucos, sendo substituído por um olhar de esperança e um sorriso de comoção que me deixou enojado.
- Todos nós acreditávamos nisso, mas essa dióxy localizadora é a prova de que Lenissya está viva, embora não esteja perto de nós. Agora entendo o que pode ter acontecido. Minha mãe, na tentativa de proteger a pequena Lenissya das mãos de Zadthos, utilizou uma magia de transporte dimensional, levando-a a um mundo onde ela pudesse ficar segura.
- Isso é realmente incrível! E depois de tantos anos - disse Hiratamino, deixando-se cair para trás, apoiando as costas no encosto da poltrona. - Entendo.
- Agora que sei que minha irmã está viva, não descansarei até tê-la conosco novamente.
- Se ela tiver herdado a mesma energia de sua mãe, será de grande ajuda nesta guerra. Rainessya era um prodígio, mas estava enfraquecida após o parto, e eu falhei no momento em que elas mais precisavam.
- Não se culpe mais por isso, Hiratamino. Também carrego a culpa de ter deixado Zadthos passar pelo nosso exército. Não tínhamos como prever. Vamos nos focar no futuro.
- Majestade, como bem disse Hiratamino, Rainessya era um prodígio. A magia que ela deve ter usado para levar Lenissya para outro mundo deve ser de alto nível, e talvez nenhum de nós consiga conjurá-la. Como faremos essa proeza? - perguntou o sábio Ikzar, quebrando o clima de euforia. Muito bem, Ikzar... muito bem!
- Já pensei nessa possibilidade, mas creio que deve haver alguma maneira. Hiratamino, eu convoquei você até aqui porque preciso de sua experiência. Sei que não quer mais usar magia, mas preciso do seu auxílio.
- Vossa Majestade, será uma honra servi-lo nessa importante missão. Farei o possível para trazer a princesa de volta. Sei que não posso apagar meus erros, mas trazê-la de volta ao seu lar em segurança será minha remissão perante ti.
- Conto com você! - disse Alister, virando-se para seus subordinados. - Este segredo fica entre nós. Não vamos dar esperança ao nosso povo sem ter certeza de que nossa missão dará certo. E se isso chegar aos ouvidos de Zuldrax, Lenissya correrá perigo. Então, eu lhes peço, que o que foi dito nesta sala permaneça nesta sala.
Alister se retirou em silêncio. Aquele idiota nem desconfiava que eu já sabia de tudo. Demorei alguns minutos para processar o que ouvira. Não conhecia Lenissya, não sabia do que era capaz, mas meu ódio por ela já começava a se manifestar. Ela pertencia à família real de Halis e, portanto, precisava ser eliminada, pois era uma ameaça.
Passei noites mal dormidas depois disso. Precisava de uma estratégia. Pensei em matar Hiratamino, mas aquele velho já não duraria muito mesmo, e para isso eu teria que me arriscar bastante e invadir Henir, o que era quase impossível.
Guerrear nas fronteiras é fácil, mas invadir a área central de Halis seria muito trabalhoso e, com certeza, traria muitas mortes. Meu pai morreu realizando essa façanha, e as dores geradas pelas perdas naquela época foram enormes.
Uma coisa entrava em conflito com meu anseio de atrapalhar o plano de resgate: minha vontade de matá-la. Eu sabia que, se a missão fracassasse, Lenissya continuaria viva e eu jamais conseguiria acabar com a família real. O que eu tinha que fazer, então, era esperar que eles a trouxessem para que eu pudesse agir.
Passaram-se alguns dias e nenhum de nós iniciou um novo ataque. Tanto meu reino quanto o deles possuíam uma vigília poderosa e artimanhas que impediam que inimigos invadissem o território um do outro.
Quanto àquela missão estúpida, o velho Hiratamino andava com frequência na biblioteca real da cidade central de Halis, chamada Henir, procurando algo na literatura que o auxiliasse nessa questão de passagem dimensional.
Ver aqueles tolos se esforçando me divertia. Eu faria daquela missão um curto sonho, seguido de um pesadelo infinito. Alister parecia ansioso, preocupado com o possível ataque que eu poderia realizar naquele instante, mas seu foco ainda era sua irmãzinha Lenissya.
Para preocupá-lo ainda mais, espalhei o boato de que estava armando meu exército e que iniciaria um novo ataque em breve. Mal sabia ele que eu não tinha a menor intenção de fazer isso. Me divertia atormentando-o.
Parte dos meus homens descansava em casa com suas famílias, enquanto outros vigiavam perto de nossa cidade central, Zaríon, e das fronteiras, revezando-se entre si. Embora eu quisesse ferozmente vencer essa guerra, meu povo era mais importante. Queria que aproveitassem o tempo com coisas prazerosas e fortalecessem os laços afetivos entre si. Nossa união e ódio contra o povo de Halis os fariam perecer em algum momento. Era só questão de tempo.
Alister decidiu me enviar uma proposta de paz sob o pretexto de que a Noite Negra estava se aproximando e que, em memória das pessoas que morreram naquele dia, deveríamos estender a trégua por um período mais longo. Já se passaram dezesseis anos desde que a Noite Negra ocorreu. Eu tinha apenas oito anos na época, mas me lembro da minha mãe, olhando pela janela do palácio para o horizonte, pálida, com um olhar profundamente entristecido. Acho que sabia, bem no fundo, que seu amado não voltaria mais.
Pensei em recusar o pedido de Alister, afinal, eu sabia muito bem o porquê daquilo, mas preferi não provocá-lo. Era melhor que ele acreditasse que estávamos em trégua temporária para, talvez, pegá-lo desprevenido em algum momento. Bem... esse truque já é velho, mas nunca me cansava dele. Sorri maliciosamente enquanto novas ideias surgiam em minha mente.
Zuldrax
Mais de um mês se passou, e a 'tão importante' missão continuava sem nenhum progresso. Desesperado, Alister convocou sua guarda pessoal para acompanhá-lo em uma jornada. Vislumbrei seu rosto determinado. Aquele reizinho queria ir para Salis, o terceiro grande reino de nosso mundo. Para nós, eles não fediam nem cheiravam. Tratava-se de um povo simples, sem capacidades especiais, cujo intelecto era seu único orgulho. Não queriam guerras e não se metiam nos nossos assuntos.
Desenvolviam-se em busca do progresso e da ciência. Sua neutralidade me deixava enjoado, mas não os odiava e, portanto, não via motivos para caçar briga em seu território. Eles tratavam de forma cortês qualquer um que pisasse em seu reino e, justamente por isso, nem os halisianos nem os zafisianos os visitavam. Não queriam correr o risco de se encontrarem e gerarem tumulto no meio daquela gente.
O fato de Alister estar indo para lá só poderia significar que ele estava realmente desesperado. Isso me alegrava. Em uma das conversas que teve com Haigar, seu "fiel" amigo e meu espião, soube que a biblioteca de Halis continha apenas parte do segredo para a viagem dimensional e Alister acreditava que a biblioteca de Salis possuía a parte chave do feitiço de que precisavam. Resolveram ir ao reino de Salis e implorar ao rei Nicolas que lhes permitisse estudar os livros da biblioteca real de Seradon.
Queria que algo ruim lhes acontecesse pelo caminho, mas, infelizmente, a viagem correu bem. Inicialmente, foram bem recebidos pelo rei Nicolas e sua esposa, Megan, que os convidaram para um jantar. Alister aceitou o convite com uma cortesia exagerada. Com um aperto de mão, disse:
- Será uma honra jantar com Vossa Majestade e sua bela família neste reino tão encantador.
"Hipócrita", pensei. Ele queria agradar o rei Nicolas com palavras doces para ver se conseguiria mais facilmente seu objetivo, e acabou que, mais tarde, conseguiu. No jantar, Nicolas apresentou seu filho Henry. Rolou uma conversa chata, uns risos para lá e para cá, mas logo a coisa ficou séria.
Alister começou a relembrar a história de sua família. Disse que acreditara que sua irmã estava morta e que agora seu maior desejo era revê-la. Todos naquela mesa se emocionaram com a história, e a família real inteira se compadeceu de Alister. Ele obteve, então, a permissão para que Hiratamino estudasse os livros da biblioteca.
O príncipe Henry, em especial, ficou muito interessado nessa história de viagem dimensional e resolveu ajudar. Ele tinha um espírito aventureiro, pelo que pude perceber. Queria ver se realmente era verdade e, caso fosse, conversar com Lenissya para descobrir mais sobre o outro mundo. Alister consentiu, afinal, estava em débito com eles.
Hiratamino ficaria hospedado no castelo real, na cidade de Seradon, até encontrar o que precisava. Alister e seus homens voltaram para Henir, afinal, ele era o rei, e caso se descuidasse, eu não pouparia esforços em trucidá-los.
Passaram-se algumas semanas. Alister caminhava impaciente de um lado ao outro de seu quarto. Haigar estava com ele, tentando acalmá-lo, mas era inútil. Seria outro dia monótono se não fosse pela estranha figura que apareceu ao final do dia no palácio. Era Hiratamino. A seriedade em seu rosto fez com que Alister duvidasse por alguns segundos que havia esperança. No entanto, erguendo um livro grosso, de capa branca, com uma gravura hexagonal na frente, disse:
- Encontrei o feitiço de que precisávamos.
Alister não se conteve de alegria e disparou sua energia em forma de um feitiço luminus, iluminando a sala central do palácio com a cor que representava o reino de Halis: o azul. Ele estava empolgado, mas o velho Hiratamino interrompeu sua alegria, dizendo:
- Não será fácil trazê-la de volta, talvez seja impossível. O feitiço que precisamos está entre os mais complexos de Nível 4.
Quem diria que seria assim? Talvez Lenissya realmente não pudesse retornar. Acho que fiz a mesma cara que Alister e seus subordinados naquele momento. Estive perdendo tempo acompanhando essa missão estúpida, quando havia tantas outras coisas importantes a fazer. Talvez houvesse outra maneira de chegar a Lenissya para matá-la...
Nível 4 é um nível máximo de domínio da energia aura. Eu possuía esse nível à maneira zafisiana, mas Alister não passava do nível 3. Mesmo sendo da família real, ele não herdara o grande potencial da energia halisiana. Hiratamino, com muitos anos de experiência e treino, a muito custo chegou à força máxima do nível 3, o mesmo potencial de Alister.
Grande parte da população era apenas nível 1, os guardas em geral possuíam nível 2, e alguns poucos magos mais treinados conseguiam feitiços simples de nível 3. Quando a maior parte da esperança deles se esvaiu, Hiratamino se ajoelhou perante o rei e disse:
- Mas se me deres tempo e me permitires, treinarei, me fortalecerei, e, se necessário, morrerei tentando trazer Lenissya de volta.
Alister respondeu:
- Sabes o que me pedes? Jamais o sentenciaria a tal destino!
- Não há outra escolha e Vossa Majestade sabe disso.
O rei abaixou a cabeça e ficou pensando por uns instantes. Em seguida, ergueu seu olhar e, encarando seu amigo de forma convicta, disse:
- Me fortalecerei contigo e somaremos forças nessa tarefa.
Sem querer contrariar o rei, Hiratamino consentiu. Treinaram arduamente nos meses que se seguiram, tentando concentrar e liberar a energia de forma específica e aprendendo formas de sincronizá-las entre si. Resolvi treinar um pouco também, pois de forma alguma queria perder para Alister. Eu gostava de passar as horas livres aprimorando minhas habilidades com armas.
Nas últimas guerras, utilizei com mais frequência uma adaga, mas minha arma predileta é, e sempre será, a espada. Concentrando minha energia na arma, eu conseguia reverter feitiços, desmanchá-los, aumentar o alcance do corte, dentre outras técnicas. Mas um treinamento desse tipo era desnecessário. Eu já era bom demais nisso. Quis tentar algo diferente.
No acervo do meu palácio, há uma dióxy de reversão que todos consideram inútil. Ela reverte nossa energia, que normalmente circula no sentido horário, para o sentido anti-horário, mudando sua forma e dificultando sua identificação. Era quase impossível controlá-la, o que inviabilizava sua utilização. Resolvi que treinaria com ela, um desafio um tanto interessante e que, quem sabe, poderia ser útil algum dia.
Essa dióxy foi colocada em um bracelete para que fosse mais fácil transportá-la sem tocá-la diretamente. Nas primeiras vezes que usei o bracelete, quase desmaiei. O impacto de ter a energia revertida de repente gerava um imenso estresse no corpo. Aos poucos, fui me habituando, e em poucos dias não sentia mais o impacto negativo da dióxy.
O tempo foi passando e meu treino com a dióxy de reversão teve grandes avanços; porém, o de Alister teve progressos ainda maiores. Após pouco mais de um ano de treinamento de controle e sincronia, Alister decidiu abrir o portal. Sabendo que uma grande quantidade de energia seria drenada e que a sincronia da energia dele com a de Hiratamino deveria ser perfeita, planejaram antecipadamente e cuidadosamente a forma como iriam proceder.
Essa tarefa continuava desconhecida para o povo de Halis. Embora muitos empregados no palácio tivessem achado estranha a viagem deles a Salis, suas reuniões secretas e todo esse treino rigoroso, não desconfiaram nem um pouco do que estava por acontecer.
Alister, Hiratamino, Haigar e Ikzar se dirigiram a uma sala secreta no palácio, localizada abaixo do trono da sala de reuniões extraoficiais. Lá, colocaram suas capas sobre um banco largo feito de tábuas de carvalho ancestral e iniciaram seu plano.
Alister começou a magia, concentrando todo seu esforço para a invocação de um portal por onde Hiratamino passaria. Logo, seu olhar baixou, cansado, pois a magia lhe exigia muito. Hiratamino teve que ajudar, pois Alister não conseguiria abrir o portal sozinho. Sincronizaram suas energias até que uma luz policromada apareceu diante deles, para onde Hiratamino prontamente se dirigiu, segurando a dióxy localizadora. Essa dióxy o guiaria exatamente para onde a energia de Lenissya estava.
Logo, o velho desapareceu do nosso mundo para o desconhecido. Se tudo corresse conforme o planejado, ele pegaria a princesa, invocaria um novo portal utilizando o restante de sua energia e voltaria de imediato. Aquele mundo poderia ter muitos perigos, e talvez ele sequer conseguisse chegar lá. Aguardamos.
Passados sete minutos de intensa ansiedade, uma nova luz surgiu naquele cômodo, semelhante à do portal que Alister abrira, só que desta vez vinha do exterior. Sim, eles estavam voltando!