Lá estava eu, encarando uma das decisões mais difíceis da minha vida.
Bem ali, na minha frente, estavam as quatro pedras, que possuíam em si o poder dos quatro elementos, das quatro maiores forças da natureza, das quatro partes que compõem todo ser humano, talvez até de todo o ser vivo que existe.
Com essas pedras eu me tornaria praticamente uma deusa, teria poder sobre a vida e a morte, teria toda a sabedoria, força e poder possíveis, me tornaria metaforicamente um dragão e ninguém poderia me impedir de conseguir qualquer coisa que eu quisesse. Ao menos essa era a lenda na qual meu pai acreditava.
Encarei aquelas quatro pedrinhas, que à vista pareciam coisas insignificantes, e estendi minhas mãos. Meu objetivo não era ter todo o poder para mim, eu tinha algo mais nobre em mente, porém não menos egoísta.
Meu coração acelerou de medo e expectativa, e eu hesitei.
Soltei um suspiro e deixei minhas mãos caírem de lado. Encarei o chão e comecei a chorar.
Talvez eu não fosse corajosa o bastante. Talvez, mesmo depois de tanto procurar por aquilo e desejar esse poder, talvez eu não fosse digna.
E se eu não conseguisse? E se não desse certo? E se eu não suportasse? E se meu pai estava enganado e a lenda fosse uma mentira?
Há meses eu só tinha um objetivo e agora que estava prestes a alcançá-lo eu me sentia vazia, imatura e com medo.
Cobri meu rosto com as mãos e solucei. Eu não teria coragem, não ainda...
Tudo começou com uma notícia. Eu já esperava por ela uma hora ou outra, mesmo assim foi difícil recebê-la.
- Alteza... - cumprimentou o capitão com um olhar triste. - O seu pai...
Acenei com a cabeça, sem precisar de mais explicações.
Engoli em seco e respirei fundo.
- O papai morreu? - perguntou minha irmã, que estava ao meu lado.
Capitão Foggi acenou com a cabeça confirmando.
- Sinto muito. - disse ele.
- Mandem os soldados recuarem e montarem acampamento no bosque de outono, e tragam o corpo de meu pai para ser velado. - ordenei - Mandarei preparar o velório.
- É claro Princesa. - ele concordou.
Ao olhar para a minha irmã, sentada em sua cadeira de rodas, meu coração se apertou por ver suas lágrimas.
- Levem-na ao quarto. - eu pedi aos servos - Ela precisa ficar sozinha.
Eles acenaram, mas antes que fossem eu me abaixei e olhei em seus olhos com firmeza.
- Vá para o quarto e chore o quanto for necessário, mas depois lave o seu rosto e se arrume. Quero você apresentável para o velório de nosso pai. Precisamos ser fortes agora. Papai iria querer isso.
- Sim, vossa alteza. - ela concordou sem ânimo.
Eu não gostava quando ela me tratava desse jeito, mas era assim que sempre me chamava quando estava chateada.
Assim que ela se foi eu comecei a preparar tudo. Havia muita coisa a se fazer e eu não tinha tempo para me lamentar.
Eu sabia o que estava por vir e era minha responsabilidade assumir tudo aquilo.
A tarde se passou e ao fim do dia estava tudo pronto.
O corpo de meu pai foi colocado num caixão todo esculpido com detalhes em ouro e com pequenas joias encrustadas. Ele estava bonito, apesar de tudo, porém seu rosto, agora sem vida, já não tinha mais aquela cor de chocolate brilhante de antes, a qual eu havia herdado dele.
Minha irmã se esforçava para não chorar, mas de tempos em tempos eu a via secar o rosto discretamente.
Mantive-me firme, como uma rocha, de pé ao lado direito do caixão, olhando para frente enquanto as pessoas vinham dizer seu adeus e dar os seus pêsames.
Meu pai havia me ensinado a ser forte e a manter a postura sempre. Eu não o envergonharia em sua morte.
Depois do velório nós enterramos o caixão nos jardins do castelo, no cemitério particular da nossa família, ao lado de minha mãe.
Endireitei a postura e mandei convocar o conselho de guerra. Eu era a rainha agora.
...
Cheguei à sala de reunião e esperei em pé, pois não havia tempo para enrolação. Eu precisava terminar o que meu pai havia começado.
- Vou hoje mesmo para o bosque de outono. - falei em voz firme. - Me encontrarei com os soldados lá para terminar o que meu pai começou e, enquanto eu estiver fora, minha irmã cuidará de tudo com a ajuda de meus tios.
- Mas... Vossa Majestade. - chamou o conselheiro real - E a sua coroação?
- Não temos tempo para coroação agora. Estamos no meio de uma guerra. Teremos tempo para coroação depois que tudo isso acabar... Se eu sobreviver.
Nenhum deles gostou muito da ideia, afinal havíamos acabado de perder o meu pai, e seria muito ruim se eu morresse também, mas não havia nada a se fazer. Se algo acontecesse comigo eles poderiam coroar a minha irmã. Eu sabia que ela poderia ser uma boa rainha, mesmo que muitas pessoas a subestimassem por sua deficiência e falta de magia.
Voltei para o meu quarto e me permiti chorar um pouco, antes de começar a me preparar para a viagem.
Assim que coloquei toda aquela tristeza para fora me senti um pouco melhor e até mais determinada, afinal meu pai não havia morrido em vão, eu iria vinga-lo e depois trazê-lo de volta nem que fosse a ultima coisa que eu fizesse.
...
Vesti minha armadura escura, feita sob medida para mim e criada para suportar muita pressão e calor. Era uma armadura leve, se comparada a muitas outras, mas era a minha preferida, pois havia provado o seu valor.
Me despedi de minha irmã chorona e então fui até o terraço.
Precisei de um pouco mais de esforço do que de costume para poder me concentrar, pois minha mente ainda queria se voltar para o luto.
Depois de algum tempo eu finalmente consegui me conectar com Vuur, o meu dragão de fogo. Ele apareceu rasgando o céu com suas asas negras e pousou em minha frente, me encarando nos olhos. Vuur sabia que eu estava triste.
Subi em suas costas e me agarrei em sua pele escamosa e áspera. O calor dele era aconchegante.
Voamos livremente pelo céu em direção ao bosque de outono, onde eu encontraria meus guerreiros e continuaria a missão de meu pai, em busca da Pérola do Mar.
Assim que cheguei ao acampamento comecei a colocar as coisas em ordem.
Mandei fazerem mais armadilhas em volta de todo o lugar e aumentarem as vigias, pois passaríamos a noite ali.
Nossos inimigos, os elfos de gelo, eram mais fortes à noite, por isso precisávamos esperar o amanhecer antes de ir atacá-los, e estávamos próximos demais de seu território para sermos descuidados.
A terra dos elfos ficava à beira do mar, mas não era tão distante do vulcão, onde se encontrava o meu castelo e o reino dos homens.
Eu precisava surpreender os elfos com um ataque forte e direto, acabando com eles de uma vez só e invadindo seu castelo. Era o único jeito de completar a missão de meu pai.
Eu era uma guerreira nata e nasci com a guerra em minhas veias, porém não gostava de derramar sangue em vão. Meu plano era manter o reino dos elfos intacto, desde que eles me entregassem o que eu queria.
O general Ulrick se aproximou de mim e se pôs de joelhos.
- Majestade... - ele cumprimentou - Não a esperava tão cedo.
- E o quê eu tenho a esperar? - perguntei - Se recuarmos agora não conseguiremos vencer.
Ele assentiu e então se levantou.
- Gostaria que eu lhe mostrasse as suas instalações?
Seu braço se estendeu para mim e eu o segurei, seguindo-o até uma enorme barraca no centro do acampamento.
- Aqui está. - ele disse ao estender a mão em direção à barraca.
- Vai entrar comigo? -perguntei.
- Achei que estaria de luto, majestade.
- É exatamente por isso que quero a companhia do meu noivo. - eu respondi pegando-o pela mão.
Ulrick, como sempre, não questionou e apenas me seguiu para dentro, onde eu o agarrei pela nuca e o beijei com desejo.
Não nos víamos desde que aquela batalha havia começado, quando ele viajou junto com meu pai para comandar os soldados. Eu havia sentido a falta dele, mesmo que a nossa relação não fosse a mais romântica e amorosa do mundo, afinal havíamos sido prometidos um ao outro contra nossa própria vontade, quando ainda éramos crianças.
- Tire as roupas. - eu ordenei.
Ele me obedeceu sem hesitar e então eu o empurrei sobre a cama, deixando-o apenas a me observar enquanto eu tirava minha própria armadura, sem nenhuma pressa.
Pouco tempo depois eu estava sobre ele, com nossos corpos unidos mais uma vez, num frenesi descontrolável, seguindo o ritmo do nosso próprio desejo.
Por um momento eu me senti um pouco mais viva e um pouco melhor.
...
Ao nascer do sol nós começamos a nossa marcha em direção a terra dos elfos.
Eu preferia fazer o trajeto montada em meu dragão, mas eu precisava acompanhar o exército de perto, então fui caminhando juntamente com eles.
Aos poucos o ar começou a ficar mais gelado, nos avisando de que estávamos chegando.
Montamos um novo acampamento ali mesmo, nos armamos e nos preparamos.
Quando o sol estava prestes a alcançar seu pico foi quando iniciamos o ataque.
Os soldados inimigos estavam acampados aos arredores do vilarejo e ao nos avistar vieram em nossa direção.
Estávamos todos prontos para a luta, com nossas armas em punho e determinação estampada no rosto, mas então uma onda de flechas veio em nossa direção e eu percebi que havíamos caído em uma armadilha.
Elfos arqueiros estavam escondidos entre as árvores e nos alvejavam, mas eu também tinha uma carta na manga.
Ergui meu escudo para me defender das flechas e me concentrei por um momento. Logo uma grande sombra surgiu sobre nós e eu ergui minha mão.
- Parados! - eu gritei a ordem para o meu exercito.
Nesse momento uma labareda de fogo surgiu, vinda de Vuur, meu amado dragão.
Sorri ao ouvir os gritos de dor dos elfos, enquanto nós sentíamos apenas o calor da distância em que estávamos. Porém meu sorriso aos poucos se desmanchou quando, ao invés de arderem em chamas e se tornarem cinzas, muitos elfos ainda permaneceram intactos, cobertos por uma camada de gelo que parecia, de alguma forma, resistir ao fogo.
Suspirei e então segurei minha espada com mais firmeza.
- Atacaaaar! - gritei com toda a força e corri.
Teríamos que enfrentá-los cara a cara e era exatamente isso o que eu queria.
Nossos exércitos se encontraram, chocando-se uns contra os outros.
Vuur sobrevoava a batalha, mas não lançou mais as suas chamas, seria arriscado demais, pois somente eu era imune ao seu fogo.
Assim que avistei o primeiro elfo de gelo movi minha espada com rapidez e agilidade, cortando fora a sua cabeça antes que pudesse reagir. Outro elfo tentou me atacar do lado esquerdo e eu então usei minha outra mão para lançar sobre ele uma rajada de fogo, usando pela primeira vez a magia que herdei de meu pai.
Mais elfos vieram em minha direção. Havia muitos deles e, ao contrario dos meus soldados, eles possuíam magia de gelo e estavam nos massacrando.
Tínhamos que ser rápidos, pois quando o sol se fosse eu ficaria mais fraca e os elfos mais fortes.
Avancei atacando com a espada e com fogo, tentando matar aqueles malditos elfos, mas eles eram resistentes, rápidos e poderosos. Muitos conseguiam resistir aos meus ataques e me contra-atacavam com gelo, quase conseguindo me acertar.
A batalha estava indo muito mal e eu comecei a cogitar a ideia de recuar, porem minha teimosia me fez prosseguir. Não havia como voltar agora que estávamos ali, no meio de uma batalha intensa. Eu ainda estava viva e continuaria lutando.
De repente, no meio de todo aquele caos, eu percebi algo interessante. Bem mais a frente os soldados elfos formavam um circulo em volta de alguém, um rapaz alto, magro, branco como a neve, de cabelos também brancos, curtos e penteados para trás. Por sua roupa e pelo enfeite em forma de cervo sobre sua cabeça eu soube que ele era da realeza.
O tal príncipe estava de pé ali, com seus olhos fechados, e eu percebi uma áurea emanando dele. Ele estava usando magia para controlar aquela batalha de alguma forma.
Puxei o ar com força e fui em sua direção.
Imediatamente vários elfos se posicionaram em meu caminho, me atacando ferozmente.
- Me deem cobertura! - eu gritei para os soldados mais próximos, que logo vieram para perto de mim e me ajudaram a abrir caminho.
Fui avançando em linha reta, sem tirar os olhos do meu alvo, derrubando um a um os elfos que se colocavam a minha frente.
Faltava apenas mais um, um único elfo me separava do príncipe de gelo.
Com toda a minha força eu o ataquei, jogando uma rajada de fogo em seu rosto e depois o golpeando no peito. Quando este caiu eu voltei meu olhar para o alvo mais uma vez e foi quando ele abriu os olhos.
Por um momento seu olhar encontrou o meu e então tudo parou. O mundo a minha volta parecia não mais se mover, todos estavam como se fossem estatuas e eu não consegui desviar meu olhar daqueles olhos cinzas e brilhantes que mais pareciam duas bolas de gelo. O frio me invadiu por completo e então veio a dor, uma dor tão profunda que me tirou o ar e me fez desejar a morte.
Mil espinhos de gelo pareciam estar me perfurando de dentro para fora e meu coração parecia estar sendo esmagado.
Quis gritar, mas não houve som algum, apenas o desespero mais profundo e esmagador que eu já havia sentido na vida.
Caí de joelhos e então finalmente pude gritar, um som alto e assustador que nem parecia estar saindo de mim.
Tudo parecia estar perdido naquele momento e eu tive certeza da minha morte, mas surpreendentemente a dor sumiu e então eu vi meu dragão, lançando fogo sobre o meu opositor, fazendo com que sua atenção se desviasse de mim.
Logo estávamos os dois cobertos pelas chamas, mas eu era totalmente imune a elas, queimando apenas meus cabelos, que ainda estavam curtos desde a ultima vez que os queimei.
Prendi a respiração e me acalmei. Toda e qualquer chama poderia ser controlada por mim.
Contive o fogo e o direcionei para o príncipe elfo, na intenção de queimá-lo totalmente e transformá-lo em cinzas, descontando nele toda a raiva que sentia, mas nesse momento Ulrick se aproximou de mim e colocou sua mão sobre o meu ombro.
- Espere. - ele pediu - Não o mate ainda.
Dissipei o fogo por um momento e olhei confusa para o meu noivo.
- Ele é o príncipe e deve saber onde a pedra está. - ele explicou.
Olhei de volta para o príncipe e para a minha surpresa ele ainda estava vivo e não estava queimado.
O elfo estava de joelhos, com os olhos fechados e com um escudo de gelo em volta de si. Ele parecia exausto e caiu de cara no chão, desfazendo a proteção de gelo e com o corpo saindo fumaça. Mesmo não tendo se queimado, ele havia se superaquecido.
- Use isso. - Ulrick disse me entregando algemas de contenção.
Acenei com a cabeça e fui colocar as algemas no príncipe, enquanto os outros elfos aos poucos paravam de lutar e se entregavam, percebendo que perderam seu líder.