- Então, Lucas. Para começarmos bem está sessão, se apresente para mim. - Pediu meu psicólogo, concordei. Respirando fundo.
- Bom, eu Sou Lucas Menezes, mas prefiro quando me dão apelidos derivados do meu nome. Tenho vinte anos de idade e trabalho numa lanchonete no meu bairro que particularmente não é um dos meus trabalhos favoritos, mas é um ambiente legal de realizar mihhas tarefas, e fica até mais tranquilo pois tenho minha amiga, Gabriella, que trabalha comigo. E meu relacionamento com meu chefe é muito tranquilo. - Sorri fraco. - Nas horas vagas de meu dia ou noite, eu escrevo meu livro no notebook e espero conseguir, um dia, o publicar em alguma editora que admiro muito. Não sinto que sou tão bom para chegar neste nível, entretudo luto com força para melhorar minha escrita e meus personagens. - Olhei para o doutor, enquanto ele anotava algumas coisas em sua prancheta concordando com sua cabeça lentamente, aquilo me fez suar um pouco de nervoso. Ele escutava tudo o que eu dizia. - E também gosto muito de fotografias, paisagens, crianças num parque brincando, animais... Me recordo o quanto é gostoso viver, o quanto há numa vida, memórias boas para se recordar numa imagem. São as coisas que me motivam a continuar, além de Mint, meu gatinho malhado. Enfim, eu moro sozinho numa casinha pequena que eu mesmo decorei sozinho vendo ideias na internet, sempre sonhei em ter meu lugarzinho, é onde eu me sinto em meu lar de verdade, me sinto seguro e relaxado em minha casa. Voltando para o meu lado pessoal, a alguns anos passei por um relacionamento tóxico por um ano e meio e concordei por muito tempo que eu não era merecedor de amor, sofri muito e fiz terapia para tentar colocar minha cabeça no lugar. Mas logo depois eu fui diagnosticado com ansiedade a dois anos e tdah a um ano e meio, isso meio que abriu novos caminhos em minha vida que me deixam um tanto quanto confuso no meio da jornada, mas só tive coragem de os tratar agora, depois de anos. - Cocei meu braço, envergonhado. - Mas, atualmente, estou feliz e motivado. Quero tentar novamente a ser feliz e não ter medo de enfrentar as coisas. - Terminei, relaxando meus ombros.
- Uau, Lucas. - Ele sorriu, terminando de anotar, levantando seus olhos para me olhar. - Você é uma pessoa detalhista e apaixonada pela vida, gostei disso. - Sorri envergonhado, agradecendo. - Mas o que a ansiedade te afetou? E o tdah?
- Na minha autonomia, completamente. - Respondi, sem pensar duas vezes. - Sinto, por muitas vezes, que não sou capaz de algo sem mesmo tentar, e que antes eu tinha certeza que conseguiria fazer. Além de começar diversas atividades em conjunto, e nunca os terminar. E isso me frustra ainda mais, todos os dias. Parece que não consigo sair do mesmo lugar.
- Lucas, você tem uma rede de apoio próxima? Amigos, família?
- Tenho os meus pais. Porém, eles moram em Santa Catarina, enquanto moro aqui, em São Paulo. Vim a procura de emprego e novas experiências profissionais, mas minha bolha de segurança não me permite ultrapassar limites. Acabo sempre deixando oportunidades grandiosas por medo de errar. Ou seja, todas as vezes que penso que vim para cá com um objetivo, e cada segundo que se passa eu nem ao menos o aproveito, sinto que estou regredindo. Parece que não aguento meus próprios sonhos.
- Mas seu tdah não te dá, como eu sempre chamo em casos de tdah, "doses de rebeldia"? - Rimos, eu entendia bem do que ele estava falando. - Você não sente uma vontade avassaladora de ultrapassar limitações? De se sentir confiante?
- Sim, tenho. Pelo menos uma vez por semana. Mas é cortado pela minha ansiedade, ela age como aquela amiga que lhe traz de volta para a realidade, sabe?. - Deu de ombros. - E ela acaba comigo todas as vezes que tenho esse pico de energia, que quero tentar um curso, ou uma faculdade, oi trocar de trabalho. Eu não confio em mim mesmo.
- Já tentou redes de pessoas com os mesmos problemas que você? Para entender melhor, além da sua própria realidade, sobre seus próprios problemas?
- Já pensei, mas morro de pavor só de pensar em conversas com as pessoas, e é uma loucura. Hoje mesmo custei em vir, pensei e repensei diversas vezes. É doloroso, eu saboto as minhas próprias vontades sempre.
E aquilo continuou, aquela conversa profunda e necessária, me deixou feliz por finalmente colocar para fora tudo aquilo que me entalava, além de escrever. Nunca imaginei que conseguiria tão levemente. Que era a única forma que conseguia me ser sincero e verdadeiro. Estava determinado em tentar uma rede de pessoas que sofrem do mesmo que eu, nem que fosse virtualmente, para trocar experiências, entender como elas tratam sua ansiedade ou a agonia da confusão do tdah. Eu em sentia ansioso. Mas de forma boa. Muito, muito boa.
Quando terminei aquela consulta, sai da sala de meu psicólogo, me retirei aliviado e extremamente motivado. Eu não precisava ter medo, nem ser pessimista o tempo inteiro, eu só precisava ser eu, por um momento. Eu não precisava fugir. Apenas aquietar e seguir minha vida, tenho certeza que ter essas sessões foram muito necessárias e importantes para viver melhor.
Enfim eram três da tarde, avisei meu chefe que chegaria mais tarde pela consulta que teria pela manhã, ele aceitou numa boa. Agradeci aos céus por isso, mesmo sabendo que ele era muito gente boa e aceitaria sem problema algum. Eu já havia me arrumado para ambas ocasiões, para não precisar voltar para casa e me arrumar para mais um dia de trabalho, se fosse o caso, com certeza eu me atrasaria.
E lá estava eu, voltando para as mesmas pessoas, o mesmo cheiro de café e bolinhos doce no ar, como eu disse anteriorimente, não era um emprego dos sonhos, mas me sustentava e era um bom ambiente. Calmante eu fui andando mesmo até o local, hoje estava um dia calmo, coisa que geralmente quase nunca acontece.
Enquanto eu caminhava, sentia pequenos pingos de chuva batendo em meu corpo "merda!" murmurei, correndo o mais rápido possível ao estabelecimento. Não era longe do consultório, mas até eu chegar até lá, estaria encharcado da cabeça aos pés, já que aumentava gradativamente. Corri o mais rápido que pude até o local, sentindo, aos poucos, os pingos engrossarem sob minha cabeça. Avistei a lanchonete e impulsionei mais meu corpo, abrindo a porta e a fechando rapidamente atrás de mim, antes mesmo de me molhar. Cheguei, parcialmente seco. Sorri grandemente.
Até perceber que todos os clientes me olhavam, confusos. Engoli em seco, meu corpo ficou paralisado.
A chuva do lado de fora engrossou, caminhei como se nada tivesse ocorrido até o quartinho para funcionários o mais depressa possível, para colocar meu avental e começar a servir os clientes. Me vesti e me olhei no espelho para ter certeza que estava tudo em ordem, percebi que sim, então me dirigi para fora, com o rosto queimando de vergonha do que tivera acontecido minutos atrás, ficando balcão. Aguardando Gab, outra atendente, me passar os pedidos.
- Bela corrida, amigo. -Ela brincou, revirei os olhos. - O que houve?
- Consulta com o psicólogo, e quando sai, começou a chover. Nem notei a mudança de tempo. - Revirei os olhos, ela concordou.
- Posso te pedir para trocar contigo? Mal consigo pensar. - Concordei.
- Aconteceu algo? - Ela negou, enquanto tirava o avental de atendimento.
- Você sabe, terminei com Matthew ontem, foi um inferno, ele não aceita o fim e fica me enchendo o saco. Eu o amo, mas essa obsessão acaba com cada fio de com minha cabeça.
- Você acha que ele pode fazer algo com você? - Ela sorriu, negando. - Tome cuidado. Esses que não transparecem fazer algo contra nós, é o que mais fazem.
- Está tudo bem, amigo. Obrigada por se preocupar, prometo que ficará tudo bem.
- Se não se sentir segura em alguma de suas mensagens, chame a polícia. - Peguei seu bloco de notas e caneta, ela assentiu. Segui ao atendimento aos clientes.
Reparei um grupinho de garotos chegando no local pelo barulho do sino da porta, estranhei, numa chuva dessas as pessoas ainda tinham coragem de sair de casa? Céus. Dei de ombros, eles falavam sobre coisas aleatórias, nas quais eu não conseguia entender e nem ao menos me importei com tal, mas não quero dizer que eles estavam falando baixo, pelo contrário. Olhei para Gab, sugestivo. Ela balançou a cabeça no sentido dos mesmos, revirei os olhos. Óbvio que eu tinha que resolver aquilo.
Respirei fundo e me dirigi até o grupinho que já estavam sentados, eles perceberam minha aproximação e ficaram me encarando, fiz cara mais simpática possível para não receber reclamação ou parecer antipático.
- Com licença, perdão atrapalhar. Mas os senhores poderiam falar um pouco mais baixo? - Pedi, calmamente. Era um grupo de cinco garotos, quatro deles concordou, mas um deles fingiu não escutar. Ignorei. - Muito obrigado. - Sorri, me retirando para atender a mesa ao lado.
- Engraçado, eu pago pelo salário dessa bichinha, mas não posso falar da forma que eu quero? O cliente já teve razão alguma vez em estabelecimento público? - Brincou. Respirei fundo e me virei, sorrindo ainda maior.
- Pois não, senhor?
- Você ouviu? Ah, perdão. Não queria o incomodar. - Sorriu, falso. - Achei que esse chiqueiro era uma lanchonete pública, provavelmente me confundi. - Fingi surpresa, concordando com sua fala.
- Sinto muito, senhor. É que essa ambiente é fechado, pequeno. São para empresários que querem trabalhar num ambiente confortável e calmo, ou namorados que querem trocar algumas palavras antes do trabalho. Se o senhor prefere algo mais... Barulhento. - Sorri. - Te indigo uma pub que tem no fim da rua. Acho que gostaria de lá, já que esse "chiqueiro", não te beneficia. - Balancei a cabeça em concordância.
- Pouco me importa o que cacete vieram fazer essas pessoas. - Riu. - E você está falando demais para um garçom, não acha?
- E o senhor está perdendo tempo demais num lugar que não lhe cabe, não acha? - Devolvi a pergunta. Fingindo estar confuso. - Tenho um bom dia. Ah, e na próxima vez que tentar ofender alguém, tenta algo melhor do que "bichinha", capaz de ser até um elogio vindo do senhor. - Virei de costas novamente, seguindo para a mesa seguinte. Ouvindo seus amigos o caçoarem.
Continuei meu trabalho suavemente depois do ocorrido, atendi todas as mesas e repassei para Gab, que os passava para nossa chefe, quem fazia os pedidos (boatos que seu café era um dos melhores da região, e eu concordo). Porém todas as vezes que infelizmente cruzava a mesa daquele grupinho da quinta série, sentia os olhos do meteno me fuzilando, como se pudesse me atravessar, e é incrível como esse tipo de cliente me tiram do sério, se acham o rei da razão só porque estão pagando (ou apenas pelo motivo de estar sendo atendido, e não o empregado), pelo amor. É de cair o cu da bunda.
- Que houve, amigo? - Indagou Gab, confusa. - Você parece aborrecido.
- Aquele cliente imbecil da mesa quinze. Garotos imbecis. - Neguei com a cabeça, deixando a bandeja em cima do balcão. - Me tiram do sério. Odeio burgueses. - A mesma riu.
- Tenho somente inveja, queria eu poder falar mal de algum lugar e não ter quinze processos na minhas costas. - Pegou a anotação que tinha feito, passando para nossa chefe. - Tenho que fazer o caixa, de volta ao trabalho, revoltado. - Brincou, sorri fraco.
Os clientes estavam começando a sair do estabelecimento, e o mesmo que encontrava-se cheio no período da manhã, agora esvaziava. Enquanto não tinha novos pedidos ou uma nova mesa a se fazer, eu trocava algumas palavras com Gab, e assim percebi o quanto era sozinho nessa vida. Gabriella me dizia que estava deixando Matt para viver uma nova vida sozinha, já que, desde que se conhece por gente, eles namoravam. Ela estava cansada da vida monótona com seu namorado, além das diversas vezes que não dividiam sonhos. Matt, na visão de Gab, era vazio, sem um núcleo sonhador, e ela quem tinha por ambos. Aquilo sobrecarregava. Ela não queria sonhar por dois, queria dividir, multiplicar. Sonhar com alguém. Então, se não podia sonhar com ele, e não suportava sonhar por ele, pulou fora. Era insuportável só de pensar viver assim.
Me surpreende ela conseguir somente pensar em tentar novamente, pensar em namorar de novo, me assustava. O que um momento traumático, não faz com alguém.
- Lu, pode dar uma olhadinha no caixa? Estou naqueles dias, você sabe. Preciso dar uma checada. - Sorriu amarelo, concordei. Não havia nada a fazer de qualquer forma.
Mas parece que é o diabo me atentando.
Minutos depois que peguei o cargo de Gab, vi aquele homem de cabelos escuros se aproximando do balcão. Me segurei ao máximo para fingir que não vi, já que o revirar de olhos era impossível de suportar. Ele veio até o caixa, sorrindo debochado, me entregou o papel com os pedidos e esperou para eu contabilizasse.
- Nenhuma palavra ignorante dita para mim agora, senhor. - Indagou, me fitando. Enquanto eu ainda contabilizava o caixa.
- Se entendeu o que lhe disse naquele momento, não preciso mais ser indiferente. Agradeceria se o senhor fizesse o mesmo. - Ele estendeu o cartão, o peguei, mas ele continuou a segurar.
- Você deveria pensar bem antes de tratar qualquer um como me tratou. Você sabe quem eu sou, gracinha? - Me olhou sério, enquanto soltava o cartão.
- Claro, o senhor é presidente do Brasil, não é?! - Debochei, colocando seu cartão na máquina. - Crédito ou débito, senhor presidente?!
- Débito. - Citou, grosseiro. - Você deveria tratar melhor seus clientes, mas não é de se esperar muito, já que essa merda aqui logo será fechada por alguma vistoria. Comer em meio a ratos é meio anti higiênico, não concorda? - Revirei os olhos, retirando seu cartão e sua nota fiscal. - Talvez já esteja acostumado. - Riu.
- Acho que o senhor consegue ser mais sujo do que qualquer rato ralé de esgoto por aí. Você não é um Deus, não se esqueça. Ninguém se importa com sua presença ou falta de, pode abaixar essa guarda. - Sorri cínico. - Tenha um bom dia. - O entreguei seu cartão, junto a sua nota.
- Idem. - Ele puxou com força, sorri por conseguir o afetar. O mesmo se pôs para fora do estabelecimento.
- Que tensão foi essa? - Me assustei com Gab que estava atrás de mim.
- Esse cara é um completo otário. Você viu? "Você sabe quem eu sou?" Como se eu fosse perder meu rico tempo com um bocó que tem dinheiro. - Ela riu.
- Eu achei que você o conhecia.
- Felizmente não tive esse desprazer. Além de agora. Nunca o vi na vida.
- Que louco. Ele fala como se fosse o último pinto do universo.
- Quem vê, pensa. O dinheiro faz uma lavagem cerebral nas pessoas.
- Faz uma lavagem em quem não tem cérebro, você diz, né? - Concordei.
- Bom, deixando isso de lado... Você quer sair sexta-feira a noite? Abriu uma pub semana passada no centro da cidade. - Ela sorriu empolgada.
Gabbie: Okay, quer sair sexta a noite? Abriu uma balada super legal no centro da cidade. - ela sorriu, empolgada. - E sei que você não tem nada importante para se fazer.
- Claro. Não tenho nada a perder. Vamos. - Sorri, em concordância.
- Ok, meu escritor favorito. Nós vamos nos ver na sexta-feira. Ela assentiu e foi atender os outros clientes.
Eu quase nunca saio, na verdade, em dois anos, eu não saia com tanta frequência. Nenhum tipo de diversão, é sempre da casa para o trabalho, do trabalho para casa. Eu nunca fui de me divertir tanto, mas, senti que era necessário. Só desta vez, pelo menos. Eu mereço um tempo para beber e me divertir com minha amiga. Ficar com alguém nem se fala, meu último relacionamento durou um ano e meio, e ele nem me fazia feliz. Uma pena que percebi isso apenas anos depois. Depois de muita terapia (Irônico é, anos depois, eu voltar a fazer terapia). Um ano e meio preso um no outro. Conflitos, brigas, sem amigos... E até agressões. Um ano e meio jurando que nasci apenas para aguentar o amor, e não o ter como uma forma de escape. Acreditando fielmente que eu merecia e que ele era o grande amor da minha vida, quando, na verdade, ele era mais uma visão abominável do que era amor para mim. Era doloroso, frio. E talvez seja o motivo real de eu ter saído de Santa Catarina. Nunca mais consegui conversar com outro alguém amorosamente.
Por anos tive medo de sair de minha casa, a depressão me tomava, engolia meu ser. Tudo por conta de falta de amor de um ex namorado. Era loucura, eu sabia que era errado, mas eu o amava. Eu o amava com todo o meu ser, como se eu, Lucas, tivesse a missão de mostrar para aquele homem, o que era amor. E como eu, alguém que não tinha amor, e nem ao menos sabia o que era, poderia dar amor a alguém que nunca o tivesse?! Hoje sei que não merecia aquela dor toda, hoje sei. E hoje sei que quero tentar novamente. Aquilo era um inferno sem fim. Mas eu quero me fazer permitir, espero encontrar alguém legal. Apenas como um entretenimento, não sei se futuramente irei querer um relacionamento, até porque, vamos lá... Não sou de se jogar fora. Principalmente agora que finalmente comecei a me cuidar.
Enquanto sexta não chegava, eu já estava pensando que roupa usaria, essa sexta-feira não seria uma sexta qualquer, seria A sexta-feira!
...
Bruno era um jovem subestimado e ambicioso, dono de seus vinte e um anos, já tinha sua vida completamente ganha sem fazer o mínimo esforço para tal, já que seus pais, os senhores Calandes com seus sobrenomes estampados nos jornais de sucesso, tinha uma empresa bem sucedida no centro de São Paulo. O que o fez herdeiro de quase tudo, já que tinha seu irmão mais velho que dividia consigo o dinheiro de seus pais (ainda vivos).
O garoto ainda recebia mesada, bem alta por sinal, já que o mesmo não se sentia no direito de estar no meio dos negócios dos seus pais, deixava isso com seu irmão, não se importava com essa vida de reuniões e quebra-cabeça. Não era sua praia. Era mais fácil ter sem fazer nada, já que seus pais o acostumaram dessa forma. Com a vida ganha. Não se sentia nem um pouco ofendido, se sentia melhor do que todos, e tinha a plena certeza de que realmente era.
Estava a dormir calmamente em sua cama de casal em seu apartamento luxuoso na zona sul de São Paulo, nada o preocupava então não tinha necessidade alguma de acordar cedo, entretudo seus sonhos foram interrompidos por seu toque de celular, o mesmo suspirou fundo e o pegou, vendo o nome "Fernanda" estampado na tela clara de seu aparelho. O mesmo revirou os olhos em indignação.
Bruno Calandes.
Fernanda era (ou ainda é, não sei) uma ficante, na verdade foram duas ou três vezes que fiquei com ela num pub ou em algum evento qualquer em que eu ia, e nunca quis nada sério com ninguém, sempre deixei isso completamente claro Tanto para ela, quanto para qualquer mulher com quem me relaciono casualmente. Tanto que já fiquei com diversas outras meninas além dela, e mesmo assim ela vive me ligando como se eu tivesse que dar satisfação para ela de minha vida, perguntando onde estou ou com quem, como se estivessemos num relacionamento (e, cá entre nós, eu não sirvo para isso. De forma alguma). Isso é algo que nunca acontecerá, definitivamente. Eu nem ao menos gosto dela, porra, como ela pode achar que temos algo? Céus. Dei de ombros e desliguei sua ligação, revirei meu corpo em cima de minha cama, ficando debruço, relaxando meus músculos na tentativa de voltar a dormir.
Porém ele começa a tocar novamente.
O toque do celular começa a ecoar novamente em meu quarto num volume irritante, desacreditei em tamanha afronta, minha cabeça martelava com aquele barulho infernal. Rangi meus dentes irritado, peguei novamente o celular e o atendi.
- O que é, inferno? - Perguntei, grosso.
- Oi, amor... Desculpe. Te acordei?
- O que você acha, Fernanda? - Fui irônico, a raiva me consumia.
- Ah, Me desculpe, amorzinho. É que eu pensei que poderíamos, não sei, sair hoje? Jantar? - Revirei os olhos.
- Fernanda, quantas vezes vou ter que dizer que não sou de ficar marcando datezinho? - Respirei fundo, coçando meus olhos. - Pelo amor de Deus. Me deixe em paz.
- E quando você me liga, querendo me ver, eu tenho que ir, não é? Isso é que acaba conosco, Bruno!
- Não te obrigo a nada, garota. É só não vir. E... Calma. Acaba conosco? - Repeti, confuso.
- Bruno, se você não vir, eu nunca mais vou te ligar! - Disse, autoritária. Segurei uma risada genuína, é sério isso?!
- Isso foi uma ameaça ou um milagre? Eu agradeceria se acontecesse.
- Ridículo! - Xingou, num gritinho estérico extremamente fino. - Eu ia te apresentar meus pais hoje! Você é tão ridículo! - Gargalhei, alto.
- Eu não quero conhecer seus pais, está maluca? - Continuei rindo. - Nós nem ao menos temos nada, além de sexo. Acorda, Fe.
- Ninguém fica por um mês inteiro só com uma pessoa, Bruno! Se enxerga. - Aquilo parecia um stand-up para mim, não conseguia ao menos parar de rir.
- Duas ou três vezes num mês, você quer dizer, não é? - Neguei com a cabeça, nessa altura, eu já havia acordado. - E quem que eu só fiquei com você?
- Você? Você disse! Você falou que não tinha ninguém além de mim! - Ri alto, negando minha cabeça. Desacreditado.
- Só me esquece, Fe. Eu nunca quis namorar, muito menos você. Prometo nunca mais te ligar, tudo bem? - Ela desligou. Sorri. - Menos uma, FINALMENTE! - Voltei finalmente a dormir como um anjo depois dessa ligação amistosa.
Por volta das três e meia da tarde eu despertei tranquilamente, sorri aliviado. Eu finalmente havia descansado da noite anterior que foi uma maluquice. Bem, pelo menos sem ressaca. E melhor, sem vômitos indesejados. Olhei o dia em meu celular e o que eu pensava, era dia de jogatina com meus amigos, sempre marcavamos de fazer algo numa tarde de quarta-feira. Peguei meu celular e liguei para Mauro, que atendeu rapidamente.
- Fala, Bru.
- E aí, Mauro? Dia de jogos hoje? - Me espreguicei, permanecendo deitado.
- Com certeza, parceiro. Chamou os outros?
- Ainda não. Chama ai, acabei de acordar, estou um porre. Preciso de um banho e de um café. - Ele riu.
- Ontem você meteu muito o louco, riquinho. - Me chamou por aquele apelido ridículo, revirei os olhos.
- De novo com esse apelido de boiola. - Bufei.
- Ah, qual é, riquinho. Combina contigo. - Brincou, gargalhando. - É até mais bonitinho.
- Vá a merda, Mauro.
- Estou zoando, mano. Aliás, você soube do Gusta? Ele terminou o namoro.
- Finalmente. - Ele riu.
- Ele está muito mal, vai ser até bom para ele espairecer. Está foda aguentar ele. Ontem ele bebeu igual um arrombado, e eu tive que voltar com ele ouvindo o quanto ela iria fazer falta.
- Nunca gostei dela. - Fui sincero.
- Nenhum de nós gostava dela. Ela simplesmente proibida ele de nós ver, maior vagabunda. Ele era o único a gostar dela aparentemente.
- Sinto muito por ele. Quero que ela se foda. - Cocei meus olhos, ele concordou. - Bom, resolve aí, que eu vou dar um jeito aqui. Falou?
- Falou, irmão. Logo menos estamos aí. - Desligou.
Tomei coragem e me levantei finalmente, fui só banheiro, retirei minha roupa e tomei um banho longo em minha banheira de hidromassagem, ainda tinha resquícios de cansaço em meu corpo, tentei o máximo o extinguir de mim. Odeio essa sensação de cansado, pesado. Quando terminei, tirei o sabão de meu corpo na ducha e sequei-me, pus uma roupa leve, de ficar em casa. Famoso bermudão e camiseta.
Já na sala, deixei ligado meu videogame e meu VR em outro televisor, nunca fui muito bom em jogos, o que não quer dizer que eu não gostava de jogar com meus amigos e ser ruim assim mesmo. Era divertido. Vergonhoso, mas divertido.
Já estávamos todos juntos na sala de estar jogando um jogo qualquer, enquanto conversavamos coisas aleatórias, Gusta estava cabisbaixo, deixei o controle de lado, peguei uma cerveja que Mauro havia trazido e me sentei ao seu lado.
- E aí, mano?! Como você se sente? - Dei duas Batutinhas em suas costas, chamando sua atenção.
- Dessa vez foi sério, irmão. - Suspirou fundo, ele realmente parecia abalado. - Ela me deixou de verdade. Não teve jeito.
- Mauro me disse. - Ele deu de ombros. - Mas você não pode morrer por uma desilusão amorosa, Gusta. Você é novão, já já está com outra, ainda melhor.
- Mas é dela quem eu gosto, Bru. -Ele me fitou. - Você não tem noção disso. Eu amo ela. Eu quero estar com ela.
- Mas se ela não quer, o que você tem que fazer? - Ele voltou seu olhar para o chão. - Se você acha que ainda tem chance, corre atrás. O não você já tem, de qualquer forma.
- É, talvez. - Bati meu ombro no dele, passando força. - Quem diria que você me daria conselho um dia. - Ri.
- Estou fingindo que sei o que estou te dizendo, mas não faço a mínima ideia. - Brinquei, ele riu. Não tinha experiência nenhum com relacionamentos e muito menos em gostar de alguém.
- Sortr a sua de nunca ter ocorrido consigo, é foda.
- Falando nisso, lembra da Fernanda?
- A peituda? - Rimos, concordei.
- Hoje ela me ligou falando que queria me apresentar aos pais dela. - Gargalhei, tomando um gole da cerveja.
- Para que? - Ele riu, dei de ombros.
- Na cabeça dela, a gente estava tendo algo. Estou tentando até agora descobrir o que tínhamos.
- E ela não é de se jogar fora, cara. - Ouvi Rafael dizer, enquanto jogava.
- Não mesmo, mas não nasci pra essa palhaçada. Eu nem ao menos gostava de ficar com ela, muito grudenta. Quero distância.
- Sonho do Gusta ser desapegado dessa forma. - Brincou Mauro, rimos.
- Desculpa se é crime amar demais, me prenda e me joga na cadeia por ser um grande apaixonado. - Gargalhamos.
- Foda que o Gusta se apega demais, e o Bruno nem pensa em começar. - Concordei.
- Para evitar ficar essa caco de merda. - Apontei para Gustavo com a cabeça, que se fingiu de ofendido.
- Obrigado.
- Eu viso meu bem estar mental e físico, porque estar com uma só, se eu amo ficar com todas elas? É até egoísmo. Dou chance para todas. - Ouvi um coro de "ânsia de vômito" ao meu redor.
- O problema nem é esse irmão, é que você é extremamente rápido. Mal chega num lugar e já arruma umas cinco, você parece um ímã de mulher. Nunca entendi. - Reclamou Rafael, sorri malicioso.
- Vocês com essas caras de lesados, é óbvio que nenhuma mulher vai olhar.
- Desculpe, coach de relacionamentos.
- É sério, porra. Vocês têm que ser mais confiantes, seguros. Vocês chegam numa pub com cara de mongo, ninguém vai chegar. Nenhuma mina que um cara com cara de bocó, quer um responsa.
- Pior que pode ser verdade essa porra. - O fitei, convencido.
- Óbvio que é, amigo. Tente na próxima. Não é sorte, é estratégia. - Sorri de canto. - Enquanto vocês estão aí, minha lista só aumenta.
Continuamos a jogar e conversar sobre algumas coisas aleatórias como o lançamento de um próximo jogo de terror ou até numa próxima festa que poderíamos ir juntos. Quando me cansei de jogar, passei o controle para Gusta e me deitei no sofá maior, vendo algumas de minhas redes sociais para somente passar o tempo que tínhamos livre. Quando notei não ter nada importante, comecei a assistir alguns vídeos completamente desnecessários apenas para suprir minha falta do que fazer.
- BRUNO! - Ouvi Rafael gritar, chamando minha atenção para si. - Puta que pariu.
- O que?
- Faz um minuto que estou te chamando, sem parar. Você viajou para longe.
- Foi mal. Mas o que houve? Fala aí?!
- Saquei. Não tem nada para comer aí, não? Maior fome. - Arregalei levemente meus olhos, esqueci de comprar as coisas para comer.
- Nao tem porra nenhuma. - Cocei minha nuca. - Mas eu vou comprar rapidão, ou posso pedir no delivery.
- É até melhor, chega mais rápido. Pede naquela lanchonete que fomos na terça-feira, os bolinhos de lá são mil grau. - Concordei, logo lembrei do atendente intrometido, e conti o riso. Incrível como pessoas como ele são mal educadas. Entrei no aplicativo de delivery e pedi algumas porções para entrega, e alguns lanches prontos também, e fiquei no aguardo.
- Agora que lembrei naquela comida de rabo que aquele garçom deu no Bruno. - Brincou Rafael, rindo. - Cara brabo.
- Normal, é como esses malucos de favela agem.
- Atravessou o cara sem medo.
- É até eu processar aquela nojeira. - Revirei meus olhos.
- Nem invente de fazer isso, a comida de lá é uma delícia e aquele café é o único que me faz querer acordar todas as manhãs. - Disse Mauro, sendo dramático
Depois de alguns longos minutos a espera do motoboy, finalmente recebi a notificação que o mesmo estava a chegar, resolvi descer o apartamento e aguardar na parte da portaria. Logo o vi se aproximar de moto, coloquei minhas mãos no bolso, aguardando o mesmo retirar o capacete e me entregar os pedidos.
- Droga. - O ouvir exclamar baixinho, estranhei. O mesmo retirou o capacete, e ali entendi. Me fazendo rir levemente.
- Boa tarde para você também, garçom. - Ele me fitou, sério.
- Boa tarde. - Abriu sua bag, retirando meus pedidos da mesma. - Aqui estão.
- Pode me ajudar a subir? - Indaguei, sorrindo vitorioso. - É muita coisa, você sabe.
- De forma alguma.
- Certeza? Eu tenho o contato do seu gerente aqui no aplicativo, posso recorrer. Quer mesmo perder seu... - O olhei de cima a baixo. - Emprego? - Ele respirou fundo, pegando todas as sacolas e me seguindo. - Boa. Por aqui. - Voltei a direção que tinha feito, mas, só invés do elevador, peguei as escadas, eu morava no quinto andar, aquilo era uma boa recompensa pelo que ele tinha me feito.
- O elevador está quebrado? - Ele perguntou, soltei um riso frouxo.
- Não. Mas você é empregado, não pegam elevador comercial.
- Como é?
- Desculpe. - Sorri de canto, falso.
- Você sempre foi assim?
- Assim, como?
- Mesquinha? Isso é doentio. - Respirou fundo, ainda subindo cada degrau.
- Continue subindo, garçom.
- Você fala como se fosse algo ruim.
- Talvez, para mim, seja. - Ri fraco, dando de ombros.
- Essa é sua tentativa de me humilhar? - Ele riu, o fitei confuso. - Tenta outra forma, essa foi fraca.
- Jura, garçom? - Parei, o fitando. - Você realmente quer perder esse empregozinho de merda, não é? - Perguntei, ficando de frente para si. - Saiba que eu não meço esforço algum para isso acontecer. - Voltei a subir as escadas, faltavam apenas um lance para chegarmos em meu andar. Ele continuou em silêncio, sorri vitorioso. - Chegamos.
- Finalmente. - Murmurou, respirando fundo. Paramos em frente ao meu apartamento.
- Coloque lá dentro. - Ele me fitou, sem entender. - Ande. Coloque lá dentro.
- Isso já não é trabalho meu.
- Garçom... Coloque essa merda dessa comida lá dentro, agora. - Mandei, abrindo a porta. Ele apertou as sacolas e adentrando minha casa, dando de frente com meus amigos.
- Bruno...? - Mauro me olhava confuso, vendo o garçom da lanchonete colocar a comida na mesinha de centro da sala.
- Huh? - O olhei, me fazendo de desentendido. Vendo o garçom deixar a comida calmamente ali, e se dirigir para fora do apartamento.
- Nada. - Me amigo negou, ainda sem entender. Voltei a porta de meu apartamento.
- Muito obrigado, garçom. - Sorri. - Você foi muito atencioso, foi um prazer.
- Você é ridículo.
- Olha, ainda não deu minha avaliação, cuidado. - Coloquei meu indicador em meus lábios, para ele ficar calado. - Você pode ir. Não preciso mais do seu trabalho. - Ele me deu as costas. - Cadê o "Bom apetite"? - Ele parou e Respirou fundo, sorri ainda mais vitorioso.
- Bom apetite. - Falou, baixo.
- Obrigado, garçom. Até a próxima. - Ri, fechando a porta.
- Por que você fez o cara subir? - Indagou Mauro.
- Porque eu quis. E ele subiu de escadas. - Eles arregalaram os olhos.
- Você é maluco. - Gusta falou, negando sua cabeça. Caminhei até a sala me sentindo aliviado e vingado, ou talvez, não totalmente.
Lucas Menezes.
Uma e vinte e três da manhã. Quinta feira.
Merda. Mil vezes merda!
Meus olhos estavam terrivelmente abertos como nunca, olhei pela vigésima vez para a tela de meu celular, mostrava "01:24" da madrugada, eu precisava dormir já que ainda hoje eu haveria de trabalhar cedo. Como todos os dias de minha vida. Revirei meus olhos e bufei, completamente bravo, meu corpo resistia ao cansaço e minha mente não me deixava em paz nem por um segundo, eu odiava ser ansioso desta forma, ao nível de me manter ligado por, as vezes, vinte e quatro horas de meu dia. É como se minha vida somente dependesse de uma determinada situação. Isso ferrava com meu físico e psicológico, pois não conseguia de forma alguma descansar e ficar tranquilo. Mas nada dessa tranquilidade chegar. Novamente peguei meu celular, passando de um aplicativo a outro.
Logo me recordei do que ocorreu no dia anterior de uma forma inesperada, me sentir pequeno naquela situação, céus, como ele era um imbecil... Eu me senti tão humilhado, eu estava tão revoltado. Como alguém pode ser assim tão nojento? Me senti preso, atado numa situação extremamente desconfortável. Tudo porque sou um subordinado, que ódio eu senti de sua cara. Aquele sorriso vitorioso foi como uma espada enfiada em minha barriga, não compreendo como alguém consegue ser tão frio e ambicioso. Neguei com a cabeça, visivelmente chateado. Disquei o número de Gab, na tentativa de ligar, já que não tinha certeza alguma se ela me atenderia pelo horário em que estávamos.
- Uma da manhã, Lucas. Uma da manhã. Você tem noção disso? - Indagou, assim que atendeu, com sua voz sonolenta.
- Desculpe. - Pedi, já me arrependendo. - Eu não consigo dormir, e estou com medo de ter uma crise de ansiedade e não saber quando vou parar, pode ficar um tempinho comigo? - Perguntei sendo sincero, odiava ter que atrapalhar as pessoas, mas eu realmente estava apavorado.
- Tudo bem. - Ela Respirou fundo, aparentemente se arrumando em sua cama. - O seu psicologo não passou nada para evitar isso?
- Por enquanto, não.
- E o que aconteceu?
- Aí é que está. - Suspirei. - Não sei.
- Aparentemente você me odeia. - Ri fraco. - No que estava pensando antes? Teve algum gatilho?
- Não... - Menti. - Creio que não.
- Certeza?
- Sim.
- Tudo bem, o que lhe dá sono? - Bocejou.
- Ótima pergunta. - Ri, ouvindo a mesma me acompanhar.
- Vamos falar sobre... Matemática. Você tem cara de quem tem sono em aula de matemática.
- Gab, eu tenho tdah. O que você acha? - Sorri, deixando a ligação no viva-voz.
- Certo, certo. Vamos lá. 12+15?
- 27?
- 55+41? - Fiz careta.
- 96.
- 28+39?
- 67.
- 15×25?
- Aí você me quebrou, Gab. - Ela gargalhou.
- Ande, não é tão difícil assim.
- Para mim é péssimo, é a mesma coisa que assinar minha certidão de óbito. - Sorri. - Sou péssimo nisso.
- Tente.
- Não, eu estou bem não sendo humilhado.
- Pelo menos deu sono?
- Nem um pouco.
- Nadinha?
- O que você acha?!
- Bom, pelo menos temos a plena certeza que você é de humanas mesmo. - Brincou.
- Não precisava nem de muito para notar. - Peguei meu notebook e o liguei, na tentativa de me distrair. - Enfim, Gab. Deixando isso de lado, como está o observador?
- Está dizendo o Matt? - Riu. - Na mesma, Lu. Me liga daqui, troca de número para me encher de mensagens jurando que irá mudar, perfis falsos em redes sociais... Pix para dizer que me ama.
- De quanto?
- Sério que de tudo que eu falei, você só se importou com o último citado? - Dei de ombros.
- A parte que ele é lunático eu já entendi, agora é ter a certeza se ele é mão de vaca. Quanto?
- Geralmente de 100, mas estou guardando para devolver. Não quero nada dele.
- Eu guardava e fazia uma viagem com outro.
- Nossa, que ótima ideia?! - Concordei, enquanto lia algumas anotações que tinha feito na noite passada.
- Eu estou dizendo. Você quem não sabe aproveitar os burros que a vida coloca na sua história.
- Realmente. Nada disso muda o fato dele ter sido um grande cuzão comigo por todos estes anos.
Ligeiramente lembrei do cara da lanchonete, e nem ao menos entendi o porquê. Provavelmente por ele ser um grande pé no saco, e eu imagino que eu não seja o único "sortudo" de ter passado por ele algum dia, tenho certeza que outras pessoas com empregos inferiores foram maltratadas.
- Pessoas maldosas não mudam de jeito nenhum, elas fingem. Manipulação o nome.
- Absolutamente. Mas e aí, Lu? Você nunca me disse nada sobre conhecer alguém, ter uma paquerazinha?
- É porque eu não tenho mesmo. - Sorri de canto. - Eu não saio de casa, Gab. Eu gosto de ficar no meu conforto, com o Mint, assistir alguma série, escrever e ir dormir. Essa é minha vibe. Definitivamente.
- Mas viver somente disso, Lu, não é saudável. Sei que é seu hobby, seu sonho. Mas você tem que seguir sua vida, ver pessoas, sair, conhecer novos lugares. E talvez até um novo hobby.
- Sair da bolha é mais doloroso do que eu imaginei.
- Realmente, é muito doloroso. Mas necessário. Ninguém disse que a vida era fácil. Aprender e ultrapassar cada pouquinho das limitações que temos, é uma vitória.
- Meu maior pavor. - Disse, baixinho. - Não quero viver tudo aquilo que já vivi antes, é doentio.
- Mas todos nós somos criações diferentes, amigo. Nem todos são errados, alguns são machucados como você, como eu. Mas eles têm possibilidades de estar afundados em casa, ou tentando um dia seguinte melhor.
- Duas da manhã e minha amiga desequilibrada me dando aula de equilíbrio social. - Rimos. - Obrigado, Gab. Minha cabeça é uma zona, e sozinho é complicado de conseguir ultrapassar as limitações de cada dia.
- Voltando a pergunta: ninguém que lhe interesse?
- Não, ninguém.
- Nem que você ache bonitinho?
- Nem.
- E aquele cliente que sempre frequenta a lanchonete? Matias? É um gatinho, não acha? - Tentei lembrar quem era, fazendo careta.
- Não faz meu tipo. - Neguei com a cabeça.
- Céus, você parece um jovem virgem.
- Me deixe em paz, Gabriella. - Ri fraco.
- Vamos arrumar alguém bem maneiro para ti, amanhã. Só para tirar esse bvl.
- Garota, me respeite! - Ri, deixando meu computador na mesinha de canto.
- Pelo menos desestressar, esquecer essa vida de intelectual pelo menos por alguns segundos. Ninguém se apaixona por você dessa forma, parece que está se escondendo. - Revirei os olhos.
- E quem está pedindo para que se apaixone por mim?
- Eu.
- Você é insuportável, garota.
- Bom, já que te distrai o suficiente hoje, posso ir dormir? Porque o mesmo trabalho que você tem amanhã, eu também sofro.- Fingiu voz de choro.
- Obrigado pela companhia, Gab.
- Precisando, Lu, estamos sempre aí.
- Obrigado.
- Boa noite, vê se dorme. Te amo.
- Boa noite. Você também. Te amo. - Desliguei a ligação, junto da tela do celular.
Coloquei o aparelho no carregador, ao lado de meu computador, e me aconcheguei em meu edredom, tentando acalmar meus pensamentos e relaxar meus músculos para conseguir dormir, já eram duas e meia da manhã, eu precisava, pelo menos, fingir que descansei. Mas acabei dormindo rapidamente.
Acordei num quarto escuro, totalmente. Olhei em volta, confuso, não sabia onde estava de forma alguma. Me sentia estranho, observado. Olhei por todos os lado, minha visão estava turva, pisquei diversas vezes na tentativa das mesmas voltarem ao normal. Ouvi passos, o que me deixou ainda mais atento, não sabia de onde vinha, pois parecia vir de todos os lados, me senti ofegante, aquilo me agoniava de todas as formas possíveis.
- Oi, querido. - Ouvi alguém sussurrar em meu ouvido, congelei. - Fique tranquilo. - Sua voz era grossa, aveludada. Meus olhos se arregalaram. Engoli em saco. - Não, não... Não fique assustado. - Bufou um riso em minha orelha, tentei controlar minha respiração. - Fique tranquilo. - Repetiu.
- O-onde... O-nde estamos...? - Perguntei com dificuldade, num sussurro. Eu não tinha controle algum de minha voz, sentia que perdia todo o ar em meus pulmões.
- Fique relaxado. Não fale. - Repousou suas mãos em meus ombros, eu senti todo meu corpo responder. Trêmulo. Suas mãos eram frias, mesmo através de minhas roupas. Eu estava completamente assustado.
Não consegui mover um músculo além das tremedeiras sem fim.
Notei, só então, que estava sentado numa cadeira, não sentia minhas pernas, nem meus braços. Um nó se fez presente em minha garganta. Onde estava? Com quem estava? Tinha algo atrás de mim que me impedia de olhar para seja lá quem for, ele novamente pois-se a se aproximar de meu ouvido, num riso baixo e aterrorizante. Fechei fortemente meus olhos, que desciam largrimas grossas e pavorosas, eu estava com muito medo.
- Vai ficar tudo bem. - Ele riu. - Eu estou com você.
Acordei num sobressalto, minha respiração estava descompensada, meu corpo tremia como nunca antes, sentia minha cabeça latejar e minhas bochechas queimarem. E me pus a chorar. Chorar muito, não sabia o porquê, mas eu estava desesperado. Foi o pior pesadelo que um dia, pude ter. Eu odeio minha cabeça. Eu odeio.
Depois de um certo tempo com meus joelhos junto de meu peito descompensado, eu respirei fundo e me levantei, desligando o despertador. Eu precisava tomar um banho, eu precisava trabalhar. Com minhas pernas ainda trêmulas e teimosas, segui até meu banheiro, me despi e comecei o banho mais doloroso de minha vida.
Senti meu corpo pesar ainda mais, como se levasse um elefante em meus ombros, encostei minha testa na parede, deixando a água cair contra meu corpo. Tentando deixar os flashes do pesadelo descerem pelo ralo.
- Que merda, que inferno de vida, Lucas! - Gritei, contra a parede. - Você não é assim! Por favor! - Soquei a mesma diversas vezes, num choro incessante. - Eu não sou assim, eu não sou... - Continuei a chorar, com meu peito ardendo. - Eu não sou isso... - Repeti.
Já no quarto, eu me troquei rapidamente. Não queria ter tempo para pensar nem em uma fração de segundos naquele pesadelo, senão eu tinha a plena certeza que me acarretaria uma crise de ansiedade doentia, e eu não posso. Não agora. Eu preciso trabalhar.
Olhei o relógio e eu ainda tinha tempo, peguei meus fones e minha bolsa, saindo de casa e colocando uma música de minha playlist favorita. Respirei fundo e comecei a caminha para o local de meu trabalho, tentando distrair minha cabeça com as paisagens que eu tinha o prazer de ver.
Cheguei no momento certo, suspirei aliviado por não ter me atrasado, odiava atrasos retirei meus fones e segui ao quartinho para me trocar, rapidamente.
- Bom dia. - Vi Gab, com seus olhos cansados, carregando um sorriso leve, e forçado, em seu rosto.
- Bom dia, Gab. Me desculpe por ontem. - Fui sincero, a abraçando rápido. - Não queria te perturbar, mas não tinha com quem conversar.
- Está tudo bem, amigo. Você faria o mesmo por mim. - Sorri fraco.
- Bom, pelo lado bom... Estamos quebrados juntos. - Rimos, e ela concordou com a cabeça.
- ah, não esqueça. É amanhã, viu? Vê se você se arruma igual gente e seja o mais incrível daquela pub, se não eu lhe viro do avesso. - Alertou, concordei. Ela piscou para mim. - Fico no caixa hoje, você pode buscar os pedidos?
- Claro. - Peguei o bloco de notas e a caneta no balcão, seguindo aos clientes.
Por volta das seis e quarenta da tarde, já estava no horário de saída da lanchonete, os últimos clientes já saiam pela porta e sorri fraco, sentindo meu dever, por mais um dia, cumprido. Retirei meu avental, e segui para o quartinho colocar de volta minhas roupas, vestindo, também, um casaco. Sai da sala e peguei novamente meu celular, plugando meus fones de ouvido. Música nunca é demais, principalmente para cessar pensamentos intrusivos.
- Tchau, Lu! - Acenou para mim de trás do balcão.
- Até amanhã! - Acenei de volta, saindo finalmente de lá.
Cheguei em casa tão rapidamente que acabei não notando, quando vi, estava na porta de casa. Eu me sentia pesado, cansado. Mais do que em outros dias que a lanchonete estava até mais cheia. Me joguei em meu sofá sem ao menos tirar a roupa, e ali mesmo, eu dormi.
Quando despertei, estava completamente torto e dolorido, e Mint estava em cima de mim, miando incessantemente. Levantei e o peguei no colo, me levantando e seguindo para a área de serviço. Eu havia esquecidk de colocar sua ração no potinho.
Resolvi, também, comer algo. Preparei um sanduíche rápido e peguei meu celular para ver as horas, e me assustei quando notei: onze da noite. Eu odiava dormir quando chegava do trabalho, eu literalmente ferrava com meu sono.
Já me sentia sem sono quase por completo, fui ao meu guarda-roupa decidir o que iria vestir amanhã, eram muitas para decidir, mas fui separando as que mais me chamavam atenção, enquanto mordiscsva meu lanche. Logo optei por uma calça escura jeans, uma camisa longa e uma blusa xadrez, dei de ombros e a deixei em minha mesinha de canto, era o necessário para mim.
Senti novamente Mint miar, e se esfregar em minhas pernas enquanto estava de pé, decidindo alguns acessórios. Sorri e deixei de canto os acessórios e me sentei na cama, terminando meu sanduíche e o pegando no colo, deitando ele ao meu lado. Acariciando-o.
- Essa monótonia está me matando, Mint. Preciso me divertir mais, me permitir. Estou cansada dessa vida de seguir somente regras e nunca me permitir errar. Não está certo. - Mint ronronou. - Isso vai mudar, eu prometo. A partir de amanhã, isso com certeza irá mudar. Vou fazer isso acontecer.