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Tentação

Tentação

Autor:: Gabriela.B
Gênero: Jovem Adulto
Aíslan é um ceo milionário com seus 38 anos de pura teimosia, arrogância e prepotência o que o torna uma pessoa difícil de lidar. Viúvo, amargo, e odeia curiosos. Mas isso está prestes a mudar quando Henrique seu melhor amigo de infância decide dar para Aíslan um passagem de férias para Natal, Rio Grande do Norte! Catléia é uma escritora e por sinal muito curiosa. Uma mulher jovem muito atraente passando as férias sossegada e escrevendo o seu quinto livro. Recentemente perdeu seu namorado em um incêndio o que a fez não sair do luto e se trancar para o mundo e novos sentimentos, mas o que ela não sabe é que sua vida está prestes a mudar quando o vizinho da casa ao lado se mudar para tirar seu sossego e tornar o seu verão tão quente e assustador quantos nos filmes de terror. Tudo o que ambos tem que fazer é selar um acordo de paz, mas um lado nunca está disposto a ceder...

Capítulo 1 Céu nublado

Céu nublado e garoa fina. Dezenove graus no verão de Campos do Jordão,

São Paulo, Brasil. A baixa temporada na cidade turística é o pior período

para a economia local e isso Aislan Albuquerque sente na pele. Dono de

uma das mais populares redes de hotelaria, Aislan com os seus 38 anos,

tendo 15 deles dedicado a presidência do Hotel Camp Jordan, se vê perdido

diante aos tantos percalços financeiros, sociais e pessoais...

- Senhor Aislan! Júlio Alcântara está na linha - fala a secretária já

entrando.

- Carla! Primeiramente bata na porta antes de entrar e segundo... Eu já

exigi que marque horários para eu atender ligações seja de quem for.

- Inclusive da mãe dele. -

completa Henrique.

Henrique Ferraz, com os seus 37 anos é sócio e melhor amigo de Aislan.

Amizade essa que vem da infância. Após terminarem a faculdade e estando

ambos sem rumo, eles decidiram apostar no ramo de hotelaria e com poucos

anos trabalhando na gerência da rede mais popular da cidade na época, eles

conseguiram construir o primeiro hotel Camp Jordan. Hoje, quinze anos

depois, está sendo construída a segunda pousada no litoral catarinense que

levam o mesmo nome. As pousadas são gerenciadas por Henrique, homem

aventureiro e que, ao contrário de Aislan, adora praia e calor. Por assim ser,

Aislan gerencia o hotel em Campos do Jordão e sabendo que nessa época o

amigo falta enlouquecer e também endoidar os funcionários, Henrique todos

os anos volta à cidade para ajudar o sócio e garantir que ele não demita a

metade deles... Como Ana, por exemplo.

- Primeiramente o meu nome é Ana, senhor e segundo que é a sétima vez

que o senhor Alcântara tenta lhe contatar, - insiste ela tentando explicar.

- Inventa uma desculpa e diga que eu retornarei a ligação assim que

possível.

- Ele está aguardando esse retorno há cinco dias, senhor.

Ana, a secretária. Trinta e três anos de pura bondade, sabedoria e paciência.

Bom! A sua paciência está sendo aos poucos abalada, coitada. Há cerca de

oito anos Ana passa por maus bocados na mão do chefe metido a magnata e

ela só suporta as humilhações por extrema necessidade. Recém-casada, ela

precisa ajudar o marido a quitar a casa própria e os gastos com a reforma e

as mobílias da casa nova. Isso até o marido ser promovido a gerente do hotel

concorrente e ela poder pedir demissão. A melhor época do ano para ela é

no verão, quando, como agora, Henrique toma as rédeas do hotel e ameniza a

pressão.

- Diga que em cinco minutos eu retornarei a ligação, Ana. Pode se

retirar e obrigado.

- Sim, senhor Henrique! Eu quem agradeço. Com licença!

Assim que Ana fecha a porta, Aislan fecha a pasta ao qual fingia analisar e

relaxa o corpo na luxuosa ⁹cadeira presidencial.

- Deus! Eu vou enlouquecer!

- Você clamando por Deus, Aislan?

- Força do hábito! Cara, tá foda!

- Como todos os outros verões. Relaxa sócio e meu amigo. Sempre

sobrevivemos às baixas temporadas e esse ano não será diferente.

- Eu sei, eu sei, mas o problema é que esse ano não é apenas a baixa

temporada que me preocupa. A Bruna vai se casar e a dona Rute resolveu

que vai aproveitar o embalo e vai se casar novamente. De novo cara, de

novo.

- Deixa a sua mãe ser feliz. O último casamento lhe causou muito

sofrimento e creio eu que até mais do que com o seu pai. Ela está

tentando... Você deveria tentar também.

- Eu? Euzinho me casar? Deus me livre! Dispenso o teu conselho.

- Clamou a Deus de novo.

- Dane-se! Já falei que é força do hábito. Preciso desenhar?

- Ok! Ok! Tá certo! Não está mais aqui quem falou.

- Obrigado!

- Relaxa parceiro. Toma aqui!

Henrique retira um carnê do bolso de dentro do paletó e oferece a Aislan

que toma o segundo gole do uísque importado antes de tomar o carnê em

mãos.

- O que é isso? A quebra do contrato?

- Você só pode estar enlouquecendo mesmo.

- Não! Isso é uma passagem de ida e volta para Natal, Rio Grande do

Norte!

- Presente antecipado de casamento para a minha irmã?

- Não! Presente de férias para você!

- Querido Henrique. Pelo fato de nos conhecermos desde crianças, de

termos estudado e crescermos juntos, termos criado uma rede de hotelaria

e de nos falarmos todo santo dia, eu creio que você saiba que eu odeio

praia e principalmente... Calor.

- Querido Aislan. Pelo fato de nos conhecermos desde crianças, de

termos estudado e crescermos juntos, termos criado uma rede de hotelaria

e de nos falarmos todo santo dia, eu tenho a absoluta certeza de que você

precisa viver coisas novas, sair desse mundinho e experimentar novos

horizontes.

- Bobagem!

- Bobagem é você ficar aqui nesse escritório trancado assinando cartas

de demissões. Bora! Levanta a bunda daí e vá para casa arrumar as malas.

Seu voo está marcado para amanhã às nove.

- Filho da...

- Ei! Me respeita e respeita a minha mãe. Você vai ficar na casa da

Manu. Ela já providenciou a limpeza da casa, as compras e tudo o que

você vai precisar para essa semana. A passagem de volta está marcada

para segunda-feira às vinte e duas horas.

- Por falar nisso, como ela está? Como vocês estão?

- Bem! Estamos bem! Ela está super empolgada com o término da

faculdade e ainda mais com o desafio de cuidar "sozinha" das pousadas.

Eu confio na competência e habilidade dela. Ela vai se dar bem.

- Eu também acredito que sim, mas vocês não vão completar quatro anos

de casados nesta semana?

- Cinco anos e sim, mas como eu disse ela está tão empolgada para

exercer o seu primeiro trabalho como dona do negócio que aceitou deixar

para comemorarmos quando eu retornar. Fizemos uma festinha para

comemorar o término da faculdade e isso já a deixou feliz.

- Eu acho isso estranho. Você poderia ter adiado essas viagens. Não será

fácil uma novata lidar com a alta temporada na pousada.

- Mulheres! Você sabe como são teimosas.

- E eu também sou. Agradeço a sua preocupação quanto a mim, mas eu

vou negar o seu presente.

- De maneira alguma. Depois de tanto trabalho? A Manu vai te odiar se

você não for.

- Que merda!

- Cara, para de reclamar! Vai curtir a vida.

- Curtir o que sozinho? É claro que eu levaria o Skoob, mas se for para

ficar trancado em casa com o meu cachorro eu fico no meu apartamento

mesmo.

- Meu! Natal! Verão! Alta temporada! Mulheres! Você só vai ficar sozinho

se quiser.

- Odeio o verão!

- E eu não sei como os seus funcionários te suportam.

- Eu não sou tão ruim assim. Até dei um presente de casamento para a

Cláudia.

Ana bate na porta e gentilmente Henrique a manda entrar.

- Senhor, só para lembrar que já se passaram os cinco minutos. E senhor

Aislan, o meu nome é Ana. Ana!

- Pode fazer a ligação... E Ana, o Aislan me contou que te deu um

presente de casamento. Posso saber que presente foi esse?

- Sim! Ele nos deu um faqueiro de 48 peças no valor de R$ 800,00, muito

chique. Quer dizer, chique demais. Eu nem sei quando vou usá-lo, talvez

no Natal, talvez. Eu não sei. A minha família é muito simples e até que eu

queria dar uma big festa lá em casa para comemorar o casamento, mas

não estamos em condições financeiras... Então eu vou deixar guardado...

Quem sabe um dia...

- Não reclama! Cavalo dado não se olha os dentes e se não tem utilidade

pode vender.

- Não senhor Aislan. Eu não vou vender. Presentes são presentes e

presentes não se vendem, nem se doam... Não se jogam fora...

- Exatamente! E presentes não podem ser negados. Levanta essa bunda

daí e aceita o meu presente. Vamos! Eu tenho negócios a tratar. Ana pode

fazer a ligação. Mais uma vez, obrigado.

- Sim senhor e disponha. Com licença.

Ana se retira. Aislan, sem saída, levanta-se dando o lugar para o seu sócio e

não encontrando mais argumentos, junta os seus pertences enquanto Henrique

atende o senhor Alcântara. Antes de sair da sala, Aislan dá um beijo na

cabeça de Henrique que pede um minuto para o senhor Alcântara e tapa a

saída de áudio do telefone.

- Vai nessa, irmão! Divirta-se! E ah... Eu deixei um presente lá pra você.

- Até imagino o que seja, mas eu vou deixar para agradecer depois que

eu voltar. Até mais, irmão e você vai me pagar por isso.

- Faço questão de pagar para ver. Boa viagem!

Capítulo 2 Sábado!

Sábado. Nove e quarenta e cinco da manhã o jato particular da empresa

Camp Jordan pousa no Aeroporto Internacional do Rio Grande do Norte.

Aislan desembarca na companhia de Skoob, seu cão gigante da raça

Dobermann. Pelo preto brilhoso e macio de seu pelo bem aparado e pelo seu

porte imponente, vemos que o cão recebe cuidados tão minudentes quanto o

dono. Aislan é um cara vaidoso... Muito vaidoso, por sinal. Ele é aquele tipo

de homem que não abre mão de exercícios físicos diários. Tem horários

semanais marcados em spas, barbearia e manicure. Sim! Ele não nega que

pinta as unhas, com base, claro, além de tingir os cabelos regularmente. Os

fios brancos não têm vez naquela cabecinha oca... E pensem em um homem

cheiroso. É claro que quem o vê não nega que Aislan seja um partidão... Só

que é chato, muito chato, enfim... Como o Henrique pensou em tudo, ele

alugou um carro esportivo para que Aislan pudesse passear à vontade pela

cidade. Na saída do aeroporto o carro lhe é entregue por um funcionário e

assim se inicia as férias de Aislan que mesmo admirando a beleza da cidade,

não está nada empolgado. Para piorar, o GPS lhe leva para o endereço

errado e o que era para ser uma viagem de uma hora e quinze minutos até a

cidade de Touros, se torna um verdadeiro tour do pesadelo e irritabilidade.

Cerca de uma hora e meia depois, Aislan, enfim, encontra a famosa casa do

lago que recebe esse nome carinhoso tanto em homenagem ao famoso filme,

quanto por ter sido construída às margens da Lagoa do Boqueirão na Região

de Mato Grande. Um lugar tranquilo, exceto no verão por atrair turistas e

visitantes locais, com uma vista esplêndida, pouquíssimos vizinhos e de

extrema paz e isso Aislan sente assim que desce do carro. Skoob não perde

tempo e mergulha na lagoa, assustando assim as crianças e turistas ali

presentes. Aislan pede para que todos tenham calma dizendo que o cão é

adestrado e que é extremamente manso. Realmente ele não mentiu. Skoob,

apesar do tamanho, é dócil e brincalhão. As crianças mais corajosas

arriscam uma aproximação e logo o cachorro conquista a todos, que voltam a

se banhar e a brincar com ele.

Vendo que seu o parceiro fez amizade e confiando que ele não irá atacar

ninguém, Aislan retira a mala do carro e se dirige para a varanda ao fundo

da casa. Ao destrancar a porta ele repara que uma mulher está na varanda da

casa ao lado, com uma feição nada agradável, observando o Skoob. Ao

perceber que está sendo observada, a mulher crava o seu olhar no dele e

solta um meio sorriso ao acenar dando boas vindas. Aislan acena

respondendo a hospitalidade, mas o primeiro pensamento que lhe vem à

cabeça é de que aquela mulher, mesmo linda e aparentemente gentil, não está

feliz com a sua presença e muito menos com a presença de Skoob.

Mandando, mentalmente, ela ir à merda e tudo o que já acontecera até ali,

Aislan adentra a casa, deixa a mala na cozinha e saí abrindo todas as janelas.

De volta à cozinha ele pega uma garrafa de cerveja na geladeira e respira

fundo após tomar o primeiro gole e lá está a vizinha na janela da cozinha da

casa ao lado, lhe observando. A primeira reação de Aislan é se aproximar

da janela e fechar as cortinas. Mais uma inspiração profunda de ar e ele se

dirige a sala onde liga o som e degusta mais goles de cerveja. Admirando a

paisagem pela janela e dando uma checada se tudo corre bem entre seu cão e

as crianças na lagoa, outra vez ele percebe que a vizinha está a lhe observar

pela janela da sala. Por instinto, a sua reação é a mesma de outra hora,

fechar as cortinas, mas agora ele se demora e por cerca de alguns segundos,

fita os olhos azuis desviando dos seus na tentativa de um disfarce mal

sucedido. Aquela mulher vira de costas curvando o corpo para acariciar um

cachorro que sabe Deus de onde surgiu. Aislan admira o belo corpo da

vizinha intrometida tendo pensamentos pervertidos...

- É vizinha! O que você tem de estranha e introsca, você tem de gostosa.

Magrela, mas gostosa.

Pensa ele enquanto a segue com o olhar até perdê-la de vista. Ela usa um

vestido florido vermelho dando um realce em sua pele branca. Seus seios

são pequenos proporcionais ao seu corpo miúdo e de estatura que não passa

de 1,68 m. Parece uma daquelas adolescentes chefes de torcida. As pontas

do cabelo castanho tocam os bicos dos seus seios, assim como a curta franja

tocam suas sobrancelhas, salientando ainda mais o azul piscina de seus olhos

que, de repente, voltam a fitar os olhos verdes de Aislan. Lá está ela outra

vez o assustando como uma assombração. Instantemente ele fecha as

cortinas.

- Saí pra lá bonequinha de porcelana do mal. Vai assombrar outro, eu

não. Já vi que essas férias prometem. Prometem muita raiva e sessões de

terror.

Skoob entra molhando todo o piso da casa e ainda faz questão de chacoalhar

o corpo se livrando do excesso de água.

- Não, Skoob. Não! Olha aí! Molhou todo o chão. Mas que merda! Estou

falando... Estou falando.

Skoob tenta se encolher como que pedindo desculpas, mas sendo um

cachorro daquele tamanho, a impressão que dá é que ele está se preparando

para saltar... E o faz quando Aislan se arrepende de ter gritado e lhe pede

desculpas. O cão por pouco não o derruba, mesmo o dono tendo 1,89, braços

fortes, bem trabalhados e musculosos...

Um grandalhão de pele clara levemente bronzeada. Os braços e tórax bem

definidos... A barriga tanquinho... O peitoral harmonioso chama a atenção

mesmo que ele esteja vestido com terno e gravata... Vê-se ao longe... Assim

como as partes baixas. Pernas saradas, bumbum empinado, coxas grossas,

batatas suculentas, enfim... Aislan é todo uma delicinha em forma de homem.

Seus cabelos são de um tom castanho claro com loiro em um corte curto,

com os fios desfiados e desalinhados dando um ar desleixado ao look do

nosso amigo, mas que ao mesmo tempo o deixa maravilhosamente elegante.

Ah vocês devem estar se perguntando como ele tem a pele bronzeada se vive

em uma cidade fria? Mas, ele é a vaidade em pessoa, certo? Sim! E o belo

faz sessões periódicas de bronzeamento artificial. O Henrique fica puto com

isso. Como um cara que se cuida ao extremo fica fazendo exercícios físicos

diários, que é rigoroso quanto a sua alimentação e um cara que diz se

preocupar com a saúde, se expõe desse jeito a um perigo iminente que um

câncer de pele pode causar? Esse foi mais um dos motivos de o Henrique

manda-lo para Natal. Se ele acabar gostando de praia e calor, nos próximos

meses o seu bronzeamento será natural, tomando os cuidados necessários,

longe de riscos. Vamos torcer para que sim. Vamos torcer para que ele se

apaixone pelo verão...

Capítulo 3 Que merda será essa hein Skoob

Após secar todo o chão por onde Skoob passou, Aislan tratou de

descarregar a bagagem do carro, alimentou o dog, guardou suas roupas e

pertences nos armários e aí se deparou com o presente deixado por

Henrique. Com um sorriso irônico ele coça a cabeça não acreditando no que

o amigo lhe comprou. Ao se ver livre de suas tarefas, Aislan decidiu

almoçar em um dos quiosques. A sua vontade era de almoçar a beira mar,

mas dirigir depois de uma manhã tensa e cansativa não estava mais em seus

planos. Skoob voltou a brincar com as crianças na lagoa, enquanto o saradão

se deliciava com uma bela porção de feijão verde, prato típico do estado e

nem preciso dizer, né? Foi amor à primeira vista e com direito a um:

"Garçom! Traga mais uma porção, por favor.".

Tudo corre bem e por aquele momento Aislan aproveita para absorver a paz

que lhe invade, mesmo sofrendo com os 28° à sombra. A alegria das pessoas

ali presentes é contagiante. Crianças e seus familiares se divertem em

companhia do Skoob na lagoa. Alguns jovens escutam músicas e bebem no

outro extremo da lagoa. Nos quiosques, casais se entreolham apaixonados

durante o almoço. Em outras mesas, amigos contam piadas de bêbados, por

já estarem embriagados.

Mesmo com a alta temperatura o vento bate brando e suave, refrescante.

Literalmente, Aislan está em paz e satisfeito, surpreendendo a si mesmo.

Durante o voo ele refletiu em sobre realmente precisar daquela viagem, que

ela lhe faria bem, mas em momento algum imaginou que a transformação

aconteceria logo no primeiro dia. Após o almoço ele se permitiu tirar uma

soneca na rede armada na varanda da casa. Um repouso desejado... Um sono

tranquilo... Até que por volta das sete da noite, o seu sono é interrompido

por gritaria, latidos e miados...

- Finn! Finn! Volta aqui! Finn... - chamava em meio às lágrimas.

Só deu tempo de Aislan abrir os olhos e ver um corpo pequeno se perder em

meio à mata às margens da lagoa. Skoob não para de latir, assim como um

cão peludo que está ao lado da vizinha debutante da High School Music que

não para de gritar. Alguns quiosques já fecharam. Os visitantes já se

retiraram e a noite está linda, ou melhor, era para estar...

- Finn! Finn!... A culpa é sua! - grita ela desesperada.

Lá vem a Sharpay Evans com o sangue nos olhos em direção ao belo

adormecido que se levanta tentando entender o que está acontecendo. Bom!

Deixe que a vizinha explique.

- A culpa é toda sua! - ela o acusou mais uma vez.

- Desculpa senhorita, mas se não percebeu eu estava dormindo. Por

acaso cometi algum crime durante uma crise de sonambulismo? - fez

graça.

- O seu cachorro quase matou o meu gato e agora o Finn fugiu. Fugiu!

Você tem noção do que isso significa?

- Significa que o seu gato simplesmente se assustou, mas relaxa. Assim

que eu colocar o Skoob para dentro de casa o seu gato vai voltar e tudo

ficará bem. Agora a senhorita pode parar de gritar?

- Eu não estou gritando e tudo só ficará bem quando o meu gato estiver

em meus braços.

- Se quer um corpo em seus braços eu posso resolver esse problema.

- Como é que é? Estou vendo que eu serei obrigada a ir embora mais

cedo do que planejei. Seu atrevido...

- Sinta-se a vontade!

- Você é um ogro! Não! Não! Até o Shrek é mais gentil e educado do que

você. Escroto!

E assim vai a vizinha de volta às margens do rio a procura do seu gato.

Nosso ogro apenas ri. Ri da situação, ri da conversa e ri principalmente da

imponência. "Só que não". Da vizinha irritante e histérica. Aislan prefere

não colocar mais lenha na fogueira e chama Skoob que ainda está na

competição de quem late mais com a cadela da raça Bernese à beira da

lagoa. Cadela e não o cachorro da vizinha que ele vira hora antes.

- Era só o que me faltava... Uma cadela... Que você não esteja no cio,

mocinha... Skoob! Vamos! Pra dentro. Agora, rapaz. Vamos, vamos!

Skoob obedece e adentra a casa enquanto a cadela se cala, mas o segue até a

varanda abanando o rabo. Aislan até que a acha bonitinha e se atreve a

acaricia-la, mas não por muito tempo. A vizinha está possessa e não admite

que um idiota daqueles, toque em sua doce cachorrinha.

- Luna! Já pra casa. Não vê que você está se contaminando?

- Haha! Boa noite pra você também.

Ela não responde e sai irritada, parando na varanda a morena balança os

ombros e sacode os cabelos pretos.

Aislan procura não se exaltar. A cadela se afasta e ele entra fechando a

porta. Mesmo já tendo anoitecido o calor prevalece. Nenhum sinal de vento.

As cortinas nem se mexem obrigando Aislan a abrir uma por uma e sair

ligando os ventiladores de teto por toda a casa. Um arrepio lhe percorre o

corpo e surge a impressão de que ele está sendo observado. Um estalo vindo

do telhado o assusta. Seu cachorro dorme no sofá da sala de TV e parece não

ter ouvido nada. A sensação de estar sendo observado preocupa Aislan e ele

anda pela casa olhando para o teto esperando ouvir algum barulho

novamente. Nessa, ele bate o joelho em uma das cadeiras e seu grito de dor

acorda Skoob e também a Luna que começa a latir na casa ao lado. Na casa

ao lado onde a vizinha está na janela da cozinha rindo dele. Furioso, Aislan

apaga a luz, pega uma cerveja e vai mancando para a sala. Ao passar por um

dos quartos ele vê o vulto da vizinha caminhando também. Ele chega à sala e

ela adentra a sala da casa dela que também está com todas as janelas

abertas.

- Qual é dessa mulher? Parece uma assombração... Mas que se dane. Eu

não vou fechar cortina por causa dela e muito menos passar nervoso. Um

joguinho de futebol pra relaxar, cerveja gelada e tá tudo certo - diz ele

enquanto se estica no outro sofá frente à TV e de costas para a janela.

A cerveja acaba, ele se levanta, vai ao banheiro, volta à cozinha e pega mais

uma cerveja. As luzes da cozinha da casa ao lado estão apagadas. As do

quarto também, assim como as da sala onde só se vê o brilho da tela de um

notebook onde a vizinha digita algo e logo o encara. Aislan disfarça e volta a

se deitar. A cerveja acaba, bate a fome e nosso amigo retorna a cozinha para

preparar um lanchinho leve. Água na chaleira posta para ferver e mais uma

cerveja gelada e refrescante. Ainda com a porta da geladeira aberta ele

retira dois tomates e uma cebola e os coloca na pia. Um gole na cerveja, uma

procura rápida pela tábua de carne no armário abaixo da cozinha. O levantar

e outro susto. A vizinha lhe observando outra vez, descaradamente. Ela está

sentada por trás da bancada tomando o que parece uma sopa.

- Agora deu! Além de estranha é maluca. Quem toma sopa num calor

desses? - resmunga.

Aislan! Para de implicar! Deve ser sopa fria, você mesmo toma de vez em

quando... - pensou consigo mesmo, - E não é nada anormal, mas

anormal é ela ficar ali prestando atenção em tudo o que faço. Quer

saber? Deixa ela ver.

E assim ele tenta dar continuidade aos seus afazeres sem se irritar. A água

ferve. No armário ao lado da geladeira ela pega os pacotinhos de quino-a e

castanhas. Com uma xícara ele mede porções da quino-a e os coloca na

panela jogando em seguida a água fervente. Enquanto cozinha, ele pica os

legumes e as castanhas e entre um gesto e outro olha de relance para a

vizinha que ainda está ali, disfarçando com manuseios do celular.

- Acha que eu sou bobo é? Essa mulherzinha está me irritando.

Skoob desperta e, confuso, senta perto da pia não entendendo o que o dono

está a dizer.

- Skoob, essa mulher é maluquinha. Evita chegar perto dela está bem?

Bom garoto.

As quino-as estão cozidas. Aislan coloca a panela por cima de um pano

molhado sobre a pia para que esfriem mais rápido. Ouvem-se batidas e

passos no telhado. Um som baixo e abafado. Aislan se assusta e novamente

saí andando pela casa olhando para o teto. Skoob late e o som para.

- Mas que merda é essa? Fica quieto, Skoob. Shiii!

Ao percorrer toda a casa e não ouvindo mais os barulhos ele retorna à

cozinha.

- Que merda será essa hein Skoob? Pássaros? Só pode. A Manu também

não têm juízo algum. Onde já se viu em plena década de 2020, alguém

construir uma casa com telhado? Isso é tão brega e ultrapassado e ainda

construiu a casa idêntica a da vizinha. Não estou vendo nenhum

condomínio fechado por aqui. Gente maluca.

Se a esposa de Henrique o ouvisse falar assim iria relevar esse comentário

por conta do stress que ele está passando. Não tendo mais paciência para

esperar e já ficando puto com a vizinha que não saí da maldita bancada,

Aislan pega a forma de gelo no freezer e despeja na pia colocando a panela

com as quino-as sobre as pedras. Ele está irritado, quer logo sair dali. Com

a colher de pau ele mexe as quino-as e evita olhar para fora. Cinco minutos

se passam, a raiva o consome e com pressa ele despeja os legumes

reservados sobre as quino-as ainda mornas e tempera de qualquer jeito.

- Ufa! Enfim estão prontas. Quer um bocadinho, Skoob?

O balançar da cabeça para um lado e para o outro meia dúzia de vezes

respondeu a pergunta. Não, o Skoob não quer ração de humano. Pegando uma

colher na gaveta, Aislan olha pra fora. A vizinha não está mais lá.

- Ela saiu, Skoob. Deve ter voltado para a sala. Quer saber? Cansei.

Esses ventiladores quebram o galho. Vou fechar as janelas. Chega de

palhaçada.

Assim ele faz. Com a panela na mão sai fechando todas as janelas. Chegando

à janela da sala, ele comprova a sua suposição. A vizinha está lá, atenta aos

seus movimentos bruscos, por sinal.

Janelas e cortinas fechadas e a paz reina naquele lugar. Jogo de futebol na

TV, lá fora as músicas são encerradas, os quiosques são fechados. Os

bêbados voltam tagarelando para suas casas e o silêncio se faz presente.

Aislan abaixa o volume da TV e aprecia o único som do lugar. O som vindo

da lagoa e da natureza.

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