"A libra de carne que ora exijo
foi comprada muito caro; pertence a mim, e hei de tê-la."
O mercador de Veneza, ato 4, cena 1
O som apressado dos pés deles na calçada correspondia às batidas frenéticas
do coração dela, e o modo como o pai segurava apertado sua mão era quase
doloroso. Suas pernas curtas, de uma menina de 9 anos, tinham dificuldade em
acompanhar os passos dele, fazendo-a tropeçar e quase correr para manter o
ritmo. O maxilar dele estava contraído como ela nunca vira e seus olhos, em
geral tão radiantes e despreocupados, se encontravam tão escuros e raivosos
quanto o céu acima deles. Ela sentiu vontade de chorar.
Um barulho atrás deles a fez se virar. De um beco saíram cinco homens
encapuzados que, apesar de manterem a cabeça abaixada, acompanhavam as
passadas velozes de seu pai, perseguindo-os como animais selvagens.
O pai talvez tenha dito palavras reconfortantes para aliviar o pânico que
arrepiava seu pescoço, mas o medo logo se justificou quando ambos foram
cercados e algo duro atingiu e derrubou seu pai, levando-a junto com ele.
Desorientada, com os joelhos ardendo por terem raspado no concreto da
calçada, ela olhou para cima e gritou quando um bastão de beisebol atingiu as
costas do pai duas vezes, com um som assustador.
Ela não viu de onde veio a mão que bateu com força em seu rosto, fazendo-a
rolar em direção à rua e ficar totalmente atordoada enquanto ouvia o berro
furioso do pai ressoar em seus ouvidos. Ele se pôs de pé, cambaleante, e se atirou
sobre os agressores. Ela observou horrorizada a chuva de socos, pontapés e
pauladas que ele levou em retaliação.
Em meio às agressões que sofria e aos berros para que entregasse a carteira,
o pai gritou que ela corresse. Implorou que se afastasse, mas ela ficou ali,
congelada. Como ele podia pedir que ela fosse embora? Tinha que ajudá-lo,
salvá-lo! Lágrimas escorriam por seu rosto e um choro descontrolado explodiu
de sua garganta.
Ele gemeu em agonia quando outro punho acertou sua cabeça e seus joelhos
se dobraram, atingindo o chão enquanto ela caminhava na direção dele. E, antes
que o alcançasse, seu braço foi inesperadamente puxado na direção oposta. Ela
choramingou aliviada, esperando ver um policial ou algum segurança do pai –
mas era alguém não muito maior que ela, usando um capuz preto e sujo.
Quando ele começou a arrastá-la para longe dali, ela se debateu e gritou para
que a soltasse. Será que ele não percebia que o pai precisava dela, que com
certeza iria morrer sem sua ajuda? Mas o estranho continuou em frente,
puxando-a rua abaixo até a porta de um edifício abandonado, a duas quadras de
onde o som pavoroso de um tiro tomou conta do ar.
Ela gritou pelo pai e, livrando-se da mão de seu salvador com um empurrão
forte, saiu correndo em direção ao local do ataque. Não tinha ido muito longe
quando foi dominada por mãos fortes que a imobilizaram no chão. Ela continuou
berrando, lutando com todas as forças que tinha, mas logo seu corpo ficou
exausto e seus lamentos e gritos se tornaram soluços desolados, murmurados no
chão frio sob sua testa.
O peso em cima dela desapareceu e duas mãos a levantaram, reconduzindoa ao edifício abandonado. Ela se apoiou em quem a salvara e chorou de dor em
seu capuz sujo. Precisava retornar para seu pai. Precisava ver que ele estava
bem. Ele tinha que estar bem. Um braço em torno de seu ombro e uma mão
gelada em sua bochecha a abalaram, e ela murchou ainda mais nos braços de
seu salvador desconhecido.
Ela deve ter permanecido daquele jeito por horas; talvez tenha até pegado no
sono. A próxima coisa de que tinha consciência era de ser carregada por um
homem barbudo em direção a uma ambulância. Ela abriu os olhos inchados pelo
choro e viu policiais e paramédicos rodeados por um mar de luzes vermelhas e
azuis piscantes.
Suas expressões, que a assombrariam pelo resto da vida, lhe diziam
inequivocamente que o pai não a colocaria para dormir naquela noite.
Nem em nenhuma outra.
Wesley James Carter, detento da penitenciária Arthur Kill e verdadeiro bad
boy, sorriu ironicamente para o guarda que ao longo dos últimos dez minutos lhe
perguntava qual era o seu número de interno.
Dizer que o comportamento insolente e a expressão divertida de Carter
deixavam o homem gordo e careca agitado seria eufemismo. O cara estava
quase espumando pela boca.
Era sexta-feira e já fazia cinco minutos que o guarda havia batido o ponto de
saída.
Mais um motivo para Carter ser um babaca folgado.
O guarda passou a mão impaciente pela nuca roliça e seus olhos cansados se
estreitaram.
– Escute aqui – disse ele em um tom baixo e ameaçador, que sem dúvida
funcionava como uma faca na garganta dos outros detentos. – É muito simples.
Você me dá o seu número. Eu coloco neste formulário que tenho que preencher
para o seu conselheiro aqui na penitenciária e aí posso ir para casa.
Carter ergueu uma sobrancelha, desafiadora, e ficou olhando para aquele
panaca atarracado.
Sem se amedrontar, o guarda se recostou na cadeira giratória.
– Você não me dá o seu número e minha mulher fica furiosa. Ela fica furiosa
e eu vou ter que explicar que um delinquentezinho metido me fez ficar
esperando. Aí ela vai ficar mais furiosa ainda, berrando que o dinheiro dos nossos
impostos é que garante três refeições diárias e macacões para perdedores como
você. – Ele se sentou mais para a frente. – Então, última vez. Número.
Carter olhou com indiferença para o punho do guarda segurando o cassetete
acoplado ao cinto e deu um suspiro longo e entediado. Qualquer outro dia, ele
estaria pronto para fazer aquele idiota perder a cabeça; ele seria espancado com
um sorriso no rosto. Mas, hoje, ele não estava no clima.
– 081056 – respondeu Carter friamente, incapaz de resistir a uma piscadela.
Com uma carranca raivosa, o guarda anotou o número no formulário, aí
rodou a cadeira até uma assistente administrativa jovem e loura e lhe entregou o
papel. Aquele gordo arrogante era preguiçoso demais para levantar e dar seis
passos.
Carter esperou enquanto a loura digitava o número que praticamente tinha se
tornado seu nome adotivo nos últimos dezenove meses. Ele sabia quais acusações
apareceriam no monitor: arrombamento de carro, porte de arma, posse de
drogas, conduta desordeira e embriaguez, só para citar algumas. Ao contrário do
que pensavam, ele não se orgulhava da lista de crimes e delitos que podia encher
duas telas inteiras. Mesmo assim, aquilo dava a ele um senso de identidade, algo
que ele procurara desinteressadamente por quase todos os seus 27 anos de vida.
Ele ainda estava à procura e, até que encontrasse aquela coisa, a lista era tudo o
que ele tinha.
Tanto faz.
Ele esfregou a mão nos cabelos raspados. Estava cansado de pensar naquilo.
O barulho do papel sendo rasgado numa antiga impressora o trouxe de volta à
Terra.
– Bom, Sr. Carter. – O guarda suspirou. – Parece que sua estadia conosco vai
se estender por mais dezessete meses. Por ser pego com cocaína.
– Não era minha – disse ele secamente.
O guarda o fitou com uma expressão nada sincera de compaixão antes de
sorrir.
– Que peninha.
Carter não respondeu, ciente de que, dali a poucas semanas, entraria com o
pedido de liberdade condicional, e pegou logo o formulário.
Ladeado por outro guarda de cara fechada, Carter passou pela mesa e
atravessou um corredor longo e estreito em direção a uma porta branca, que ele
abriu com um tapa barulhento. O recinto era claustrofóbico e árido e fedia a
confissões. Apesar das muitas horas que ele tinha passado naquele lugar
desolador, ainda sentia o pulso acelerar e as mãos suarem.
Com as costas eretas e os ombros firmes, ele andou em direção à mesa de
madeira barata onde um homem grande como um gorila sorria enquanto Carter
se aproximava.
– Wes – Jack Parker, seu conselheiro, o cumprimentou. – Que bom ver você.
Por favor, sente.
Carter enfiou as mãos nos bolsos do macacão e desabou desajeitadamente na
cadeira. Jack era a única pessoa que o chamava pelo primeiro nome. Todos os
outros o chamavam de Carter. Jack tinha insistido naquilo, explicando que era a
única maneira de eles dois conseguirem construir um relacionamento de
confiança.
Carter tinha explicado que aquilo era um monte de merda.
– Tem cigarro?
Carter olhou com desdém para o guarda parado na porta do outro lado do
recinto.
– Claro.
Jackjogou uma carteira de Camel e uma caixa de fósforos na mesa.
Os dedos longos e pálidos de Carter lutaram contra a embalagem. Fazia dois
dias desde seu último cigarro. Ele estava desesperado. Dois fósforos quebrados e
uma série de palavrões depois, ele finalmente inalou a fumaça densa e
inebriante. Fechou os olhos, prendeu a respiração e, por uma fração de segundo,
tudo estava certo no mundo.
– Melhor? – perguntou Jackcom um sorriso sagaz.
Soprando a fumaça por cima da mesa, Carter confirmou com a cabeça.
E ficou impressionado ao ver que Jack resistiu ao desejo de abanar a fumaça
para longe. Ambos sabiam que, se fizesse aquilo, encorajaria Carter a fazer de
novo; ele se apegava a qualquer sinal de fraqueza ou irritação com a tenacidade
de um terrier.
Era um mecanismo de defesa, aparentemente.
Eles haviam discutido isso em uma de suas primeiras sessões. O mecanismo
era tão bem executado que Carter parecia forte, dominante e – a maioria dos
funcionários e detentos da Arthur Kill haveria de concordar – intimidador pra
caramba.
Jack pegou um arquivo de quase 20 centímetros de espessura em sua maleta
e abriu, folheando os inúmeros relatórios, declarações da justiça e depoimentos
que, ao longo dos anos, descreviam Carter como uma "ameaça à sociedade", de
"personalidade forte" e um "indivíduo inteligente que não possuía a
autoconfiança para reafirmar e canalizar isso de maneira correta".
Mais uma vez, tanto fazia.
Carter estava cansado de ouvir quanto potencial tinha. Sim, ele era inteligente
e muito leal às pessoas de quem gostava, mas, até onde podia se lembrar,
simplesmente parecia não conseguir encontrar o caminho certo. Durante toda a
vida, ele tinha estado à deriva, nunca se sentindo bem-vindo ou confortável em
um lugar por muito tempo, lidando com sua merda de família e amigos que não
conseguiam ficar longe de encrenca por mais que cinco minutos.
Ao menos na prisão, a porra toda era simples. Problemas da vida real eram
como mitos urbanos contados por aqueles que vinham fazer visitas de vez em
quando. Não que Carter recebesse muitas visitas.
Jack foi até a última página do arquivo e escreveu a data no topo da folha em
branco, então apertou o botão do pequeno gravador digital que estava entre eles e
começou a gravar.
– Sessão 64, Wesley Carter, detento número 081056 – disse Jack com voz
monótona. – Como você está hoje?
– De boa – respondeu Carter, apagando o cigarro enquanto acendia outro.
– Ótimo. – Jack fez uma anotação curta no papel à sua frente. – Então, ontem
eu compareci a uma reunião relativa à sua participação em alguns cursos aqui na
penitenciária.
Carter revirou os olhos. Jackignorou.
– Sei que você tem opiniões formadas sobre esse assunto, mas é importante
que faça atividades que sirvam como um desafio para você enquanto estiver
aqui.
Carter jogou a cabeça para trás e franziu a testa para o teto. Desafio? O lugar
todo era a porcaria de um desafio. Era um desafio superar cada dia sem perder a
cabeça com alguns dos idiotas daquele lugar.
– Há algumas opções – continuou Jack. – Literatura inglesa, filosofia,
sociologia. Eu expliquei ao Sr. Ward e aos especialistas em educação que, apesar
de você ter tido problemas com seus ex-tutores, você não é mais o mesmo garoto
que largou a escola aos 17 anos. Certo?
Carter deu uma olhada cética para ele.
Jack colocou as pontas dos dedos debaixo do queixo.
– O que você gostaria de estudar?
– Tanto faz. – Carter deu de ombros. – Eu só queria que me deixassem na
minha, porra.
– Tudo faz parte das condições para ter uma chance de liberdade condicional
antecipada. Você precisa mostrar progresso na sua reabilitação. E, se frequentar
alguns cursos enquanto está aqui pode ajudar nisso, então você tem que entrar na
dança.
Carter sabia que ele tinha razão e aquilo o deixava furioso. Desde os 15 anos,
ele passava de um advogado para outro, de um oficial de condicional e de um
conselheiro para o seguinte, sem ideia de como ou se um dia faria algo mais
significativo com sua vida. E Carter não fazia a mínima ideia do que fosse
"significativo".
Mesmo assim, depois de dezenove meses em Arthur Kill, ele estava
começando a pensar que
passar o resto de seus dias preso não era uma perspectiva tão atraente quanto
tinha pensado a princípio.
Quando era um adolescente teimoso, arrogante e agressivo, ele curtia ter tal
reputação. Agora, a animação e o entusiasmo haviam minguado. Tribunais,
centros de detenção e prisões não eram mais novidade e ele estava ficando
entediado com a justiça como um todo. Se não mudasse as próprias merdas,
passaria dos 30 tentando imaginar o que tinha acontecido com sua vida.
Jack pigarreou.
– Você teve alguma visita recentemente?
– Paul veio na semana passada. Max vai vir na segunda.
– Wes – suspirou Jack, tirando os óculos –, você precisa tomar cuidado com o
Max... Ele não é bom para você.
Indignado, Carter bateu a mão na mesa.
– Você acha que tem o direito de falar uma merda dessas?
Carter sabia que Jack considerava Max O'Hare uma doença, infectando todo
mundo à sua volta com seus problemas com drogas, seu longo histórico criminal
e sua habilidade de afundar os amigos na merda – o fato de Carter estar em
Arthur Kill era um desses casos. Mas Carter devia muito a Max.
Estar na prisão era simplesmente quitar uma dívida, e ele faria de novo sem
pestanejar.
– Não – abrandou Jack. – Não é isso que acho, de jeito nenhum...
– Então, ótimo – interrompeu Carter. – Porque você não tem a menor ideia do
que o Max passou, do que ele ainda passa. Amenor ideia!
Ele deu uma tragada longa no cigarro, encarando Jack por cima da brasa.
– Sei que ele é seu melhor amigo – disse Jack após um momento de silêncio
tenso.
– Sim – concordou Carter com um aceno firme de cabeça. – Ele é.
E pelo que Carter tinha ouvido dos caras que tinham vindo visitá-lo, Max
precisava dele agora mais do que nunca.
Mesmo quando Kat Lane estava dormindo, o mundo à sua volta era sombrio
e opressor, enchendo seus sonhos de medo. Suas mãos pequenas agarraram os
lençóis, torcendo-os em desespero. Seus olhos fechados se estreitaram e seus pés
começaram a se mexer enquanto dormia, à medida que ela se percebia
correndo, apavorada, por uma viela escura.
Um gemido saiu de sua garganta, enquanto via as imagens ininterruptas
daquela noite quase dezesseis anos atrás.
– Por favor – choramingou ela no escuro.
Mas ninguém viria para salvá-la dos cinco homens sem rosto que a
perseguiam. Ela se ergueu com um grito, suando e sem ar. Seus olhos
percorreram o quarto escuro antes de perceberem onde estavam; ela os fechou e
colocou as mãos no rosto. Com a garganta dolorida, suspirou, secou as lágrimas e
tentou se acalmar, respirando longa e lentamente.
Tinha acordado assim todos os dias nas últimas duas semanas, e a dor que a
atingia cada vez que ela abria os olhos era familiar demais. Ela balançou a
cabeça, exausta.
Amédica advertira que não parasse de tomar os comprimidos para dormir de
uma vez só, mas que diminuísse a dose gradativamente. Kat tinha ignorado o
conselho dela, determinada a conseguir passar uma noite sem o auxílio de
remédios. Parecia que sua determinação tinha se esgotado. Ela bateu com o
punho no colchão, frustrada, e então acendeu o abajur na mesa de cabeceira.
Mas a luz não amenizou o medo e o completo desamparo que os pesadelos
traziam.
Com um suspiro de derrota, ela se levantou e foi até o banheiro, piscando por
causa das luzes ofuscantes. Deu uma olhada em seu reflexo no espelho e franziu
a testa. Jesus, ela aparentava ter muito mais que 24 anos. Seu rosto parecia
cansado; os olhos verdes, entorpecidos e sem vida. Ela passou os dedos pelas
olheiras em torno deles, depois correu a mão pelo cabelo. Em vez do ruivo
volumoso de costume, estava fraco e seco, pouco abaixo dos ombros.
Sua mãe falara que ela havia perdido peso, mas Kat tinha ignorado aquelas
palavras. Ela sempre tinha que fazer algum comentário.
Kat não era nem um pouco magricela – sempre foi mais curvilínea do que
pele e osso –, mas suas calças jeans tamanho 38 realmente andavam mais largas
nos últimos tempos.
Ela abriu o armário e pegou um frasco de comprimidos. Ansiava pela noite
em que não precisaria depender de remédios para dormir. Não que os
comprimidos ajudassem muito; eles apenas entorpeciam uma dor que nunca
desapareceria. Depois de tomar duas pílulas azuis, ela se arrastou pelo piso de
madeira de volta para a cama.
Kat tinha percebido havia muito tempo que não existia sono profundo o
suficiente para escapar dos pesadelos. Estavam enraizados, eram parte dela;
nunca conseguiria se livrar deles. Sabia que nenhuma pílula ou terapia jamais
apagaria a escuridão e a dor dentro de si. Ela havia se tornado uma mulher
impetuosa e de personalidade forte. Era uma maneira segura de manter outras
pessoas a distância, escondendo seu desespero e seu medo por trás da sagacidade
e de uma língua afiada.
Ela afundou nos travesseiros de penas. Será que algum dia tudo aquilo ficaria
mais fácil?
Kat não sabia. Só conseguia se concentrar no fato de que o nascer do sol
significaria um novo dia, mais um para se distanciar de seu passado.
Na manhã seguinte, Kat entrou em seu carro, estacionado do lado de fora do
seu prédio no SoHo. Os pesadelos sempre a deixavam triste e tensa, pensando em
por que diabos tinha aceitado um emprego para dar aulas em uma prisão.
Quando começara a dar essas aulas, havia pouco mais de um mês, os
pesadelos voltaram e os conflitos com sua mãe se acirraram. O relacionamento
delas sempre teve altos e baixos, mas, quando Kat ligou para contar que ia
trabalhar em Arthur Kill, a discussão que se seguiu foi a mais terrível que já
tiveram. Eva Lane era uma mulher complicada e teimosa e jamais entenderia a
necessidade de Kat de aceitar aquele emprego.
Kat compreendia as preocupações da mãe e de alguns amigos. Apesar de
não haver assassinos entre os que estavam lá, os crimes cometidos por eles eram
bastante preocupantes: vandalismo, roubo de carro, uso e posse de drogas.
Contudo, tinha certeza de que era isso que queria fazer.
Porque, lá no fundo, uma promessa feita ao pai ecoava em sua alma.
Uma promessa que tinha estado lá desde que seu pai morrera. Estava lá no
dia em que ela terminara o ensino médio e no dia da formatura da faculdade de
Literatura Inglesa. Dar aulas era o que Kat queria fazer desde criança, e ela
havia amado cada segundo.
Ela tivera a sorte de viajar para Londres e para a China, lecionando em
escolas particulares que a fizeram se apaixonar ainda mais pela profissão. Fez
amigos, vivenciou outras culturas e construiu relacionamentos enriquecedores
que nunca acabariam. Apesar disso, no fundo ela sabia que trabalhar em escolas
que lhe pagavam 50 mil por ano não significava cumprir a promessa que tinha
feito.
Crianças talentosas e empenhadas não eram exatamente aquelas que ela
deveria ajudar.
– Nós temos que retribuir, Katherine – dissera seu pai na noite em que
morreu.
Ela havia considerado trabalhar em uma escola no centro histórico da cidade,
mas essa opção também não aliviara o sentimento de dever. Trabalhar em um
presídio, sim.
Precisava ficar perto de seus temores, perto de homens que não se
importavam muito em burlar a lei, em virar a vida das outras pessoas de cabeça
para baixo sem nunca considerar as consequências.
Precisava se aproximar para entender o que tornava uma pessoa capaz de tal
comportamento. Ela odiava o próprio medo; odiava a raiz dele e sabia que tinha
que encará-lo – mesmo estando apavorada.
Sua terapeuta tinha ficado bastante preocupada com a decisão e perguntava
constantemente se Kat estava feliz com a escolha, se achava que aquilo era
mesmo o certo a fazer e por quê. Chegara a usar as preocupações de sua mãe
para tentar dissuadi-la.
Mas aquela era uma escolha de Kat – e de mais ninguém. E uma vez que a
decisão foi tomada, não havia volta. O que quer que acontecesse, o que quer que
sua mãe dissesse, ela arcaria com as consequências, pois sabia o que aquilo
significaria para seu pai.
O prédio da Arthur Kill, em Staten Island, parecia ter saído diretamente de
um episódio da série Prison Break. Guardas com cães enormes e raivosos
patrulhavam torres de observação altas protegidas por cruéis cercas de arame
farpado.
Kat foi até os portões do estacionamento e esperou pelo policial que estava de
serviço. Depois de pegar a identidade dela, ele desapareceu na sala de controle e
logo retornou, direcionando-a para o edifício sombrio onde ela trabalhava.
Após estacionar, Kat deu uma olhada para a esquerda e viu um grupo grande
de detentos jogando basquete atrás de uma cerca enorme de metal. Com os
macacões verdes amarrados na cintura, seus peitos cobertos de suor brilhavam
sob o sol quente do verão. A caminhada do carro até o edifício parecia de
quilômetros, ainda mais ao som dos assobios e as cantadas que vinham da quadra
de basquete.
Ela apressou o passo e agarrou a maçaneta da porta gigantesca como se fosse
uma tábua de salvação. Lá dentro, foi recepcionada por um risinho baixo. Kat
ergueu os olhos e viu Anthony Ward, o narcisista diretor da penitenciária.
Ward tinha seus 30 e tantos anos e um rosto redondo e jovial. Os cabelos
estavam penteados com tanto gel que devia estar sufocando os fios. Ele fitou Kat
com seus olhos cinza-escuros e um sorriso rápido que revelou uma covinha funda
em sua bochecha esquerda.
– Srta. Lane – disse ele, estendendo a mão.
Kat a ignorou e tentou se recompor passando a mão pela saia grafite na altura
dos joelhos.
– Sr. Ward.
Retirando a mão com um aceno de rosto envergonhado, ele ficou muito
ereto, na tentativa de parecer mais alto. Kat percebeu que ele fazia isso com
frequência, principalmente perto dos detentos.
Não funcionava. O pobre homem tinha nascido atarracado.
– Então – começou ele. – Como está? Se adaptando bem?
Kat sorriu.
– Sim. Acho que sim.
As aulas dela tinham sido bem tranquilas até então. E seus alunos haviam
parado de usar palavrões como se fossem vírgulas ao falar com ela.
Ward ajustou a gravata.
– Ótimo. Bem, não se esqueça de que vou assistir à sua aula esta manhã. E, se
precisar de alguma coisa, é só vir falar comigo.
– Farei isso. Obrigada.
Ela passou por ele, ignorando a maneira como seus olhos se fixaram em seus
seios. As tendências lascivas e a inabilidade de Ward de enxergar os detentos
como qualquer outra coisa que não lixo a irritavam. Ele não acreditava que os
presos pudessem se aprimorar enquanto estavam encarcerados, e isso fazia com
que a função de Kat ali parecesse inútil. Como resultado, ela o evitava o máximo
que podia.
Quando Kat entrou na sala de aula, ficou agradecida pela brisa gelada do arcondicionado. O
restante do presídio parecia uma sauna. Prendendo os cabelos num coque, ela
se virou quando sua assistente, Rachel, entrou, parecendo ansiosa.
Ela bufou por entre os lábios manchados de vermelho-cereja.
– Jesus, está quente como o inferno hoje – reclamou Rachel, puxando e
soltando a camiseta em uma tentativa inútil de se refrescar.
Rachel tinha sido sua salvadora desde o começo. Especializada em dar
assistência aos detentos com dificuldades de aprendizado, ela ajudara Kat a
conhecer seus alunos rapidamente – em especial Riley Moore, um grandalhão de
personalidade excêntrica que sofria de uma dislexia terrível. Não que isso o
tivesse impedido de se formar em Administração pela Universidade de Nova
York.
Riley era um de seus alunos preferidos. Preso por vender peças de
automóveis roubados, sua estatura de 1,90 metro e os ombros largos botariam
Atlas no chinelo. Ele era engraçado e flertava descaradamente com as duas
jovens. Ao contrário de Ward, contudo, Riley era charmoso e proferia cada
palavra com certa ironia. Era difícil não se encantar com as insinuações
implacáveis, porém inofensivas, que vinham do dono daqueles alegres olhos cor
de mel e rosto barbudo angelical.
Havia outros quatro alunos na sala; todos se mostravam muito empenhados e
tentavam se manter na linha. Kat tinha bastante orgulho de como havia
conseguido discipliná-los. O progresso deles era fantástico.
Dois minutos depois das nove, a voz estrondosa de Riley quebrou o silêncio.
Kat sorriu quando se virou para olhar para ele, acompanhado por um guarda e
seguido dos outros alunos.
– Srta. L! – gritou ele, erguendo a mão para bater na dela. – Bom fim de
semana?
– Foi ótimo, Riley. Obrigada. E o seu?
– Ah, você sabe. – Ele deu de ombros. – Causando confusão aqui e ali,
fazendo os cabelos do Ward caírem mais a cada dia.
Kat reprimiu o riso enquanto Ward entrava na sala com os outros alunos:
Sam, Jason, Shaun e Corey. Jason sorriu meigamente por debaixo dos cabelos
castanhos desgrenhados, enquanto Corey e Shaun ergueram o queixo como
forma de cumprimento. Sam correu até sua carteira e se sentou sem lhe fazer
nenhum gesto. No começo, isso deixava Kat chateada, mas agora ela aceitava
aquilo como parte da rotina que eles tinham construído. Uma rotina que, como
Rachel havia explicado, era de extrema importância para os homens da Arthur
Kill. Para muitos deles, uma programação era tudo o que tinham para se manter
sãos. Ignorando Ward no fundo da sala, Kat deu início à aula, revisando a anterior
e pedindo aos homens que descrevessem seus lugares favoritos usando metáforas
e personificações. Eles começaram a escrever em silêncio.
– Muito bem – disse ela, chamando a atenção da classe de volta para si. –
Quem é o corajoso que vai ler a redação em voz al...
A porta da sala foi aberta com tanta força que esmurrou a parede. Um
guarda irritado, ofegante, olhou para Ward, que se levantou na hora.
– Desculpe interromper, senhor – arfou o guarda. – Mas temos uma situação
na sala seis.
– Quem? – ralhou Ward, atravessando a sala furioso.
– Carter, senhor.
Os olhos de Ward se estreitaram e sua boca se comprimiu em uma linha fina.
Quando a porta bateu atrás dele e do guarda, Kat deu uma olhada em torno da
sala.
– Carter? – perguntou ela.
Riley riu alto, imediatamente eliminando a tensão que Ward sempre deixava
em seu rastro.
– Carter. Caramba. Esse menino não muda nem fodendo.