Céu nublado e garoa fina. Dezenove graus no verão de Campos do Jordão,
São Paulo, Brasil. A baixa temporada na cidade turística é o pior período
para a economia local e isso Aislan Albuquerque sente na pele. Dono de
uma das mais populares redes de hotelaria, Aislan com os seus 38 anos,
tendo 15 deles dedicado a presidência do Hotel Camp Jordan, se vê perdido
diante aos tantos percalços financeiros, sociais e pessoais...
- Senhor Aislan! Júlio Alcântara está na linha - fala a secretária já
entrando.
- Carla! Primeiramente bata na porta antes de entrar e segundo... Eu já
exigi que marque horários para eu atender ligações seja de quem for.
- Inclusive da mãe dele. -
completa Henrique.
Henrique Ferraz, com os seus 37 anos é sócio e melhor amigo de Aislan.
Amizade essa que vem da infância. Após terminarem a faculdade e estando
ambos sem rumo, eles decidiram apostar no ramo de hotelaria e com poucos
anos trabalhando na gerência da rede mais popular da cidade na época, eles
conseguiram construir o primeiro hotel Camp Jordan. Hoje, quinze anos
depois, está sendo construída a segunda pousada no litoral catarinense que
levam o mesmo nome. As pousadas são gerenciadas por Henrique, homem
aventureiro e que, ao contrário de Aislan, adora praia e calor. Por assim ser,
Aislan gerencia o hotel em Campos do Jordão e sabendo que nessa época o
amigo falta enlouquecer e também endoidar os funcionários, Henrique todos
os anos volta à cidade para ajudar o sócio e garantir que ele não demita a
metade deles... Como Ana, por exemplo.
- Primeiramente o meu nome é Ana, senhor e segundo que é a sétima vez
que o senhor Alcântara tenta lhe contatar, - insiste ela tentando explicar.
- Inventa uma desculpa e diga que eu retornarei a ligação assim que
possível.
- Ele está aguardando esse retorno há cinco dias, senhor.
Ana, a secretária. Trinta e três anos de pura bondade, sabedoria e paciência.
Bom! A sua paciência está sendo aos poucos abalada, coitada. Há cerca de
oito anos Ana passa por maus bocados na mão do chefe metido a magnata e
ela só suporta as humilhações por extrema necessidade. Recém-casada, ela
precisa ajudar o marido a quitar a casa própria e os gastos com a reforma e
as mobílias da casa nova. Isso até o marido ser promovido a gerente do hotel
concorrente e ela poder pedir demissão. A melhor época do ano para ela é
no verão, quando, como agora, Henrique toma as rédeas do hotel e ameniza a
pressão.
- Diga que em cinco minutos eu retornarei a ligação, Ana. Pode se
retirar e obrigado.
- Sim, senhor Henrique! Eu quem agradeço. Com licença!
Assim que Ana fecha a porta, Aislan fecha a pasta ao qual fingia analisar e
relaxa o corpo na luxuosa ⁹cadeira presidencial.
- Deus! Eu vou enlouquecer!
- Você clamando por Deus, Aislan?
- Força do hábito! Cara, tá foda!
- Como todos os outros verões. Relaxa sócio e meu amigo. Sempre
sobrevivemos às baixas temporadas e esse ano não será diferente.
- Eu sei, eu sei, mas o problema é que esse ano não é apenas a baixa
temporada que me preocupa. A Bruna vai se casar e a dona Rute resolveu
que vai aproveitar o embalo e vai se casar novamente. De novo cara, de
novo.
- Deixa a sua mãe ser feliz. O último casamento lhe causou muito
sofrimento e creio eu que até mais do que com o seu pai. Ela está
tentando... Você deveria tentar também.
- Eu? Euzinho me casar? Deus me livre! Dispenso o teu conselho.
- Clamou a Deus de novo.
- Dane-se! Já falei que é força do hábito. Preciso desenhar?
- Ok! Ok! Tá certo! Não está mais aqui quem falou.
- Obrigado!
- Relaxa parceiro. Toma aqui!
Henrique retira um carnê do bolso de dentro do paletó e oferece a Aislan
que toma o segundo gole do uísque importado antes de tomar o carnê em
mãos.
- O que é isso? A quebra do contrato?
- Você só pode estar enlouquecendo mesmo.
- Não! Isso é uma passagem de ida e volta para Natal, Rio Grande do
Norte!
- Presente antecipado de casamento para a minha irmã?
- Não! Presente de férias para você!
- Querido Henrique. Pelo fato de nos conhecermos desde crianças, de
termos estudado e crescermos juntos, termos criado uma rede de hotelaria
e de nos falarmos todo santo dia, eu creio que você saiba que eu odeio
praia e principalmente... Calor.
- Querido Aislan. Pelo fato de nos conhecermos desde crianças, de
termos estudado e crescermos juntos, termos criado uma rede de hotelaria
e de nos falarmos todo santo dia, eu tenho a absoluta certeza de que você
precisa viver coisas novas, sair desse mundinho e experimentar novos
horizontes.
- Bobagem!
- Bobagem é você ficar aqui nesse escritório trancado assinando cartas
de demissões. Bora! Levanta a bunda daí e vá para casa arrumar as malas.
Seu voo está marcado para amanhã às nove.
- Filho da...
- Ei! Me respeita e respeita a minha mãe. Você vai ficar na casa da
Manu. Ela já providenciou a limpeza da casa, as compras e tudo o que
você vai precisar para essa semana. A passagem de volta está marcada
para segunda-feira às vinte e duas horas.
- Por falar nisso, como ela está? Como vocês estão?
- Bem! Estamos bem! Ela está super empolgada com o término da
faculdade e ainda mais com o desafio de cuidar "sozinha" das pousadas.
Eu confio na competência e habilidade dela. Ela vai se dar bem.
- Eu também acredito que sim, mas vocês não vão completar quatro anos
de casados nesta semana?
- Cinco anos e sim, mas como eu disse ela está tão empolgada para
exercer o seu primeiro trabalho como dona do negócio que aceitou deixar
para comemorarmos quando eu retornar. Fizemos uma festinha para
comemorar o término da faculdade e isso já a deixou feliz.
- Eu acho isso estranho. Você poderia ter adiado essas viagens. Não será
fácil uma novata lidar com a alta temporada na pousada.
- Mulheres! Você sabe como são teimosas.
- E eu também sou. Agradeço a sua preocupação quanto a mim, mas eu
vou negar o seu presente.
- De maneira alguma. Depois de tanto trabalho? A Manu vai te odiar se
você não for.
- Que merda!
- Cara, para de reclamar! Vai curtir a vida.
- Curtir o que sozinho? É claro que eu levaria o Skoob, mas se for para
ficar trancado em casa com o meu cachorro eu fico no meu apartamento
mesmo.
- Meu! Natal! Verão! Alta temporada! Mulheres! Você só vai ficar sozinho
se quiser.
- Odeio o verão!
- E eu não sei como os seus funcionários te suportam.
- Eu não sou tão ruim assim. Até dei um presente de casamento para a
Cláudia.
Ana bate na porta e gentilmente Henrique a manda entrar.
- Senhor, só para lembrar que já se passaram os cinco minutos. E senhor
Aislan, o meu nome é Ana. Ana!
- Pode fazer a ligação... E Ana, o Aislan me contou que te deu um
presente de casamento. Posso saber que presente foi esse?
- Sim! Ele nos deu um faqueiro de 48 peças no valor de R$ 800,00, muito
chique. Quer dizer, chique demais. Eu nem sei quando vou usá-lo, talvez
no Natal, talvez. Eu não sei. A minha família é muito simples e até que eu
queria dar uma big festa lá em casa para comemorar o casamento, mas
não estamos em condições financeiras... Então eu vou deixar guardado...
Quem sabe um dia...
- Não reclama! Cavalo dado não se olha os dentes e se não tem utilidade
pode vender.
- Não senhor Aislan. Eu não vou vender. Presentes são presentes e
presentes não se vendem, nem se doam... Não se jogam fora...
- Exatamente! E presentes não podem ser negados. Levanta essa bunda
daí e aceita o meu presente. Vamos! Eu tenho negócios a tratar. Ana pode
fazer a ligação. Mais uma vez, obrigado.
- Sim senhor e disponha. Com licença.
Ana se retira. Aislan, sem saída, levanta-se dando o lugar para o seu sócio e
não encontrando mais argumentos, junta os seus pertences enquanto Henrique
atende o senhor Alcântara. Antes de sair da sala, Aislan dá um beijo na
cabeça de Henrique que pede um minuto para o senhor Alcântara e tapa a
saída de áudio do telefone.
- Vai nessa, irmão! Divirta-se! E ah... Eu deixei um presente lá pra você.
- Até imagino o que seja, mas eu vou deixar para agradecer depois que
eu voltar. Até mais, irmão e você vai me pagar por isso.
- Faço questão de pagar para ver. Boa viagem!
Sábado. Nove e quarenta e cinco da manhã o jato particular da empresa
Camp Jordan pousa no Aeroporto Internacional do Rio Grande do Norte.
Aislan desembarca na companhia de Skoob, seu cão gigante da raça
Dobermann. Pelo preto brilhoso e macio de seu pelo bem aparado e pelo seu
porte imponente, vemos que o cão recebe cuidados tão minudentes quanto o
dono. Aislan é um cara vaidoso... Muito vaidoso, por sinal. Ele é aquele tipo
de homem que não abre mão de exercícios físicos diários. Tem horários
semanais marcados em spas, barbearia e manicure. Sim! Ele não nega que
pinta as unhas, com base, claro, além de tingir os cabelos regularmente. Os
fios brancos não têm vez naquela cabecinha oca... E pensem em um homem
cheiroso. É claro que quem o vê não nega que Aislan seja um partidão... Só
que é chato, muito chato, enfim... Como o Henrique pensou em tudo, ele
alugou um carro esportivo para que Aislan pudesse passear à vontade pela
cidade. Na saída do aeroporto o carro lhe é entregue por um funcionário e
assim se inicia as férias de Aislan que mesmo admirando a beleza da cidade,
não está nada empolgado. Para piorar, o GPS lhe leva para o endereço
errado e o que era para ser uma viagem de uma hora e quinze minutos até a
cidade de Touros, se torna um verdadeiro tour do pesadelo e irritabilidade.
Cerca de uma hora e meia depois, Aislan, enfim, encontra a famosa casa do
lago que recebe esse nome carinhoso tanto em homenagem ao famoso filme,
quanto por ter sido construída às margens da Lagoa do Boqueirão na Região
de Mato Grande. Um lugar tranquilo, exceto no verão por atrair turistas e
visitantes locais, com uma vista esplêndida, pouquíssimos vizinhos e de
extrema paz e isso Aislan sente assim que desce do carro. Skoob não perde
tempo e mergulha na lagoa, assustando assim as crianças e turistas ali
presentes. Aislan pede para que todos tenham calma dizendo que o cão é
adestrado e que é extremamente manso. Realmente ele não mentiu. Skoob,
apesar do tamanho, é dócil e brincalhão. As crianças mais corajosas
arriscam uma aproximação e logo o cachorro conquista a todos, que voltam a
se banhar e a brincar com ele.
Vendo que seu o parceiro fez amizade e confiando que ele não irá atacar
ninguém, Aislan retira a mala do carro e se dirige para a varanda ao fundo
da casa. Ao destrancar a porta ele repara que uma mulher está na varanda da
casa ao lado, com uma feição nada agradável, observando o Skoob. Ao
perceber que está sendo observada, a mulher crava o seu olhar no dele e
solta um meio sorriso ao acenar dando boas vindas. Aislan acena
respondendo a hospitalidade, mas o primeiro pensamento que lhe vem à
cabeça é de que aquela mulher, mesmo linda e aparentemente gentil, não está
feliz com a sua presença e muito menos com a presença de Skoob.
Mandando, mentalmente, ela ir à merda e tudo o que já acontecera até ali,
Aislan adentra a casa, deixa a mala na cozinha e saí abrindo todas as janelas.
De volta à cozinha ele pega uma garrafa de cerveja na geladeira e respira
fundo após tomar o primeiro gole e lá está a vizinha na janela da cozinha da
casa ao lado, lhe observando. A primeira reação de Aislan é se aproximar
da janela e fechar as cortinas. Mais uma inspiração profunda de ar e ele se
dirige a sala onde liga o som e degusta mais goles de cerveja. Admirando a
paisagem pela janela e dando uma checada se tudo corre bem entre seu cão e
as crianças na lagoa, outra vez ele percebe que a vizinha está a lhe observar
pela janela da sala. Por instinto, a sua reação é a mesma de outra hora,
fechar as cortinas, mas agora ele se demora e por cerca de alguns segundos,
fita os olhos azuis desviando dos seus na tentativa de um disfarce mal
sucedido. Aquela mulher vira de costas curvando o corpo para acariciar um
cachorro que sabe Deus de onde surgiu. Aislan admira o belo corpo da
vizinha intrometida tendo pensamentos pervertidos...
- É vizinha! O que você tem de estranha e introsca, você tem de gostosa.
Magrela, mas gostosa.
Pensa ele enquanto a segue com o olhar até perdê-la de vista. Ela usa um
vestido florido vermelho dando um realce em sua pele branca. Seus seios
são pequenos proporcionais ao seu corpo miúdo e de estatura que não passa
de 1,68 m. Parece uma daquelas adolescentes chefes de torcida. As pontas
do cabelo castanho tocam os bicos dos seus seios, assim como a curta franja
tocam suas sobrancelhas, salientando ainda mais o azul piscina de seus olhos
que, de repente, voltam a fitar os olhos verdes de Aislan. Lá está ela outra
vez o assustando como uma assombração. Instantemente ele fecha as
cortinas.
- Saí pra lá bonequinha de porcelana do mal. Vai assombrar outro, eu
não. Já vi que essas férias prometem. Prometem muita raiva e sessões de
terror.
Skoob entra molhando todo o piso da casa e ainda faz questão de chacoalhar
o corpo se livrando do excesso de água.
- Não, Skoob. Não! Olha aí! Molhou todo o chão. Mas que merda! Estou
falando... Estou falando.
Skoob tenta se encolher como que pedindo desculpas, mas sendo um
cachorro daquele tamanho, a impressão que dá é que ele está se preparando
para saltar... E o faz quando Aislan se arrepende de ter gritado e lhe pede
desculpas. O cão por pouco não o derruba, mesmo o dono tendo 1,89, braços
fortes, bem trabalhados e musculosos...
Um grandalhão de pele clara levemente bronzeada. Os braços e tórax bem
definidos... A barriga tanquinho... O peitoral harmonioso chama a atenção
mesmo que ele esteja vestido com terno e gravata... Vê-se ao longe... Assim
como as partes baixas. Pernas saradas, bumbum empinado, coxas grossas,
batatas suculentas, enfim... Aislan é todo uma delicinha em forma de homem.
Seus cabelos são de um tom castanho claro com loiro em um corte curto,
com os fios desfiados e desalinhados dando um ar desleixado ao look do
nosso amigo, mas que ao mesmo tempo o deixa maravilhosamente elegante.
Ah vocês devem estar se perguntando como ele tem a pele bronzeada se vive
em uma cidade fria? Mas, ele é a vaidade em pessoa, certo? Sim! E o belo
faz sessões periódicas de bronzeamento artificial. O Henrique fica puto com
isso. Como um cara que se cuida ao extremo fica fazendo exercícios físicos
diários, que é rigoroso quanto a sua alimentação e um cara que diz se
preocupar com a saúde, se expõe desse jeito a um perigo iminente que um
câncer de pele pode causar? Esse foi mais um dos motivos de o Henrique
manda-lo para Natal. Se ele acabar gostando de praia e calor, nos próximos
meses o seu bronzeamento será natural, tomando os cuidados necessários,
longe de riscos. Vamos torcer para que sim. Vamos torcer para que ele se
apaixone pelo verão...
Após secar todo o chão por onde Skoob passou, Aislan tratou de
descarregar a bagagem do carro, alimentou o dog, guardou suas roupas e
pertences nos armários e aí se deparou com o presente deixado por
Henrique. Com um sorriso irônico ele coça a cabeça não acreditando no que
o amigo lhe comprou. Ao se ver livre de suas tarefas, Aislan decidiu
almoçar em um dos quiosques. A sua vontade era de almoçar a beira mar,
mas dirigir depois de uma manhã tensa e cansativa não estava mais em seus
planos. Skoob voltou a brincar com as crianças na lagoa, enquanto o saradão
se deliciava com uma bela porção de feijão verde, prato típico do estado e
nem preciso dizer, né? Foi amor à primeira vista e com direito a um:
"Garçom! Traga mais uma porção, por favor.".
Tudo corre bem e por aquele momento Aislan aproveita para absorver a paz
que lhe invade, mesmo sofrendo com os 28° à sombra. A alegria das pessoas
ali presentes é contagiante. Crianças e seus familiares se divertem em
companhia do Skoob na lagoa. Alguns jovens escutam músicas e bebem no
outro extremo da lagoa. Nos quiosques, casais se entreolham apaixonados
durante o almoço. Em outras mesas, amigos contam piadas de bêbados, por
já estarem embriagados.
Mesmo com a alta temperatura o vento bate brando e suave, refrescante.
Literalmente, Aislan está em paz e satisfeito, surpreendendo a si mesmo.
Durante o voo ele refletiu em sobre realmente precisar daquela viagem, que
ela lhe faria bem, mas em momento algum imaginou que a transformação
aconteceria logo no primeiro dia. Após o almoço ele se permitiu tirar uma
soneca na rede armada na varanda da casa. Um repouso desejado... Um sono
tranquilo... Até que por volta das sete da noite, o seu sono é interrompido
por gritaria, latidos e miados...
- Finn! Finn! Volta aqui! Finn... - chamava em meio às lágrimas.
Só deu tempo de Aislan abrir os olhos e ver um corpo pequeno se perder em
meio à mata às margens da lagoa. Skoob não para de latir, assim como um
cão peludo que está ao lado da vizinha debutante da High School Music que
não para de gritar. Alguns quiosques já fecharam. Os visitantes já se
retiraram e a noite está linda, ou melhor, era para estar...
- Finn! Finn!... A culpa é sua! - grita ela desesperada.
Lá vem a Sharpay Evans com o sangue nos olhos em direção ao belo
adormecido que se levanta tentando entender o que está acontecendo. Bom!
Deixe que a vizinha explique.
- A culpa é toda sua! - ela o acusou mais uma vez.
- Desculpa senhorita, mas se não percebeu eu estava dormindo. Por
acaso cometi algum crime durante uma crise de sonambulismo? - fez
graça.
- O seu cachorro quase matou o meu gato e agora o Finn fugiu. Fugiu!
Você tem noção do que isso significa?
- Significa que o seu gato simplesmente se assustou, mas relaxa. Assim
que eu colocar o Skoob para dentro de casa o seu gato vai voltar e tudo
ficará bem. Agora a senhorita pode parar de gritar?
- Eu não estou gritando e tudo só ficará bem quando o meu gato estiver
em meus braços.
- Se quer um corpo em seus braços eu posso resolver esse problema.
- Como é que é? Estou vendo que eu serei obrigada a ir embora mais
cedo do que planejei. Seu atrevido...
- Sinta-se a vontade!
- Você é um ogro! Não! Não! Até o Shrek é mais gentil e educado do que
você. Escroto!
E assim vai a vizinha de volta às margens do rio a procura do seu gato.
Nosso ogro apenas ri. Ri da situação, ri da conversa e ri principalmente da
imponência. "Só que não". Da vizinha irritante e histérica. Aislan prefere
não colocar mais lenha na fogueira e chama Skoob que ainda está na
competição de quem late mais com a cadela da raça Bernese à beira da
lagoa. Cadela e não o cachorro da vizinha que ele vira hora antes.
- Era só o que me faltava... Uma cadela... Que você não esteja no cio,
mocinha... Skoob! Vamos! Pra dentro. Agora, rapaz. Vamos, vamos!
Skoob obedece e adentra a casa enquanto a cadela se cala, mas o segue até a
varanda abanando o rabo. Aislan até que a acha bonitinha e se atreve a
acaricia-la, mas não por muito tempo. A vizinha está possessa e não admite
que um idiota daqueles, toque em sua doce cachorrinha.
- Luna! Já pra casa. Não vê que você está se contaminando?
- Haha! Boa noite pra você também.
Ela não responde e sai irritada, parando na varanda a morena balança os
ombros e sacode os cabelos pretos.
Aislan procura não se exaltar. A cadela se afasta e ele entra fechando a
porta. Mesmo já tendo anoitecido o calor prevalece. Nenhum sinal de vento.
As cortinas nem se mexem obrigando Aislan a abrir uma por uma e sair
ligando os ventiladores de teto por toda a casa. Um arrepio lhe percorre o
corpo e surge a impressão de que ele está sendo observado. Um estalo vindo
do telhado o assusta. Seu cachorro dorme no sofá da sala de TV e parece não
ter ouvido nada. A sensação de estar sendo observado preocupa Aislan e ele
anda pela casa olhando para o teto esperando ouvir algum barulho
novamente. Nessa, ele bate o joelho em uma das cadeiras e seu grito de dor
acorda Skoob e também a Luna que começa a latir na casa ao lado. Na casa
ao lado onde a vizinha está na janela da cozinha rindo dele. Furioso, Aislan
apaga a luz, pega uma cerveja e vai mancando para a sala. Ao passar por um
dos quartos ele vê o vulto da vizinha caminhando também. Ele chega à sala e
ela adentra a sala da casa dela que também está com todas as janelas
abertas.
- Qual é dessa mulher? Parece uma assombração... Mas que se dane. Eu
não vou fechar cortina por causa dela e muito menos passar nervoso. Um
joguinho de futebol pra relaxar, cerveja gelada e tá tudo certo - diz ele
enquanto se estica no outro sofá frente à TV e de costas para a janela.
A cerveja acaba, ele se levanta, vai ao banheiro, volta à cozinha e pega mais
uma cerveja. As luzes da cozinha da casa ao lado estão apagadas. As do
quarto também, assim como as da sala onde só se vê o brilho da tela de um
notebook onde a vizinha digita algo e logo o encara. Aislan disfarça e volta a
se deitar. A cerveja acaba, bate a fome e nosso amigo retorna a cozinha para
preparar um lanchinho leve. Água na chaleira posta para ferver e mais uma
cerveja gelada e refrescante. Ainda com a porta da geladeira aberta ele
retira dois tomates e uma cebola e os coloca na pia. Um gole na cerveja, uma
procura rápida pela tábua de carne no armário abaixo da cozinha. O levantar
e outro susto. A vizinha lhe observando outra vez, descaradamente. Ela está
sentada por trás da bancada tomando o que parece uma sopa.
- Agora deu! Além de estranha é maluca. Quem toma sopa num calor
desses? - resmunga.
Aislan! Para de implicar! Deve ser sopa fria, você mesmo toma de vez em
quando... - pensou consigo mesmo, - E não é nada anormal, mas
anormal é ela ficar ali prestando atenção em tudo o que faço. Quer
saber? Deixa ela ver.
E assim ele tenta dar continuidade aos seus afazeres sem se irritar. A água
ferve. No armário ao lado da geladeira ela pega os pacotinhos de quino-a e
castanhas. Com uma xícara ele mede porções da quino-a e os coloca na
panela jogando em seguida a água fervente. Enquanto cozinha, ele pica os
legumes e as castanhas e entre um gesto e outro olha de relance para a
vizinha que ainda está ali, disfarçando com manuseios do celular.
- Acha que eu sou bobo é? Essa mulherzinha está me irritando.
Skoob desperta e, confuso, senta perto da pia não entendendo o que o dono
está a dizer.
- Skoob, essa mulher é maluquinha. Evita chegar perto dela está bem?
Bom garoto.
As quino-as estão cozidas. Aislan coloca a panela por cima de um pano
molhado sobre a pia para que esfriem mais rápido. Ouvem-se batidas e
passos no telhado. Um som baixo e abafado. Aislan se assusta e novamente
saí andando pela casa olhando para o teto. Skoob late e o som para.
- Mas que merda é essa? Fica quieto, Skoob. Shiii!
Ao percorrer toda a casa e não ouvindo mais os barulhos ele retorna à
cozinha.
- Que merda será essa hein Skoob? Pássaros? Só pode. A Manu também
não têm juízo algum. Onde já se viu em plena década de 2020, alguém
construir uma casa com telhado? Isso é tão brega e ultrapassado e ainda
construiu a casa idêntica a da vizinha. Não estou vendo nenhum
condomínio fechado por aqui. Gente maluca.
Se a esposa de Henrique o ouvisse falar assim iria relevar esse comentário
por conta do stress que ele está passando. Não tendo mais paciência para
esperar e já ficando puto com a vizinha que não saí da maldita bancada,
Aislan pega a forma de gelo no freezer e despeja na pia colocando a panela
com as quino-as sobre as pedras. Ele está irritado, quer logo sair dali. Com
a colher de pau ele mexe as quino-as e evita olhar para fora. Cinco minutos
se passam, a raiva o consome e com pressa ele despeja os legumes
reservados sobre as quino-as ainda mornas e tempera de qualquer jeito.
- Ufa! Enfim estão prontas. Quer um bocadinho, Skoob?
O balançar da cabeça para um lado e para o outro meia dúzia de vezes
respondeu a pergunta. Não, o Skoob não quer ração de humano. Pegando uma
colher na gaveta, Aislan olha pra fora. A vizinha não está mais lá.
- Ela saiu, Skoob. Deve ter voltado para a sala. Quer saber? Cansei.
Esses ventiladores quebram o galho. Vou fechar as janelas. Chega de
palhaçada.
Assim ele faz. Com a panela na mão sai fechando todas as janelas. Chegando
à janela da sala, ele comprova a sua suposição. A vizinha está lá, atenta aos
seus movimentos bruscos, por sinal.
Janelas e cortinas fechadas e a paz reina naquele lugar. Jogo de futebol na
TV, lá fora as músicas são encerradas, os quiosques são fechados. Os
bêbados voltam tagarelando para suas casas e o silêncio se faz presente.
Aislan abaixa o volume da TV e aprecia o único som do lugar. O som vindo
da lagoa e da natureza.