Eu, Laura, uma estudante de design com sonhos ambiciosos, mal podia esperar para finalizar meu projeto da bolsa de estudos, minha chance de ouro.
Mas então, uma voz rouca na cafeteria sussurrou um aviso arrepiante: "Cuidado com aqueles que você chama de amigos."
Eu ri, claro. Minha mente lógica não tinha tempo para bobagens, especialmente com Lucas, meu melhor amigo, e Sofia, minha confidente, ao meu lado.
Eles me elogiaram, me apoiaram, me deram confiança.
Até que, numa noite, precisei ir ao apartamento de Lucas. A porta rangeu, abri. E ouvi as risadas de Lucas e Sofia, zombando de mim, planejando roubar meu trabalho e me transformar na "garota quebrada e dependente" que Lucas tanto queria.
O chão sumiu sob meus pés. A traição não era uma faca, era um abismo.
Eu não era uma vítima. Eu era uma designer. E eu não ia deixar que eles roubassem meu futuro.
Com o coração partido e uma fúria fria, plantei a primeira semente da minha vingança: o pingente que Lucas me deu, agora o amuleto da sorte de Sofia, seria a garantia de que a dor de vocês seria a minha força.
Eles riram da minha humilhação pública, da minha exclusão do projeto.
Eles me viram sem emprego, sem dinheiro, até com o tornozelo torcido.
A cada golpe, a semente da vingança crescia. "É o estresse", eles diziam, enquanto eu me afundava na escuridão.
Mas quando a humilhação escalou para a farmácia, com Sofia exibindo meu fracasso e Lucas me chamando de "cena", tudo ganhou uma nova dimensão.
Minha mãe, no telefone, viu tudo, ouviu tudo. E desabou.
Aquilo não era mais um jogo acadêmico. Era sobre sangue. Minha mãe, no hospital, me deu a clareza para a guerra que eu começaria.
No dia da premiação da bolsa, Sofia sorria no palco, segurando o certificado que achava ser seu.
No entanto, eu, Laura, com a voz firme, pedi a verificação da marca d' água digital. O telão brilhou com meu nome.
O rosto de Sofia se retorceu, a farsa desmoronou. Lucas, pálido, tentou calá-la, mas a confissão involuntária dela, a revelação sobre o pingente de Lucas, rasgou a máscara de vez.
Aquele era o meu pingente. O que Lucas me deu no passado para me aprisionar. Era um feitiço parasita, que estava drenando a minha vida.
Minha saúde piorava, as dores, a fraqueza. Até Lucas, o "mestre" das artimanhas, começou a sentir os efeitos de seu próprio veneno.
Ele estava desesperado para me curar, não por mim, mas para me manter como sua fonte de energia.
A verdade explodiu: o feitiço havia se confundido e começou a voltar para eles, mas como eu era o alvo original, ele estava me consumindo mais rápido. Eu não iria morrer. A velha havia me dito o que fazer.
Encontrei Sofia, peguei o pingente, e fiz o feitiço reverter.
Lucas definhava no hospital, uma casca vazia. Sofia colhia as próprias consequências. E eu. Eu estava livre.
Aquela seria a minha vida. Forte, livre e independente.
A voz da velha era baixa e rouca, quase um sussurro no meio do barulho da cafeteria quase vazia.
"Cuidado com aqueles que você chama de amigos, minha querida."
Eu levantei o olhar do meu caderno de desenhos, irritada pela interrupção. Uma senhora com o rosto cheio de rugas me encarava do outro lado da pequena mesa, seus olhos eram escuros e difíceis de ler. Eu só tinha sentado ali porque era a única mesa perto da tomada.
"Desculpe, a senhora está falando comigo?"
"A traição vem de onde menos se espera," ela continuou, ignorando minha pergunta. "Do amigo de infância que te oferece o mundo, da amiga íntima que sorri no seu rosto."
Um calafrio percorreu minha espinha, mas eu o ignorei. Eu era Laura, uma estudante de design, uma pessoa lógica. Não tinha tempo para profecias malucas de estranhos.
"Acho que a senhora me confundiu com outra pessoa," eu disse, forçando um sorriso educado e me virando de volta para o meu trabalho.
Eu estava finalizando os últimos detalhes do meu projeto para a bolsa de estudos de design mais prestigiada do país. Era a minha chance de ouro, e eu não ia deixar nada me distrair.
Mais tarde naquela noite, mostrei os rascunhos para Lucas, meu melhor amigo desde que éramos crianças. Nós crescemos juntos, nossas famílias eram vizinhas. Ele era a pessoa em quem eu mais confiava no mundo.
"Laura, isso está incrível!" ele disse, seus olhos brilhando de admiração enquanto folheava meu portfólio. "Você vai ganhar, não tenho a menor dúvida. Você é a pessoa mais talentosa que eu conheço."
Suas palavras eram um bálsamo. Ele sempre sabia o que dizer para me acalmar e me dar confiança. Eu sorri, agradecida.
"E a Sofia? O que você acha do projeto dela?" perguntei. Sofia era minha amiga mais próxima na faculdade, e nós três formávamos um trio inseparável.
"O da Sofia é bom," Lucas disse, com uma leve hesitação, "mas o seu tem alma. É diferente."
A conversa com a velha na cafeteria voltou à minha mente, mas eu a afastei. Era ridículo. Lucas e Sofia eram minha família.
No dia seguinte, a mesma senhora me encontrou na saída da universidade. Ela agarrou meu braço com uma força surpreendente.
"O pingente que você usa," ela sussurrou, seu olhar fixo no colar em meu pescoço. Era um presente de aniversário de Lucas, de anos atrás. "Ele carrega mais do que memórias. Não o dê a ninguém. Mas se a dor se tornar insuportável, saiba que o que é seu pode ser devolvido ao verdadeiro dono."
Ela me soltou e desapareceu na multidão antes que eu pudesse responder. Fiquei parada, o coração batendo rápido. Aquele aviso tinha sido específico demais. Perturbador demais.
Uma dúvida minúscula, como uma semente, foi plantada na minha mente. Lembrei-me de uma vez, no semestre passado, quando uma ideia de design que eu tinha confidenciado apenas a Sofia apareceu, com pequenas modificações, no projeto dela. Quando a confrontei, ela chorou e disse que foi uma coincidência infeliz. Lucas interveio, me acalmou e disse que eu estava sendo paranoica por causa da pressão. Eu acreditei nele. Eu sempre acreditava.
Naquela noite, eu precisava devolver um livro de referência raro que Lucas havia me emprestado. Mandei uma mensagem, mas ele não respondeu. Como eu tinha a chave do apartamento dele, decidi passar lá e apenas deixar o livro na entrada.
A porta rangeu um pouco quando a abri. A luz da sala estava acesa. E então, eu ouvi vozes. A voz de Lucas e a de Sofia.
"Ela não suspeita de nada," Lucas dizia, com um tom divertido que eu nunca tinha ouvido antes. "Ela realmente acredita que eu estou do lado dela. Mostrou-me todo o projeto final. Já passei todos os detalhes para você."
Meu sangue gelou. Fiquei paralisada atrás da porta, mal respirando.
"E se ela descobrir?" a voz de Sofia soava ansiosa. "Laura não é idiota."
"Não se preocupe," Lucas riu. "Eu conheço a Laura melhor do que ela mesma. Quando os resultados saírem e ela perder, ela vai ficar arrasada. E quem vai estar lá para consolá-la? Eu. Ela vai ficar tão quebrada, tão dependente de mim, que nunca mais vai pensar em ir para o exterior ou em ter uma carreira. Ela vai ser minha. Só minha."
O ar escapou dos meus pulmões. O som no meu peito não era de um coração batendo, mas de algo se quebrando em mil pedaços. A traição não era uma faca nas costas, era o chão desaparecendo sob meus pés. Meu melhor amigo, meu irmão de alma, e minha amiga mais querida, haviam conspirado para destruir meu sonho, para me quebrar.
"Você pegou os arquivos digitais dela?" Sofia perguntou.
"Sim. Ela confia em mim o suficiente para me dar a senha do computador dela. Já está tudo no seu pen drive. Apenas mude algumas cores, a disposição dos elementos... Ninguém vai notar. O conceito principal, que é a parte genial, será seu."
Eu me afastei da porta, cambaleando para trás, com a mão na boca para abafar um soluço. O livro caiu da minha mão, fazendo um barulho surdo no corredor. Eu não esperei para ver se eles ouviram. Eu corri.
Corri sem rumo pelas ruas escuras, as lágrimas cegando minha visão. A dor era física, uma pressão esmagadora no meu peito. As palavras da velha ecoavam na minha cabeça: "Cuidado com aqueles que você chama de amigos." "O que é seu pode ser devolvido ao verdadeiro dono."
Desespero e uma fúria gelada começaram a tomar conta de mim. Eles não iam vencer. Eles não iam me destruir.
Parei sob um poste de luz, ofegante. Minha mão foi instintivamente para o colar no meu pescoço. O pingente de Lucas. "Ele carrega mais do que memórias."
Uma ideia desesperada, nascida da dor e da raiva, tomou forma na minha mente. Um plano.
No dia seguinte, encontrei Sofia na biblioteca. Meus olhos estavam vermelhos e inchados, e eu forcei uma expressão de desamparo.
"Sofia, eu preciso de ajuda," murmurei, a voz trêmula. "Estou tão sobrecarregada, acho que não vou conseguir terminar o projeto a tempo."
Ela me ofereceu um abraço, um gesto que agora me causava repulsa. Enquanto ela me confortava com palavras vazias e promessas falsas, eu agi. Com um movimento rápido e discreto, desabotoei meu colar e o deixei escorregar para dentro do bolso aberto da bolsa dela.
O pingente estava com ela agora.
A cerimônia de transferência estava completa. Que o jogo comece.
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Os dias seguintes foram um exercício de autocontrole. Eu agia como a mesma Laura de sempre, talvez um pouco mais quieta e estressada, o que se encaixava perfeitamente na narrativa que eles estavam construindo. Eu interagia com Lucas e Sofia, sorria nos momentos certos e fingia não notar os olhares cúmplices que eles trocavam quando pensavam que eu não estava olhando.
"Você parece exausta, Laurinha," Lucas disse um dia, colocando a mão no meu ombro. O toque dele me queimava a pele. "Não se pressione tanto. Se não der certo desta vez, haverá outras oportunidades."
"Eu sei," respondi, com a voz baixa. "Obrigada por se preocupar."
Ele sorriu, satisfeito com a minha aparente derrota.
Meu foco, no entanto, estava em Sofia. Eu a observava de longe. No dia em que "perdi" meu pingente, fingi um pânico desesperado. Sofia, depois de um tempo, "encontrou-o" perto da mesa onde estávamos.
"Laura, veja! Estava aqui o tempo todo!" ela exclamou, com um alívio exagerado.
"Nossa, Sofia, obrigada! Eu nem sei como te agradecer," eu disse, pegando o colar de volta. Mais tarde, no mesmo dia, comprei uma réplica barata e comecei a usá-la. O verdadeiro pingente, o presente de Lucas, eu o coloquei de volta na bolsa de Sofia sem que ela percebesse, desta vez no fundo de um bolso interno. Eu sabia que ela o encontraria e, pensando que eu o havia perdido novamente, o guardaria para si.
E foi exatamente o que aconteceu. Dois dias depois, eu a vi usando o meu pingente. O pingente original. Ela não o exibia abertamente, mas eu o vi brilhar por um segundo quando o colarinho da sua blusa se moveu. Ela o estava usando, achando que era um troféu secreto, um símbolo da sua vitória sobre mim.
A confirmação de que meu plano estava em andamento me deu uma força sombria.
O primeiro grande teste veio durante a apresentação de um projeto em grupo de uma matéria secundária. Era um protótipo de um produto interativo. Eu, Lucas, Sofia e mais um colega, chamado Marcos, estávamos no time. Eu sabia que Lucas e Sofia haviam sabotado uma pequena, mas crucial, parte do código enquanto eu não estava no laboratório. Eles queriam que minha parte do projeto falhasse, para reforçar a imagem de que eu estava "desmoronando sob pressão".
Chegou a nossa vez de apresentar. O professor e toda a turma nos observavam.
"E agora," disse o professor, "Laura, por favor, inicie a demonstração da interface principal."
Eu respirei fundo e apertei o botão para iniciar. Nada aconteceu. Tentei de novo. A tela piscou e depois apagou. Um silêncio constrangedor tomou conta da sala.
Marcos, que havia trabalhado duro na parte de hardware, me olhou com raiva.
"O que você fez, Laura? Estava funcionando perfeitamente ontem!"
"Eu não sei," eu disse, genuinamente confusa sobre os detalhes da sabotagem, mas sabendo a origem dela. "Eu não mudei nada."
Foi a deixa para Sofia entrar em cena.
"Professor," ela disse, com uma voz cheia de falsa preocupação. "A Laura tem estado sob muito estresse ultimamente por causa da bolsa de estudos. Talvez ela tenha alterado algo sem perceber. Ela mal tem dormido."
Lucas imediatamente a apoiou.
"É verdade. Eu disse a ela para descansar, para não se sobrecarregar. Ela não me ouviu," ele disse, balançando a cabeça com uma expressão de profunda tristeza. "A culpa não é dela, ela só está exausta."
Eles eram perfeitos. A dupla dinâmica da traição. Eles me pintaram não como incompetente, mas como uma vítima frágil do meu próprio estresse, o que era ainda mais insidioso.
Marcos explodiu.
"Exausta? O meu semestre depende da nota deste projeto! Eu não posso ser prejudicado porque ela está 'exausta'!"
A responsabilidade caiu inteiramente sobre mim. O professor, um homem que sempre favoreceu a narrativa mais simples, olhou para mim com decepção.
"Laura, isso é um problema sério. O trabalho em equipe exige responsabilidade."
Eu senti os olhares de toda a turma em mim. Acusação, pena, desprezo. Eu estava sendo culpada por algo que não fiz, e meus "melhores amigos" eram as testemunhas de acusação. A injustiça era tão grande que me sufocava.
Eu olhei para Sofia. Por um instante, sob a luz artificial da sala de aula, o pingente em seu pescoço pareceu piscar, uma cintilação quase imperceptível. Um arrepio percorreu meu corpo. Não era imaginação. Algo estava acontecendo.
Em vez de me defender, de gritar a verdade que ninguém acreditaria, eu abaixei a cabeça.
"Vocês têm razão," eu murmurei, a voz embargada. "A culpa é minha. Eu sinto muito, Marcos. Professor, eu aceito qualquer penalidade."
Minha submissão pegou Lucas e Sofia de surpresa. Eles esperavam lágrimas, negações, uma cena dramática. Minha aceitação calma os desarmou. Eles trocaram um olhar rápido, uma mistura de triunfo e confusão.
O professor, parecendo aliviado por não ter que lidar com um confronto, tomou sua decisão.
"Tudo bem. Laura, você está fora do projeto. Marcos, você e Sofia terão até o final da semana para tentar consertar o protótipo. Lucas, você supervisiona a integração. A nota de Laura nesta avaliação será zero."
Eu assenti, peguei minhas coisas e saí da sala sem olhar para trás.
Enquanto caminhava pelo corredor, uma calma fria se instalou em mim. Eu tinha sido publicamente humilhada. Tinha sido traída. Tinha sido injustiçada. Mas eu também tinha plantado uma semente. E agora, eu só precisava esperar que ela germinasse no solo envenenado que eles mesmos haviam preparado.
Eles pensaram que tinham ganhado a batalha. Mal sabiam eles que eu já estava me preparando para a guerra.
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