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Tudo por Ela - Amor e Vingança

Tudo por Ela - Amor e Vingança

Autor:: Yana _ Shadow
Gênero: Jovem Adulto
Ele é frio, impiedoso e irresistivelmente perigoso Lorenzo Gambino comanda um império bilionário como CEO implacável. mas nas sombras, ele é o sottocapo da máfia italiana. Anos atrás, uma jovem salvou sua vida e de repente, o destino a coloca inconsciente em sua cama de linho egípcio, no coração de Milão. Ela não o reconhece, mas ele nunca a esqueceu. A visão do homem musculoso e só de cueca a faz disparar: "Como eu vim parar aqui?" "Eu te trouxe", ele respondeu num barítono aveludado que arrepiou a sua pele. Entre a confusão e o desejo, ela tenta resistir à tensão que os envolve. Mas Lorenzo a cerca com os olhos queimando de lembranças e possessividade. "É assim que você vai me recompensar?" Lorenzo pergunta, puxando o lençol. A cada toque, Marie sente o passado sussurrar segredos que sua memória bloqueou. Presa em um casamento sem amor e perseguida por um passado que não consegue lembrar, ela precisará decidir entre entrega-se ao homem que a assombra com paixão e mistério ou se deve fugir de um amor que pode tanto libertá-la quanto destruí-la? Será que o desejo pode reacender memórias... ou irá consumir o que resta do coração de Marie?

Capítulo 1 A traição

Marie (narrando)

O sol aquecia a cidade, que, há algumas semanas, sofria com o frio intenso. Naquela tarde primaveril, eu caminhava pela calçada enquanto uma brisa varria a rua, levantando poeira. A rajada repentina derrubou algumas folhas e arrastou-as pela rua.

Embora o cenário diante dos meus olhos fosse deslumbrante, eu estava absorta em pensamentos. Olhei para a tela do meu celular em vão. Ainda tinha esperança de que o meu marido recordasse do nosso aniversário de casamento.

Após ter deixado a minha filha na casa do avô, eu passei no mercado. Assim que chegasse, eu pretendia organizar uma surpresa para comemorar mais um ano de casado com o Lucca. A casa ainda estava silenciosa quando cruzei a porta. Isso me daria algum tempo para preparar o jantar romântico. Fui direto para a cozinha, onde coloquei as flores num jarro com água e em seguida, pus o vinho na geladeira.

Por diversas vezes, eu olhei o celular enquanto preparava a refeição e o doce favorito do meu marido. Lucca adorava ravioli à Fiorentina e tiramisu. Quando tudo estava pronto, coloquei o jarro com as papoulas brancas no centro da mesa. Retirei a travessa de ravioli do forno e pus juntamente com as louças organizadas sobre a mesa forrada por uma toalha vermelha. A atmosfera de suave intimidade me animou.

Ao voltar à sala, toquei na tela brilhante do meu celular, cheguei a ligar para Lucca, mas o telefone ainda estava desligado. Afastei as cortinas e ergui o meu rosto para contemplar o céu que enegrecia. Acreditava que ele não trabalharia até tarde como nos últimos meses, não naquela data.

"Ele deve estar ocupado no escritório", o meu subconsciente arrumou uma desculpa esfarrapada para me obrigar a me concentrar nos meus afazeres.

Em passos rápidos, percorri o corredor até o quarto. Os meus olhos vagaram pelo ambiente com móveis de madeira envernizada.

Ajeitei o travesseiro sobre a cama forrada com uma colcha florida. Queria ter certeza de que tudo estava perfeito até que avistei uma sacola branca sobre o assento da poltrona. Curiosa, peguei o embrulho e tirei a lingerie de renda vermelha.

Apesar de ser conservadora à moda antiga, eu queria fazer algo bastante diferente. Fui direto para o banheiro onde tomei banho e me perfumei. Vesti as roupas íntimas bem sensuais. O bojo do sutiã era menor do que os meus seios e a calcinha estava um pouco apertada.

Quando voltei para o quarto, escondi-me atrás das cortinas no instante em que ouvi os passos do outro lado do corredor.

- Tem alguém em casa? - A voz do meu marido ecoou.

Esbocei um sorriso ao ouvir o ranger da porta abrindo.

- Entre! A Marie está na casa do meu pai. Ela costuma preparar o jantar dele, - Lucca explicou.

"Será que ele trouxe um amigo?" Indaguei em meus pensamentos.

Continuei quietinha atrás das cortinas, eu tinha receio de ser vista com roupas íntimas. Tudo começou a ficar estranho quando ouvi os estalos de beijos. Eu conhecia bem aqueles risinhos femininos. Não demorou muito até que os pés da cama começaram a se mover, arrastando contra o chão. Tinha quase um ano que as molas do colchão não sacudiam daquela maneira.

- É desse jeito que você gosta, princesa? - Lucca perguntou.

- Sim, amore mio! - Respondeu, manhosamente.

Meu coração se partiu quando reconheci o timbre de voz de Susie. Minha melhor amiga estava na cama com meu marido. Furiosa, eu abri as cortinas.

- Estou atrapalhando? - A raiva me consumiu de tal forma que acabei esquecendo da lingerie que eu usava.

O homem de cabelos claros saiu de cima da Susie. Esperava isso de qualquer outra pessoa, menos da mulher que me chamava de amiga.

- O que faz aqui, Marie? - Lucca inquiriu rudemente.

Vê-los se enroscando sobre o meu colchão era devastador.

- Essa é a minha casa! - Tentei manter a segurança, mas havia um nó se formando em minha garganta. - Somos CASADOS! - Enfatizei aos berros.

- Saia daqui, Marie! - Ele ordenou. - Conversaremos depois.

Lucca pulou da cama e começou a se vestir enquanto Susie se enrolava nos meus lençóis.

- Por que fez isso comigo? - Questionei aos prantos.

Os braços de Lucca me seguraram antes que eu me aproximasse da mulher que não parava de rir debochadamente.

- Já chega, Marie! - Ele impôs toda a força quando me jogou na poltrona. - Não suporto mais olhar para você! - Lucca apontou para o meu corpo.

Cobri a minha barriga com as mãos. Por mais que fizesse dietas mirabolantes, não conseguia ser tão esguia e ter uma barriga tão reta como a de Susie. Ele sempre gostou de mulheres magras e compridas.

- Por que está usando a minha lingerie? - Susie ficou em pé e, mesmo envolta naquele lençol, desfilou graciosamente. - Não está vendo que isso não cabe em você! - Apontou para o meu corpo.

- É um presente de aniversário de casamento, - respondi.

- O Lucca me deu de presente ontem. Esqueci de pegar depois que fizemos amor nesta cama.

Foi por isso que ele insistiu para que eu fosse às compras com a Bella. Lucca cismou que eu deveria comprar roupas novas para a nossa filha. Lembro-me que ele me deu o cartão de crédito e insistiu para que eu passasse a tarde no shopping com a nossa filha.

Do outro lado do quarto, Susie deixou o lençol cair no chão. Sem pudor, ela passou o vestido sobre os ombros. O tecido liso preto deslizou por seu corpo.

- Há quanto tempo? - Com o rosto petrificado, eu fitei a fisionomia sombria do meu marido.

- Não importa! Eu já te disse que não quero continuar com esse casamento.

- Temos uma filha, Lucca!

- Nenhum homem quer ficar com uma mulher só porque tem uma voz bonita, - Susie desdenhou.

Ela sabia que pouco antes do casamento, eu costumava cantar em bares e festas. Deixei de lado o sonho de ser cantora quando descobri que estava grávida.

- O Lucca não ama você, - Susie disse, exasperada.

A fúria me atingiu de tal forma, que eu me desvencilhei do meu esposo e avancei. Antes que pudesse tocá-la, ele me conteve.

Slapt! A força da mão comprida atingiu a pele do meu rosto e, no mesmo instante, toquei na bochecha que ainda queimava.

- A culpa é toda sua! - Ele vociferou.

- O que eu fiz?

- Você não me respeita! - O Lucca esbravejou num tom irascível. - Está feia e relaxada desde que perdeu o nosso filho. - O tom acusador recordou de algo que eu ainda tentava esquecer.

Aquelas palavras me magoaram profundamente. Naquele instante, percebi que não tinha mais ninguém além da minha filha.

Anos atrás, eu confiava na minha melhor amiga de olhos fechados. Susie e eu crescemos num prédio inóspito em Giambellino, um bairro da periferia de Milão. Apesar de ficar próximo ao centro da cidade, era um lugar conhecido pelo tráfico, insegurança e pela sujeira.

Eu era órfã e, assim como Susie, fui entregue a uma mulher que cuidava de nós apenas para nos explorar. Éramos obrigadas a vender flores aos turistas que passeavam pelo centro da capital. Às vezes, nós tínhamos que limpar a casa de moradores do prédio para ganhar alguns trocados.

Certa manhã, a minha tutora parou na cozinha enquanto eu lavava louça e cantarolava. Desde aquele dia, tive de cantar pelas ruas com intuito de ganhar esmolas dos transeuntes.

Eu era muito jovem quando conheci o Lucca pelas ruas da periferia. Ele tinha uma sedução diabólica que sempre chamava atenção de qualquer garota. No momento em que os olhos dele encontraram os meus, acreditei que seria o príncipe encantado que me faria feliz. Um ledo engano.

Deveria ter desconfiado quando as dúvidas começaram a surgir, mas, ao invés disso, tornei-me refém da infelicidade. Algumas vezes, pensei que a amante de Lucca fosse a secretária, mas nunca imaginei que o meu esposo estivesse com a minha melhor amiga. A traição trouxe mais dor e tristeza.

Capítulo 2 Tudo por ela

Marie (narrando)

Lucca sempre quis ter um filho homem e não perdia a oportunidade de jogar na minha cara que eu perdi o nosso filho. Naquela noite, nós discutimos porque eu estava cansada demais para fazer tudo o que ele desejava entre quatro paredes. Depois de me chamar de frígida e dizer que eu era uma péssima esposa, ele se vestiu, pegou o casaco e saiu. Eu estava com quase cinco meses quando acordei pela madrugada, estava com dores e uma forte hemorragia. Liguei para ele diversas vezes, mas infelizmente, Lucca não atendeu. Foi o meu sogro quem me socorreu e me levou ao hospital.

- Você não me serve para nada! - Segurou em meu braço e me arrastou para perto do guarda-roupa. - Vai embora! - Ele me expulsou na frente da mulher que se dizia minha amiga.

Peguei a minha bolsa depois de me vestir. Eu pretendia ir até uma delegacia e contar tudo só para vê-lo sofrendo atrás das grades. "Mas do que adianta?" Eu murmurava em minha mente enquanto caminhava pelas ruas sem saber o que fazer. Não tinha ninguém que me apoiasse naquele momento tão complicado da minha vida. Nem mesmo sabia onde eu poderia dormir. Sem forças ou apoio, eu desisti de ir até a polícia. Tinha receio do vexame. "Ele continuará em liberdade e vivendo com a amante".

Olhei para o letreiro reluzente de um Pub. Arrumei os meus cabelos para esconder a minha face vermelha. Fazia tempo que não saía para beber. O local não estava muito cheio, havia um grupo de homens com cabelos estranhos e um jeito de se vestir um tanto peculiar.

Sentei-me num banco perto do balcão reto e logo fui atendida por um barman. Pedi uma dose de tequila. Tomei tudo numa golada e levei a mão à boca quando eu tossi. Aquele troço desceu queimando pela minha garganta.

Passei cinco anos ao lado daquele estúpido, egoísta. Eu me senti tão ridícula e patética por desperdiçar o meu tempo para manter aquele casamento.

"Que vergonha!" Lembrei de tudo o que planejei para comemorar o dia que eu considerava tão especial.

A única coisa boa disso tudo, foi a minha pequena Bella, que tinha acabado de completar quatro aninhos.

Solicitei outra dose de tequila ao funcionário do bar, que prontamente me serviu.

- Boa noite, gata! - O homem com um corte de cabelo estranho acomodou-se ao meu lado.

Pela forma como se vestia, ele devia estar com aquele grupo de punks.

- O que uma bela dama faz sozinha nesse bar?

- Por favor, vá embora! Não estou num dia legal.

O cara mostrou os dentes amarelos. Desviei o olhar para o homem comprido que sentou num banco depois e pediu uma dose de uísque. Abaixei a cabeça quando nossos olhos se cruzaram. As pupilas de ônix pareciam penetrar a minha alma.

- Mais uma dose de tequila para essa gata! - Pediu o cara com cabelo pintado de azul.

Assim que o Barman encheu o meu copo, outro jovem apareceu, distraindo-me.

- Está com uma amiga?

- Vou levar a princesa para casa.

- Que casa? - comecei a rir.

O meu subconsciente estava cambaleando, tropeçando nas palavras e rindo atoa. O álcool já estava afetando a minha razão.

Observei o pó boiando na minha tequila. Ergui o copo e olhei fixamente através do vidro.

- Se você não for beber, eu bebo! - O outro punk de cabelo preto me desafiou.

Quando dei por mim, havia quatro deles à minha volta. Pareciam gremlins, estavam se multiplicando.

"Deve ser a tequila", virei o copo na minha boca. A mente estava voando. Deitei a cabeça sobre o meu braço apoiado no balcão, somente o sono aliviou a minha dor.

...

Lorenzo Gambino

Meu dia tinha sido péssimo. Passei por duas reuniões extenuantes na minha empresa e durante a noite, havia dado uma lição num babaca que entrou disfarçado na minha gangue.

Saí do meu escritório no Pub mais badalado da cidade. A noite estava agitada, a música alta e luzes iluminavam os jovens em busca de sexo, drogas e diversão. Eu só queria uma bebida e algo que me fizesse esquecer aquele dia terrível. Coloquei a camisa dentro da calça e olhei em volta para ver se alguém tinha visto a mancha do sangue em minha roupa.

Olhei para uma garota que parecia estar bebada. Ela não parecia o tipo de mulher que frequentava aquele bar.

Os meus olhos acompanharam os dela, mas a garota abaixou o rosto rapidamente, quebrando a nossa conexão.

"O que esse bando de idiotas estão fazendo?" Espremi os olhos.

Haviam quatro punks, um deles segurou na cintura, incentivando-a a se levantar.

- Deixa ela em paz! - Tomei meu whisky e bati com o copo no balcão.

- Nós a vimos primeiro, - o babaca de cabelo espetado azul se aprumou.

- Aham! - Eu me levantei e abri um pouco meu blazer, exibindo a minha pistola automática. - Mas eu vou levá-la.

O homem esmaecido já estava um pouco velho para usar aquele cabelo engraçado. Numa fração de segundos, ele veio para cima de mim.

- Argh, detesto problemas! - Desviei de um soco a tempo, segurei o braço dele e entortei para trás até ouvir o estalo do osso se quebrando.

Não demorou até que mais um avançou, com apenas um gancho no queixo, eu desloquei o maxilar e coloquei aquele babaca para dormir.

Os outros dois vieram juntos, um deles tinha uma faca. Respirei profundamente, peguei a minha pistola e acertei a testa do punk de cabelo amarelo, os miolos se espalharam pelo balcão e o piso. Apontei o cano para o mais jovem.

- Quer tentar?

- Não, senhor, - levantou as mãos, se rendendo.

- Vem cá! - Segurei no cabelo moicano vermelho. - Peça desculpas à dama!

- Desculpe! - pediu com a voz trêmula, - posso ir?

- Claro! - Lancei a fuça do estúpido contra o balcão. - Depois que acordar! - Joguei ele no chão, acho que vai precisar de cirurgia no nariz.

Não estava com paciência nos últimos dias, principalmente com mulheres bêbadas como aquela que estava com a cabeça apoiada sobre o balcão cheio de miolos e sangue de um dos punks.

- Acorda! - Mexi nas costas da bela adormecida.

Ela nem levantou a cabeça, mal tinha forças para falar onde morava. Olhei para o restante da bebida no copo dela. Tinha alguma substância esbranquiçada.

- Como pode ser tão boba?

Pegando a mulher desmaiada no colo, eu a levei para o meu automóvel. Pensei seriamente em colocá-la no porta-malas ou largá-la em alguma calçada, mas fiquei totalmente preso naquele rosto oval com traços delicados.

- Foi você! - Deitei a mulher desacordada no banco traseiro do meu carro.

Não poderia abandoná-la. Anos atrás, essa mesma mulher me salvou. Sou capaz de fazer tudo por ela!

Capítulo 3 Não vou te dar o divórcio

Marie (narrando)

A minha cabeça estava latejando, eu massageei as têmporas enquanto forçava para abrir as minhas pálpebras. Pela maciez do colchão, e o lençol sedoso que me envolvia, eu sabia que não tinha dormido no meio da rua.

Forcei para abrir os meus olhos o máximo que podia. Virei minha cabeça levemente para o lado, minha visão estava embaçada, forcei a vista para enxergar o homem sentado na poltrona ao meu lado. No susto, ergui o meu torso e puxei o lençol para cobrir os seios.

"Por que estou nua?" Pensei.

Engoli em seco antes de fitar novamente o homem com uma postura arrogante. Para o meu desespero, ele estava usando apenas uma cueca!

"Merda, merda! O que foi que fiz?" Forcei o meu subconsciente a despertar da ressaca.

Ele uniu as mãos e continuou me observando com uma expressão fria, não havia nenhum vestígio de emoção no belo rosto com queixo marcado.

Não fazia ideia do que tinha acontecido naquele bar depois que bebi a última dose.

Levando as mãos às têmporas, continuei massageando diante do silêncio do homem ao meu lado. Só conseguia me lembrar do estado deplorável daqueles punks.

O grandalhão se levantou e veio na minha direção, exibindo o peitoral nu que se alargava pelos ombros largos. Seu cheiro era delicioso e o rosto perfeito. Ele esbanjava sexy appeal, eu não tinha medo de se exibir.

- Como eu vim parar aqui?

- Eu te trouxe, - respondeu num barítono aveludado.

Puxei mais ainda o lençol de cetim azul. Os batimentos ficaram bem mais rápidos à medida que ele se aproximava. Estava com medo do que aquele brutamontes poderia fazer.

Olhei para todos os lados, tinha que achar um meio de fugir dali. Eu tentei sair da cama para procurar as minhas roupas, mas ele avançou bruscamente.

As mãos compridas seguraram o lençol e começaram a puxar, segurei o tecido de cetim com firmeza.

- É assim que você vai me recompensar? - Sua voz rouca era tão sensual.

Vencendo a distância, o belo homem manteve os olhos concentrados nos meus enquanto apoiava as suas mãos compridas no colchão ao lado do meu rosto. Aquele cheiro com nuances amadeiradas misturada a loção pós-barba era provocante. O desejo refletido naqueles olhos negros me enfeitiçavam. A atmosfera romântica, repleta de sedução, estava me sufocando... não posso, não posso! Repetia esse mantra em minha cabeça.

Eu poderia dar o troco no Lucca e tirar o meu atraso com esse desconhecido. Ainda estava com muita raiva, mas em meu íntimo, eu acreditava que aquilo era errado.

- Não posso, - plantei a mão em seu peitoral e o afastei.

- Claro que pode, - tocou o meu lábio inferior com indicador e puxou levemente.

- Não, eu sou casada e tenho uma filhinha.

A carranca sombria era tão assustadora que cheguei a pensar que aquele homem me possuiria a força. Fechei os olhos e abri em seguida. Respirei aliviada quando ele pulou da cama e foi até uma cômoda do outro lado, me dando uma perfeita visão de suas costas largas. Pelo desprezo, ele tinha perdido o interesse na minha pessoa.

Após mexer numa gaveta, ele voltou e estendeu a mão para entregar o papel e me mostrar a conta.

- O que é isso?

- São as contas das despesas médicas.

- Não precisava!

- Você foi dopada e pela quantidade da substância que os malditos punks colocaram na sua bebida, você ia morrer.

Olhei para o valor e quase tive um treco. Fiquei refletindo de onde eu tiraria uma quantia exorbitante.

- Não tenho!

- Isso não é problema meu, quero o meu dinheiro.

- Posso pagar depois? - Arrumei o lençol em volta do meu corpo e me arrastei até sair da cama.

- Some da minha frente! - Ele gritou tão alto que fez o meu coração disparar.

- Onde estão as minhas roupas?

- Vista-se e suma daqui! - ordenou entres os dentes e seguiu para o lado oposto, parou em frente a uma porta. - Não quero te ver mais aqui quando sair do lavabo, - esbravejou e após entrar, bateu a porta com força.

Peguei o casaco sobretudo preto que estava pendurado num gancho ao lado da porta. Passei pelos meus braços rapidamente, fechei os botões e o laço. Por sorte, o sobretudo do grandalhão batia no meu joelho.

Olhei para o cartão de acesso em cima da mesa, usei para abrir as portas e fugir daquela suíte. Sem olhar para trás, eu saí às pressas antes que o brutamontes voltasse.

A porta do elevador estava fechando, mas eu corri e cheguei a tempo. Senti algo pesando no bolso, mas não me atrevi a mexer.

Tinha um casal de idosos e uma mulher com um bebê no colo, e eu estava envergonhada por estar sem nenhuma roupa embaixo daquele sobretudo. Olhei para a mãe que brincava com o filho e imediatamente pensei na minha filha. A campainha tocou tirando-me das divagações. Saí no momento em que as portas abriram no andar térreo.

Atravessei o saguão vazio do hotel e fui em direção à saída. Fiz sinal para um táxi e entrei. Assim que chegasse na casa do meu sogro, pediria para ele pagar a corrida.

O trânsito estava bom naquele dia. No momento que o veículo parou na frente da modesta casa, vi o meu sogro molhando o jardim com uma mangueira.

Meio sem graça, pedi que ele me emprestasse cinquenta euros para pagar a corrida. Com o cenho franzido, tirou a carteira do bolso e me deu o valor.

- É para devolver!

- Eu sei, depois eu te pago.

Que ótimo! Já estava devendo quinhentos euros para o deus grego. Não tinha ideia de como eu ia pagar. Entreguei o valor ao motorista e voltei para pegar a minha filha.

- Onde está a Bella? - Caminhei pela estradinha até a varanda.

Eu só precisava da minha filha, mais nada. Queria dar entrada na papelada do divórcio quanto antes.

- Ela ainda está dormindo?

- O Lucca pegou ela mais cedo.

- Quando?

- Ele saiu daqui há quase uma hora.

Corri o mais rápido que podia pelos quarteirões, aquele treco no bolso do casaco parecia pesar mais enquanto eu corria. Pisei no gramado e adentrei a casa feito uma louca desvairada.

- Mamãe!

- Oi, anjinho, - Afastei os cachinhos castanhos, dei vários beijinhos em seu rostinho. - Abracei-a com força.

Lucca apareceu, sorrindo. Era como se nada tivesse acontecido.

- Eu posso saber onde passou a noite? - indagou, curioso. - De quem é esse casaco?

Não dei atenção para ele, abaixei e coloquei a minha filha no chão.

- Meu amor, vá no seu quarto e coloque algumas roupas na sua mochila.

- Vamos passear? - Os olhinhos de azeitonas da minha filha cintilavam.

- Sim!

Bella saiu correndo e desapareceu pelos corredores, me deixando sozinha com Lucca.

- De quem esse casaco? - Questionou novamente.

Desta vez, o sorriso já havia sumido de seu rosto.

- Não te interessa, Lucca!

Tentei passar por ele, mas ele puxou a gola do casaco arrebentando o botão. Me jogou no sofá.

- Onde estão as suas roupas? - Ele percebeu que eu estava sem o sutiã.

- Você não tem o direito de me cobrar nada, muito menos fidelidade, - retruquei. - Quer saber de uma coisa, - tomei coragem, - eu quero o divórcio! - Projetei o meu queixo, sustentando o olhar de Lucca.

- Não! - negou firmemente, - Não vou te dar o divórcio. Você é minha esposa e ainda me deve satisfações.

- Eu não sou sua mulher!

O punho cerrado de Lucca esmurrou o meu rosto. Minha cabeça tombou para o lado, eu caí no chão. Ele agarrou meus cabelos, puxando-me, forçando-me a sentar no sofá. Deu um tapa em minha boca. Algo quente escorreu pelos meus lábios, senti o gosto do meu próprio sangue.

- Onde você passou a noite, vagabunda? - Bateu com a palma aberta, acertando a minha boca novamente. - Vadia, sem vergonha!

Agarrei os braços deles, lutando para me soltar. Lucca desferiu outro murro e me jogou no sofá.

- Solta minha mãe! - Bella gritou e veio correndo.

- Essa vagabunda não é sua mãe, - ele me humilhou na frente da minha filha. - Ela passou a noite com outro homem ao invés de cuidar de você. - Bateu com o punho fechado na minha têmpora, me deixando tonta.

Abaixei meu rosto e olhei para o cano do metal no meu bolso. Lucca ainda berrando, me xingando e dizendo coisas absurdas que não fiz. Meti a mão no bolso quando ele me deu outro tapa.

Vi quando minha filha avançou na perna dele e mordeu com força. Aos gritos, ele pegou minha menina pelos braços.

- Vou te dar uma lição! - Ele jogou a Bella no sofá ao meu lado. - Nunca mais você vai atacar o seu pai - ameaçou.

Enquanto ele tirava o cinto, puxei a minha filha, ela se encolheu no meu colo. Não deixaria que aquele monstro a machucasse de novo. Saquei a pistola e apontei para o homem que dobrava o cinto de couro em duas partes.

Chocado, ele largou o cinto. Não esperava que eu reagisse daquela forma.

- Pare com isso, Marie, - a voz suavizou de repente.

- Saí da minha frente, Lucca!

Eu não sabia como usar aquela arma, nem mesmo tinha ideia se estava carregada. Mantive o cano apontado para ele.

- Você não tem coragem! - Ele chacoalhou as mãos no ar desdenhando de mim - É fraca demais e nem sabe usar isso.

- Quer pagar para ver? - Meu sangue estava fervendo depois que ele ameaçou bater na Bella.

Houve um longo minuto de silêncio. Lucca estava mais concentrado na pistola do que em meu rosto inchado por levar tantas pancadas.

- Vou te dar o divórcio, - andou lentamente.

Num movimento ligeiro, ele tentou agarrar a pistola. Segurei o metal, lutando para defender a mim e a minha pequena.

Assustada, a Bella correu para trás do sofá enquanto eu brigava com o pai dela. De repente o som do disparo encerrou a disputa. Eu pisquei algumas vezes, olhando para o homem que se afastava. Lucca segurava o braço ensanguentado.

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