Helena acordou mais uma vez assustada com aquele mesmo sonho. Um homem envolto em sombras. Ela nunca conseguia ver seu rosto, ou ele estava de costas ou uma nuvem lhe cobria o rosto quando estava de frente.
Esses sonhos recorrentes lhe deixavam muito aflita por que ela sentia que aquele homem era muito real e que, de alguma forma, faria parte de sua vida, porém a impossibilidade de ver seu rosto lhe causava verdadeira angústia.
O fato de que seus sonhos sempre lhe causavam uma sensação de premonição também era um forte motivo para sua aflição.
Helena era de uma família nobre no Reino de Sophir e quando era ainda muito criança teve seu primeiro sonho perturbador: sua mãe lhe aparecia num sonho circundada por uma aura brilhante, ela lhe entregava uma tulipa e lhe dizia "eu sempre te amarei, minha linda filhinha". Um mês depois Hylia, sua mãe, faleceu num acidente de cavalo.
Helena procurou Myka, a curandeira do Reino, contou sobre seu sonho e a infeliz coincidência da morte posterior de sua mãe e lhe perguntou o que isso poderia significar. A princípio Myka arregalou os olhos em aparente curiosidade, mas, depois de algum tempo, acabou tirando de sua cabeça qualquer ideia mirabolante de sensitividade ou premonição. Ela lhe agradeceu por isso, pois lhe permitiu ter boas noites de sono após o ocorrido. Caso acreditasse que seus sonhos poderiam lhe apresentar revelações, ela jamais conseguiria dormir em paz.
Ao longo de sua vida, outros episódios estranhos relacionados aos seus sonhos aconteceram, porém nada tão significativo quanto o da morte de sua mãe e, por isso, ela se conveceu de que realmente tudo se tratava apenas de coincidências.
De qualquer forma, Herog, o duque de Hevalan e seu pai sempre lhe repreendia quando ela levantava a hipótese de possuir alguma sensitividade, afinal, como ele costumava dizer "minha filha não é uma bruxa, logo, não existe essa possibilidade de sensitividade".
Bruxas eram mal vistas em nosso reino e nunca conseguiriam um bom casamento e essa era uma realidade que nenhum pai amoroso gostaria para sua filha. Graças aos deuses, seu pai era muito amoroso e cuidou dela sozinho após a morte de sua mãe. Infelizmente, ele nunca voltou a encontrar o amor de Hylia.
- Chega de conjecturas bobas sobre sonhos, Helena! O dia vai ser longo e o baile de primavera se aproxima. Helena disse a si mesma em frente ao espelho.
Em apenas um mês ocorrerá o baile de primavera. No Reino de Sophir, todas as mulheres poderiam participar, com exceção daquelas conhecidas como bruxas.
As mulheres da nobreza geralmente se antecipavam em relação aos preparativos, de forma que, a essa altura, seus vestidos e sapatos já estavam praticamente prontos necessitando de poucos ajustes, as flores escolhidas para as coroas já estavam devidamente reservadas, mas ainda florescendo para que no dia anterior ao evento as coroas pudessem ser confeccionadas.
As casas de coroas tinham um batalhão de mulheres responsáveis pelas confecções das coroas de flores na véspera do baile, mas, ainda assim, não era suficientes para que todas as mulheres do reino pudessem ter coroas com flores frescas e viçosas.
Geralmente, as plebeias improvisavam suas coroas, algumas delas até compravam, mas não tinham prioridade para receber na véspera e as flores acabavam ficando menos frescas e, as vezes, um pouco murchas.
Helena já tinha seu vestido quase pronto e as flores de sua coroa já estavam reservadas e sua coroa seria entregue na véspera do baile.
Helena era uma linda mulher. Alta, magra mas bem curvilínea, com longos cabelos cacheados e olhos cor de mel. Suas flores preferidas eram as tulipas amarelas que ornavam lindamente com sua pele oliva. Desde aquele sonho com sua mãe, as tulipas estavam sempre presentes no seu dia a dia. O vestido de Helena era branco com detalhes dourados e seus sapatos também eram dourados. Não havia muito mais o que fazer para Helena, porém sua melhor, Amina, era uma plebeia, então ela estava fazendo de tudo para que ela tivesse a oportunidade de ter as melhores opções.
Amina era branca, baixinha e de olhos verdes. Pensando em Amina, Helena encomendou tulipas amarelas e lilases, ela também falou com Ikevan, dono da loja de tecidos e lhe suplicou que quando tivesse um corte de tecido de sobra, na cor lilás, que lhe vendesse por um preço abaixo do valor comum. Apesar de ser muito grata pelos esforços de Helena, Amina fazia questão de pagar pelo corte de tecido e também pelas flores. Helena a convenceu de que o serviço da modista e o da confecção da coroa seriam seus presentes pra ela.
Amina trabalhava vendendo frutas frescas no comércio popular do Reino e era sempre muito gentil e simpática com todos. Foi assim que ela conheceu Helena e se tornaram amigas, pois Helena amava comprar frutas frescas pessoalmente.
Faltava ainda um detalhe: elas tinham que conseguir aspirantes adequados.
Os aspirantes eram cavalheiros que conduziam as damas até o baile, mas, não necessariamente cortejavam essas damas. Basicamente, tinha que ser um amigo ou um pretendente já em potencial. Isso por que as damas precisavam chegar acompanhadas ao baile. Uma dama desacompanhada estava vulnerável a ação de foras da lei que, principalmente em épocas de bailes, ficavam a espreita aos arredores do castelo prontos para sequestrar damas desacompanhadas.
Alguns vendiam essas mulheres como escravas, outros apenas abusavam e largavam a mulher em desgraça e ainda tinha umas que simplesmente sumiam, ninguém nunca mais via.
Por outro lado, os aspirantes tinham que ser amigos ou pretendentes. Isso por que, no caso de ser amigo, tinha que entender que, ao chegar ao baile, a dama poderia tomar um caminho totalmente diferente do aspirante e até aceitar o cortejo de outro cavalheiro. No caso de ser pretendente, aí era esperado que passassem todo o baile juntos.
Helena tinha vários admiradores, mas insistia com seu pai que desejava o amor verdadeiro. Hiven era filho do barão do monte alto e era um dos melhores amigos de Helena. Hiven era completamente apaixonado por Helena e era um possível pretendente aprovado por Herog. No entanto, Helena não correspondia ao sentimento de Hiven. Dessa forma, ele já esperava que não teria a oportunidade de cortejar Helena, mas, por ser muito apaixonado, fazia questão mesmo assim de acompanha-la.
Amina, por outro lado, apesar de também ser linda, não tinha tantas opções por ser apenas uma plebeia. Dessa forma, uma das missões planejadas por Helena eram os passeios no castelo Real. Helena era amiga da princesa Hamelie, então era fácil providenciar esses passeios. Num desses passeios, Amina percebeu os olhares furtivos de Arat e comentou com Helena:
- Helena, é impressão minha ou aquele cavalheiro da guarda real está olhando pra mim?
- hum... deixa eu observar - disse Helena.
- Nossa! Ele é bem bonito, Amina - falou Helena, super animada.
Helena passou a observar Arat e percebeu que ele estava mesmo olhando para Amina, então ela se dirigiu ao mesmo.
- Senhor, com licença - disse Helena.
- Em que posso lhe ajudar, senhorita? - respondeu Arat.
- Percebi que o senhor está olhando recorrentemente para minha amiga e...
- Mil perdões, senhorita, não consegui evitar, mas vou parar agora mesmo - interrompeu Arat.
- O senhor não esperou eu concluir. Quero saber se o senhor gostaria de acompanhar minha amiga ao baile. - disse Helena
- A senhorita está falando sério? Nossa! Seria uma verdadeira honra, mas, infelizmente, estarei trabalhando na guarda real. Porém, caso sua amiga corresponda meu interesse, falarei com meu primo para ser seu aspirante. Uma vez que ela esteja aqui no castelo, ficarei feliz em cortejá-la.
- Combinado, então. Ela corresponde ao seu interesse - Helena antecipou antes mesmo de consultar Amina.
Helena voltou para Amina e lhe disse:
- Resolvemos o seu problema de aspirante, agora tem o meu.
- Como assim? - respondeu Amina
- Amoan, primo de Arat, o cavalheiro da guarda real que está apaixonado por você, será seu aspirante. Uma vez que você estiver no castelo, Arat ficará em êxtase por poder lhe cortejar.
- Sério? Será que é sonho? Eu, uma mera plebeia cortejada por um cavalheiro da guarda real? E em relação a você, Hiven não será seu aspirante?
- Ah! Você sabe, ele é apaixonado por mim, mas não consigo sentir nada por ele além de amizade. Sinto-me mal só de pensar em como ele ficará chateado quando chegarmos ao baile e eu seguir em direção contrária a dele.
- Tem isso, mas ele é um bom pretendente, Helena, você deveria lhe dar uma chance.
- É, você pode ter razão.
Enquanto isso, na mansão do barão de Monte alto, o pai de Hiven lhe deu um ultimato:
- Você acompanhará a princesa Hamelie. É melhor não me questionar ou irei lhe deserdar. Já lhe dei tempo suficiente para conquistar Helena e não vejo nenhum progresso. Por outro lado, a princesa já demonstrou interesse em você.
Hiven aceitou resignado.