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Vínculo Falso com o Poderoso Inimigo do Meu Ex

Vínculo Falso com o Poderoso Inimigo do Meu Ex

Autor:: PageProfit Studio
Gênero: Fantasia
A vida inteira, fui a filha de reserva. Beatrice, minha irmã, tinha tudo - amor, atenção, elogios sem fim, o posto de perfeitinha intocável. Eu? Ficava com as sobras. Com os olhares de desaprovação. Com a certeza constante de que nunca seria suficiente. Até descobrir que Niall, o Alfa deslumbrante da alcateia vizinha, era o meu companheiro destinado. Por um segundo, acreditei que finalmente seria a escolhida. Deus. quanta ingenuidade. Foram quatro anos de um noivado infernal. Descolori o cabelo para agradar. Me forcei em vestidos que mal fechavam. Fiz papel de empregadinha - tudo para ouvir que eu servia melhor como serva do que como companheira. Porque o coração dele sempre foi dela. Da minha irmã. Na noite em que derrubei, sem querer, a foto dos dois, ele me deu um tapa. Forte o bastante para tirar meu ar. E ainda disse que eu jamais chegaria aos pés dela. Então, pela primeira vez, reagi. Dei um tapa de volta, rasguei a foto e aceitei a rejeição. Pensei que tinha acabado. Pensei que estava livre. Até vê-los no clube, rindo às gargalhadas de como meus quatro anos de esforço tinham sido patéticos. O noivado inteiro - um jogo doentio dos dois. Bêbada e furiosa, tomei a pior melhor decisão possível: aceitei a carona do meu vizinho misterioso. Hudson - um Alfa com o rosto esculpido pelos deuses, exalando perigo em cada linha do seu terno impecável. E o detalhe mais delicioso? Ele é o inimigo mortal do meu ex. O resultado? O melhor sexo da minha vida. Achei que seria apenas uma noite para apagar o passado. Errado de novo. Hudson é mais rico que Niall, mais influente que minha família inteira e cem vezes mais perigoso. E ele não pretende me deixar escapar. Desta vez, não serei a segunda opção de ninguém. Nunca mais.

Capítulo 1 Um

Ponto de Vista de Christina

Plaft!

Minha cabeça virou para o lado, a visão embaçando, a pele ardendo como se alguém tivesse pressionado uma marca de ferro em brasa contra mim.

Olhei para cima e encontrei os olhos furiosos de Niall.

Meu companheiro destinado acabou de me bater.

Três minutos atrás, eu estava sonhando acordada sobre redecorar essa casa de alcateia ridiculamente cara. Dois minutos atrás, eu esbarrei sem querer numa foto emoldurada no quarto dele. Uma foto da minha irmã.

Agora o sangue pulsava nos meus ouvidos – agudo, humilhante. Akira rugia dentro de mim, uma tempestade de traição que tirava meu fôlego.

"Você quebrou isso!?" Niall cuspiu as palavras. "Essa era a única foto que eu tinha com a Beatrice. Seu ciúme me dá nojo."

"Você tá pirando?" rosnei entre os dentes.

"Não, a distorcida aqui é você!" ele rugiu. "Eu já aceitei casar com você, o que mais você quer? A Beatrice foi embora por sua causa! Porque você me forçou ao laço de companheiros!"

O ódio nos olhos dele feriu mais fundo que qualquer tapa.

"Ela era sua irmã! E agora você cobiça o que era dela? Não vai parar até apagar qualquer rastro dela, vai?" ele gritou enquanto me empurrava para trás, contra a mesa de centro.

Caí sobre os estilhaços de vidro. A dor atravessou minha palma, e meu sangue manchou o sorriso perfeito de Beatrice.

Que ironia amarga.

Minha bochecha latejava. Minha mão estava sangrando. Mas nada doía mais do que a percepção de que meu suposto companheiro nunca havia me amado.

"Não fui eu," falei, numa última tentativa de ser racional. "Nunca forcei esse laço de companheiros em você. Nunca pedi para ela ir embora."

Falando logicamente, eu entendia por que alguém poderia me culpar.

No meu aniversário de dezoito anos, eu me transformei e percebi que Niall era meu companheiro destinado. Tolamente, escrevi tudo no meu diário. Planejava contar a ele quando voltasse da viagem de negócios. Se ele não pudesse me aceitar, eu estava preparada para a rejeição.

Mas Beatrice encontrou meu diário e tornou tudo público.

Privacidade não significava nada para ela. Ela espalhou meu diário para todo mundo na Alcateia Crescent.

Fui humilhada em público como a reserva patética que ousou mirar acima da própria posição para alcançar o Alfa perfeito da irmã.

Depois Beatrice, tão generosa, foi estudar no exterior, deixando uma carta dizendo que tinha descoberto meu segredo e decidido abrir mão e deixá-lo para mim.

A generosidade dela era tão real quanto alguém ser generoso com um cartão de crédito que não é seu.

E eu era a vilã que expulsou a princesa perfeita da Alcateia Crescent.

Para minha família, eu era uma jogadora esquecida que, de repente, foi promovida ao time titular - uma mudança estratégica que eu agora tinha obrigação de agradecer. Meus pais não se importavam de verdade com qual filha se casaria com Niall, só queriam que a aliança entre as alcateias fosse firmada. Mesmo que Niall literalmente arrancasse meu coração, meus pais só entregariam guardanapos para ele limpar.

Era como se meus pais sempre tivessem me odiado. Não importava o quanto eu superasse Beatrice no treinamento, eles sempre arranjavam desculpas para ela e encontravam defeitos em mim. Eu era amarga, ingrata, alguém que não sabia valorizar a querida irmã.

Meus dedos se cerraram em volta do anel de noivado. Esse símbolo patético da piada que era nosso laço.

Lágrimas quentes embaçaram minha visão. Pisquei rápido para afastá-las.

Corri para a porta e saí antes que as lágrimas caíssem.

Niall agarrou meu pulso para me impedir. "Limpa isso."

"O quê?" Eu o encarei, sem acreditar, precisando confirmar se tinha ouvido direito.

"Você quebrou a moldura da foto. Limpe os pedaços." Uma ordem gélida.

Pena que nunca fui boa em seguir ordens.

"Não." Levantei o queixo. Zero concessão.

A mandíbula dele travou. "Tem certeza de que quer fazer isso, Christina?"

"Sim. Eu disse que não." Enfrentei seu olhar sem vacilar.

Se amar significava triturar minha autoestima até virar pó, então foda-se o amor.

O ar entre nós estalou, a tensão subindo como uma tempestade. Ele se inclinou, a fúria ardendo. "Última chance. Se me desobedecer, eu acabo com esse vínculo agora-"

"Acabou", cortei.

O choque congelou seu rosto.

Por um momento, o ar ficou parado.

Ele não esperava que eu realmente dissesse isso.

Arranquei meu braço livre, a respiração ofegante enquanto a esperança de escapar brilhava - só para ele me agarrar de novo, o aperto machucando, os olhos queimando com algo próximo do ódio.

"Isto é culpa sua, Christina!" Niall rosnou, com o tom de um inimigo mortal, não de um companheiro ao qual o destino tinha me acorrentado.

"Eu, Niall Granger, Alfa da Alcateia Frostpelt, rejeito-"

"Cala a boca!" cuspi.

Se alguém ia terminar esse vínculo, seria eu.

Meu olhar se prendeu ao dele, firme.

"Você não tem o direito de me rejeitar. Eu rejeito você, Niall. Agora aceite."

O mundo pareceu se partir ao meio.

Akira uivou dentro de mim, um lamento agudo de perda, enquanto uma dor dilacerante rasgava meu peito conforme o vínculo se desfazia fio por fio.

A mandíbula dele apertou, mas ele forçou as palavras entre os dentes cerrados.

"Eu aceito a sua rejeição. Agora limpe a bagunça e conserte a droga da foto."

Minhas mãos tremiam enquanto eu pegava a moldura quebrada, os cacos mordendo minha pele, meu sangue manchando o vidro. Rasguei a foto ao meio, arrancando o rosto dele do da minha irmã, como se cortasse o último laço.

Sem hesitar, ergui a mão e dei um tapa forte naquele rosto irritantemente bonito e arrogante. O estalo ecoou entre nós.

Me inclinei, deixando-o ver o fogo nos meus olhos.

"Agora", sibilei, "acabou..."

O silêncio foi absoluto.

Minha palma ardia, mas a satisfação quase abafava a dor no meu peito.

Niall cambaleou para trás, o choque piscando nos olhos.

Não era por causa da dor, mas por perceber que a garota dócil que ele desprezava não existia mais.

Sorri friamente. "Adeus, Niall. Vai lá om sua Beatrice."

E saí daquele inferno sufocante de cabeça erguida.

Eu preferia me afogar nas minhas próprias lágrimas a deixar que ele visse mais uma cair.

Quando cheguei ao estacionamento, o ar frio da noite bateu no meu rosto, mas a dor avassaladora caiu sobre mim como uma onda gigante.

Porra, ninguém nunca me contou que romper o vínculo de companheiros doía desse jeito.

Parecia que meu coração tinha sido fatiado e servido pro Hannibal Lecter. Ele provavelmente ia saborear tudo isso acompanhado de um bom Chianti e umas favas.

Me encolhi no banco do motorista, suando frio.

Akira jazia fraca dentro de mim, gemendo, "É estranho pra caralho! Como se alguém tivesse enfiado a mão no meu estômago e arrancado alguma coisa na marra."

Não podia concordar mais.

Queria encontrar minha mãe, ela com certeza saberia como aliviar esse tipo de dor.

Ou talvez qualquer criatura com dor pense instintivamente na mãe.

Enquanto eu hesitava entre mandar um elo mental ou fazer uma ligação, meu celular vibrou.

Meus olhos estavam tão turvos que eu mal consegui atender.

"Chrissy, você deve estar louca!" minha mãe gritou. "Como ousa humilhar o Niall assim! A aliança entre as alcateias acabou!"

"Mãe, ele me rejeitou," falei fraco. "Tipo. formalmente. E também me bateu. Então tem esse detalhe divertido."

"Ele. o quê?" Pela primeira vez, ela pareceu chocada.

A voz do meu pai entrou na linha, "Não seja dramática. Depois de tudo que a Beatrice sacrificou por você? Você vai se desculpar com o Niall agora mesmo e implorar pra ele se casar com você, ou não será mais bem-vinda no nosso território!"

Ele desligou antes que eu pudesse responder.

Fiquei encarando o celular, sem entender nada, as palavras do meu pai ecoando na minha cabeça.

Nada de "Você está bem?" Nada de "Estamos indo te buscar."

Só ameaças de me expulsar da alcateia.

Por que, por mais que eu tentasse, nunca conseguia conquistar nem um mínimo de aprovação deles? Quando fui rejeitada pelo meu companheiro e estava morrendo de dor, tudo em que meus pais conseguiam pensar era na aliança das alcateias e na maldita da minha irmã que tinha sumido sabe-se lá onde!

Beatrice nunca precisou fazer nada, e ainda assim era a joia preciosa deles.

Então é isso?

No dia em que rompi o vínculo com meu companheiro destinado, finalmente percebi que meus pais nunca me amaram.

Isso destruiu o último resquício, patético e lamentável, do meu desejo pelo amor deles.

Chega.

Cansei de tentar conquistar um amor que nunca seria dado.

Cansei de ser a filha reserva conveniente.

Ia recuperar o amor-próprio que havia perdido há tanto tempo, e ia me libertar desse noivado - não importavam as consequências

Capítulo 2 Dois

Ponto de Vista de Christina

A viagem até o meu apartamento, que eu quase nunca usava, passou como um borrão. Eu não punha os pés ali havia meses, desde que a mãe do Niall me convidou para morar no casarão da alcateia e planejar o casamento. Que piada aquilo acabou sendo.

Quando cheguei à porta, me enrolei toda com o painel de segurança. A dor percorreu cada centímetro do meu corpo, e cerrei os dentes, me recusando a desmaiar como uma idiota na soleira de casa.

Código errado. De novo. E de novo.

A frustração transbordou. Dei um chute no batente com o calcanhar - um gesto miserável que não serviu para nada além de mandar uma fisgada de dor pela minha perna. Claro. O universo tinha decidido que hoje seria o dia do meu papel principal numa comédia cósmica. Desabei contra a parede e escorreguei até o chão enquanto os soluços rasgavam minha garganta.

Por que todo mundo sempre favorecia a Beatrice?! Eu já não tinha sofrido o bastante? Sempre em segundo lugar na minha própria família, apenas uma substituta no coração do meu companheiro?

Quando eu já estava quase engasgando com o próprio choro, uma voz grave soou atrás de mim:

"É a minha porta que você está atacando aí."

Ótimo. Mais um maldito problema.

"O quê?" rosnei, virando para encará-lo.

O homem parado ali era. devastador. Não bonito no estilo galã como o Niall, mas com um tipo de masculinidade rústica. Alto e forte, com maçãs do rosto marcadas e um maxilar firme. Os cabelos escuros estavam um pouco bagunçados, e aqueles olhos azul-acinzentados eram penetrantes, como se enxergassem minha alma. Parecia o tipo de Alfa que não só vencia batalhas, mas apagava seus inimigos da história por completo.

"Se você pretende arrombar, vou precisar dos dados do seu seguro primeiro", ele disse, totalmente sem expressão.

Minha garganta secou.

"E-eu sinto muito. Achei que este fosse o meu apartamento."

Ele inclinou a cabeça, com um olhar ilegível.

"Dia difícil?"

Meu rosto queimou de vergonha. Ótimo. Rejeitada, machucada e agora parecendo uma completa idiota diante do homem mais deslumbrante que eu já tinha visto.

"Pode dizer que sim", murmurei, me levantando do chão e tentando manter alguma dignidade, mesmo parecendo um guaxinim que acabou de sair de um lixão em chamas.

"Devagar aí, furacão." Ele arqueou uma sobrancelha, indicando a porta do outro lado do corredor. "Acho que aquela ali é a sua."

Furacão? Era para eu ter ficado irritada, mas do jeito que ele falou, meu estômago deu um salto estranho.

"Eu sei onde moro."

"Não foi o que pareceu."

"Tudo bem", murmurei, tentando ajeitar meu vestido destruído. "Obrigada pela aula de geografia."

"Precisa de ajuda com o seu código?"

"O que preciso é que este dia reinicie como um iPhone travado, mas valeu pela oferta."

Caminhei até a minha porta, fingindo compostura e elegância. Como se a mulher surtada que acabara de ter um colapso não fosse eu. Enquanto digitava o código, sentia aqueles olhos intensos acompanhando cada movimento meu. Vamos lá, dedos, andem mais rápido.

Bip - finalmente.

Olhei por cima do ombro. Ele ainda estava me observando, de braços cruzados.

"Desculpa pela sua porta", murmurei.

"Eu sobrevivo."

Fechei a porta e me encostei nela. Aquilo foi humilhante. Meu vizinho devastadoramente bonito provavelmente achava que eu era uma lunática e, honestamente? Ele não estava errado.

Espera - devastadoramente bonito? Merda. Eu realmente estava pirando.

Desabei na cama, exausta. Akira mal respirava dentro de mim, ferida pela rejeição, com seus sentidos antes afiados agora totalmente embotados.

"Vamos nos curar", sussurrei para ela.

Nenhuma resposta. Ótimo. Até a minha própria loba estava me ignorando.

Não sei quando comecei a me perder por causa dele. Talvez tenha sido na primeira vez em que ele olhou para mim como se eu não fosse suficiente. Descolori meu cabelo até o couro cabeludo arder porque ele disse que eu era sem graça com meu "castanho sem sal". Enfiei meus pés em saltos que me deixavam cheia de bolhas, só para ele zombar: "Por que você está andando como uma girafa recém-nascida? A Beatrice corria de salto."

Me arrastava para a cozinha antes do amanhecer, cozinhando refeições que eu nunca comia, passando camisas que não eram minhas. Quando a alcateia me humilhava, ele não me defendia. Só me lembrava que eu devia agradecer por "me aceitar".

Agora eu percebo - ele nunca me viu de verdade como sua companheira. Sua única. Eu era o projeto dele. A serva dele. Um tampão até ele encontrar o que realmente queria.

Por quatro longos anos, eu fiquei.

O peso dessa verdade me esmagou. Meu peito doía a cada respiração. Que patético ter entregado tudo de mim por um homem que nunca tentou me conhecer. Meu coração exausto precisava descansar. Me encolhi no travesseiro molhado e deixei a escuridão me levar.

Dois dias se passaram antes de eu acordar de novo.

Chamei Akira com cuidado:

"Você está bem, Akira? Consegue me ouvir?"

Akira se mexeu, fraca, na minha mente:

"Chrissy, estou estranha. Não consigo mais sentir o cheiro de nada."

Congelei, tentando captar qualquer aroma. Nada.

"Talvez seja só temporário por causa de toda a dor", disse para Akira, sem saber se estava confortando a ela ou a mim mesma. "Vai voltar depois."

A cauda dela caiu, sem força, na minha mente. Não conseguir sentir cheiros significava que ela não podia identificar possíveis companheiros - uma perda devastadora para qualquer loba. Mas não havia nada que pudéssemos fazer agora.

Deixei que ela descansasse e chequei minhas mensagens. Estranhamente, meus pais não tinham me bombardeado com conexões mentais ou ligações desde o primeiro ataque de fúria.

Esse noivado tinha sido o bilhete dourado deles para uma aliança com a Alcateia Frostpelt. Um casamento com uma das três maiores alcateias do Norte não era algo que eles abandonariam facilmente. Nenhuma das filhas podia herdar a liderança da Alcateia Crescent, mas casar com um Alfa poderoso? Isso garantia o futuro próspero da nossa alcateia.

Suspeito.

Parte de mim se perguntava se Niall tinha dito algo para mantê-los afastados. Talvez até estivesse se sentindo culpado? Improvável. Mais provável que estivesse planejando o próximo movimento.

A campainha estourou minha sessão de autopiedade. E não parou de tocar. Por cinco minutos.

Gemi. Interação social horrível.

Arrastando minha carcaça até a porta, puxei a maçaneta.

Ysolde Carlisle, minha melhor amiga e a única pessoa com direito legal de gritar comigo, estava ali com os olhos semicerrados e duas sacolas de comida. Então o olhar dela caiu no meu rosto.

"O que diabos aconteceu com você? Sério?"

"Estou dando uma reformada na cara - a simetria estava ficando sem graça", respondi com um encolher de ombros preguiçoso, mesmo com cada músculo do meu rosto doendo.

Ela não comprou essa porcaria nem por um segundo. Estendeu a mão e ergueu meu queixo com cuidado para examinar a pele rachada na minha bochecha.

"Quem encostou a mão em você?"

"Entra logo", murmurei, apressando-a - não precisava que o quarteirão inteiro fofocasse sobre minha cara arrebentada.

A porta bateu atrás de nós, e desabei nos braços dela, toda a minha força indo embora. Depois de um tempo, uma única palavra escapou, baixa e quebrada.

"Niall."

Ysolde ficou rígida.

"Nem a pau", sibilou. "Niall? O Niall que é seu companheiro? O cartaz ambulante de comportamento diplomático perfeito?"

Assenti, sentindo os olhos queimarem.

"Me conta tudo. Não deixa nada de fora."

Então eu contei. A foto da Beatrice. O tapa. A rejeição formal.

Quando terminei, Ysolde parecia pronta para cometer um assassinato.

"Aquele desgraçado", ela sibilou. "E por quê? Por causa da sua irmã maluca que nem está aqui? Juro pela Deusa, Chrissy, a Beatrice podia estar em outro continente e ainda ia dar um jeito de destruir sua vida."

"Talvez seja melhor assim. Pelo menos descobri que tipo de companheiro ele realmente é antes de a gente se casar."

Meu estômago roncou alto.

Ysolde ergueu uma sobrancelha e levantou as sacolas de comida. "Ainda bem que eu vim preparada."

Entre uma garfada e outra, franzi a testa. "Você não acha estranho meus pais não terem ligado? Eles queriam tanto esse casamento, mas agora... nada."

Ysolde deu de ombros. "Devem estar tramando alguma coisa. Seu pai não é do tipo que desiste fácil dos planos dele."

Depois do jantar, Ysolde me empurrou para o banheiro para tomar banho enquanto ela arrumava tudo. Fiquei debaixo da água quente, tentando lavar quatro anos de ilusão.

Pelo vão da porta, ouvi ela ao telefone. Peguei só pedaços.

"Idiota completo."

"Que babaca."

"Você não vai acreditar no que ele fez com ela-"

Ela provavelmente estava falando com Zane Carlisle, o irmão dela. Diferente do Niall, Zane tratava as mulheres com respeito.

O jeito como Ysolde escolheu meu lado tão rápido, tão ferozmente, deixou minha garganta apertada. Ela acreditou em mim sem hesitar. Quando todo mundo ficaria do lado do Niall, ela declarou guerra por minha causa. Isso não era pouca coisa. Enfrentar a alcateia do Niall podia trazer problemas sérios para a alcateia pequena da família dela.

Me enrolei na toalha e suspirei. Por que meus pais não podiam me amar assim?

De repente, fui atingida por ondas de dor excruciante, cada uma atravessando meu abdômen como uma facada. Cada choque queimava no meu pescoço, onde a marca do Niall ainda não tinha desaparecido. Caí no chão do banheiro com um grito.

Ysolde arrombou a porta.

"Chrissy! O que aconteceu?"

Eu mal conseguia falar. "Analgésico... por favor..."

Ysolde me ajudou a levantar e saiu correndo para pegar o remédio. Agarrei meu estômago, mordendo o lábio para não gritar de novo. Isso era diferente da dor da rejeição.

Akira uivava de agonia dentro de mim.

"É traição do companheiro", ela sussurrou, fraca.

"O quê? Mas eu já rejeitei ele-"

"A marca no seu pescoço ainda não sumiu completamente", Akira explicou através da nossa dor.

Sério? Ele me rejeitou e já saiu correndo para se deitar com outra? Não podia ao menos esperar o nosso vínculo quebrar de vez antes de correr para a cama de outra mulher?

Ysolde voltou com os analgésicos e água. Depois que eu engoli tudo e as piores ondas passaram, ela se sentou ao meu lado, com pura fúria queimando nos olhos.

"Aquele desgraçado", ela rosnou.

Assenti, fraca.

"Sabe de uma coisa?" Ysolde se levantou. "Que se dane. Você não devia ter que passar por essa dor sozinha, ele precisa sentir um pouco do próprio veneno."

Olhei para ela sem entender.

"Se veste", ela ordenou. "O Niall não é a última bolacha do pacote, e com certeza não merece o seu luto. A gente vai sair para achar alguém que não precise da foto da ex para funcionar na cama."

Pisquei. "Fui rejeitada e a sua solução é... balada?"

Ela tacou roupas na minha cara. "A minha solução é te lembrar que você é a porra da Christina Vance, e a rejeição de um Alfa não te derruba."

Olhei para ela. Cada parte de mim queria voltar para a cama e sumir. Mas ficar aqui me afundando enquanto o Niall provavelmente estava comemorando com outra? Porra nenhuma!

"Tá bom", falei, me arrastando para levantar. "Mas se eu desmaiar na pista, você vai ter que me carregar para casa."

Ysolde sorriu, maliciosa. "Confia em mim, hoje você não vai precisar de resgate."

Capítulo 3 Três

Ponto de Vista de Christina

"Você não acha que eu estou parecendo uma prostituta? Eu realmente preciso usar isso?", resmunguei, puxando a minha saia minúscula que mostraria minha calcinha se eu simplesmente espirrasse.

"Querida, não é vulgar - é ousado e sexy", disse Ysolde, vestida como uma rainha da máfia e firme contra o vento gelado em seus saltos de quinze centímetros. "E não se desvalorize desse jeito."

"Mas isso não é meio...?" Nem terminei antes de uma rajada brutal de vento me estapear. Apertei imediatamente meu casaco de pele indecente ao redor do corpo e me encolhi como um camarão congelado.

Ysolde soltou um gemido. "Chrissy, vamos lá. A gente está indo para o clube de Alcateia mais exclusivo de Highrise City, não para uma expedição no Ártico."

"Eu só estou feliz por não acabar internada com hipotermia hoje à noite, obrigada", retruquei.

Ela revirou os olhos. "Você não tem um casaco de pele? Sabe, aquele que vem naturalmente?", disse, claramente questionando por que uma loba estava reclamando de frio.

Rosnei de volta: "Porque eu estou na forma humana agora!"

Eu achava que a gente teria que esperar na fila como todo mundo. Era justamente por isso que eu estava usando esse casaco de pele. Mas, claramente, subestimei Ysolde.

Ela não tinha a menor intenção de seguir regras.

Com a facilidade de quem já fez aquilo milhares de vezes, ela enfiou uma nota dobrada na mão do segurança, a palma roçando casualmente o peitoral de pedra dele como uma Bond girl que esqueceu o martíni.

Dez segundos. Foi tudo que levou. Estávamos dentro.

Ysolde tinha aquele tipo de beleza que fazia homens esquecerem o nome e a namorada em dois segundos.

Entramos deslizando no Luna's Eclipse. Era o clube mais exclusivo de Highrise City, onde lobos ricos jogavam política por cima de drinks absurdamente caros.

O lugar era denso de calor, perfume e o cheiro efervescente de champanhe.

Arranquei meu casaco assim que pisamos lá dentro, só para receber de Ysolde um olhar que dizia tudo: Você está tentando me humilhar?

Ela entregou o próprio casaco a um garçom que passava com um simples movimento de dedos, como se tivesse contratado o homem pessoalmente.

Tentei copiar o gesto. Falhei miseravelmente. Quase deixei minha bolsa cair.

"Deusa da Lua!", arfei, com os olhos grudados no menu como se ele estivesse assaltando meu cartão.

Ysolde me lançou um olhar de lado e bufou. "Como assim o Niall nunca gastou dinheiro com você? Que mão de vaca."

"Relaxa. Hoje é por minha conta."

Suspirei de alívio. Considerando que fui rejeitada pelo meu companheiro, tive meu casamento cancelado, e meus pais estavam planejando me expulsar do território para virar uma renegada, eu precisava de uma fortuna só para comprar spray de disfarce de cheiro e impedir o Niall de contratar alguém para me matar.

Ignorando os preços, a vista era de elite - Jovens Gammas promissores, futuros Alfas gatos, e um enxame de caras do mercado financeiro que pareciam dar palestras no TED sobre dominar Wall Street usando ternos sob medida.

Sinceramente, era uma sala cheia de exibidos e aspirantes a galã, todos escondidos sob a luz baixa.

Achamos uma mesa perto do bar e o bartender imediatamente travou o olhar na gente.

Bom. Difícil não notar - alto, traços perfeitos, mangas dobradas até os cotovelos só o suficiente para mostrar antebraços bem treinados.

Ele não deveria estar fazendo drinks. Ele deveria estar estrelando anúncios de perfume da Dior ou modelando cueca masculina sexy. Ou, no mínimo, estampando a capa de um romance sobrenatural para shifters.

Talvez fosse por isso que aquele clube era tão caro - até os funcionários tinham que ser perfeitos.

"Dois 75s, uísque", Ysolde pediu antes mesmo de eu encontrar a bebida mais barata no menu. "Bem forte."

E claro, ela não esqueceu de mostrar o sorriso perfeito, com o queixo inclinado só o bastante para dizer: "Ops, nem queria flertar."O bartender alcançou o gim com a maior facilidade. "Noite difícil?"

"Mais pra um desastre nível rejeição," ela disse, apontando o polegar pra mim sem cerimônia. "E vai terminar bem rapidinho."

Lancei um olhar pra ela. "Que bom saber que minha vida pessoal agora é transmissão pública."

Ela deu um tapinha na minha mão. "Querida, esse lugar funciona à base de catástrofes amorosas. Sem decisões ruins, ninguém compraria bebida."

Então se virou e sumiu no meio da multidão, entrando no Modo Rainha Social como se alguém tivesse apertado um botão.

Em menos de dez segundos, fez um varrido visual e girou de volta, apontando para a beira da pista de dança.

"Certo, escuta. Você precisa de um rebote. Alvo A: metro e noventa e poucos, corretor financeiro estilo Manhattan, terno que vale mais que o seu aluguel mensal, corte de cabelo que grita 'meu terapeuta custa mais que o seu carro'. Vai te levar para jantares chiques e depois te dar um ghost por causa da carteira de ações."

Balancei a cabeça. "Não."

Os olhos dela dispararam para uma nova direção. "Alvo B: tipo artista parisiense atormentado. Parece que sobrevive exclusivamente de cigarro e angústia existencial. Vai escrever poesia sobre seus olhos e depois pedir 'emprestado' dinheiro para material de arte que de alguma forma sempre acaba sendo maconha e delivery."

"Passa."

Ela suspirou e apontou de novo. "Tá bom. Alvo C: músico sensível com um 'EP promissor saindo mês que vem'. Tradução - você vai sustentá-lo financeiramente enquanto ele se encontra através da arte pelos próximos dez anos."

Gemi nas próprias mãos. "Ysolde, pelo amor."

Ela não recuou. "Chrissy, você não pode ficar aqui como um enfeite de parede. Esta noite é sobre reiniciar sua vida, não sobre remendar feridas emocionais."

Bem quando ela se preparava para uma quarta rodada de recomendações de rebote, de repente congelou. Era como se alguém tivesse apertado o mudo em todo o seu sistema.

Então, casual demais, ela disse: "Quer ir ao banheiro?"

Estreitei os olhos. "Não?"

"...Ou talvez a gente mude de mesa? A vibe aqui está estranha." O sorriso dela estava tenso.

Vibe estranha? Mal tínhamos sentado há dez minutos, e os drinques tinham acabado de chegar. Pelos padrões de Ysolde, mal estávamos aquecendo.

Então segui o olhar dela.

Um camarote meio reservado.

Niall.

Ele tinha o braço enrolado em torno de uma mulher. A cabeça dela repousava no ombro dele, a maquiagem impecável, o sorriso polido e sem esforço.

Mas essa não era a pior parte.

Eles estavam se beijando. Beijos profundos, famintos.

A mulher estava sentada no colo dele, o vestido subindo, as mãos de ambos percorrendo os corpos um do outro como se estivessem a segundos de se despir ali mesmo no clube.

Meu estômago revirou. A cena era repugnante, obscena.

Não precisei de mais detalhes sobre quem ela era.

Aquele rosto, nunca esqueceria.

Quatro anos atrás, a mulher generosamente me "presenteou" com o namorado dela como meu companheiro destinado, deixou uma carta comovente e desapareceu para o exterior. Agora estava ali, descaradamente enrolada no colo do meu companheiro, transformando o clube inteiro no palco pessoal da traição deles.

Tinha me dito que havia superado. A gente tinha terminado. Estava feito. Hora de seguir em frente.

Até ouvir o que veio a seguir.

"Honestamente, não achei que ela fosse ter um colapso total por causa de um porta-retrato." A voz de Beatrice pingava falsa piedade enquanto ela se afastava do beijo.

"Coloquei aquela foto onde ela ia ver. Ela ainda não sabe das suas 'viagens de negócios' para a Europa por minha causa. Está na hora de ela ter uma dica, não acha?"

Ela olhou para Niall com adoração. "Querido, sua atuação foi perfeita. Até eu quase acreditei que você se importava com a foto em vez de estar cobrindo a nossa traição."

Niall deu uma risada. "Tinha que parecer chateado. Ela passa todos os dias tentando ser perfeita para mim. Se soubesse que todo o esforço ainda não consegue competir com você, ela perderia completamente o controle."

Beatrice riu suavemente, dando tapinhas no peito dele. "Não se preocupa. Conhecendo a Chrissy, ela provavelmente ainda está tentando consertar as coisas. Ela sempre acredita que se tentar o suficiente, as pessoas vão reconhecer seu valor."

"Quanto mais ela tenta, mais patética fica." Beatrice sorriu. "E eu 'por acaso' voltei para casa. Meus pais não sabem de nada. Ela mesma terminou, então você está isento de culpa."

Niall acenou com a cabeça. "Conversei com os seus pais. O casamento ainda está de pé - só muda a noiva."

Beatrice sorriu em triunfo. "Final perfeito, né? Nunca desisti de você. Só esperei ela se afastar."

Ela se inclinou mais. "Sabe como ela tentou copiar tudo de mim? O cabelo descolorido, as mudanças de estilo, até o jeito de falar? Meu Deus, era hilário ver as tentativas patéticas dela."

Niall bufou. "Igual a uma cópia de liquidação."

"Embora eu achasse que companheiros destinados eram para se amar profundamente?" A voz de Beatrice ficou curiosa. "Vocês dois não deveriam estar...?"

O rosto de Niall escureceu.

Minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar a bebida. As peças estavam se encaixando, e Akira ganhou dentro de mim.

"Ele estava traindo muito antes da rejeição," ela sussurrou fracamente. "É por isso que estamos em tanta agonia."

A percepção me atingiu como um soco no estômago. Quando há infidelidade depois de ser marcada, a intimidade com outra pessoa fora do laço causa dor extrema ao parceiro. Mas a distância pode mascarar a dor imediata da traição - ela apodrece no laço em vez disso.

Todas aquelas "viagens de negócios" para o exterior. Todas aquelas vezes que ele visitou Beatrice. O laço de companheiros havia se deteriorado lentamente, acumulando dano que não podíamos sentir por causa da distância.

Quando Niall me rejeitou, aquela dor de rejeição se combinou com meses de trauma de traição acumulado. Estava nos destruindo as duas.

Não era à toa que eu sentia que estava morrendo. Não estava lidando apenas com a rejeição.

Estava lidando com meses de traição oculta finalmente vindo à tona de uma vez.

Beatrice percebeu a expressão sombria de Niall e rapidamente recuou. "Estou só brincando, bobão. Sei que sou a única no seu coração."

As palavras picaram como humilhação disfarçada de brincadeira. Era o tipo de piada que se esperaria num clube de comédia, não da própria irmã e do próprio companheiro. Engraçado, né? Como as pessoas que melhor nos conhecem são as que conseguem cortar mais fundo.

Akira se mexeu dentro de mim, o rosnado baixo e faminto por vingança.

Ysolde estava me implorando para ficar calma, para não fazer nada estúpido. Mas a voz dela não passava de ruído de fundo.

Eu não era mais a mesma Christina que engolia o próprio orgulho em troca de elogios.

Me soltei da mão de Ysolde e me virei para o bartender. "O seu melhor champanhe. Coloca na conta de Niall Granger."

O bartender me entregou a garrafa.

Com ela na mão, marchei direto na direção de Niall e Beatrice - o abraço deles tão entrelaçado, tão teatral, que parecia uma cena de novela das três da tarde.

Levantei a garrafa e a esmaguei com toda a minha força.

O vidro se estilhaçou com um estalo agudo. A testa de Niall se abriu instantaneamente, uma linha fina de sangue traçando caminho entre as sobrancelhas dele.

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