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A Noiva da Alvorada e o Lobo de Prata - Crônicas de Aethelgard

A Noiva da Alvorada e o Lobo de Prata - Crônicas de Aethelgard

img Fantasia
img 10 Capítulo
img 11 Leituras
img Melissa Mel
5.0
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Sinopse

Uma Tecelã sem visão, um Lobo sem matilha. Um mundo entre o Vazio e o Ferro. Em um reino onde a realidade é tecida por fios de energia invisíveis, a jovem Aurora nasceu na escuridão, mas destinada a ser a "Noiva da Alvorada". O que começou como uma jornada de autodescoberta e sobrevivência transformou-se em uma guerra divina que atravessou eras. Ao longo da história acompanhamos a evolução de uma órfã cega que se tornou a guardiã da Trama de Aethelgard. Ao seu lado, Caspian, o Rei Sombrio que se tornou capaz de assumir a forma de um colossal Lobo de Prata, deixou de ser só um protetor relutante para se tornar o coração da resistência. Juntos, eles enfrentam os inimigos que estão determinados a apagar a existência do mundo, apenas para descobrir que a vitória tinha um preço amargo. Agora, na conclusão desta jornada, o verdadeiro senhor das sombras despertou, Morgath, o Rei Bruxo, não quer o fim do mundo, ele quer a sua posse absoluta. Com suas Sete Torres de Ferro e seus exércitos de mortos, ele busca o que Aurora possui de mais precioso, o seu Sopro Final. Ele não quer apenas derrotá-la, ele quer transformá-la na Oitava Torre, usando sua luz para escravizar a eternidade. Das florestas de Valverde às profundezas das Bibliotecas de Pedra, "A Noiva da Alvorada e o Lobo de Prata" é o relato definitivo de uma aliança forjada no sangue e no amor. Uma história sobre como a esperança pode ser mais dura que o aço e como, mesmo na noite mais profunda, dois corações podem tecer o destino de todo um universo.

Capítulo 1 O Peso da Santidade

A NOIVA DA ALVORADA - O ACORDAR DAS SOMBRAS

Crônicas de Aethelgard - Livro I

Capítulo 1 - O Peso da Santidade

O cheiro não era de santidade, era de fumaça e morte disfarçada.

O incenso de mirra-de-fogo, uma substância rara colhida nas bordas do deserto solar, inundava a pequena câmara de pedra, rastejando pelas minhas narinas e se prendendo ao fundo da minha garganta como uma garra áspera. No convento, as noviças eram ensinadas que a fumaça branca carregava nossas preces diretamente ao trono do Pai Solar, mas, para mim, ela sempre teve o gosto metálico do sufocamento. Era uma tentativa de abafar o grito que eu mantinha guardado atrás dos dentes desde o primeiro badalar do sino ao amanhecer.

- Fique imóvel, criança - murmurou a Irmã Vesper.

Sua voz era como o raspar de um pergaminho velho contra o chão de mármore.

As mãos de Vesper eram ossudas, frias e implacáveis enquanto apertavam meus ombros, me mantendo fixa no banco de pedra. Eu não me mexi. Não por uma questão de obediência ou piedade, mas porque qualquer inclinação, por mínima que fosse, poderia selar meu destino antes da hora.

Sobre a minha cabeça, a Coroa de Vidro Sagrado exercia sua tirania. Ela não era uma joia, nem um adorno de rainha, era uma sentença esculpida em cristal vulcânico, tão transparente que parecia invisível sob a luz das tochas, mas tão pesada quanto o ferro. As bordas afiadas das pontas de vidro pressionavam minhas têmporas. Eu podia sentir o latejar do meu próprio sangue contra o material frio, um ritmo frenético que parecia ecoar o medo que eu não tinha permissão para demonstrar. Cada uma das doze pontas da coroa representava uma das "Virtudes da Luz". Para mim, elas pareciam doze adagas esperando o menor deslize para perfurarem meu couro cabeludo.

- A pureza exige sacrifício, Aurora. A luz exige ordem - continuou a velha, alheia ao suor frio que descia por minha espinha.

Olhei para o espelho de bronze polido à minha frente, a única coisa que me permitia ver a estranha em que eu havia me tornado. A garota no reflexo estava envolta em camadas de linho branco, tão fino que eram quase translúcidas, presas por fios de ouro que serpenteavam meu torso como correntes de uma prisioneira de luxo. A "Noiva da Alvorada". Minha pele, normalmente corada pelo pouco tempo que me permitiam passar nos jardins, estava pálida, quase da cor da cera das velas que derretiam ao redor.

- É uma honra que poucas podem carregar - disse Vesper, mergulhando o polegar em um frasco de óleo dourado. - Milhares nascem sob o sol, mas apenas uma é escolhida a cada geração para garantir que o ciclo não se quebre. Você deveria estar transbordando de gratidão.

Ela traçou um círculo solar no centro da minha testa com o óleo. O líquido ardeu instantaneamente, penetrando nos meus poros com um calor químico. Eu fechei os olhos por um segundo, e por trás das pálpebras, vi as imagens que os sermões da Igreja haviam gravado na minha mente desde os oito anos, o Reino Solar desmoronando, as sombras devorando as plantações, os monstros de olhos vermelhos arrancando crianças de seus berços.

"Minha vida pelo brilho do mundo", repeti mentalmente, a oração automática que era o meu único escudo contra a loucura.

- O Véu de Ébano está fraco, Aurora - a voz de Vesper baixou para um sussurro conspiratório, enquanto ela ajustava as dobras do meu vestido. - As criaturas do sul estão famintas. Elas arranham a barreira todas as noites, buscando uma fresta para transformar Aethelgard em um cemitério de gelo. Se o seu sangue não for oferecido no precipício hoje, o Rei das Sombras não hesitará. Ele virá e reduzirá este templo a cinzas. Você quer ser a razão da queda da humanidade?

- Não, Irmã - respondi. Minha voz saiu seca, sem vida.

- Então aceite o peso. Ele é a sua salvação.

Vesper não via a ironia em suas palavras. A Igreja da Luz pregava a salvação através da dor. Eles me chamavam de salvadora, mas me tratavam como gado premiado que precisava ser limpo e adornado antes do abate.

O sino de bronze, o maior da Catedral de Ouro, ressoou pela terceira vez. O som foi tão potente que fez o ar na câmara vibrar, e a vibração viajou pelo cristal da coroa, transformando o silêncio em uma agonia aguda dentro do meu crânio. Era o sinal. O sol estava em seu ápice. O momento da transição havia chegado.

- Está na hora. Mantenha o queixo erguido. O povo precisa ver a santidade em seu rosto, não a dúvida. A dúvida é a semente das sombras.

As portas duplas de carvalho da câmara se abriram com um estrondo. O corredor externo estava ladeado por Guardas Solares em suas armaduras de placas douradas, polidas a tal ponto que refletiam a luz das foscas janelas altas em feixes cegantes. Eles bateram a base de suas lanças no chão em uníssono, um som metálico que reverberou no meu peito.

Eu dei o primeiro passo. Cada movimento era coreografado. Meus pés descalços sentiam a frieza do mármore. Eu sentia cada músculo do meu pescoço rígido, segurando a coroa como se minha alma dependesse daquele equilíbrio.

Enquanto eu caminhava pelo corredor em direção ao pátio externo, a luz do dia começou a inundar o ambiente. Eu podia ouvir o rugido da multidão lá fora. Milhares de pessoas haviam viajado de todas as províncias para ver a Noiva passar. Elas gritariam meu nome, jogariam pétalas de jasmim e fariam o sinal do sol enquanto eu passava, implorando por uma benção que eu não tinha o poder de dar. Elas queriam o espetáculo da minha morte para que pudessem dormir tranquilas por mais um século.

Mas, sob o véu de obediência, algo dentro de mim queimava. Não era a luz do Pai Solar. Era uma fagulha de raiva, um desejo proibido de ver o que aconteceria se a coroa caísse, se o ritual falhasse.

Pela primeira vez em dezoito anos, enquanto o calor insuportável do sol atingia meu rosto ao atravessar o portal do templo, eu não rezei pela luz. Eu olhei para o horizonte sul, onde o céu começava a escurecer no cinza profundo do Véu de Ébano, e desejei, com toda a força do meu coração traidor, que as sombras fossem reais o suficiente para me resgatar.

Eu não queria ser uma santa, eu só queria ser livre.

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