As luzes fluorescentes acima eram brilhantes demais, zumbindo numa frequência que parecia vibrar diretamente contra o crânio de Anajê. Ela piscou, sentindo as pálpebras como lixa, e tentou levantar o braço direito. Uma dor aguda e queimante disparou do ombro até o pulso, forçando um gemido de sua garganta seca. Ela cerrou os dentes contra uma onda de tontura, um fantasma persistente da concussão sobre a qual o médico a alertara. Olhou para baixo. Seu braço estava envolto em gaze grossa, um branco gritante contra o hematoma que já florescia em violeta e verde na sua pele.
Ela estava viva.
A memória da turbulência, os alarmes gritando no jato particular e o silêncio aterrorizante que se seguiu à queda voltaram numa onda fragmentada e caótica. Ela se lembrava do ar frio entrando por uma brecha na fuselagem. Lembrava-se de esperar pelo fim.
Uma enfermeira entrou apressada no quarto, verificando a bolsa de soro pendurada ao lado da cama. Ela não olhou para o rosto de Anajê, apenas para o equipamento.
- Com licença - Anajê coaxou. Sua voz era uma ruína. - Alguém esteve aqui? Meu marido?
A enfermeira parou, os olhos oscilando em direção à porta e depois voltando para a prancheta em suas mãos. Parecia desconfortável, mudando o peso de um pé para o outro.
- Apenas a entrega de flores, Sra. Hortêncio. De uma Gertrudes Hortêncio. Sem visitas.
Gertrudes. A avó de Adão. A única que olhava para Anajê com algo além de desprezo. Mas e Adão?
Anajê alcançou o telefone na mesa de cabeceira com a mão boa. A tela estava rachada, uma teia de aranha distorcendo o vidro, mas ganhou vida. Ela tocou no registro de chamadas. Seu coração martelava contra as costelas, um pássaro frenético preso numa gaiola.
Havia três chamadas perdidas. Todas da seguradora sobre a aeronave.
Zero de Adão.
Ela abriu o aplicativo de notícias. A manchete gritava em letras pretas e ousadas: "Pouso de Emergência do Jato Particular Hortêncio – Piloto e Passageira Sobrevivem". Abaixo, havia uma foto. Não era do local do acidente. Era uma foto de arquivo de Adão, parecendo elegante e severo num terno grafite, cortando uma fita num novo centro tecnológico. O horário da reportagem era de duas horas atrás.
Adão estava sorrindo na foto. Ele estava cortando uma fita enquanto ela sangrava numa vala.
Um frio que nada tinha a ver com o ar-condicionado do hospital instalou-se fundo em sua medula. Começou no peito e se espalhou, adormecendo as pontas dos dedos. Ela não era apenas desimportante; ela era inexistente.
Ela levantou a mão e arrancou a fita do acesso venoso de sua mão.
- Senhora! Não pode fazer isso! - a enfermeira gritou, deixando cair a prancheta.
Anajê não olhou para ela. Deslizou as pernas para fora da cama. O chão estava congelante contra seus pés descalços.
- Estou assinando minha alta contra o conselho médico - disse Anajê. Sua voz estava mais forte agora, alimentada por uma raiva súbita e gélida. - Tenho uma abrasão de grau 2 e provavelmente uma concussão leve. Eu mesma monitorarei vômitos e dilatação da pupila. Me dê a papelada.
A enfermeira parecia atordoada pela mudança repentina de comportamento, pela terminologia médica fluindo da mulher que assumiram ser apenas uma esposa troféu traumatizada.
Dez minutos depois, Anajê saiu pelas portas de vidro deslizantes da emergência. Usava sua camisola hospitalar enfiada num par de calças cirúrgicas largas que a enfermeira lhe dera por pena, e um corta-vento fino e descartável.
Estava chovendo. Claro que estava chovendo. Uma garoa fria que encharcou o tecido fino instantaneamente, colando o cabelo na testa.
Ela ficou no meio-fio, tremendo. Não queria voltar para a cobertura. A ideia daquele mausoléu de vidro fazia seu estômago revirar.
Um veículo preto elegante virou a esquina, os faróis cortando a escuridão. A respiração de Anajê falhou. Ela conhecia aquele carro. Era um Bentley Mulsanne. O carro de Adão.
Por uma fração de segundo, uma esperança patética brilhou em seu peito. Ele tinha vindo. Ele tinha ouvido.
Ela recuou para trás de uma coluna de concreto, uma vergonha súbita tomando conta dela. Ela parecia um destroço. Não queria que ele a visse assim.
O carro não parou na área geral. Deslizou por ela, suave e silencioso, e parou na entrada VIP a quinze metros de distância.
O motorista, um homem que ela conhecia bem, saiu e abriu um grande guarda-chuva preto. Ele abriu a porta traseira.
Adão saiu.
Anajê pressionou-se contra o concreto frio da coluna. Ele estava impecável. Sem gravata, botão superior desfeito, mangas enroladas até os cotovelos. Ele parecia preocupado. A testa franzida, o maxilar tenso.
Ele se virou para o interior do carro e se inclinou.
Não puxou uma pasta. Não se afastou. Inclinou-se e pegou alguém nos braços.
Era uma mulher. Pequena, loira, frágil.
Cássia Inácio.
Cássia tinha o rosto enterrado na curva do pescoço de Adão, os braços enrolados firmemente em seus ombros. Parecia pequena e preciosa, como porcelana fina que precisava ser manuseada com extremo cuidado.
Anajê assistiu, paralisada. Não conseguia ouvir o que diziam, mas viu os lábios de Adão roçarem a testa de Cássia. Foi um gesto de tamanha ternura, tamanho instinto protetor, que pareceu um soco físico no estômago de Anajê.
Adão virou-se e carregou Cássia em direção aos elevadores VIP. Ele não olhou para a esquerda. Não olhou para a direita. Certamente não olhou para a saída geral onde sua esposa, que acabara de cair do céu, estava parada na chuva.
O telefone vibrou em seu bolso. Ela olhou para baixo, entorpecida. Era uma mensagem automática da companhia aérea: "Pedimos desculpas pelo inconveniente em relação à sua bagagem..."
Ela olhou para cima, mas as portas automáticas já haviam se fechado atrás deles. Eles tinham ido embora.
Anajê olhou para sua mão esquerda. A simples aliança de platina em seu dedo parecia pesada, como uma algema. Ela a segurou com a mão direita, girando-a sobre o nó do dedo. Parecia fria, estranha. Ela não a jogou fora. Em vez disso, uma resolução fria tomou conta dela. Isso merecia mais do que um gesto desesperado na chuva. Merecia um enterro final e deliberado.
Um táxi amarelo passou por uma poça e diminuiu a velocidade perto dela. Anajê levantou a mão.
- Para onde? - perguntou o motorista, observando sua roupa estranha.
- Mansão Hortêncio - sussurrou ela. Então limpou a garganta e disse novamente, mais alto. - Mansão Hortêncio.
Ela entrou no banco de trás e fechou os olhos, mas a imagem de Adão carregando Cássia estava queimada na parte de trás de suas pálpebras.