Cada passo ao lado do meu pai parece segurar o tempo pela garganta. Ele segura meu braço com uma doçura que tenta esconder o que o corrói por dentro. A mão dele treme, não de emoção, mas de algo que o está vencendo.
Sempre fomos nós dois.
E hoje... ele me entrega porque já não pode me proteger por muito mais tempo...
Marlon Shert me espera no altar, imponente, impecável e inalcançável.
O melhor amigo do meu pai, o único homem em quem ele confia a minha vida.
O homem que me viu crescer. Nunca me olhou como mulher, e não olha agora.
O meu primeiro e único amor.
Meu pai para diante dele. A voz falha, pesada como despedida:
- Marlon... cuide da minha menina. Você sabe por quê. Só você pode protegê-la.
Minhas pernas vacilam. Quando ele solta minha mão, sinto como se arrancassem uma parte de mim. Marlon a segura em seguida, firme. A frieza de quem cumpre um dever e não um desejo.
Digo "SIM" com a alma tremendo.
Ele diz "SIM" com o coração blindado.
E quando o juiz declara que agora somos marido e mulher...
Marlon beija minha testa.
Uma carícia paternal.
Um gesto público de... rejeição? Humilhação?
Eu passei a vida inteira esperando que ele me visse... e hoje, ele olha para mim como se eu fosse uma obrigação.
O sorriso que eu mostro para as câmeras é só fachada.
Um aperto no peito, seguido por um arrepio que não vem do frio, é a minha intuição avisando, baixinho, que tem alguma coisa errada chegando...
Tento sorrir, parecer feliz. Mas por dentro, a sensação de vazio me esmaga. Fotos. Brindes. Cumprimentos. Apenas aparências.
E então começa a valsa.
Marlon coloca a mão em minha cintura e me guia pelo salão como se conduzisse uma peça rara, com respeito e ternura.
Ainda assim, por um segundo, permito-me acreditar. Fingir que existe algo ali, mesmo vendo nitidamente a tormenta nos seus olhos azuis.
Mas então vejo ela.
Uma mulher parada ao fundo.
Olhar afiado.
Uma presença tão intensa que atravessa o salão e corta minha pele.
Ela não me encara.
Ela o encara.
Marlon.
E o ódio que sai dos olhos dela é tão puro que chega a me gelar.
Os convidados logo se juntam a nós na pista, depois, lanço o buquê... mas aquela mulher não sai da minha mente.
Após todas as formalidades, finalmente chega a hora de fugir. Marlon segura a minha mão com firmeza e diz em tom baixo:
- Está na hora, precisamos sair daqui.
O caminho até a mansão é tenso. Ele dirige como se fugisse de si mesmo.
Quando o carro para, diante da mansão Shert, iluminada por refletores e rodeada por jardins perfeitos, sinto aquele arrepio percorrer meu corpo mais uma vez.
Essa será minha nova casa. A casa de um homem que acha que me conhece...
Ele abre a porta para mim e entra à frente, a postura ereta, quase militar. Eu o sigo, meu coração bate tão alto que tenho certeza de que ecoa nas paredes.
E ele nem olha para trás ao dizer:
- Esse é o seu quarto. O meu é ao lado.
Meu riso é incrédulo.
- Na noite de núpcias?
Ele engole seco.
- É melhor assim. Evita... confusões.
Mas quando peço ajuda com o vestido, ele congela. Vejo sua luta interna. Sua hesitação. Sua vergonha. Ele abre o zíper devagar, como se o toque queimasse. E talvez queime mesmo, em nós dois.
Assim que termina, foge. Literalmente.
Sozinha, escolho uma roupa confortável, retoco a maquiagem, solto os cabelos e desço.
A noite está silenciosa, a luz da piscina tremula na água, e Marlon está lá, segurando um uísque como se fosse escudo.
- Aceito uma dose - digo, quebrando a distância.
Ele ergue os olhos para mim, visivelmente surpreso.
- Você?
- Pois é... me sirvo, levando o copo aos lábios sem medo. - Tem muita coisa sobre mim que você ainda vai descobrir.
Se ele finge frieza, eu finjo coragem.
Ele inclina a cabeça, intrigado.
- Nunca imaginei você desse jeito.
- A vida gosta de pregar peças.
Por alguns segundos, o silêncio paira, apenas quebrado pelo som da água na piscina. Finalmente, ele ergue o copo e diz:
- Que seja, então... brindemos ao inesperado.
- Ao inesperado - repito, brindando com ele.
Brindamos.
E ele me puxa num abraço inesperado, forte, quente, e quase desmonto por dentro.
- Lara... eu sei que não foi o casamento dos seus sonhos, mas eu quero que saiba de uma coisa. Eu vou cuidar de você. Vou te proteger, aconteça o que acontecer.
As palavras me envolvem.
Eu quase acredito.
Quase.
Então...
Um barulho.
Uma voz que corta a noite como uma lâmina.
- Então é isso?!
A mulher.
Da igreja.
Da valsa.
Furiosa, como se a raiva a trouxesse até aqui.
Ela avança, os olhos arregalados num ódio tão intenso que parece febre.
- Marlon! - ela grita, apontando para mim. - É essa palhaçada?! Essa garotinha mimada?! Ela tem idade para ser sua filha!
Meu sangue ferve.
A humilhação sufoca.
A raiva acende inteira.
- ELE NÃO É MEU PAI!!!
O tapa sai antes do pensamento.
Senti o calor ardente na palma. Não sabia se era da força... ou da coragem que finalmente encontrei.
Ela cambaleia e cai na piscina, afundando com o peso do próprio ódio.
A água explode.
Ela emerge cuspindo insultos, o rosto distorcido, ensopado, monstruoso.
Marlon fica imóvel.
A expressão dele... é de choque e culpa, e me atinge como faca.
A mulher apoia as mãos na borda, respirando fundo, e me encara com um sorriso rachado.
Os olhos dela são de alguém que perdeu algo e quer destruir tudo ao redor para recuperar.
- Você... - ela sussurra, a voz vazando veneno. - Você acha mesmo que entende quem ele é?
Meu coração erra o compasso.
Ela vira o rosto para Marlon.
E ele... dá um passo para trás.
O ar parece ficar pesado, um cheiro de álcool e traição misturados.
Um passo.
Um único.
Mas suficiente para destruir algo dentro de mim.
- Você acha que se casou com um homem?
Ela anda de um lado para outro, ri, um som quebrado, doentio.
O olhar dele escurece por um segundo, como se um monstro antigo despertasse.
Então ela finaliza:
- Pede para ele te contar o que fez comigo.
- Se ele tiver coragem.
O silêncio parece vivo... e Marlon calou-se.
Mas se até o silêncio dele me fere... o que acontece quando eu finalmente descobrir do que, exatamente, eu deveria ter medo?