Nunca fui deslumbrada, ambiciosa ou algo do tipo, mas, como todo ser humano, estou em busca de algo melhor para a minha vida. Contudo, infelizmente, as coisas mudaram e tomaram proporções inesperadas...
Como comentei antes, comunidades têm seus perigos. E, neles, diversas possibilidades. No meu caso, foi a família - para ser mais exata, o meu irmão mais velho.
Eu, que sonhei com um futuro longe do morro, com um trabalho, uma casa, uma vida tranquila, com apenas o necessário para viver.
Meu pai morreu em um assalto e, de quebra, deixou um irmão mais velho, o Abraão, que foi a minha desgraça.
O desgraçado foi vítima dos traficantes. Ele era alcoólatra e vivia pegando dinheiro emprestado com agiotas para suprir seu vício. Eu tentava de tudo para que ele parasse com isso, mas não conseguia. Até que ele acabou morrendo... e eu herdei suas dívidas com os agiotas. Alguns caras eu até conhecia, pois cresceram comigo na comunidade e, talvez por conta disso, eles não me mataram.
Mas, com certeza, algo muito ruim me esperava, já que eu não poderia pagar a dívida imensa que meu irmão fez com eles. Alguns dias se passaram, e foi aí que descobri que alguns dos caras tinham ligação com a boca. Aí que tudo fodeu de vez. Ao invés de eu dever aos agiotas, passei a ter que prestar contas com os traficantes do morro. Foi aí que o que já estava fedendo apodreceu de vez.
O sub veio até o barraco onde nós morávamos para dizer que a dívida trocou de mão e que eu teria que pagar de qualquer maneira dentro de 24 horas.
As horas passaram e eu com o cu tão apertado que não passava sequer uma agulha, de tanto medo que eu estava. Trovão era o pior chefe da comunidade que eu conhecia. O desgraçado não tinha piedade nem da família, imagina de uma magrela sem graça como eu.
A dívida cresceu tanto que já estava em cem mil reais. E onde eu ia conseguir levantar uma grana dessas em 24 horas? Nem rodando a madrugada inteira na Avenida Atlântica conseguiria isso. Então já estava me acostumando com a minha situação: eu iria morrer depois de ser estuprada da pior maneira possível por aqueles porcos da boca.
Já ouvi várias garotas contando barbaridades que acontecem naquele quartinho nojento que eles usam para tudo - desde desovar corpos a comer umas às outras.
Eu já estava me sentindo um lixo. E o pior de tudo é que só pensava naquele bonitão da revista. Bem que podiam aliviar o meu lado e me dar um presente de misericórdia para essa moribunda virgem, né? Não seria nada mal morrer sendo fodida por aquele gostosão dos olhos azuis.
- Tá maluca, Malu? Essa parada de morte e execução mexeu demais contigo. Até ficou doida, sonhando com um cara de revista.
Eu me bati quando levei um susto com a porta sendo colocada abaixo e fui arrastada às cinco da madrugada, jogada dentro de um carro, sendo levada sei lá para onde.
O carro parou e eles diziam que eu iria pagar a dívida de qualquer jeito.
Eu já estava desesperada. Me arrastaram, jogando-me em um lugar escuro. Fui presa em um quarto sujo, onde esperei para ver o que fariam comigo.
Sempre fui muito corajosa, mas confesso que agora estou com um medo imenso. Não sei o que vai acontecer comigo e com a minha vida. Andando de um lado para o outro naquele quarto escuro, cheio de coisas empilhadas que com certeza foram roubadas, eu pensava em como terminaria a minha vida... Pois, para mim, ela tinha acabado ali.
Chorando e com muito medo, eu esperava ser perdoada, mas, no fundo, sabia que não haveria perdão. Me assustei quando abriram com força a porta de onde eu estava. Era Vinícius, um dos meninos com quem cresci. Agora ele era traficante e, para a minha sorte, foi ele quem conseguiu convencer os outros a não me matar.
- Vem, Malu. Se adianta e facilita a minha situação, que o chefe quer que eu leve você - disse ele com uma voz de quem não queria fazer aquilo.
Eu não disse nada. Apenas saí daquele lugar horrível e fui com ele. Também, o que eu poderia fazer? Meu destino já estava traçado, sem que eu tivesse escolha. Meu coração estava a ponto de ter um ataque. Era agora que eu saberia o que eles iriam fazer comigo. Minhas lágrimas escorriam feito cachoeira. Eu tremia. Estava em pânico.
Chegando a uma sala cheia de homens armados com armas pesadas, parei na frente do tal chefe que eu só conhecia de vista: o desgraçado do Trovão.
O sujeito era um mulato em torno de 1,80m de altura, musculoso, cheio de correntes de ouro no pescoço, tatuagens por todo o corpo, anéis nas duas mãos, pulseiras e um Rolex no pulso esquerdo. Eu fiquei toda excitada só de ver aquele corpo delicioso, sem camisa, completamente exposto da melhor maneira possível.
Mas tudo passou quando tirei os olhos do seu corpo e encarei seus olhos cinzas e sombrios, fazendo-me sentir que estava no próprio inferno.
Todos naquele lugar, que era chamado de escritório do tráfico, me olhavam como se quisessem me devorar. Eu fiquei ainda mais apavorada. Afinal, eu era virgem. Tudo o que conhecia sobre sexo era o que lia em contos eróticos e nas revistas de fofoca - onde estava o meu maior desejo de consumo: o tal homem de olhos azuis, gostosão.
- Você deu sorte, gostosa. Escapou de morrer... - disse Trovão, me observando e tocando no meu cabelo.
- O que vai fazer comigo? - perguntei, assustada, me esquivando.
Ele se aproximou do meu ouvido e falou em um sussurro que arrepiou todos os pelos do meu corpo:
- Vamos te dar de presente para um bacana aí. E tu, gostosinha, vai ficar junto com umas mulheres que querem ganhar a vida vendendo o corpo.
- Quê? Não! Por favor! Me prostituir, não! - tentei levantar, mas ele me empurrou com uma só mão, me fazendo sentar novamente.
- Eu lamento, delícia. Até queria ficar contigo, mas nós temos uma dívida com ele e precisamos pagar. E você vai ser o pagamento. Assim, sua dívida também será quitada com a gente. É isso ou a morte. Escolhe aí que ainda dá tempo.
Ele destravou a pistola. Ao ouvir o estalo, comecei a tremer.
Eu só sabia chorar. Minha vida acabou ali. Eu seria entregue a uma casa onde mulheres se vendem, e eu teria que fazer isso também. Preferia morrer a vender o meu corpo.
- Por favor, me matem. Eu prefiro morrer, mas não me levem para esse lugar. Por tudo que é mais sagrado. Me ajuda, Vinícius! Por favor!
- Desculpa, Malu... mas dessa vez não tenho como te ajudar.
- Lombriga nem é louco de contrariar minhas ordens, filhinha. Palavra de Trovão vira lei. Sem chance, gatinha. Você é gostosa e eles te querem.
[...]
Perdida em pensamentos, nem percebi que havíamos chegado. Era uma casa imensa - tipo uma mansão. Confesso que pensei que seria um puteiro nojento, mas não era. Era luxo.
[...]
- Façam fila. O chefe está chegando para dizer o que cada uma vai fazer...
[...]
Ouço o barulho vindo da escada caracol.
E então ele apareceu.
Descendo os longos degraus de granito com um ar superior. Como um verdadeiro Deus.
Terno preto impecável. Óculos escuros. No pulso esquerdo, um relógio de grife. No direito, uma pulseira de ouro trançada. No dedo mínimo, um solitário de ônix, típico dos mafiosos italianos.
Alto. Forte. Musculoso na medida certa. Barba desenhada. Cabelos cor de chocolate perfeitamente alinhados.
Eu estava olhando para um Deus grego. E, quando ele retirou lentamente os óculos escuros e seus olhos azuis encontraram os meus... Meu coração simplesmente parou.
Era ele.
O homem da revista.
E, pela forma como me encarava, eu soube naquele exato instante... Que meu destino estava prestes a mudar. Mas não fazia ideia se seria para me salvar... Ou para me destruir de vez.
Continua...