Olho meu reflexo pela última vez antes de me levantar da penteadeira e descer as escadas bambas até a sala, onde minha família me espera. A escadaria é iluminada por uma vela meio consumida repousando num aplique de parede. Desde a chegada deles, o progresso parou. Fomos condenados a viver do jeito deles. Malditos nostálgicos com aversão à tecnologia. Tudo o que sei sobre o "mundo avançado" é o que consegui ler em livros antigos ou ver em fotografias que já começam a desbotar e rachar. Passamos mais de um século voltando no tempo, adaptando-nos ao modo de vida deles: viajamos de carruagem, usamos roupas pomposas e desconfortáveis, e nos comunicamos por carta. Nasci quando computadores, celulares e carros movidos a gasolina já eram apenas lembranças na mente dos mais velhos.
Piso no último degrau, que range sob meu peso, e encontro toda a minha família reunida ao redor da mesa. Minha mãe serve sopa com uma concha, enchendo as tigelas com um sorriso, porque poder nos oferecer esta refeição hoje não é algo comum. Não somos uma família rica, nem sequer de classe média.
"Querida, sente-se, vai esfriar."
Tomo meu lugar ao lado da minha irmã de sete anos, Abigail, uma garotinha de cachos em tom acobreado e olhos cor de mel. Ela sorri para mim com o vãozinho entre os dentes.
"Não fique nervosa, talvez eles não escolham você."
A voz do meu pai é doce, como ele é. Às vezes penso que ele é assim comigo porque fui marcada desde o nascimento. Ser primogênita me marcou e me condenou a um destino miserável. Um destino em que me veem como mera fonte de alimento para aqueles seres frios, sádicos, sem alma.
"Eu não estou nervosa", minto. "Passei dezoito anos me preparando para isso."
Sei que o sorriso não chega aos meus olhos, embora eu tente transmitir o máximo de calma possível. Isso não é fácil para eles - como poderia ser para quaisquer pais? Em poucas horas, será meu décimo oitavo aniversário e, em apenas alguns dias, haverá lua cheia, o que significa entrar no Leilão Carmesim. Se você tiver sorte, talvez ninguém a compre, mas se agarrar a essa esperança é tolice. Somos produtos, somos apenas sangue. No fim, eles vão acabar nos comprando, seja você atraente, ossuda ou doentia. Cedo ou tarde, alguém estará disposto a se alimentar de você.
"Para ser exato, foram dezessete anos e trezentos e sessenta e quatro dias", diz meu irmão, tentando aliviar o clima. "Não me peça para ser mais preciso com horas, minutos e segundos porque nisso eu posso falhar."
Reviro os olhos; isso é típico dele recorrer ao humor bobo quando as situações o sobrecarregam. Silvano, a quem todos chamamos de Silas, é meu irmão mais novo por dez meses, mas insiste em agir como se fosse mais velho que eu. Ele tem o corpo largo, atarracado, cabelo dourado-palha e olhos cor de mel como os da Abigail. Os meus são cinzentos, vazios, sem cor. Tudo em mim parece carecer de brilho, dos olhos ao tom escuro do meu cabelo.
Pego a colher e provo um pouco da sopa. O olhar da minha mãe está em mim, esperando que eu diga algo ou reaja de algum modo. Sorrio para ela, e ela parece relaxar no assento. Seu cabelo é da mesma cor do meu irmão, levemente grisalho e preso num coque baixo na nuca. E, embora o olhar dela seja o mais doce que já vi, também é o mais triste.
"Está uma delícia, mãe."
Me obrigo a continuar comendo, embora meu estômago esteja fechado de nervoso. Sou uma péssima filha e irmã pelo que planejo fazer esta noite. Certamente eles não terão orgulho de ter criado uma filha tão egoísta, disposta a terminar a própria vida por medo de vivê-la até o último suspiro ao lado daquelas criaturas insaciáveis e pecaminosas.
"Então você disse que você e a Lea vão dar uma caminhada perto do lago..." diz meu pai. "Você sabe que não deve voltar tarde, está escurecendo. Não importa o que prometam, eles são perigosos."
"Eu sei, pai, não se preocupe, vamos ficar bem."
Ele acaricia a barba de vários dias com os dedos enquanto me examina. Será que ele sabe minhas verdadeiras intenções? Eu as trago estampadas no rosto? Por fim, ele volta a atenção para a tigela.
"Posso ir?" pergunta Abigail. "Por favor, por favor..."
"Não", respondemos todos ao mesmo tempo.
Abigail faz bico e volta para a sopa. O clima está mais tenso do que o esperado; não deveria ser assim, mas a ameaça está no ar e ninguém está disposto a ignorá-la. Em quatro dias, vou deixar esta casa - muito provavelmente para o resto da vida.
Não deixo uma única gota na tigela antes de me levantar. Olho toda a minha família, gravando-os na memória. Queria poder dizer a Silas que espero que um dia ele me perdoe pelo preço que minha morte vai custar a ele, pela forma como o condenará. Queria poder explicar que vivi com medo por muitos anos e não suporto mais. Que a morte me parece um passeio no parque comparada ao destino que a vida me reserva.
Não faço nada disso. Apenas sorrio para eles uma última vez, corro para o meu quarto e pego um manto forrado de pele que a Lea me deu anos atrás e que venho guardando com cuidado, pois é uma das poucas coisas valiosas que possuo. Depois de alguns minutos, escapo pela porta sob o olhar de todos. O ar frio beija minhas bochechas e, embora a primeira neve ainda não tenha chegado, temo que não vá demorar. Sigo pelo caminho até a casa da Lea, a algumas ruas da minha. Os últimos trabalhadores percorrem as ruas, ansiosos por se refugiar no calor de seus lares, algumas mulheres terminam de recolher as roupas que estenderam pela manhã, e os lojistas estão fechando seus estabelecimentos.
Lea está bem na entrada do pequeno caminho para sua casa, esperando por mim, toda encolhida no manto, o nariz vermelho de frio. Ela sorri e, mesmo sem querer, é um sorriso triste. Seus cabelos alaranjados emolduram o rosto.
"Elara!" Ela corre alguns passos na minha direção. "Pensei que você não viria!"
"Desculpe, me atrasei um pouco." Enlaço meu braço no dela e começamos a caminhar pelas ruas sujas da aldeia. "Como está a família?"
"Como sempre. Mamãe ainda espera as cartas da Sophie toda semana, mas já fazem duas semanas desde a última."
"As estradas estão ruins, o correio não tem chegado com frequência ultimamente", tento tranquilizá-la.
Sophie é a irmã mais velha da Lea. Há um ano, ela entrou no Leilão Carmesim e foi comprada. Nem todos têm a sorte de ter donos que permitam manter contato com a família. A maioria é arrancada completamente, considerada morta para o mundo. Sophie tem sorte de ter sido comprada por alguém que não se importa com nada além de ter um lanche à meia-noite.
A falta de cartas pode ser apenas coincidência ou, no pior dos casos...
"Mamãe vai adoecer se isso continuar, e papai tem trabalhado demais. Acho que eles estão começando a temer o pior, e eu... eu não sei como me sentir."
"Tenho certeza de que ela só se atrasou um pouco, não perca a esperança." Eu afago a mão dela com a minha, dando leves tapinhas. "Como vão suas últimas leituras?"
Tento distraí-la falando sobre aqueles livros enormes que falam do mundo de antes. Lea é uma garota curiosa; desde que aprendeu a ler, adora vasculhar as barraquinhas do pequeno mercado em busca de livros que contêm como a vida costumava ser. Eu amo isso nela gosto de sentar à beira do lago e ouvi-la tagarelar por horas sobre como pessoas da nossa idade se relacionavam, sobre a moda, tão mutável, fugaz e muito mais confortável do que a de hoje.
Chegamos ao lago, caminhando de braços dados, e acabo me perdendo enquanto encaro a água. Lea tem sorte.
O sacrifício da irmã significou que o Libris da família dela foi selado.
Uma vez selado, considera-se que a família já pagou o suficiente. Os pais entregam o primogênito e, em troca, recebem a certeza de que não perderão mais nenhum filho, além de uma pequena bolsa de moedas para se alimentar por um ano. Uma pequena esmola em troca de perder um filho para sempre.
"Você está me ouvindo?"
Pisco, saindo dos pensamentos.
"Desculpa." Sorrio, constrangida. "O que você estava dizendo?"
"Não se preocupe." Aquele sorriso triste de novo. "Tenho certeza de que você tem muita coisa na cabeça. Eu estava dizendo que ontem, durante a caminhada com a mamãe, Felippo, o filho do padeiro, parou para conversar com a gente por um tempo. Ele não conseguia parar de olhar para mim, talvez..."
"Talvez...?" As bochechas dela ficam coradas. "Você gosta do Felippo?"
Ela tenta me ignorar, olhando para qualquer coisa menos para mim. Mesmo assim, não desisto e começo a cutucá-la de lado, forçando-a a me encarar entre risos.
"Não seja boba, Felippo é demais..."
"Demais o quê?"
"Demais certo."
"Certo demais?" Ergo uma sobrancelha. "Você é a pessoa mais certinha que conheço."
Ela solta meu braço e começa a andar de costas, girando devagar enquanto fala.
"Sim, por isso quero alguém rebelde, aventureiro, alguém que me faça sentir viva. Não quero algo tradicional e típico quero alguém que me empurre a fazer coisas novas."
"Você quer dar um ataque do coração nos seus pais", digo.