Caminhei descalço os poucos metros até o box. Ali estava ele, erguendo-se como uma jaula de cristal no meio do quarto: quatro paredes de vidro blindado, transparentes até o último milímetro, sustentadas apenas por bordas pretas de aço fosco nas quinas - linhas retas, frias, sem enfeites. Nada de cortinas, nada de privacidade falsa. (Não tinha muito disso no lugar de onde eu vinha.)
Soltei uma lufada de prazer com a ideia de enfim tomar um banho decente.
A luz baixa do abajur atravessava o vidro sem piedade, iluminando cada detalhe do interior seco, esperando. Parei na entrada, mão apoiada no batente preto, robe entreaberto revelando o peito e a cicatriz que descia da clavícula às costelas. Respirei fundo, sentindo o cheiro residual de suor que ainda grudava em mim, e entrei.
Quando liguei o chuveiro, a água quente foi mais que bem-vinda. Permiti-me aproveitar ao máximo, sem reparar quantos minutos se passaram até eu sair.
Depois de vestir roupas leves e casuais - calça de malha cinza e camiseta em conjunto, permitindo andar descalço em casa -, voltei à sala de conceito aberto com a cozinha. Silas já servia duas canecas fumegantes de café e sentou-se novamente. Mapas digitais piscavam na tela: territórios verdes da Outfit, vermelhos de rivais.
- Don mandou mensagem ontem. Solicitou que compareça ao jantar depois de amanhã, na casa dele em Oak Park. E acredito que não é só boas-vindas.
Sentei-me, analisando o mapa. Porto sudoeste fraco - reforçar amanhã.
- Eu sei.
Indiquei na tela o ponto vermelho num dos decks que nos pertencia ao norte da cidade, usado para importação e exportação de drogas, cigarros e armas.
- Perdemos esse posto?
- Há algum tempo. Domenico preferiu assim, mas não saberia dizer o motivo. Não entendi a estratégia.
Assenti, estranhando, e fiz nota mental para verificar discretamente depois.
Ele deslizou um tablet com uma foto recente: eu jovem, ao lado do Don, anos antes da prisão. Havia uma mensagem de voz. Acenei para que tocasse. A voz rouca e imponente de Domenico Bianchi ecoou:
"Damiano, seja bem-vindo de volta! Devo dizer que senti falta do meu braço direito. É hora de reunirmos a família!"
A indireta à aliança estava clara. O casamento com Alessia Bianchi, a maldita promessa dele desde o início. Como se lesse meus pensamentos, Silas disse:
- Ela tem 21 agora. Linda, é o que dizem. Formada em finanças, bastante discreta.
Encarei-o. Ele deu de ombros.
- Me parece seu tipo.
A estratégia era óbvia: casamento selava lealdade, expandia poder. Mas e Caterina? Como ela estava vivendo nesse mundo? Não era como se eu tivesse escolha entre aceitar Alessia Bianchi como esposa ou não.
- Data?
- 1º de novembro. Capela da família em Lake Michigan. Daqui a quatro meses.
Assenti devagar, mente calculando: noiva jovem, filha do Don, ponte para herdeiros. Bom movimento.
- Ela sabe?
- Sim. Cresceu sabendo. Domenico preferiu assim, para que ninguém pensasse em pedi-la publicamente.
Silas me observava, esperando. Conhecia meu silêncio como arma. Beberiquei o café, amargo e forte, sentindo as veias acordarem.
- Caterina sabe que estou livre?
Ele hesitou - raro para ele.
- Não sei dizer. Ele não libera informação sobre ela. Sei que cresceu com os Bianchi. Sobre a mãe... você sabe. Falaram em complicações no parto. Don a adotou formalmente como prometido, mas todos sabem a verdade sobre a garotada. Valentina a trata como filha. É observadora e esperta, segundo uma empregada. Uma vez eu a vi. Os olhos são como os seus, os cabelos negros também. Vive na mansão, mas não deve saber muito sobre você ainda.
Cerrei o punho sob a mesa. Onze anos sem ela. Seu nascimento aconteceu enquanto eu estava na prisão, ainda tentando sair. Depois da tentativa de assassinato naquela noite, fiquei apagado à beira da morte na cela. Silas cuidou de minha filha e de Sofia enquanto eu estava fora de combate.
- Ela está segura?
- Máxima proteção, garanto. Don a vê como neta. Nenhuma ameaça a tocou.
Bom. Minha prioridade agora era trazê-la para casa.
- Onde a Outfit precisa de mim primeiro hoje?
- No Porto Calumet. Gallos se infiltraram em dois caminhões de máxima carga ontem.
- Anos após a morte do líder deles e os rebeldes ainda não desistiram dos ideais da família Colombo?
Levantei-me, indo para o quarto. Ouvi Silas dizer, divertido, às minhas costas:
- Acho que agora vão querer ter desistido!
Ternos Armani me aguardavam no closet. Escolhi um preto sob medida, todas as peças na mesma cor. O espelho alto mostrava o underboss de volta: 1,92 m de músculo e controle, cicatrizes como medalhas. Pelo menos era o que todos veriam. No fundo, só Silas sabia o que de fato me importava: minha filha.
Ele guardou o laptop quando reapareci.
- Sinto-me no dever de lembrá-lo: Don espera submissão no jantar. Mas você é quem nos lidera agora, Damiano, e todos sabem que faz isso melhor que Bianchi.
- Lealdade primeiro, meu amigo. Depois, equilíbrio. Mas sinto-me no dever de lembrá-lo também: Domenico é o Boss, e todos devemos submissão a ele. Até eu.
Olhei a vista: Lake Michigan brilhava com o sol, barcos balançando como peões num tabuleiro ao vento.
Don me devia proteção à minha filha sob juramento - pelo favor que fiz há 11 anos. O casamento equilibrava as coisas, e Caterina era o prêmio entregue junto com Alessia.
Silas assentiu.
- O carro te busca amanhã às 19h. Esteja armado!
Saí para o terraço descoberto. Vento quente chicoteava o rosto, a cidade se estendendo como um império reconquistado.
Fiz nota mental: Porto amanhã. Jantar depois. E trabalho eterno.
Mas os olhos castanhos de Cat - iguais aos meus - surgiam na mente, me deixando ansioso.
O tabuleiro mudara. E eu moveria as peças dessa vez para descobrir o que nem Silas sabia que eu desconfiava: o que de fato aconteceu com Sofia anos atrás, e se minha desconfiança era infundada ou se a mãe da minha filha havia sido injustamente assassinada.