Minha garganta se apertou. Eu hesitei por um longo minuto, o peso de todas as traições, todas as decepções, pesando sobre mim. A imagem dele sorrindo ao lado de Cármen no lançamento, enquanto meu mundo desmoronava, era um punhal cravado em meu coração.
"Não", eu disse, minha voz rouca, mas firme. "Não precisa. E... não se preocupe em ligar para ele. Na verdade, estou em processo de divórcio."
Artur piscou, surpreso. Seus olhos castanhos, geralmente tão calmos, revelaram um lampejo de consternação. Uma ruga se formou entre suas sobrancelhas. Eu vi o choque em seu rosto e senti um pingo de culpa por despejar tudo aquilo sobre ele.
"Me desculpe. Eu não queria... é só que..." Minhas palavras se perderam.
Ele balançou a cabeça, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios. "Não, Sofia. Não precisa se desculpar por nada. Está tudo bem. Eu entendo." Ele pegou minha mão por um instante, um gesto de puro apoio, antes de soltá-la.
O calor de sua mão em contraste com o gelo que se instalara em meu coração fez uma lágrima silenciosa escorrer pelo meu rosto. Era um contraste tão gritante com a indiferença de André. Por anos, eu havia tolerado a sua impaciência, as suas críticas. "Você é dramática demais", ele resmungava quando eu chorava. "Por que você não consegue ser mais como a Cármen? Ela é tão... equilibrada."
A menção de Cármen era sempre um gatilho.
Meu telefone vibrou. Era uma mensagem de André.
Uma foto. Uma tiara de flores secas. Feia. Sem graça.
"Comprei isso para você", dizia a mensagem. "É uma edição limitada daquela artesã que você gosta. Não diga que não penso em você."
Meu sangue ferveu. Eu conhecia aquela artesã. As tiaras mais bonitas e caras dela eram frescas, vibrantes. Aquela era a versão mais barata, ressecada, quase murcha.
Rapidamente, abri o Instagram. Lá estava. Cármen, com um buquê de flores frescas e uma tiara idêntica, mas impecável, na cabeça. "Meu amor, André, você me surpreende a cada dia! As flores mais lindas e a peça mais exclusiva para a mamãe e o bebê! #abençoada #futuramamãe"
O ar me faltou. Meu coração batia tão forte que parecia que ia explodir. Grávida. Cármen estava grávida. E André chamava a ela de "meu amor". Ele comprou para ela a tiara perfeita, e para mim, a versão murcha.
A tiara murcha. A versão rejeitada. Ele havia me dado as sobras.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios. André, tão previsível em sua crueldade.
Eu digitei, minhas mãos tremendo de raiva. "Não, obrigada. Não quero as sobras da Cármen. Dê a ela. Ela parece precisar mais de flores murchas do que eu."
O telefone tocou imediatamente. Era ele. André.
"O que diabos é isso, Sofia? Qual é o seu problema? Ciúmes? Você está agindo como uma criança mimada!" A voz dele explodiu no meu ouvido, carregada de raiva. "Eu te dou uma vida de luxo, e você me acusa de quê? De ser gentil com uma amiga? Cármen é apenas uma colega, uma artista! Você é patética!"
Patética. A palavra ecoou na minha mente.
Uma vida de luxo? Eu quis rir. Do que ele estava falando?
Nosso relacionamento começou oito anos atrás, muito antes da Cármen existir na nossa vida. Naquela época, André não tinha nada. A família dele não era rica. Ele veio de origens humildes, assim como eu.
Lembro-me de quando ele estava começando a nossa startup. Ele não tinha dinheiro. Ele dormia em sofás de amigos, comia macarrão instantâneo. Eu estava lá. Eu investi minhas economias, minhas horas, minha alma. Eu acreditei nele. Eu o apoiei em cada passo, em cada fracasso, em cada pequena vitória.
Por anos, vivi modestamente, economizando cada centavo. Eu não gastava com luxos, não comprava roupas de grife. Minha paixão era nosso projeto, nossa empresa. Eu acreditava que estávamos construindo um futuro juntos. Para nós. Para a nossa família.
E em troca, recebi "patética" e "mimada".
Mesmo assim, a mãe dele, minha sogra, sempre me culpava por não ter engravidado. "Você não está contribuindo com a família", ela dizia, a voz fria. "André precisa de um herdeiro."
E agora, Cármen estava grávida. Do herdeiro dele.
"Vida de luxo?", eu sussurrei para mim mesma, a voz embargada.
Artur, que estava em um canto do quarto, se aproximou lentamente. Em suas mãos, havia uma bandeja com uma sopa fumegante e uma torrada simples. O cheiro era suave, reconfortante. Ele colocou a bandeja na mesinha ao lado da cama.
"Sofia, você precisa comer", ele disse, sua voz gentil.
A voz de Artur foi ouvida pelo telefone. Um silêncio gélido se instalou do outro lado da linha. Então, a voz de André explodiu novamente, mais alta e furiosa do que antes.
"Quem é esse aí, Sofia? É por isso que você está agindo assim? Tem outro homem no seu quarto de hospital? Você me traiu, não é? Sua vadia!"
Minhas mãos tremeram tanto que quase deixei o telefone cair. "Estou no hospital, André! Eu perdi o nosso bebê!"
Um silêncio pesado. Então, uma risada fria e zombeteira.
"Você é ridícula, Sofia! Sempre com seus draminhas. 'Nosso bebê'? Você sabia que eu não queria ter filhos agora, não é? Você está inventando isso para me prender! Você é doente!"
As palavras dele foram um golpe. Mais do que a traição, mais do que a perda do bebê. Ele negou a existência do meu filho. Ele me chamou de doente.
Meu corpo inteiro tremia, mas uma calma estranha, gelada, se apoderou de mim.
Este homem. Este monstro. Ele não valia mais uma lágrima.
Meu bebê. Eu havia lutado tanto por ele. E eu não permitiria que a memória dele fosse manchada pela crueldade de André.
"Você está certo, André", eu disse, minha voz surpreendentemente calma. "Não há nada para você aqui. Não vou mais te prender. Minha vida será muito mais tranquila sem você nela."
Pela primeira vez em anos, eu mesma desliguei o telefone na cara dele.
Imediatamente, uma enxurrada de mensagens de texto começou a chegar. "Você vai se arrepender!", "Não me peça perdão depois!", "Você não é nada sem mim!"
Eu simplesmente coloquei o telefone de lado. Peguei a colher e comecei a comer a sopa que Artur havia trazido. Era insosso, mas eu precisava de força.