Eu sabia que ele estava me usando para dar uma fachada de normalidade à situação, para legitimar a Cármen. Mas meu coração, quebrado e remendado, já não sentia dor. Eu havia assinado os papéis do divórcio. Eles estavam com meu advogado, esperando apenas a assinatura dele. Eu estava livre.
"Tudo bem, André. Eu vou." A voz de Artur me veio à mente. "Você não é mais refém de ninguém, Sofia." E ele estava certo. Eu não era. Eu não seria.
A festa de Cármen era em um salão opulento no centro da cidade. Luzes cintilantes, música alta. Ela devia ter gasto uma fortuna.
Eu entrei, sentindo-me um espectro. Meu corpo ainda estava frágil. Eu estava pálida, com olheiras profundas. O vestido preto que eu usava parecia pendurado em mim.
Então ela chegou. Cármen. Radiante. Uma deusa de cabelos esvoaçantes e um sorriso vitorioso. Ela usava um vestido vermelho, que realçava sua barriga já proeminente. Parecia um fogo, queimando tudo ao redor.
"Olha só a Cármen! Que mulher inspiradora! Artista independente, mãe solteira por opção. Um exemplo de força feminina!", ouvi uma mulher sussurrar, a voz cheia de admiração.
"Nada a ver com certas donas de casa que só sabem se encostar no marido", outra acrescentou, e senti os olhares se virarem para mim, carregados de escárnio.
Cármen sorriu, um sorriso doce e falso, e ergueu uma taça de champanhe. "Por favor, pessoal, a conta é minha!"
Um homem propôs um jogo. "Que tal 'Verdade ou Desafio' para animar a noite?"
A garrafa girou e parou em Cármen. "Verdade", ela escolheu, com um brilho nos olhos.
Uma amiga dela, uma mulher com um sorriso malicioso, fez a pergunta. "Cármen, você deixaria seu futuro filho chamar o André de pai?"
Cármen acariciou a barriga com um sorriso vitorioso e olhou diretamente para mim. Um flash de triunfo em seus olhos.
"Sofia, querida, eu sei que isso deve ser difícil para você. Mas pense bem", ela disse, a voz cheia de falsa compaixão. "Quando meu filho nascer, ele será o herdeiro legítimo de André. Ele virá de uma linhagem de sucesso, de grandes artistas. Ele cuidará de você e do André na velhice. Não se preocupe."
A multidão aplaudiu. Risadas abafadas. Meu estômago se apertou.
Mas eu não senti nada. Meu rosto permaneceu impassível. Minha alma estava vazia.
Nos últimos dois anos, desde que o André começou a fazer sucesso, a Cármen passou a frequentar a nossa vida como uma sombra. No início, eu estava chocada, com raiva, com ciúmes. Eu gritei com André, implorei para ele parar. Ele sempre a escolhia. Me chamava de imatura, de paranoica.
Com o tempo, a dor deu lugar à exaustão. A raiva se transformou em cansaço. E agora, apenas indiferença. Meu coração estava em paz.
"Não se preocupe, Cármen", eu disse, minha voz baixa, mas clara, cortando o barulho da multidão. "Você pode ter a sua 'família de sucesso'. Mas eu não preciso de um herdeiro para cuidar de mim. E não preciso do André para nada. Na verdade, sugiro que você incentive ele a assinar os papéis do divórcio o mais rápido possível. Assim, ele pode se concentrar totalmente no seu 'legítimo herdeiro'."
O sorriso de Cármen vacilou. O rosto de André ficou branco.
"Sofia! O que você está dizendo?", ele sibilou, a raiva em seus olhos.
Eu dei um sorriso frio. "Estou dizendo, André, que você não é tão importante quanto pensa. E que eu não me importo mais com você."
A cara dele era uma mistura de pânico e incredulidade. Ele tentou dizer algo, mas Cármen o puxou para perto.
"Tudo bem, pessoal! Chega de drama! Vamos continuar o jogo!" A amiga de Cármen tentou acalmar a situação.
A garrafa girou novamente. E desta vez, parou em mim.
"Verdade ou Desafio, Sofia?", ela perguntou, um sorriso cruel.
Eu ia escolher "Verdade", mas Cármen se adiantou. "Desafio! Ela não tem coragem para a verdade. Eu desafio a Sofia a beijar o primeiro homem que sair daquela porta!" Ela apontou para a saída, rindo.
Eu observei a cena com uma calma gélida. Era um circo. E eles eram os palhaços.
"Não! Sofia não pode fazer isso!", André gritou, empurrando três taças de champanhe em minha direção. "Ela não vai conseguir! Beba isso, Sofia! Será a sua punição!"
A amiga de Cármen interveio. "É verdade, André está aqui. É desrespeitoso. Beba, Sofia!" A multidão concordou.
Eu me levantei, meus olhos fixos no rosto de Cármen. "Por que eu iria querer desistir, Cármen? Eu nunca desisto de um desafio."
André se levantou bruscamente, o rosto vermelho. "Sofia, você está me provocando, não está?"
Eu não respondi. Ele me chamava de provocadora, mas beijava a Cármen na minha frente?
Cármen se aproximou, um sorriso no rosto. Seus olhos, no entanto, estavam fixos em minha barriga. "André, querido, é só um champanhe. A porcentagem de álcool é mínima. Não vai fazer mal nenhum."
André, como um cão adestrado, virou-se para mim, a taça na mão. "Beba, Sofia! Não me envergonhe mais!"
Ele me empurrou contra a parede, e a taça de champanhe se chocou contra meus lábios. O líquido borbulhante escorreu pelo meu queixo, parte dele entrando na minha boca, parte salpicando meus olhos. Eu tossi, engasgando.
"Você é ridícula!", ele gritou. "Sempre criando uma cena!"
A dor. A dor no meu baixo ventre. Não! Não de novo!
Eu tentei me defender, empurrá-lo, mas minhas pernas fraquejaram. Caí no chão.
Meu bebê!
A dor era dilacerante. Eu instintivamente cobri minha barriga, um grito primal rasgando minha garganta.
"Não! Me ajude! Meu bebê!"
André, por um instante, pareceu chocado. Ele estendeu a mão, mas o olhar em seu rosto era de desdém. "Sofia, é só uma queda. Você não vai morrer por isso. Pare de fazer drama!"
Foi então que uma mulher ao lado gritou, seus olhos arregalados.
"Sangue! Meu Deus, tem muito sangue!"