"Eu... eu passei mal alguns minutos depois de chegar, então fui para casa", gaguejou ela, as palavras saindo aos tropeços. "Julia ficou lá dançando quando fui embora. Juro, não vi nada suspeito."
Após mais algumas perguntas, Matilda foi dispensada e Michael foi trazido por um dos guardas com as mãos amarradas nas costas. O guarda o empurrou para se sentar e suas mãos foram desamarradas.
Então, Jason começou a interrogá-lo também.
"Eu estava com meus amigos. Julia nos deixou e não consegui encontrá-la mais. Não sei para onde ela foi", disse Michael.
"Você não a viu sair para saber para onde ela foi?", questionou Jason furiosamente.
"Eu e meus amigos estávamos um pouco chapados", confessou Michael, abaixando a cabeça.
Depois de levar uma surra para garantir que não estava escondendo nada, Michael foi dispensado. Jason não conseguiu nada deles, mas Matilda foi para casa sem ser tocada.
Jason ainda não fazia ideia do que havia acontecido naquela noite e agora teria que esperar um ano e meio para iniciar o processo de divórcio.
Isso era uma loucura!
Ele já tinha problemas suficientes com mulheres em geral, e a ideia de manter uma esposa indesejada por dezoito meses o deixava com os nervos à flor da pele.
Decidido a não aceitar a situação absurda e não querendo dividir o mesmo teto com ela, Jason tomou um rumo diferente - desceu até o porão e abriu a porta pesada.
Qualquer que fosse o motivo do casamento, ele não se importava e não iria aceitar essa loucura.
Julia estava com uma aparência bem melhor - os hematomas não estavam tão evidentes e o inchaço no seu rosto havia desaparecido, mas algumas manchas vermelhas permaneciam. Apesar da brutalidade inicial, algo nela fizera com que Jason ordenasse aos empregados que tratassem de seus ferimentos.
Embora Jason não soubesse o que fazer, ele queria ver o rosto dela novamente. Então, ao invés de pedir aos seus guardas para soltá-la, ele foi ao porão para fazer isso sozinho.
"Como você está?", Jason perguntou, com a voz fria.
Julia olhou para Jason em silêncio e ele franziu a testa, fazendo seu rosto ficar mais sombrio e sua aura mais aterrorizante.
"Quando eu faço uma pergunta, você responde", rosnou ele, entre dentes.
"Sim... desculpe. Estou bem, por favor", respondeu ela num fôlego só, tremendo.
Ao ver Jason dar um passo em sua direção, Julia recuou instintivamente até que suas costas bateram contra a parede fria. Sem saída, ela se encolheu.
Jason capturou a mão dela num movimento rápido, arrancando um grito abafado de seus lábios. Ele ergueu a mão delicada, examinando os hematomas no pulso para ver se estavam cicatrizando, mas algo mais chamou sua atenção - a aliança.
"Por que ainda está usando isso?", questionou, erguendo a mão dela na altura dos olhos.
"Porque é a única coisa de valor que eu tenho", respondeu ela, a voz embargada.
Jason franziu o cenho, confuso com a resposta.
"Sempre quis ter uma joia com diamantes. E esse... esse é o único diamante que já tive na vida", explicou, sincera, mantendo a cabeça baixa para não encará-lo.
Jason segurou o queixo dela, forçando-a a olhar para cima. Nos olhos castanhos de Julia, ele viu apenas pânico puro - ela estava apavorada.
Jason soltou Julia e disse em voz baixa e calma: "Você está livre para ir. "
Após dizer isso, ele se afastou, dando a ela acesso livre à porta aberta, surpreso com a própria hesitação. Normalmente, mantinha qualquer mulher a uma distância segura, então por que ele estava tão próximo dessa?
"Obrigada", disse Julia e saiu correndo do porão o mais rápido que pôde.
Jason a observou correr, mas antes que pudesse dar as costas, lembrou-se de um detalhe crucial - seus homens a haviam sequestrado. Ela não tinha dinheiro, celular ou meio de transporte para voltar para casa, que ficava longe dali.
Suspirando, ele saiu do porão e acionou o rádio comunicador. "Segurem a garota. Não deixem ela sair do complexo."
O porão se conectava à garagem através de um longo corredor que parecia mais um túnel.
Julia continuou correndo e avistou uma porta aberta. Ela correu nessa direção e logo chegou à garagem, mas foi impedida por dois seguranças antes que pudesse continuar, a fazendo gritar de medo, já que não esperava por isso.
"Por favor, me deixem ir", implorou Julia, mas os guardas a olharam sem expressão e alguns até riram, se divertindo com sua situação.
O homem que a interceptou segurou seu pulso com força excessiva, ignorando sua pele já machucada e os gritos de dor.
O som de passos firmes ecoou na garagem, silenciando as risadas.
Jason surgiu das sombras, o olhar fixo na mão do segurança apertando o pulso ferido de Julia, fazendo-o franzir a testa profundamente.
"Eu mandei você segurá-la, não quebrar o braço dela, imbecil!", trovejou Jason.
Jason não entendia por que parecia tão preocupado com o fato de a pele dela estar machucada, afinal, ele mesmo a tratara com violência antes, mas concluiu que não toleraria que outros a tocassem.
"Coloque ela no carro e venha comigo", disse Jason ao guarda.
Ainda trêmula, Julia foi colocada no banco de trás do sedã de luxo, ao lado de Jason. O carro partiu em silêncio.
"Só vou te levar para casa. Você não tem dinheiro para voltar sozinha, tem?", Jason perguntou em voz baixa e Julia balançou a cabeça negando.
Jason puxou a mão dela novamente, inspecionando o novo hematoma causado pelo guarda. Abrindo um compartimento no carro, ele lhe entregou uma pomada.
"Aqui, passe isso", disse Jason em voz baixa e fria, o que fez Julia se arrepiar.
Julia sentiu que ia congelar até a morte por causa dele, mas rapidamente pegou a pomada, abriu, passou um pouco na mão e a devolveu.
"Obrigada", disse Julia com a voz trêmula e o canto dos lábios de Jason se curvou brevemente, mas logo ele voltou a ficar com seu semblante severo.
Ele pegou a pomada de volta assim que ela terminou e guardou, ignorando o agradecimento nervoso.
Quando o carro finalmente parou em frente à casa simples em Belle Glade, Julia desceu apressada.
O veículo já estava dando meia-volta quando o celular de Jason vibrou - era Mirenda.
"Oi, irmão", disse Mirenda.
"Oi", respondeu Jason.
"Jason, a mãe pediu para você vir para cá agora. É urgente", disse Mirenda, a voz tensa.
"Sobre o quê?", Jason perguntou.
"Tem advogados aqui. Acho que vão ler o testamento do papai."
"Está bem", disse Jason e encerrou a ligação.
Jason havia se esquecido completamente disso. Seu pai era muito rico e havia conquistado muito na vida.
Jason começou a se perguntar o que seu pai havia deixado para ele. Seria um grande acréscimo ao seu negócio atual.
"Vamos para o condomínio da família", instruiu Jason.
"Sim, senhor", respondeu o motorista.
Após dirigir por 45 minutos, eles chegaram ao condomínio da família e Jason entrou na casa.
"Jason, sente-se. Onde você estava? Estávamos esperando por você", disse a senhora Haward, repreendendo Jason.
"Desculpe, mãe. Tive um imprevisto", respondeu ele, sem demonstrar real arrependimento, enquanto se acomodava numa poltrona.
O advogado, um homem de meia-idade com expressão séria, abriu a pasta e retirou um envelope lacrado. O silêncio na sala era absoluto enquanto ele quebrava o selo e começava a leitura.
No testamento, o senhor Haward havia listado todas as propriedades que possuía, seus locais e valores. Ele também incluiu as propriedades que estava em processo de aquisição, pois havia fundos para concluir o processo.
"Para minha filha Mirenda, darei o condomínio da família. Ela pode fazer o que quiser com ele. James, tenho duas empresas em Chicago e o cargo de CEO de ambas. O restante das minhas propriedades, as fazendas, os hotéis, as outras empresas e o dinheiro na conta, num total de 131 bilhões de dólares, serão administrados pelo herdeiro escolhido. Qualquer um dos meus filhos poderá se tornar o novo herdeiro da família Haward, com uma condição - a pessoa deverá ser casada. O herdeiro escolhido será responsável por cuidar da minha amada esposa. Se nenhum dos meus filhos estiver casado no momento em que este testamento for lido, minha amada esposa administrará essas propriedades até que um deles decida constituir família. Só então as propriedades mencionadas serão entregues a ele", leu o advogado.
A senhora Haward manteve o semblante impassível, mas sorriu por dentro. Ela sabia que seria ela quem administraria a propriedade, já que nenhum dos três filhos estava casado.
O plano fora muito bem executado. Ela transferiria tudo para o seu nome e o daria ao seu filho mais querido, James.
Ela sempre quis uma maneira de herdar a fortuna Haward desde que seu marido descobriu sua infidelidade. Para sua sorte, ela o ouviu quando ele estava escrevendo seu testamento com o advogado no seu escritório e agiu rápido antes que ele pudesse fazer qualquer alteração com base no que havia descoberto.
Foi então que ela conseguiu o medicamento que acelerou o estágio do câncer dele, levando à sua morte.
"Se nenhum dos filhos estiver casado, sua esposa administrará a propriedade até que um deles se case", repetiu o advogado, erguendo o olhar para olhar para todos sentados. Depois, perguntou: "Qual de vocês é Jason?"
"Sou eu", respondeu Jason, e todos se viraram para olhá-lo, se perguntando por que o advogado havia perguntado isso.
"Isso é para você do seu pai", disse o advogado, lhe entregando um envelope branco.
Jason pegou o envelope do advogado e viu que ele estava endereçado a ele. Sob os olhares curiosos da família, Jason rasgou o envelope e leu a carta manuscrita.
"Querido filho, sei que agora você está se perguntando como se casou. Fiz o que fiz porque você não entenderia agora, mas um dia entenderá. Quero que você administre tudo. A única forma de proteger nosso legado é garantindo que você seja o herdeiro, e para isso precisava estar casado. Por isso organizei tudo naquela noite. Confio apenas em você. Assinado, papai."
"Nenhum dos meus filhos está casado, advogado", disse a senhora Haward, quebrando o silêncio na sala enquanto lutava para conter sua alegria.
"Eu sou casado, mãe", soltou Jason, a voz firme cortando a sala.
"O quê?!", exclamou a senhora Haward, olhando para Jason com um olhar de interrogação enquanto ele pegava seu anel no bolso e o colocava no dedo. "Casado?"
Os irmãos de Jason ficaram um pouco surpresos ao saber que ele estava casado, mas mais surpresos ainda com a raiva da mãe.
"Com quem?", a senhora Haward perguntou, se levantando da cadeira.
"Julia Harrison", respondeu Jason, sem pensar muito.
Não havia nada que ele não fizesse pelo seu pai, o senhor Haward.
"Quem diabos é essa garota? De qual família ela vem?", exigiu a senhora Haward, levantando-se, furiosa.
"Ela é de Belle Glade", respondeu Jason, se recostando na cadeira.
"Eu não acredito em você! Está inventando isso para roubar a herança!", gritou ela, perdendo a compostura.
Jason ergueu a cabeça para olhá-la. "O papai arranjou tudo para mim."
"Não acreditarei até ver essa mulher na minha frente", disse a senhora Haward.
Jason encarou a mãe com frieza, pegou o celular e discou para o chefe da segurança. "Tragam a senhora Julia Haward aqui. Agora."
O segurança assentiu e saiu.
"Você não estava brincando?", questionou a senhora Haward.
"Não, não estava. Estou casado", respondeu Jason.
A senhora Haward se sentou e forçou um sorriso, mas por dentro estava arrasada.
"Sendo assim...", pigarreou o advogado. "Conforme o desejo do seu pai, Jason é o novo herdeiro da família Haward."
Jason apenas assentiu, murmurando um "hum" distraído. Sua mente, no entanto, estava presa na carta do pai. "Você entenderá depois." O que aquilo significava? Que segredos sua família escondia?