Todas as portas do extenso corredor estavam fechadas, elas eram de mogno, mogno escuro. Pareciam pesadas.
Até que chegamos no fim do corredor, era uma última porta. Ele deu cinco batidas na porta numa batida padronizada, como se fosse uma linguagem que quem estivesse do outro lado pudesse ouvir.
- Fratello, ho portato una visita, sono io il Principe.- Para o azar dele, eu tinha feito um curso de italiano na pandemia, porque tinha ficado obceada por Maneskin, havia estudado por 3 anos.
Ele tinha falado para o irmão que tinha trago uma visita e se identificou como "Príncipe".
Ok, isso estava ficando bizarro.
- Puoi entrare. - A voz grossa respondeu seca do outro lado. Ele tirou uma chave grossa do bolso, virou na porta e entramos dentro da sala.
- Scommetto che non sai nemmeno il nome di quella stronza. - O irmão comentou. Era um homem com cara de mau, enorme, mas sem tatuagens. Seu rosto era quadrado, seu cabelo era rente tal qual o do irmão, ele era loiro e tinha uma cicatriz no olho direito, lembrava uma mistura do Scar com o Mufasa.
E ele tinha acabado de me chamar de vadia.
Olhei ao redor do local, haviam rifles pendurados nas paredes atrás do irmão do Lucas, na mesa um gatinho preto bem peludo. Na parede à esquerda havia um retrato enorme pintado a óleo de um homem mais velho, que parecia ser um clássico italiano mafioso.
Espera.
Eles estão falando em italiano.
O sobrenome é Falcone.
Tem armas nessa sala.
Caralho, eu vim parar numa festa de mafiosos!
- Rispettala, per favore. - O irmão bufou.
Não sei o que deu em mim, mas resolvi acabar com a gracinha, mesmo sabendo que poderia levar um tiro a qualquer momento.
- Io parlo italiano. - Foi tudo o que eu consegui dizer com a voz trêmula enquanto colocava a taça já sem o drink numa mesinha que ficava ao lado da porta.
Os dois me encararam com surpresa.
- Qual seu sobrenome, garota? - Eles provavelmente acharam que eu era de alguma família rival, que estava ali para espioná-los, ou talvez fazer algo pior.
- Pissatto.
- Mostra sua identidade. - Disse Lucas, estendendo a mão para pegar meu documento. Dei de ombros, não sei de onde estava saindo tanta coragem para bater de frente com mafiosos, talvez fosse o fato de que eu não queria sair de casa naquele dia.
Tirei da bolsinha a tira-colo a carteira, e depois consequentemente minha carteirinha da OAB, que funcionava como documento de identificação.
Minha família não era rica, veio tombada da Itália para cá, meu pai passou fome, conseguiu com muito esforço pagar uma faculdade particular para eu cursar Direito.
- Você é advogada? - Lucas perguntou. Acenei positivamente com a cabeça. - Ela está falando a verdade, Vitor.
- Ela vai ser útil, irmão. - Eles acenaram com a cabeça concordando um com outro e eu fiquei ali sem entender nada.
- Posso entender porque você me trouxe aqui? - Lucas me devolveu a carteirinha e riu, o irmão cruzou os braços e depois fez carinho no gatinho que estava agora em seu colo.
Me senti no filme Poderoso Chefão.
- Queria te mostrar onde você está se metendo, garotinha. - Ele então passou a mão pelo meu cabelo.
- Podem ir agora, não sou muito fã de ser voyeur. - Vitor disse. Lucas acenou positivamente, me colocou para trás e me guiou de volta para a boate.
Eu me tremia por completo, não sabia dizer exatamente o que estava sentindo, mas não era medo, era um sentimento estranho que deixava minhas veias geladas.
Como um sentimento de excitação estranho que eu nunca tinha sentido.
Era de se pensar que talvez eu não estivesse tão bem da cabeça. Eu já não via o ambiente ao meu redor, eu só pensava em como eu estava me sentindo, que era um sentimento estranho.
Assim que voltamos para o local eu fui direto para o bar, pedi uma cuba libre com bastante rum.
Eu ia beber aquilo tudo de uma vez só e ir embora, eu estava decidida.
Quando me virei Lucas estava parado atrás de mim.
- Entendeu o que eu disse quando falei que poderia te dar o mundo? - Ele se divertia com minha cara de transtornada.
- Mas eu não quero, obrigada.
Ele riu de novo.
- Aqui, se precisar de mim. - Então ele me entregou um cartão. O cartão era preto, em uma fonte branca fosca estava escrito "Il principe tatuato" e na parte de trás, numa fonte quase que invisível estava seu numero de telefone o DDI era da Itália.
- Vou pensar no seu caso. - Virei toda a Cuba Libre e coloquei no balcão do bar.
- Você não sabe o quanto eu gosto de mulheres difíceis.
Simplesmente virei as costas pra ele e de longe pude ouvir Paula gritando "Amiga, amiga...", mas eu nunca mais, eu disse, NUNCA MAIS, vou a nenhum rolê com ela. Dessa vez ela foi longe demais.
Era hora de aprender a dizer não.