Ali, parada na porta, estava uma criatura alta, de pelagem dourada e manchas negras, com orelhas pontudas e um olhar atento.
O coração de Dolores quase parou.
- M-meu Deus... um leopardo! - exclamou, dando um passo para trás, derramando parte da água no chão.
Nyra inclinou a cabeça, curiosa, como se se divertisse com o medo da visitante. Caminhou até ela e cheirou a barra da calça de Dolores, que prendeu a respiração, imóvel.
- Zacky! - murmurou, a voz saindo mais fina do que pretendia.
Um riso baixo veio da porta.
- Ah, já conheceu a Nyra. - Zacky encostou no batente, cruzando os braços com um olhar divertido. - Ela só morde quando não gosta da visita.
Ela olhou furiosa para ele.
- Poderia ter avisado que tinha uma onça de estimação!
- Serval - corrigiu ele, com um sorriso. - Criada por mim desde filhote. É mansa... na maior parte do tempo.
Nyra se aproximou e roçou o corpo na perna dele, ronronando como um gato gigante.
Dolores ainda mantinha distância, o coração quase saindo pela boca de tanto medo.
- Mansa. Claro. Aposto que também sabe fazer carinho com as garras.
Zacky riu.
- Relaxa, mocinha. Se ela gostou de você, já está em vantagem.
Dolores olhou para Nyra, que agora a observava com olhos âmbar brilhantes.
"Talvez," pensou, "aquele animal fosse apenas o reflexo do próprio dono: belo, selvagem e completamente imprevisível."
Nyra, se esticou preguiçosamente no chão frio da cozinha, soltando um longo bocejo antes de cochilar bem no meio do caminho, como se o lugar fosse dela.
- Dei uma olhada no seu carro - disse Zacky, encostado no batente da porta com um jeito relaxado e provocador. - Vai precisar de um mecânico. E, pelo que vi, é automático.
- E agora... o que vou dirigir? - ela perguntou, aflita.
- Pode usar qualquer carro da fazenda - respondeu, com um meio sorriso.
Ela corou antes de murmurar:
- Só sei dirigir carro automático.
Ele arqueou uma sobrancelha, divertido.
- Ah, entendi... você não sabe dirigir.
- Claro que sei! - rebateu, ofendida.
Zacky cruzou os braços e se aproximou lentamente, com o olhar zombeteiro.
- Motorista de verdade dirige qualquer carro, mocinha.
Ela o encarou, furiosa, mas ele apenas riu, saindo da cozinha como se tivesse vencido mais uma disputa.
"Ele é insuportável!", pensou Dolores, ainda irritada, enquanto observava o cowboy se afastar com sua arrogância habitual. Então olhou para a tal da Nyra, esticada no meio da cozinha como se fosse dona da casa, elegante, enorme e perigosamente tranquila.
Dolores engoliu seco.
Não sabia o que era pior: seguir o cowboy mal-humorado ou ficar sozinha com o "gato gigante".
- Algo me diz que ela não é tão boazinha... - murmurou, baixinho.
Como se tivesse entendido perfeitamente, Nyra abriu um dos olhos devagar, aquele olho amarelo que parecia ver a alma de qualquer um. Observou Dolores em silêncio, com um ar de superioridade felina, como se julgasse a coragem da mulher.
Depois, sem a menor cerimônia, deitou a cabeça novamente no chão e fez um barulho grave, algo entre um grunhido e um resmungo, como se fosse um: Hum!
E voltou a dormir.
Dolores arregalou os olhos, agarrando a calça.
- Viu só? Ainda resmunga! - sussurrou, atravessando a cozinha de fininho, como se estivesse passando ao lado de uma bomba-relógio prestes a explodir.
Dolores finalmente criou coragem, mais por desespero do que por bravura, e conseguiu seguir o cowboy. Ainda olhava por cima do ombro para garantir que Nyra não vinha atrás, quando quase trombou no vaso. Só Deus sabe de onde isso surgiu.
Ficou parada e arregalou os olhos.
Zacky estava de costas, tirando a camisa xadrez suada. O movimento era lento o suficiente para ela ver cada centímetro daquele dorso largo e definido, músculos marcando desde os ombros até a linha da cintura.
Um calor subiu pelo rosto dela antes mesmo que percebesse que estava encarando.
E encarando muito.
Ele virou o rosto por cima do ombro e a pegou no flagra.
- Perdeu alguma coisa? - perguntou com um sorriso petulante, claramente se divertindo às suas custas.
Dolores piscou rápido, abriu a boca, fechou, abriu de novo. Nada saiu.
Zacky ergueu uma sobrancelha, provocando:
- Ou estava apenas apreciando a vista?
Ela quase se engasgou com o ar.
- Eu... eu só vim... é... ahm... seguir você.
- É, percebi. - Ele largou a camisa no banco do carro e ficou de costas, o que não ajudou em nada.
Dolores virou o rosto tão rápido que quase torceu o pescoço.
- Eu não estava olhando! - mentiu, corando até as orelhas.
- Aham. Fica tranquila. Da próxima vez aviso quando for tirar a camisa. Assim você se prepara.
Ela quase teve um troço.
Ele inclinou o corpo para dentro do carro dela, apoiando uma mão no teto como se tivesse todo o tempo do mundo.
- Ligue para o seu assistente almofadinha - disse com aquele tom irritantemente calmo. - Peça pra ele vir te buscar. E avisa que você não conseguiu o que queria.
Dolores sentiu o mundo despencar.
- Você não vai nem ouvir a minha proposta?
Zacky deu uma risada curta, sem humor, e fechou a porta do veículo.
- Moça... - Ele se aproximou, olhando-a de cima como se ela fosse completamente inofensiva. - Eu não preciso do seu dinheiro.
Ela abriu a boca para retrucar, mas ele continuou:
- Aliás, eu tenho muito mais do que você poderia gastar... mesmo se fosse minha esposa.
Aquilo queimou o orgulho dela.
Dolores engoliu seco, mas ergueu o queixo.
- Arrogante.
Ele deu um sorriso torto, provocante.
- Realista.
Então, ela estava tão nervosa que deu um passo para trás, o salto afundou na terra e crac... quebrou. Dolores ficou paralisada por um segundo.
Zacky ergueu uma sobrancelha, com aquele olhar de quem dizia claramente: Eu te avisei.
Dolores respirou fundo, agachou e tirou os sapatos, ficando descalça. Ele não desviou o olhar. Os olhos dele desceram, observando os pequenos pés dela, as unhas perfeitamente feitas.
- Venha comigo - disse ele, a voz grave, calma demais para quem estava claramente irritado com a presença dela. - Vou arrumar um quarto para você. Acredito que vai querer se refrescar antes do jantar.
Ela hesitou, segurando os sapatos quebrados.
- Sou bem-vinda para o jantar? - perguntou, com orgulho ferido.
Zacky soltou uma risada breve e sem humor.
- Eu nunca disse que você era bem-vinda - respondeu. - Só não quero que desmaie de fome na minha propriedade ou de insolação.
Ele virou de costas e começou a andar, esperando que ela o seguisse.
Dolores apertou os lábios, sentindo a indignação crescer no peito... mas o seguiu. Porque, querendo ou não, aquele cowboy irritante era a única pessoa que podia levá-la até o que ela mais desejava.