A vista da janela dava direto para as montanhas rosadas pelo fim da tarde. Era de tirar o fôlego.
Zacky cruzou os braços enquanto observava a reação dela.
- Pode ficar aqui enquanto o seu almofadinha não vem te buscar - disse ele, com a voz grave que parecia sempre à beira da provocação.
Dolores torceu a boca.
- Ele tem nome.
- Não me interessa. - Zacky apontou para o canto do quarto. - Lá tem um banheiro integrado. Banheira, chuveiro, toalhas. Use o que precisar.
Ela caminhou alguns passos para dentro, tocou a madeira rústica da cômoda. Tudo ali parecia natural, confortável... diferente de qualquer lugar que ela já ficou.
- É... bonito - admitiu, quase sem querer.
Zacky deu uma risada baixa.
- É funcional. - Ele consultou o relógio no pulso. - São cinco da tarde. Jantamos às sete, na área gourmet lá fora.
Ela ergueu o olhar, hesitante.
- Eu... posso ir ao jantar?
Ele deu de ombros.
- Você pode fazer o que quiser enquanto estiver na minha propriedade. Só não espera um tapete vermelho.
Dolores estreitou os olhos.
- Você faz isso de propósito.
- Fazer o quê?
-Irritar.
Ele abriu um sorriso lento, insolente.
- Eu? Não. Só estou sendo honesto.
Zacky deu meia-volta para sair, mas parou na porta.
- Se quiser descansar, ótimo. Se quiser tomar um banho, melhor ainda. Você parece prestes a desmaiar.
- Obrigada pela gentileza - ela rebateu com sarcasmo.
- Não foi gentileza. Foi constatação. - Ele provocou, com o canto da boca erguendo. - Te vejo no jantar... se você não fugir antes.
E saiu, deixando-a ali, entre o encantamento do lugar e a raiva crescente daquele cowboy insuportavelmente atraente.
O quarto era tão grande e acolhedor que ela se sentiu pequena ali dentro. Tirou a camisa, a saia, e deixou as roupas cuidadosamente dobradas sobre a poltrona. Precisava daquele banho. Precisava se recompor.
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Enquanto isso, lá fora, Zacky caminhava até o carro dela. Abriu o porta-malas, pegou a mala e a levou até a porta do quarto, deixando-a ali sem bater. Ele não queria assustar a moça nem fazer nenhuma gracinha. Só estava sendo educado - ou tentando, mesmo sendo rude.
Quando saiu na varanda, ouviu passos vindos do curral. Maurício aparecia enxugando as mãos na calça jeans, com um sorriso maroto.
- Tem uma bela dama na casa, patrão - comentou, mal escondendo a empolgação.
Zacky soltou um bufar curto, ajustando o chapéu na cabeça.
- Hóspede temporária - respondeu, seco. - E problema certo.
Maurício riu, balançando a cabeça.
- Se todo problema vier desse jeito... Deus me livre de solução.
Zacky o encarou de soslaio, mas o canto da boca ameaçou subir.
Por alguns segundos, ele olhou para a varanda do quarto onde deixara a mala e se perguntou por que, diabos, uma mulher como Dolores mexia tanto com a cabeça dele, sendo que ele nem a queria ali.
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Dolores ficou um bom tempo diante do espelho, indecisa. Não tinha levado vestidos sofisticados, nem precisava. Acabou escolhendo o mais simples da mala: um vestido leve, cor neutra, que deslizava pelo corpo sem marcar demais... mas também sem esconder suas curvas naturais.
Prendeu o cabelo de um jeito delicado, passou apenas um toque do seu perfume habitual. Não queria chamar atenção.
Quando desceu as escadas da casa grande, escutou o som das botas de Zacky no piso de madeira. Ele vinha da área gourmet, ajeitando as luvas de trabalho no cinto.
Assim que levantou o olhar e a viu, parou.
Literalmente parou, como se tivesse levado um tranco invisível.
O vestido simples caía nela sob medida. Nada brilhante, nada curto, nada escandaloso. Mas era justamente o jeito suave como o tecido moldava a cintura, o quadril e o balanço sutil enquanto ela caminhava que fez algo dentro dele falhar.
E então sentiu o perfume. Quando a brisa leve trouxe o aroma até ele, Zacky respirou fundo sem querer. O peito encheu, o corpo endureceu por completo e, por um segundo, ele quase perdeu o equilíbrio. Precisou apoiar a mão no encosto da cadeira mais próxima.
Dolores só percebeu quando o viu engolir seco.
- Eu... espero não estar atrasada - disse ela, com a voz suave e tímida.
Ele piscou, duas vezes.
- Não... - ele limpou a garganta. - Chegou na hora certa.
Ela sorriu. E o sorriso acertou Zacky como um golpe direto no estômago.
Ele virou o rosto, puxando o ar como se tivesse ficado sem fôlego.
- Vamos... - murmurou, abrindo espaço para ela passar. - O jantar já está quase pronto.
Mas quando Dolores passou por ele, o perfume voltou a preencher suas narinas.
Zacky travou o maxilar.
Era instintivo, uma reação que ele não conseguiu controlar. O olhar dele desceu pelas curvas discretas do vestido, subiu de novo para o rosto dela, e por um instante ele esqueceu completamente que, horas antes, só queria que ela fosse embora.
Se aquela mulher não deixasse a fazenda logo... seria um problema. Um problema grande em sua vida e no autocontrole que ele sempre achou ter.
Dolores percebeu a tensão, mas não entendeu o motivo.
- Está tudo bem?
Zacky piscou devagar, respirou fundo e recuou um passo, abrindo caminho para ela.
- Está. - A voz dele saiu grave, mais do que pretendia. - Vamos jantar antes que a comida esfrie.
Ela caminhou até a área gourmet. Tudo era completamente diferente da vida dela na cidade.
Ele a seguia de perto. Perto demais.
Dolores sentiu a presença dele antes mesmo de ouvi-lo puxar a cadeira.
- Pode sentar.
Dolores sorriu, sincera.
- Obrigada... por me deixar ficar. Mesmo sem querer.
Ele a encarou.
- Não disse que não queria. - Ele cruzou os braços, apoiando o ombro no batente. - Só disse que não preciso de encrenca.
Ela riu.
- Eu pareço encrenca pra você?
- Parece. E muita.
Dolores abriu a boca, surpresa, mas antes que pudesse responder, sentiu o cheiro da comida chegando.
Zacky virou o rosto, recuperando-se.
- Vamos comer - disse ele, firme. - Antes que eu comece a pensar demais.
Ele não admitiria, mas já estava pensando demais.