Ponto de Vista: Helena
Deixei o colar de diamantes na mesa de cabeceira. Ele bateu na madeira com um baque oco.
Depois, o anel. Platina, com um feitiço de rastreamento embutido. Dante chamava de proteção. Eu chamava de coleira.
Eu o deslizei para fora. Meu dedo parecia nu. Parecia maravilhoso.
Ao lado das joias, deixei meu caderno de esboços. Aberto em uma página específica. Um desenho a carvão de um lobo em um penhasco, uivando para uma lua que havia se virado. Sem bilhete. Dante não o leria de qualquer maneira. Mas ele não podia ignorar uma imagem.
*Adeus, Dante.*
Agora, a parte difícil.
Fechei os olhos, encontrando o cordão dourado em minha mente - o Vínculo de Companheiros.
Eu não podia cortá-lo. Só a morte faz isso. Mas eu podia enterrá-lo.
Visualizei uma parede de tijolos. Pedra por pedra, pavimentei o corredor para a mente dele. Doeu - como costurar minha própria boca. Com o último tijolo, o zumbido de sua presença - sua arrogância, sua frieza - desapareceu.
Silêncio. Um silêncio lindo e aterrorizante.
Peguei minha mochila e corri.
*
Asfalto. O jato comercial taxiava.
Olhei pela janela. Lá, na pista particular, estava o jato preto dos Sovrano. Número de cauda 001.
Estava decolando. Dante e Isabella, indo para os Territórios do Norte.
Nossos aviões se cruzaram. Por uma fração de segundo, estávamos paralelos. Ele estava a cem metros de distância, provavelmente tomando uísque, completamente inconsciente de que sua vida tinha acabado de implodir.
Meu avião rugiu, decolando.
Então a dor me atingiu.
Não foi poético. Parecia um anzol rasgando meu coração. Dobrei-me, ofegante. A Doença da Rejeição. O preço físico da distância rasgando o vínculo.
"Senhorita? Você está bem?" uma comissária de bordo perguntou.
Eu não conseguia falar. Mas então, um calor floresceu em meu ventre.
Suave. Branco. Protetor. Espalhou-se do meu útero, envolvendo meu coração, amenizando a agonia.
*O bebê.* Ou talvez... eu?
Minhas veias zumbiam com algo antigo. Não submissão Ômega. Algo mais afiado.
A dor recuou para uma pontada surda.
Olhei para baixo, para São Paulo encolhendo em uma grade de luzes. Minha jaula.
Limpei o suor da minha testa.
"Você ganhou o território, Dante", sussurrei para o vidro. "Mas você perdeu a guerra."
*