Ele se levantou e beijou minha testa. Seu perfume cheirava caro, fresco e limpo, mas mal mascarava o tom floral e enjoativo do perfume de outra mulher.
"Preciso ir a uma reunião", ele disse. "Te pego ao meio-dia."
"Ok."
A porta da frente se fechou com um clique. Observei sua Ferrari sair da garagem pela janela, esperando até que o rugido do motor se dissolvesse no silêncio.
Abri meu laptop e entrei na minha conta secreta. Eu escrevia romances sob um pseudônimo. Era minha fuga. Minhas heroínas sempre tinham homens que morreriam por elas. Homens que queimariam o mundo apenas para vê-las sorrir.
Eu costumava pensar que estava escrevendo sobre Dante. Agora, percebi que estava escrevendo sobre um fantasma que nunca conheci.
Fechei o laptop e abri o Instagram, navegando direto para a barra de pesquisa.
Digitei o nome que vi no celular secreto: Probleminha.
Seu nome verdadeiro era Melissa. Seu perfil era público.
Ela era bonita de um jeito caótico - olhos grandes, lábios carnudos e exibia muita pele. Ela trabalhava em uma boate chamada Veludo Azul. Território dos Ferraz.
Percorri seus stories.
Havia um vídeo postado há três horas. A legenda dizia: *"Papai me mima."*
No vídeo, a mão de um homem - usando um relógio idêntico ao Patek Philippe de Dante - deslizava um anel em seu dedo.
Eu congelei.
Era um diamante rosa. Corte oval. Cravação em auréola.
Era o meu anel.
A legenda continuava: *"Ele diz que o da esposa é só uma cópia. Este é o verdadeiro."*
O ácido revirou meu estômago.
Não era apenas traição. Era um ritual de humilhação. Ele havia dado o original para sua amante e planejava me dar, a filha do Don Vitale, uma duplicata.
Tirei um print e salvei em uma pasta segura.
Ao meio-dia, Dante me buscou. Ele estava de bom humor, batucando os dedos no volante enquanto cantarolava junto com o rádio.
Chegamos à joalheria. O segurança acenou para nós. Éramos realeza aqui.
O joalheiro, Sr. Rossi, saiu dos fundos. Ele parecia nervoso, um brilho de suor em seu lábio superior.
"Sr. Ferraz, Srta. Vitale", ele disse, curvando-se ligeiramente. "O anel é primoroso."
Ele colocou uma caixa no balcão de vidro e a abriu.
O diamante rosa brilhou sob as luzes de halogênio. Parecia exatamente com o do vídeo da Melissa.
"Único", disse o Sr. Rossi, sua voz vacilando ligeiramente. "Extraído da mina Argyle. Não há outra pedra como esta no mundo."
Dante o pegou. Ele pegou minha mão esquerda.
"Para minha Rainha", ele disse suavemente.
Eu olhei para ele. Eu olhei para o anel.
Era uma bela mentira.
"Serve perfeitamente", disse Dante, deslizando-o em meu dedo.
Olhei para a pedra. Me perguntei se Melissa estava usando o dela agora. Me perguntei se eles riam disso na cama.
"Obrigada, Dante", eu disse. Minha voz era neutra.
Ele franziu a testa ligeiramente. "Algo errado? Você parece... distante."
"Apenas nervosismo", eu disse, forçando um sorriso tenso. "O casamento está próximo."
"Não se preocupe", ele disse, apertando minha mão. "Eu cuidarei de tudo."
Ele pagou, e nós saímos.
No carro, eu torcia o anel no meu dedo. Parecia pesado. Parecia uma algema.
"Eu estava pensando", disse Dante. "Hoje à noite, deveríamos sair. O Luca está dando uma festinha no Veludo Azul. Apenas amigos próximos."
O Veludo Azul. Onde ela trabalhava.
Ele queria me levar ao local de trabalho de sua amante. Ele queria me exibir na frente dela enquanto ela usava o anel verdadeiro e eu usava a imitação.
A audácia era de tirar o fôlego.
"Claro", eu disse. "Eu adoraria ir."
Dante sorriu. Ele achava que estava ganhando. Ele achava que eu era a princesa estúpida e protegida com quem ele podia brincar.
Ele não sabia que eu já tinha feito a ligação. Ele não sabia que cada respiração que ele dava agora era em tempo emprestado.