Ponto de Vista de Seraphina Vitiello
O ar na boate parecia sufocante, denso com o calor dos corpos e o ritmo pulsante do baixo.
Eu estava perto de um pilar, isolada nas sombras, observando a festa ao meu redor.
Jéssica havia se movido do colo de Dante para o centro da sala, comandando a atenção com um microfone na mão.
Ela estava recontando seus dias na Europa, se exibindo para a multidão.
"Eu costumava andar com as equipes de box em Mônaco", ela se gabava, sua voz arrastada o suficiente para trair o álcool. "Eu vi velocidade de verdade. Não como esse engarrafamento aqui em São Paulo."
Os homens aplaudiram, erguendo seus copos em um brinde à sua vaidade.
Dante olhava para ela com um olhar que beirava a adoração, embora fosse o olhar de um menino impressionado com um brinquedo novo e brilhante, em vez de um homem admirando uma igual.
Ela acha que entende de carros só porque dormiu com os mecânicos, pensei amargamente.
Os olhos de Jéssica varreram a multidão até me encontrarem no canto.
Ela sorriu, um brilho predatório aguçando seu olhar.
"Ei, Seraphina!", ela chamou.
A sala caiu em um silêncio súbito e expectante.
"Dante me disse que você dirige um Honda Civic", disse ela, sua risada cortando o silêncio. "É verdade?"
"É um carro confiável", respondi, mantendo minha voz firme.
"Confiável", ela zombou. "Assim como você. Sem graça. Segura."
Ela se aproximou de mim, balançando precariamente em seus saltos.
"Sabe, tem uma corrida de verdade acontecendo neste fim de semana", disse ela, inclinando-se. "A Corrida da Morte. Clandestina. Sem regras."
Lutei contra a vontade de sorrir.
Eu sabia.
Eu a venci no ano passado.
Ela enfiou a mão no bolso do paletó de Dante, tirou um ingresso e o empurrou contra o meu peito.
"Você deveria ir", ela zombou. "Ver como os adultos brincam. Talvez você aprenda o que é preciso para dar conta do recado."
Os soldados rugiram de tanto rir.
Dante sorriu, tomando um gole lento de sua bebida. "Ela é uma flor de estufa, Jéssica", ele disse arrastado. "O cheiro de escapamento a faria desmaiar."
Eu peguei o ingresso.
Olhei para ele.
Era um passe VIP para o camarote dos espectadores.
Meus dedos roçaram o papel texturizado.
Eu não precisava de um ingresso.
Eu tinha uma vaga na largada.
Mas eles não sabiam disso.
Olhei para Jéssica.
Ela estava perto agora, invadindo deliberadamente meu espaço pessoal.
Foi quando eu vi.
Minha respiração ficou presa na garganta.
Em volta do pescoço dela, repousando contra seu bronzeado falso, havia um pingente.
Uma peça de jade pálido e antigo, esculpida na forma delicada de uma flor de lótus.
O pingente da minha mãe.
Aquele que eu guardava em uma caixa de joias trancada no meu antigo quarto na mansão dos Moretti.
A única coisa que eu não havia embalado porque pensei que estava segura.
O sangue sumiu do meu rosto, deixando-me gelada.
"Onde você conseguiu isso?", perguntei.
Minha voz não estava mais calma.
Estava baixa, perigosa e vibrando com uma fúria contida.
Jéssica olhou para o peito, tocando o jade distraidamente.
"Ah, isso?", ela perguntou inocentemente. "Dante me deu. Ele disse que era só uma velharia deixada para trás no quarto de hóspedes."
Ela olhou de volta para Dante.
"Não foi, amor?"
Dante deu de ombros, indiferente. "Você deixou lá, Seraphina. Achado não é roubado. Além disso, fica melhor nela."
A sala começou a girar.
Aquele pingente era a única coisa que me restava da minha mãe.
Era o símbolo da honra dos Vitiello.
Era sagrado.
"Devolva", eu ordenei.
Dei um passo à frente.
Jéssica riu.
"Me obrigue."