- Emilly, já está pronta? Vai se atrasar outra vez - minha mãe reclamou, surgindo à porta do quarto.
- Eu já estou terminando - avisei.
O olhar dela desceu imediatamente até o peep toe que eu havia escolhido, e uma careta de desaprovação se formou em seu rosto.
- Acho melhor escolher outro sapato, Emilly, querida.
- Por quê? Eles combinam com a minha roupa - franzi o cenho.
- Sim, não estou dizendo que não combinam. Mas você sabe que seus dedos dos pés não são seus pontos fortes - ela apontou. - Além disso, o salto é muito baixo. Um mais alto deixaria sua figura mais elegante e menos... rechonchuda.
Eu franzi o cenho, me olhando no espelho em busca de algo errado com minha aparência. Eu estou acima do peso?
Ela se colocou ao meu lado em frente ao grande espelho de corpo inteiro que eu tinha em meu quarto, sorrindo ao admirar sua figura elegante refletida.
- Não se preocupe querida, não é culpa sua se você não conseguiu uma genética tão boa quanto a minha. Mas você pode compensar isso com as escolhas corretas - garantiu ela.
Eu voltei a observar a minha figura refletida no espelho, franzindo o cenho ao não encontrar nada de errado enquanto minha mãe saia do quarto.
- Eu não estou acima do peso, mãe! Eu sou mais magra que a maioria das moças da região - eu reclamei, optando por um scarpin de saltos altos, apesar de discordar de suas observações.
- Ainda não, querida. Mas você está a uns passos de ganhar algumas dobrinhas indesejadas, mas não se preocupe, eu descobri uma nova dieta ótima - ela garantiu, me fazendo suspirar.
Aquilo era típico. Desde a minha primeira menstruação, minha mãe me submetia a todo tipo de dieta para que eu mantivesse uma "figura elegante", e frequentemente culpava meu peso pelo fato de eu ainda não ter pretendentes - ao menos, não um que considerasse financeiramente vantajoso.
No fundo, ela sonhava que eu repetisse sua própria história de amor.
Meu pai falecera poucos meses após o casamento, deixando-a grávida e determinada a fazer o melhor por mim. Foi essa perda que a levou a abandonar seus sonhos, vender tudo o que possuía em Los Angeles e recomeçar em Palm Springs, onde construiu o ateliê que nos sustentava com relativo conforto.
Todo esse sacrifício alimentou expectativas demais sobre o meu futuro. Ela aguardava o dia em que eu conquistaria o coração de um homem rico, me tornaria a esposa perfeita e, finalmente, lhe permitiria descansar do enfado que, segundo ela, foi me criar sozinha.
Mas em meu coração eu ansiava por outra vida. Eu via tantas mulheres incríveis que conseguiam construir carreiras, serem independentes, livres sem ter a obrigação de manter uma casa bem cuidada, filhos limpos e o jantar na mesa enquanto aguardam o marido retornar do trabalho. Aquela liberdade era o que eu almejava para minha vida.
Eu não era contrária a ideia de me casar, mas eu tinha para mim que isso aconteceria apenas se eu me apaixonasse de verdade por uma pessoa e não por uma conta bancária. Mas minha mãe não podia sequer desconfiar desse tipo de pensamento.
- Emilly, você está me ouvindo? - minha mãe chamou minha atenção.
- Sinto muito, eu me distraí - eu pisquei atordoada.
- Como sempre com a cabeça nas nuvens. Você precisa se concentrar mais, querida. Nenhum homem gosta de uma esposa que não presta atenção no que ele diz.
- Que bom que não estou falando com um homem agora, certo? - eu forcei um sorriso, recebendo um olhar astuto em troca, mas ela decidiu não comprar aquela briga - O que a senhora disse?
- Nós teremos clientes importantes hoje, a família Hayes chegou para passar as próximas semanas e Scarlett pediu para avisar que virá com uma amiga para encomendar vestidos para a festa de aniversário de casamento do Sr e da Srª Hayes - ela declarou enquanto seguimos em direção a garagem, para ir até o ateliê.
- Ela trouxe uma amiga dessa vez? Ela sempre vem sozinha com o irmão.
- Você deveria prestar mais atenção no irmão dela, poderia ser uma companhia interessante - ela sugeriu, me fazendo arregalar os olhos.
- Mãe!
- Você sabe que a família é muito bem estabelecida, querida.
- Ele é um garoto de dezesseis anos muito acima do peso, mãe! - eu virei para ela depois de entrar no carro.
- Isso só prova que você precisa correr, está ficando sem opções, querida - ela devolveu sem se abalar.
Eu decidi não responder aquela provocação. Minha mãe estava decidida a me casar, e cabia a mim arrumar uma maneira de perseguir meus sonhos sem me indispor com a pessoa que desistiu de toda sua vida por mim.
Eu só não tinha certeza de como fazer isso, e nem desconfiava que o passado que minha mãe tanto tentou enterrar em Los Angeles estava prestes a bater à porta do ateliê.