- Sinto muito, eu perdi a noção do tempo.
- Você perdeu a noção? Ahh querida, você tem sorte que eu tenho muita paciência com você, porque só assim para aguentar essa sua cabeça avoada - ela sorriu ao se aproximar.
- Me desculpa, eu deveria ter voltado antes.
- Tudo bem, vamos tomar um chá. Me conte como foi sua noite. Eu quero saber todos os detalhes.
Eu me acomodei a mesa, contando os pontos mais interessantes da noite, atraindo sua atenção sobre Maggie.
- Você quer dizer que ela gosta de gastar dinheiro?
- Scarlett já recomendou o ateliê - eu a tranquilizei.
- Perfeito, você apenas me deixaria mais feliz se me contasse que conquistou o coração do jovem Hayes - ela brincou, se levantando, pegando as duas xícaras de chá para levá-las à pia - já te falei que você está ficando sem opções, Emilly! Ou você conquista o garoto, ou encara o senhor Parker. O que você prefere?
Maverick Parker era um homem de quase setenta anos que tinha ficado viúvo há alguns meses e não escondia o fato de estar procurando uma jovem bela, virgem e de boa família para se tornar sua nova esposa. E o fato da minha mãe sequer cogitar aquela hipótese me arrepiou.
- Eu conheci um rapaz hoje! Amigo da Scarlett e da Connie - eu me apressei em dizer, na tentativa de fazê-la esquecer aquela história.
A expressão no rosto dela mudou, uma pequena faísca de esperança surgiu em seus olhos enquanto me encarava.
- Um amigo? E ele tem dinheiro?
- O pai dele trabalha na empresa do sr Hayes e...
- Emilly, pelo amor de Deus. Eu te digo para arrumar um bom partido e você dá atenção para o filho de um assalariado? - ela elevou a voz, parecendo revoltada.
- Ele é um bom rapaz e vai para a universidade no fim do verão - eu tentei defendê-lo, apesar de não estar realmente interessada em Brayden.
- Como se isso significasse alguma coisa - Vivienne murmurou, saindo da cozinha, me deixando para trás.
Esperei alguns segundos até ouvir seus pés batendo com força nos degraus da escada, mostrando o quanto tinha se irritado com aquela situação.
Com um suspiro resignado de quem já tinha passado por isso muitas vezes, eu a segui.
- Mãe, eu deveria ir para a universidade! Eu conheceria muitos outros pretendentes lá - tentei jogar com ela.
- E você acha que alguém olharia para você em uma universidade, Emilly? Homens não se importam com o que você sabe, se importam com sua beleza! Você deveria se esforçar mais! - ela gritou do topo da escada.
- Me esforçar? Hoje mesmo me falaram que eu sou uma versão mais jovem da Violet Kinahan, e...
O rosto de minha mãe foi tomado por espanto, mas ela logo se recuperou, disfarçando da melhor maneira que pode.
- Você? Ótimo, você mal conhece essas garotas e já virou chacota. Está na cara que estão zombando de você!
- Mas...
- A única coisa que vocês duas têm em comum são esses olhos estranhos, e pelo amor de Deus, não pense que alguém acha isso atraente. É um milagre que não te chamem de aberração nas ruas! - ela disse, como quem comenta o clima.
- Eu não sou uma aberração! - eu balbuciei.
- Muito obrigada, Emilly. Você estragou a minha noite - minha mãe gritou antes de se trancar em seu quarto, batendo a porta com força.
Permaneci congelada no corredor por alguns segundos antes de ir até meu quarto, fechando a porta com cuidado para não fazer barulho.
Acordei mais tarde que o habitual no dia seguinte, e após me arrumar, desci, encontrando minha mãe na cozinha.
- Emilly, querida, pensei que não fosse mais acordar. Aqui, eu fiz panquecas para o café da manhã, você deve estar faminta - ela sorriu, como se nada tivesse acontecido.
Caminhei de maneira hesitante até a mesa, me acomodando lá, não desviando o olhar da mulher.
- Obrigada.
- Quer suco de laranja? - ela me ofereceu um copo.
Eu o aceitei, comendo em silêncio sob olhar atento da mulher que parecia esperar por algo de mim.
- Quando você estiver pronta para me pedir desculpas por ontem nós podemos colocar uma pedra sobre o assunto - minha mãe desistiu de esperar
- Desculpa? - eu a encarei atordoada.
- Está vendo? As coisas são bem mais simples quando você reconhece o seu erro, querida - Vivienne parecia satisfeita.
- Meu...
Por um segundo eu pensei em discutir, mas desisti em seguida, sabendo que aquilo seria tolice. Em toda minha vida minha mãe nunca admitiu que errou, ela nunca me pediu desculpas. Na verdade, ela sempre encontrava uma maneira de me culpar por qualquer coisa que desse errado.
- Com licença - me levantei com um suspiro.
Eu não iria passar o dia inteiro aguentando provocações vazias como aquelas, Seria melhor aceitar o convite de Scarlett e passar o dia em sua casa.
E foi o que fiz, peguei minha bicicleta e alguns minutos depois estava tocando a campainha da grande casa, sendo atendida pela governanta.
Ela me guiou até o jardim dos fundos, onde Scarlett e Connie tomavam café da manhã em uma mesa à beira da piscina, sorrindo assim que me viram.
- Amy, que bom que você veio! - Connie sorriu.
- Sente-se Amy. Hilda, ela tomará café conosco - Scarlett instruiu a governanta.
- Obrigada.
Nós passamos os minutos seguintes rindo e jogando conversa fora até que Margareth se juntou a nós, pronta para passar o dia na piscina.
- Amy, bom dia!
- Eu te falei que ela viria - Connie sorriu.
- Isso é ótimo, porque eu tenho muito a te perguntar - Maggie sorriu, acomodando-se na cadeira à minha frente.
Seus olhos azuis não me abandonaram por um segundo. Não era o olhar de julgamento da minha mãe, mas uma curiosidade quase científica, como se ela estivesse tentando resolver um quebra-cabeça cujas peças estavam espalhadas nas linhas do meu rosto.
- Comece pelo básico, querida - Maggie continuou, inclinando-se para a frente, ignorando o café e focando inteiramente em mim. - Me conte sobre sua família. Sua mãe... ela sempre morou em Palm Springs?
- Não, ela vivia em Los Angeles, se mudou com a morte do meu pai - eu expliquei, me sentindo um pouco desconfortável diante do seu olhar - eu nem tinha nascido quando ele partiu.
Seus olhos brilharam diante daquela informação, como se tivesse acabado de descobrir algo valioso.
- Seu pai... ele tinha um nome? - seu sorriso se alargou.
- Por que tantas perguntas, Maggie?
Seu sorriso se alargou, ela se levantou, caminhando até a borda da piscina.
- Eu apenas acho que algumas semelhanças são claras demais para serem ignoradas - ela explicou antes de entrar na piscina.
Eu a observei por um tempo tentando montar um quebra cabeças em minha mente, mas a sensação que eu tinha, era que as peças estavam faltando e algumas sequer faziam parte daquela figura.