Mas agora, ele volta trazendo tantas lembranças, que não posso deixar de me perguntar se, de fato, ele alguma vez me teria escolhido.
E, mais uma vez, começo a me lembrar daquele último ano do colégio......
Estava em frente ao meu armário no corredor, observando meu reflexo no pequeno espelho pendurado na porta enquanto retocava o gloss, quando o vi pela primeira vez.
Foi através daquele reflexo que Adrian Blackwood surgiu no corredor. Caminhava distraído, os olhos presos a um papel em suas mãos, completamente alheio ao que acontecia ao redor. Ainda assim, toda a atenção do ambiente parecia convergir para ele.
Ele estava lindo. Os cabelos levemente arrepiados, a franja - como sempre - caindo de maneira despretensiosa sobre os olhos. A mochila pendia de um único ombro, e o uniforme, impecavelmente alinhado, moldava-se ao corpo com naturalidade.
Meu coração acelerou sem aviso, e a respiração tornou-se curta, irregular.
À medida que se aproximava, percebi que ele procurava seu armário, conferindo os números com atenção. Foi então que nossos olhares se encontraram - refletidos no espelho. Senti o coração dar um salto tão forte que quase escapou pela boca. Por alguns segundos, ficamos conectados apenas por aquele reflexo silencioso. Quando Adrian passou por mim, virei-me instintivamente.
Ele me olhou, mas não disse nada. Apenas fez um leve movimento de cabeça, educado, quase formal.
E eu fiquei completamente paralisada.
Eu, Cecília Albuquerque - a garota mais extrovertida e animada daquele colégio - estava sem palavras.
Adrian seguiu seu caminho sem olhar para trás, enquanto eu permanecia ali, imóvel, com a certeza queimando no peito.
Sim. Naquele instante, eu soube.
Eu havia me apaixonado por Adrian Blackwood.
........******.........
- Adrian Blackwood! - Maya Bloom disse ao meu lado, sentada comigo no banco da arquibancada. - Ele é o filho mais novo do deputado estadual Robert Blackwood, o mais votado do interior. Veio estudar aqui porque o pai precisou se mudar para a capital durante o mandato.
Todos na escola já comentavam sobre o garoto novo, e Maya havia corrido para colher cada informação possível.
- A família é muito religiosa e tradicional. O irmão mais velho dele, Otávio Blackwood, se casou aos dezessete anos e mora com a esposa nos Estados Unidos - continuou, fazendo-me arregalar os olhos.
- Como você conseguiu tantas informações? - perguntei, genuinamente impressionada.
- Eles têm uma vinícola. Vinho Blackwood - respondeu com naturalidade. - Amo o suave! Enfim... a eleição do deputado foi notícia em todos os lugares, então não foi difícil.
- Ele é tão lindo... - murmurei, sentindo o coração bater forte demais no peito. - Tenho certeza de que foi destino ele ter vindo para o nosso colégio.
Maya suspirou, frustrada.
- É... mas tenho uma notícia ruim.
- Ruim como? - perguntei, já pressentindo.
- Ele tem uma noiva.
- O quê? - levantei-me de supetão. Aquilo não causou apenas espanto; senti algo se partir dentro de mim. - Quem fica noivo aos dezessete anos?
- Uma família do interior, religiosa e tradicional - Maya parecia tão indignada quanto eu. - Como eu disse, o irmão também se casou aos dezessete. Parece que, na região deles, as famílias costumam casar os filhos cedo. Mesma igreja, famílias amigas... essas coisas. Enfim. É uma pena.
- Você sabe algo sobre ela? - perguntei, ainda agarrada à esperança de que fosse algum boato mal contado.
- Não muito. Só dizem que é filha de um fazendeiro, recatada, ótima estudante e muito cristã. Ajuda na igreja da comunidade. - Maya fez uma careta. - É perfeita.
Afastei-me da arquibancada com o peito apertado. No mesmo dia em que descobri o amor, descobri também a dor de ter o coração partido.
Respirei fundo e segui para a sala de aula. E, como se o destino estivesse brincando com a minha sanidade, assim que entrei, vi Adrian Blackwood ao lado de Leon, meu melhor amigo.
Leon era meu parceiro em biologia, e costumávamos sentar na última bancada do laboratório.
- Ei, Cecília! - Leon gritou assim que me viu. - Olha, esse é o Adrian. O professor colocou ele com a gente. Ele ainda não tem dupla, então agora somos um trio.
Mais uma vez, perdi completamente as palavras. Adrian sorria para mim, e tive a nítida sensação de que poderia desmaiar a qualquer instante.
- Oi - ele disse, de forma simples.
- Olá - consegui responder, enfim, indo me sentar ao lado de Leon. - Bem-vindo.
Adrian apenas meneou a cabeça em concordância, enquanto organizava seus materiais sobre a mesa.
O que aconteceu a seguir - naquela semana e nas que vieram depois - só alimentou o sentimento que crescia silenciosamente dentro de mim.
Adrian era simpático e, mesmo não sendo a pessoa mais falante do mundo, não demorou a se enturmar com meus amigos, especialmente com Leon. Isso nos aproximou de maneira inevitável. Nunca tivemos uma conversa totalmente a sós, mas nossos olhares se cruzavam com frequência, acompanhados de sorrisos discretos, como se mantivéssemos uma conversa muda.
E, de tanto isso acontecer, as palavras acabaram se tornando necessárias. Passamos a conversar sobre músicas, comidas, lugares - tudo surgiu de forma natural entre nós.
Ele amava rock, e eu o provocava por não seguir a música típica da sua região, o que sempre o fazia revirar os olhos, fingindo irritação.
Descobrimos gostar do mesmo sabor de sorvete, e Adrian costumava me levar para tomar sorvete na praça em frente ao colégio enquanto o motorista não chegava para buscá-lo. Nesses momentos, compartilhávamos o mesmo fone de ouvido, dividindo músicas e silêncios.
Minha atenção era completamente dele, e parecia que nenhum outro garoto existia ou era interessante o suficiente.
Eu já havia namorado antes, mas sentir aquilo... era a primeira vez. Podia parecer loucura ou tolice, mas eu não conseguia afastar a sensação de que Adrian também estava apaixonado por mim.
O que me incomodava era a aliança em seu dedo anelar. Uma aliança simples, fina, mas pesada o suficiente para me lembrar de que ele era noivo.
Já estávamos próximos o bastante para que ele me falasse sobre Camille. E ele falava dela com um brilho genuíno nos olhos.
Disse que se conheciam desde crianças, que ela era doce, divertida, inteligente e extremamente bondosa. Contou que seus pais eram muito amigos e que, quando Otávio Blackwood se casou com Clara, irmã mais velha de Camille, acharam que um casamento entre eles seria tão certo quanto aquele.
Foi nesse momento que descobri que Adrian e Camille não haviam se escolhido. E, por incrível que pareça, nunca tinham sequer trocado um beijo.
Meu coração voltou a bater forte contra o peito, enchendo-me de esperança. Mesmo sendo loucura. Mesmo sendo arriscado demais. Eu decidi que faria tudo o que estivesse ao meu alcance para conquistá-lo.
Maya Bloom, como grande incentivadora das minhas loucuras, me encorajou a me declarar. Ainda assim, eu me sentia tímida demais... e aterrorizada com a possibilidade de uma rejeição.
Os dias passaram, e ficou cada vez mais claro que Adrian me via apenas como uma amiga.
Cansada e frustrada com aquilo, tomei uma atitude impulsiva: beijei-o no dia da represa.
Ele ficou surpreso no início, mas logo correspondeu com intensidade, seus lábios descendo até meu pescoço. Porém, assim que nos afastamos, como se a realidade tivesse caído sobre ele, Adrian recuou, chamando-me de irritante.
Foi a primeira vez que chorei por ele. Achei que tudo tinha acabado ali.
Mas, no dia seguinte, algo mudou tudo.
Adrian estava sem a aliança.
Quando pensei em questioná-lo durante o intervalo, ele me puxou para o armário de vassouras e tomou meus lábios com urgência. Disse que o noivado havia terminado. Disse que estava solteiro.
Nunca me senti tão feliz.
Saímos de lá de mãos dadas, sob os olhares curiosos de todos.
Duas semanas depois, Adrian me pediu em namoro.
Nunca conheci seus pais. Eles nunca estavam em um lugar fixo, e Adrian dizia que o fim do noivado causou um grande alvoroço em sua cidade, sendo melhor dar um tempo. Eu falava apenas com seu irmão por videochamadas. Otávio era divertido e extrovertido. Clara, simpática, mas sempre parecia desconfortável - não era difícil imaginar o motivo.
Mesmo amando Adrian, eu não deixava de me perguntar se ele ainda pensava em Camille. Ou se ainda se falavam.
Eu sabia que, se não tivesse tomado a iniciativa de beijá-lo, ele jamais teria terminado o noivado. Ainda estaria comprometido, falando dela com brilho nos olhos.
Não fazia perguntas porque tinha medo das respostas.
E foi por medo de ouvir que ele retomaria o noivado assim que as aulas acabassem que preferi que ele acreditasse que eu o havia esquecido. Assim, doeria menos quando ele me deixasse.
Foi a única estratégia que encontrei para tentar esquecê-lo.