Adrian Blackwood discursava com naturalidade sobre seu currículo extenso, cada palavra dita com segurança irritante. Enquanto isso, eu me perguntava o que ele tinha feito durante todos aqueles anos além de... trabalhar. E ficar ainda mais insuportavelmente atraente.
- Ele está ainda mais bonito - murmurou Maya Bloom, inclinando-se em minha direção. - E absurdamente gostoso.
Forcei um sorriso vazio, fingindo não entender.
- Amiga... como você conseguiu esquecer um homem desses? - ela continuou, mordendo o lábio inferior, os olhos famintos. Quando Adrian virou de costas para escrever algo no quadro, Maya suspirou. - Meu Deus... aquela bunda devia ser crime.
Infelizmente, eu concordava.
Não sabia se era o terno impecável ou se ele realmente havia se dedicado ainda mais ao próprio corpo, mas Adrian parecia perigosamente consciente do efeito que causava. A imagem dele atravessou minha mente sem pedir permissão.
O corpo dele sobre o meu.
O peso.
O ritmo.
Meu Deus.
Eu ia ao céu a cada investida.
Apertei as pernas, odiando cada segundo daquela resposta involuntária. Odiando ainda mais minha imaginação, que insistia em despir Adrian dentro da minha cabeça.
- Isso é um problema para você, senhorita Cecilia Albuquerque?
A voz dele ecoou firme pela sala.
Ergui a cabeça no mesmo instante em que senti Maya me cutucar discretamente na cintura.
Todos os olhares se voltaram para mim.
Eu não fazia ideia de qual havia sido a pergunta.
Olhei para Elliot, que lutava para conter o riso.
- Claro que não - Leon Hart respondeu por mim, apressado. - A Cecília sempre tem tudo sob controle. - Ele me lançou um sorriso orgulhoso. - Tenho certeza de que não haverá problema em apresentar o relatório hoje.
- Hoje? - repeti, sentindo o pânico subir pela garganta. - Acho que amanhã seria melhor. Esta semana foi extremamente corrida e ainda preciso organizar alguns documentos.
Mantive os olhos fixos em Leon, evitando qualquer contato com Adrian.
- Amanhã, então - Adrian respondeu, com impaciência mal disfarçada. - Quero você na minha sala logo no primeiro horário. Como diretora comercial, pretendo acompanhar de perto o desempenho do seu setor.
Havia algo ali.
Não era profissionalismo.
Era desconfiança.
Meu rosto esquentou no mesmo instante em que notei Leon e Arthur Sterling passando a mão pelos cabelos, visivelmente desconfortáveis.
Como ousavam?
- Existe algum problema com o meu trabalho? - questionei, incapaz de esconder a irritação.
- Claro que não - Leon se apressou. - O Adrian só considera seu setor essencial para a empresa.
Arthur fingiu estar extremamente interessado no café à sua frente.
Já Adrian...
Ele me encarava.
O sorriso presunçoso nos lábios deixava claro: estava me testando. Provocando. Desafiando.
- Acho que podemos encerrar por hoje - anunciou Arthur. - Adrian, seja bem-vindo oficialmente à NovaCore.
Os cumprimentos começaram, cadeiras se movendo, vozes se misturando. Mas a raiva já fervia dentro de mim.
Minutos antes, eu o desejava sobre mim
Agora, tudo o que queria era gritar. Ou socá-lo.
Odiava quando duvidavam de mim.
Enquanto todos faziam questão de cumprimentá-lo, eu me levantei e saí da sala com passos duros, ignorando completamente Leon e Arthur.
Dane-se Leon.
Dane-se Arthur.
E, principalmente...
Dane-se Adrian Blackwood.
E dane-se o fato de que, contra toda a lógica, ele ainda tinha poder demais sobre mim.
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Saí dali direto para o consultório da Karin.
Ela revirou os olhos no exato segundo em que me viu entrar.
- Por que não estou surpresa em te ver aqui? - perguntou, assim que atravessei a porta.
- Ele voltou! - soltei, indo direto para o divã e me jogando nele.
- É, eu vi as mensagens no grupo - Karin respondeu, sem demonstrar a menor comoção. Sentou-se na poltrona e começou a pintar as unhas. Pelo estado do esmalte, estava fazendo aquilo havia um bom tempo.
- Ele é meu chefe, Karin. Eu estou perdida... - levei as mãos ao rosto. - Sabe o que ele me disse?
- Não estava lá - respondeu seca, sem sequer olhar para mim.
- Disse que vai acompanhar de perto o meu setor. De perto, Karin! O que eu faço?
Ela suspirou.
- Bom... seria uma ótima oportunidade de contar a verdade pra ele.
- Eu não posso fazer isso - sentei abruptamente. - Eu fingi que esqueci dele. Ele vai me odiar.
- Realmente - ela murmurou, ainda focada nas unhas. - Deve ser complicado passar anos se achando tão insignificante na vida de alguém, a ponto dessa pessoa lembrar do entregador de pizza, mas não de você. E depois de todo esse tempo se sentindo um lixo, descobrir que era tudo mentira.
Ela levantou os olhos para mim, cínica.
- Tem razão. Melhor não contar a verdade.
- E como eu faço pra continuar escondendo isso? - retruquei. - Uma coisa é fingir quando ele estava em outro continente. Outra é agora... aqui, tão perto.
Minha mente, traidora, puxou imagens que eu não queria: O sorriso. O olhar. O peito forte sob o terno.
- Está uma delícia... - Karin comentou distraída, olhando para o celular.
Sentei de repente e arranquei o aparelho da mão dela.
- Ei!
Era uma foto no grupo.
Maya Bloom, Leon Hart e... ele.
A legenda dizia: "Meu novo chefinho..."
- Um tesão - Karin completou, sem pudor.
- Ela voltou a trabalhar na NovaCore? - perguntou.
- Não. Inventou umas publis. Está se aproveitando - resmunguei.
Notei uma enquete fixada no grupo, confirmando presença no Becker Bar, na casa do Theo. Só faltava o meu voto.
Devolvi o celular para Karin e voltei a me jogar no divã.
- Você vai ao Becker Bar? - ela perguntou.
Neguei com a cabeça.
- Se você não for, ele vai achar que você se lembra dele - disse calmamente. - Que outro motivo faria você fugir?
As palavras dela se encaixaram como uma peça cruel de quebra-cabeça.
Se eu o tratasse apenas como meu chefe - nada além disso - talvez ele mesmo esquecesse que eu já fizera parte do passado dele.
- Sim... - murmurei. - Por que eu estou tão preocupada? Ele acha que eu não lembro dele. Se eu não lembro, então ele é só meu chefe. Basta agir naturalmente.
- Ótimo - Karin suspirou, olhando o relógio. - Seu tempo acabou.
- Mas você nem tem outro paciente - argumentei. - Sua secretária me disse. Eu preciso de ajuda.
Ela apontou para a mesa de centro.
- Pode levar um desses livros de pintar.
Olhei incrédula.
- Bobbie Goods, Karin? É sério isso? Em vez de me ouvir, você quer que eu pinte?
- Está ajudando muitas mães - explicou, séria demais para alguém que não era. - Em vez de assistirem Bailarina Caputina e Tralalero Tralala, as crianças pintam Bobbie Goods.
Encarei-a como quem pergunta em silêncio: e por acaso eu sou uma criança?
- Você é péssima - concluí, levantando-me.
E sim.
Eu levei o Bobbie Goods.
- Obrigada! - Karin respondeu, com um sorriso irônico demais para ser profissional.
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Agir naturalmente estava sendo fácil nos primeiros minutos que cheguei ao Becker Bar, mesmo que todos já estivessem no local. O foco, no entanto, ficou em Luna, pois Adrian não a conhecia, e todos pareciam empolgados em comentar sobre o talento de Luna na confeitaria do Luna Café.
Por vários momentos, meus olhos não conseguiam se desgrudar de Adrian. Ele estava impecável em seu visual despojado, mas ainda assim havia um charme irresistível em sua forma despreocupada. A gravata e o paletó haviam sido esquecidos no encosto da cadeira, e os cabelos desalinhados caíam de maneira provocante sobre sua testa, como se desafiassem qualquer tentativa de contê-los. Cada gesto seu irradiava uma mistura de confiança e mistério; o olhar intenso parecia perfurar minha mente, e o sorriso - raro e perfeitamente calculado - tinha o poder de fazer o mundo ao redor desacelerar. Quando ele sorria, era impossível não notar; por instantes, todos pareciam desaparecer, restando apenas nós dois. Em vários momentos, nossos olhares se cruzaram, e eu sabia, sem sombra de dúvida, que ele também me estudava, avaliando cada reação minha.
Tudo começou a ficar difícil quando Maya trouxe à tona as lembranças do ensino médio. Logo começaram a falar sobre festas, jogos, conversas e todas aquelas aventuras que eu tentava esconder na memória. A cada palavra, precisava fingir que nada me dizia respeito, apesar do calor que subia pelo meu corpo.
Nenhum momento falavam do "antes de Adrian", só do "a partir dele". Como se as melhores lembranças realmente tivessem começado com ele. E, na verdade, eram.
Precisava me manter calada, mas por dentro estava tão animada quanto aterrorizada.
Karin decidiu não aparecer, e quando mandei uma mensagem - com meu celular que Eliot devolveu no início da noite - ela simplesmente me ignorou, dizendo que me esperava no consultório no dia seguinte. Ninguém ali poderia me salvar.
- Cecília, é uma pena que não se lembre do dia em que invadimos a represa - disse Maya, enquanto todos comentavam sobre aquele dia, o dia em que tivemos que correr e nos esconder na mata até a polícia desistir de nos procurar.
Era impossível esquecer, porque foi naquele dia que...
- É uma pena mesmo que tenha se esquecido, Cecília - Adrian disse, e imediatamente meus sentidos se aguçaram. O tom da voz dele tinha aquele peso provocante, carregado de lembranças e intenções que me fizeram prender a respiração. - Foi nesse dia que nos beijamos pela primeira vez.
Droga! O que ele estava fazendo comigo?
- Sério? - perguntou Leon, franzindo o cenho - achei que tivesse sido na festa do George.
- Não, lembro muito bem - Adrian respondeu, os olhos fixos nos meus, medindo cada reação minha - nos escondemos atrás de uma rocha, e Cecília me beijou.
Queria completar a frase lembrando que, depois, ele me chamou de irritante e me deixou ali, sozinha. Mas não podia. Não iria me entregar assim.
- Bom, dizem que o primeiro beijo não é o melhor, né? - murmurei, mantendo o olhar desafiador, tentando esconder o calor que percorria minha pele - deve ser por isso que não me lembro.
Adrian, ao contrário do que imaginei, não mostrou raiva. Pelo contrário, repuxou aquele sorriso provocante, o sorriso que sempre conseguia me desarmar, e continuou me desafiando, sem precisar dizer uma palavra a mais.
- Tenho certeza de que você gostou de todos os nossos beijos, Cecília.
Meu corpo tremeu só com a voz dele. Cada sílaba parecia tocar onde só ele podia tocar, e o calor entre nós crescia de forma quase insuportável. A provocação dele não estava apenas nas palavras; estava no olhar intenso que me queimava, no modo como se aproximava mesmo sem se mover, no ar carregado que nos envolvia.
- Hunn, que tensão - Maya disse, e eu agradeci por ela ter interrompido - não querem relembrar os velhos tempos? - disse maliciosa.
Revirei os olhos e, quando Luna me chamou para acompanhá-la até o banheiro, agradeci aos céus.
Luna não demorou no banheiro e, quando estávamos voltando, eis que o celular dela toca, com o pai avisando que precisava buscar a irmã mais nova em uma festa. Luna nem esperou que eu pegasse minha bolsa; saiu correndo pedindo desculpas e avisando para pedir carona à Maya.
Porém, antes de encerrar a noite, Maya já havia sumido com seu ex-namorado, Matteo, seu eterno caso indefinido. Eu estava decidida a pedir um Uber, mas Leon encontrou outra solução.
- Adrian mora para o mesmo lado que você, não se importa de levá-la, né, Adrian? - perguntou Leon, recebendo confirmação dele.
Naquela altura, eu já estava cansada de fingir naturalidade, mas não podia ceder. Não quando sabia que Adrian aguardava por aquele momento, seu olhar penetrante me acompanhando em cada passo.
Todos já haviam seguido para seus carros, e Adrian havia deixado o carro bem distante, fazendo o silêncio constrangedor pairar entre nós durante a caminhada. Cada passo acelerava meu coração, cada respiração parecia mais pesada.
Assim que entramos no carro, Adrian fez questão de ligar o som, deixando a música preencher o ambiente, mas apenas abaixando o volume para perguntar meu endereço.
Mesmo a música criando um clima mais leve, meu corpo reagia de outra forma. Dentro daquele espaço pequeno, eu podia sentir o perfume dele - um aroma que parecia gravado em minha pele, tão familiar quanto perigoso. Era impossível não me perder naquele cheiro que me provocava, que me lembrava cada toque, cada momento que passei ao lado dele.
Adrian sempre teve esse poder sobre mim, desde o último ano do colegial: calado, misterioso, intenso. Seu olhar era capaz de ler a minha alma, de me desarmar sem encostar um dedo. Na época, me apaixonei no mesmo instante. Agora, porém, sentia medo - medo de que ele percebesse o quanto ainda sentia, o quanto eu ainda estava vulnerável a ele.
Cada gesto dele era calculado, cada sorriso contava uma história que apenas nós dois entendíamos. O clima no carro tornou-se pesado, carregado de tensão e desejo contido. Eu precisava me manter firme, mas cada fibra do meu corpo reagia ao seu olhar, à sua proximidade, ao som da sua voz suave e provocante.
Uma música do Guns começou e eu comecei a cantar junto, de repente ouço uma risada de Adrian.
- Estranho que se lembre dessa música - ele disse, e eu o encarei, esperando que se explicasse - você não costumava gostar de rock, mas a única música que gostava era essa: Knockin' on Heaven's Door, do Guns N' Roses. Sempre me fazia colocar para tocar várias vezes.
- Os médicos disseram que nem tudo se esquece, como músicas, sabores e lugares.
- E entregadores de pizza - ele completou, e eu revirei os olhos entendendo a referência.
A última vez que nos vimos foi na festa do aniversário de Leon. Eu estava na fazenda, mas meus pais, por serem amigos dos pais de Leon, me levaram naquela festa. Foi algo pequeno, somente com a turma. Leon pediu algumas pizzas e preparou bebidas; eu ainda estava debilitada, e ninguém insistia muito em me fazer lembrar das coisas. Eu, como boa atriz, fingia ter esquecido de outras pessoas além de Adrian.
Mas quando a pizza chegou, eu simplesmente cumprimentei Lucas, o entregador de pizza, a pessoa mais aleatória em minha vida na época. Aquilo ficou marcado na minha memória e na vida dos meus amigos.
- É, e entregadores de pizza - eu disse, ignorando Adrian, e continuei a cantarolar até chegar na minha casa. Parei apenas para me apresentar ao porteiro e liberar o carro dele.
Adrian parou o carro, e quando me virei para me despedir, ele já se preparava para sair...
Ainda com o costume de acompanhar até a porta!
- Essa é sua casa? - ele perguntou, mas já sabia a resposta - do jeitinho que descrevia.
Adrian ficou olhando para minha casinha; por mais que morasse em um condomínio de classe alta, eu era apaixonada pela arquitetura antiga, e minha casa era exatamente assim: grandes janelas, varanda e um pequeno jardim.
- Até o jardim - ele disse, encantado - "nem grande, nem muito pequeno, mas do tamanho que consigo cuidar." Adrian repetiu exatamente como eu costumava falar, e eu fiquei surpresa.
Depois de tanto tempo, ele ainda lembrava de tudo, até dos mínimos detalhes.
Ainda o olhava surpresa quando ele virou para mim, um sorriso de canto se formando nos lábios - aquele sorriso que parecia feito unicamente para mim - e disse:
- Você pode ter se esquecido de mim, Cecília - começou - mas eu não esqueci nada de você. E farei de tudo para que se lembre de mim. Se lembre de nós.
Adrian entrou no carro e esperou que eu entrasse para partir, e eu fiquei parada na varanda, estática, com o coração disparado.
Estava prestes a enlouquecer.