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Capítulo 5 A Reunião

O dia amanheceu chuvoso, o que só conseguiu intensificar meu mau humor. Passei a noite em claro e agora sentia, no corpo inteiro, as consequências de ter privado o próprio sono.

Nunca funcionei bem sem uma boa noite de descanso, então já previa que aquele seria um dia longo e especialmente estressante.

Metade da madrugada foi consumida por lembranças insistentes da minha história com Adrian, e a outra metade, pela preparação do relatório da reunião marcada para a primeira hora da manhã.

Como não podia correr por causa da chuva forte - e definitivamente não estava com ânimo para a academia - resolvi me permitir uma folga da minha rotina rígida e da dieta de atleta. Parei no Luna Café e me rendi a um gorduroso bolo de chocolate.

Precisei esperar alguns minutos dentro do carro até Luna chegar para abrir. Mesmo ainda não sendo o horário oficial de funcionamento, ela me deixou entrar. Minha expressão, com certeza, denunciava o meu estado emocional.

- Desculpa mesmo não ter te dado carona ontem - ela se explicou enquanto me servia uma fatia generosa de bolo e um cappuccino. - Minha irmã está numa fase em que precisa de mais atenção.

- Tudo bem, eu entendo - respondi, apontando para que ela se sentasse à mesa. Precisava de companhia.

Luna arqueou a sobrancelha, observando-me com atenção.

- Está assim por causa do novo chefe carrasco... ou pelo fato de o novo chefe carrasco ser seu namorado que você não se lembra?

Enquanto saboreava a primeira colherada do bolo, deixando o suposto poder curativo do chocolate agir no meu organismo, refleti sobre as palavras dela. Eu estava perdida. Emocionalmente instável, sentia-me cada vez mais encurralada - não apenas por Adrian, mas também pelos meus amigos.

Sabia que não conseguiria sustentar a mentira por muito mais tempo. Só de imaginar a decepção de todos ao descobrirem que eu nunca havia perdido a memória, uma vontade quase incontrolável de chorar se instalava no peito.

A única pessoa que sabia a verdade era Karin - e isso só aconteceu porque, em determinado momento, precisei de uma psicóloga. Ela me pareceu a pessoa certa para carregar aquele segredo comigo.

Ainda assim, eu precisava de alguém que não tivesse feito parte daquela época. Alguém que pudesse enxergar apenas o meu lado. Alguém como a Luna. Confiável. Compreensiva.

Respirei fundo e, entre uma garfada e outra do bolo, contei tudo.

- Minha nossa... - ela murmurou, visivelmente chocada. - Que confusão.

- Pode dizer - falei, encarando-a. - Sei que fui uma pessoa horrível.

- Não, horrível não - Luna respondeu, relaxando a postura. - Precipitada, com certeza. Mas, aos dezessete anos, ser imatura é quase regra. Eu te entendo. O Adrian era noivo, e um noivado é algo sério - ainda mais quando a noiva é uma pessoa incrível. Vejo isso muito mais como uma falha de comunicação. Ele deveria ter sido mais aberto com você, falado sobre o que conversava com ela. Tenho certeza de que isso teria te dado mais segurança.

Ela fez uma breve pausa antes de continuar:

- E você... bom, deveria tê-lo enfrentado. Perguntado. Mas, aos dezessete, a gente não sabe pensar sem o calor das emoções.

- Aos dezessete, sim - suspirei. - Mas agora a razão me atormenta e não me dá trégua.

- Você precisa ter calma. - Luna apoiou os cotovelos na mesa. - Tenho quase certeza de que o Adrian só está te pressionando porque acabou de chegar. Por que não continua agindo como se realmente não o conhecesse? Daqui a alguns meses, quem sabe, você começa a mostrar que sua memória voltou.

- Você acha mesmo que isso pode dar certo?

- Certeza eu não tenho - ela admitiu. - Mas, no momento, é a única alternativa que consigo enxergar.

Concordei em silêncio. Decidi que continuaria sustentando a mentira.

O que não contei à Luna foi o quanto aquilo me custava.

O verdadeiro desafio não era mentir - era permanecer perto de Adrian sem deixar transparecer tudo o que eu ainda sentia.

Ainda lembrava do cheiro dele - e do quanto desejava vê-lo sem aquele terno impecável. Ainda assim, saí da cafeteria decidida a resistir.

Estava em minha sala organizando o relatório quando, pontualmente às oito horas, Ivy Collins ligou pedindo que eu subisse ao escritório de Adrian Blackwood.

Respirei fundo antes de me levantar. Meu coração acelerava, e as mãos estavam levemente úmidas enquanto seguia pelo corredor.

Bati à porta. Ao ouvir sua voz autorizando a entrada, reuni a coragem que me restava e entrei.

- Bom dia, senhor Blackwood - cumprimentei.

Adrian ergueu o rosto imediatamente, um sorriso cínico surgindo no canto dos lábios.

- Senhor Blackwood? - arqueou uma sobrancelha. - Por favor, Cecília... nos conhecemos bem demais para isso. Mesmo que você não se lembre. Pode me chamar apenas de Adrian.

Suspirei, concordando em silêncio, e me sentei à mesa. Retirei o relatório impresso da pasta e o deslizei em sua direção.

- Já enviei por e-mail também. Mas, se preferir, pode ler enquanto conversamos.

Ele sorriu, acompanhando cada movimento meu com atenção excessiva. Fiquei me perguntando qual era, afinal, o jogo que ele pretendia jogar. Estava claro: testava meus limites - e minha sanidade.

- Muito bem pensado - comentou, começando a ler o documento.

Tentei manter a postura profissional, mas não pude deixar de notar o quanto ele estava atraente naquela manhã. Os cabelos levemente desalinhados o deixavam perigosamente sedutor. Senti vontade de passar os dedos entre os fios, exatamente como fazia quando namorávamos - quando Adrian se deitava em meu peito enquanto assistíamos a um filme ou depois de termos feito amor.

Minha mente traiçoeira me levou longe demais. Imaginei-me sentada em seu colo, nossos beijos urgentes, suas mãos firmes em meu quadril, minhas pernas à mostra, enquanto eu segurava seus cabelos e reagia a cada toque.

- Leon Hart comentou que você trabalhou anos para Rafael - nosso maior concorrente - disse ele de repente, arrancando-me das fantasias.

Senti o rosto esquentar.

- Por que não aceitou o emprego aqui logo de início?

- Eu queria ser reconhecida pelo meu desempenho - respondi, tentando recuperar a compostura. - Aqui pareceria que estou onde estou apenas por ser amiga de um afiliado do chefe.

Adrian me analisou por alguns segundos antes de voltar ao relatório, a expressão levemente confusa.

- Entendo. Você sempre dizia que queria ser uma profissional de sucesso - riu, desacreditado. - É estranho... você não mudou nada. - ergueu os olhos novamente. - Seguiu todos os seus planos, todos os seus desejos. O acidente não apagou nada disso.

- Porque sempre soube o que queria - retruquei. - Esqueci apenas o último ano da escola, não a minha vida inteira.

Ele me encarou em silêncio por um instante, suspirou e, então, um sorriso provocador surgiu em seus lábios.

- Esqueceu da melhor parte. Nós nos divertíamos muito.

Seu olhar desceu lentamente por minhas pernas, sem qualquer pudor.

- Sabe, Cecília... eu adoraria relembrar os velhos tempos - disse, a voz arrastada, os olhos estreitos fixos em mim.

Meu coração disparou, e senti o sangue subir ao rosto.

- Vo... você... - comecei, sem conseguir concluir a frase.

- Claro que estou falando das festas e dos jogos - completou, agora com um sorriso aberto, mas carregado de vitória. - O que mais pensou que fosse?

Aquilo foi o limite.

Levantei-me bruscamente, incapaz de esconder a irritação.

- Acredito que o relatório esteja bem detalhado - disse, fria. - Se surgir qualquer outra dúvida, sugiro que pergunte ao Leon ou ao Arthur Sterling. Tenho muito trabalho a fazer. Com licença.

Saí da sala dele em passos duros, com a certeza de que Adrian estava mais do que disposto a transformar minha vida naquela empresa em um verdadeiro inferno.

Percebi que ele parecia se vingar - ou talvez tentasse me fazer lembrar à força. Seja qual fosse sua intenção, eu não sucumbiria. Eu me manteria forte.

Mas, ao longo do dia, descobri que manter essa força seria mais difícil do que imaginei.

Adrian, como todos temíamos, mostrou-se um verdadeiro carrasco. Exigente ao extremo, antes mesmo do fim do expediente toda a empresa já comentava sobre sua obsessão por organização e detalhes. Ele não perdoava erros e mantinha um humor constantemente sombrio.

Todos os chefes de setor passaram por seu escritório - e todos saíram de lá com a sensação de que poderiam estar desempregados até o final do dia.

Ivy foi, sem dúvida, a que mais sofreu. Passou o dia levando documentos, atendendo telefonemas e preparando café.

Quando a encontrei no elevador, na hora do almoço, ela estava suando e com um leve tique nervoso no olho.

Ao final daquele dia, Adrian deixou de ser apenas o chefe atraente para se tornar oficialmente o carrasco sem coração. Confesso que não consegui evitar um sorriso ao ouvir esse comentário vindo das estagiárias.

Mas fui ingênua ao acreditar que meu tormento se resumiria à reunião daquela manhã.

No fim do expediente, Adrian convocou todos os chefes de departamento para apresentar um resumo de sua análise minuciosa - e, claro, eu fui seu alvo principal.

Por cerca de dez minutos, mesmo com todos já acomodados na sala de reuniões, Adrian permaneceu em silêncio. O clima se tornou tenso, pesado e completamente desnecessário.

Então ele começou.

Comentou setor por setor, destacando acertos, apontando falhas e sugerindo melhorias.

Elliot, surpreendentemente, foi o mais elogiado - algo quase inacreditável, considerando que Leon costumava chamá-lo à atenção semanalmente por flagrá-lo jogando ou dormindo durante o expediente.

O breve sorriso de Adrian desapareceu no instante em que ele deixou de olhar para Elliot e voltou sua atenção para mim.

- Senhorita Albuquerque, Leon não se cansa de elogiá-la. De fato, não posso deixar de reconhecer suas qualidades. A senhora é uma excelente negociadora e garantiu contratos importantes. No entanto, percebo certa resistência quando o assunto é a compra das ações da Tecplay.

Fechei os olhos por um instante e respirei fundo, tentando conter minha irritação.

Arthur, no último ano, insistia na aquisição das ações da Tecplay, acreditando que isso tornaria a Novacore a única potência tecnológica do país. Eu sempre considerei essa ideia absurda. Arthur estava prestes a se aposentar, enquanto Rafael ainda tinha energia e ambição para crescer no mercado. Ele deixara claro, em mais de uma ocasião, que não venderia nenhuma porcentagem de suas ações - e que Arthur e Leon precisariam aceitar que ele havia vindo para ficar.

Ainda assim, eu sabia: em parte, Adrian tinha razão. Nunca usei toda a minha desenvoltura para fechar aquele acordo. Em parte, por consideração ao meu antigo chefe.

Leon certamente havia contado isso a Adrian.

Permaneci em silêncio, o que fez com que ele me encarasse com frieza.

- Amanhã teremos um evento beneficente. Rafael estará presente. Uma ótima oportunidade para agir como profissional e tentar conseguir as ações da Tecplay.

- Eu não confirmei minha presença - respondi, mas Adrian apenas arqueou a sobrancelha.

- Ordenei que Ivy resolvesse isso por você. Sendo a representante comercial, participar desses eventos faz parte do seu cargo.

Ele me observou com um sorriso desdenhoso.

- Se a senhorita se lembrasse, saberia como gosto das coisas... Mas terá tempo para aprender.

Senti meu sangue ferver. Mais uma vez, ele me provocava deliberadamente.

- Tenha certeza, senhor Blackwood - respondi, sustentando seu olhar. - Farei questão de aprender exatamente como o senhor gosta das "coisas".

- Sim - ele disse, com a voz baixa. - Porque nunca ninguém me entendeu tão bem quanto você.

Um arrepio percorreu todo o meu corpo. Seus olhos estavam fixos em mim, como se atravessassem minha alma. Enquanto todos interpretavam aquela frase de forma estritamente profissional, eu sabia - ele se referia a nós.

Convicto de que havia vencido mais uma vez, Adrian soltou o ar lentamente e encerrou a reunião.

Apressei-me em guardar minha pasta, mas, como se o destino conspirasse contra mim, meus colegas foram mais rápidos - por pressa ou medo - e lotaram o elevador. Fui obrigada a esperar o próximo.

E, claro, Adrian surgiu ao meu lado.

Enquanto aguardávamos o elevador retornar, permaneci em silêncio absoluto, sentindo apenas o peso de sua presença. Toda minha postura se desfez quando, assim que as portas se abriram, ele pousou a mão em minhas costas, guiando-me para dentro de forma aparentemente casual.

Meu corpo paralisou com aquele toque breve.

Dentro do elevador, precisei me concentrar para manter as pernas firmes, enquanto Adrian agia como se nada tivesse acontecido, retomando sua postura soberana e respondendo mensagens no celular - como se aquele gesto fosse parte natural de sua personalidade.

Mas eu sabia.

O Adrian que eu conhecia não era dado a toques casuais - a menos que a pessoa fosse eu.

E o Adrian do passado sabia exatamente o quanto eu me derretia com o simples contato de suas mãos em minhas costas, ombros ou dedos.

Não restava dúvida: fora totalmente proposital.

A raiva voltou a me dominar. Assim que as portas se abriram, saí sem sequer me despedir. Ainda assim, pude ver claramente, refletido no vidro do hall, um sorriso ordinário repuxando seus lábios.

Pela terceira vez, Adrian havia saído vencedor.

E eu determinei que seria a última.

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