"Como ela está?", Ethan perguntou ao médico.
Ele não olhou para o meu rosto. Olhou para as queimaduras.
"Ela vai se recuperar", disse o médico, com a voz baixa. "Mas vai deixar cicatrizes. A sopa estava fervendo."
Ethan assentiu, como se recebesse um relatório sobre um carregamento de armas danificado.
"Deixe-nos."
O médico saiu da sala instantaneamente.
Ethan se aproximou. O cheiro de seu perfume - sândalo e chuva fria - misturava-se com o leve cheiro metálico de sangue que ele sempre carregava. Encheu meu nariz, sobrepujando o ar estéril.
Ele estendeu a mão, seus dedos pairando sobre a pele em carne viva e empolada.
Eu me encolhi.
Sua mão caiu ao lado do corpo.
"Aline está sedada", disse ele.
Eu não respondi. A dor no meu peito era uma batida de tambor pulsante, sincronizada com a raiva que se acumulava na minha garganta.
"Ela não fez por mal, Rory. Ela viu o anel. Isso desencadeou uma crise."
Eu olhei para ele então.
Olhei nos olhos do homem que governava o submundo, o homem que aterrorizava a polícia e os políticos. E não vi um monstro.
Vi um covarde.
"Ela jogou sopa fervendo em mim num restaurante de luxo, Ethan. Isso não foi uma crise. Foi uma agressão."
"Abaixe a voz."
"Não."
Deslizei da maca, segurando o fino avental de hospital contra o peito para me cobrir.
"Eu quero ir para casa."
"Você não pode ir para a mansão", disse ele.
Meu estômago revirou.
"Por quê?"
"Eu mudei a Aline para a ala de hóspedes. Ela precisa de supervisão constante. Os médicos dizem que há risco de fuga se ela ficar sozinha."
Eu ri.
Foi um som seco e quebradiço, como folhas mortas sendo esmagadas.
"Então sou eu quem sai. De novo."
"É para sua segurança, Aurora."
"Não use essa palavra", eu disparei.
Minha voz falhou.
"Não ouse falar comigo sobre segurança. Você é o subchefe. Você comanda um exército. Você protege carregamentos de drogas, cassinos e políticos. Mas não consegue proteger sua esposa de uma louca de um metro e sessenta?"
Ethan agarrou meu braço.
Seu aperto era de ferro.
"Cuidado com o que você fala. Aline é da família. O pai dela levou um tiro no lugar do meu. Eu devo minha vida a ela."
"E o que você me deve?", sussurrei.
Ele congelou.
Seus olhos buscaram os meus, procurando a garota submissa com quem ele se casou. Mas ela não estava mais lá.
Ela havia sido queimada junto com o vestido de seda.
"Eu te devo tudo", disse ele, com a voz rouca. "É por isso que estou te mandando para a cobertura nos Jardins. Você estará segura lá."
Ele soltou meu braço.
Verificou o relógio.
"Preciso voltar para ela. Ela acorda gritando se eu não estiver no quarto."
Ele se virou e saiu.
Deixou sua esposa ferida sozinha em uma clínica fria para ir segurar a mão da mulher que a queimou.
Olhei para a porta.
A fechadura não mantinha as pessoas do lado de fora.
Ela me mantinha dentro.