Foi a traição final.
A Omertà - o código sagrado do silêncio - era a base da nossa existência.
Esposas não ligavam para o 190.
Nós sangrávamos em particular. Morreríamos em silêncio.
Mas o canário já estava morto.
Eu não era mais uma esposa do Comando. Eu era um problema.
Uma vítima.
A voz da operadora crepitou na linha, um farol de um mundo que eu era proibida de tocar.
"190, qual a sua emergência?"
Abri a boca para falar, para quebrar o código.
Uma mão bateu no gancho do telefone, cortando a conexão com uma violência que fez a base tremer.
Eu olhei para cima.
Ethan pairava sobre mim.
Seu rosto era uma máscara de fúria fria e pura.
"Que porra você pensa que está fazendo?", ele sibilou, sua voz baixa e perigosa.
"Estou chamando a polícia, Ethan. Sua amante tentou me matar."
"Ela não é minha amante."
"Ela me empurrou da escada!"
"Ela disse que você caiu."
"E você acredita nela?", perguntei, minha voz subindo, quebrando sob o peso de sua traição. "Você apagou a gravação, Ethan. Eu ouvi você. Você limpou os servidores antes mesmo de verificar se eu ainda estava respirando."
"Eu fiz o que tinha que fazer para proteger a Família", disse ele, a maiúscula audível em seu tom.
A Família.
Sempre a Família.
"Se os policiais se envolverem, eles vão investigar tudo, Aurora. Os negócios. As contas no exterior. Você derrubaria o império inteiro por causa de um acidente doméstico."
Acidente doméstico.
Era isso que eu era para ele agora.
Um inconveniente. Uma ponta solta.
"Me dê o telefone, Ethan."
Ele não o entregou. Em vez disso, arrancou o fio da parede, poeira de gesso caindo no chão.
"Você está histérica. É a concussão falando."
Ele enfiou o telefone desconectado no bolso.
Eu o encarei, tentando encontrar o homem com quem me casei.
Este homem já havia matado por mim antes.
Ele uma vez quebrou os dedos de um homem só por olhar para mim do jeito errado em uma boate.
Mas quando a ameaça veio de dentro de sua própria casa, nascida de seus próprios pecados, ele ficou paralisado.
"Você é meu marido", sussurrei, a palavra com gosto de cinzas. "Você jurou me proteger."
"Eu estou te protegendo", disse ele, sua voz plana, desprovida de calor. "Tenho guardas postados do lado de fora da porta. Ninguém entra."
"Exceto você", eu disse.
Um músculo tremeu em sua mandíbula. Ele se encolheu, apenas um pouco.
"Preciso ir", disse ele, ajeitando o paletó, ajustando os punhos como se isso fosse uma transação comercial. "O Conselho está fazendo perguntas sobre o chamado da ambulância. Tenho que contornar isso antes que saia do controle."
Ele se virou e foi para a porta.
"Ethan."
Ele parou, a mão pairando sobre a maçaneta de latão.
"Se você sair por essa porta, não volte."
Ele não se virou.
"Descanse, Aurora. Conversaremos quando você estiver racional."
A porta se fechou com um clique.
O silêncio que se seguiu era mais pesado que o gesso na minha perna. Era sufocante.
Ele a escolheu.
De novo.
E naquele silêncio esmagador, a última brasa vacilante de amor que eu sentia por Ethan Barros finalmente se apagou e morreu.
Eu não chorei.
Soldados não choram no campo de batalha.
E eu estava em guerra.