"Ela é louca, Santino. Ela me atacou com os olhos. Você viu?"
"Ela só está com ciúmes, querida. Ignore-a."
Meu estômago roncou. Eu não comia o dia todo. Meu metabolismo estava acelerando enquanto meu corpo queimava os últimos resquícios dos supressores. Eu precisava de carne. Carne crua.
Esperei até de manhã. Quando a fechadura finalmente se abriu, eu estava fraca, mas minha mente estava afiada como uma navalha.
Saí para o corredor. A casa estava silenciosa.
Fui para a cozinha procurar comida, mas parei quando passei pelo espelho da sala de estar.
Valentina estava lá, se admirando. Ela usava um robe de seda - meu robe de seda. Mas não foi isso que parou meu coração.
Em volta do pescoço dela pendia uma delicada corrente de prata com uma pedra azul-clara brilhante.
O colar de Pedra da Lua da minha mãe.
Era uma herança da Família Real. Não era apenas uma joia; estava infundido com a bênção da Deusa da Lua. Era a única coisa que eu tinha da minha mãe.
"Tire isso", sussurrei.
Valentina deu um pulo e se virou. Quando viu que era eu, relaxou e sorriu com desdém. Ela tocou a pedra possessivamente.
"Ah, isso?", ela riu. "Santino me deu esta manhã. Ele disse que é um amuleto de proteção para o bebê. Fica melhor em mim, não acha? Realça meus olhos."
"Isso pertencia à minha mãe morta", eu disse, aproximando-me. O ar ao meu redor começou a crepitar. "Dê para mim."
"Não", disse Valentina, fazendo beicinho como uma criança. "É meu agora. Santino disse que tudo o que era seu agora é meu."
Ela deu um passo para trás e, seja por falta de jeito ou de propósito, puxou a corrente.
*Estalo.*
Os delicados elos de prata se romperam. O colar caiu.
Bateu no chão de madeira. A Pedra da Lua, frágil com a idade e a magia, se estilhaçou em três pedaços. O brilho azul suave dentro dela piscou e morreu.
O tempo parou.
Eu encarei os pedaços quebrados do legado da minha mãe. Parecia que ela tinha morrido de novo.
Um grito rasgou minha garganta. Não um grito humano, mas um som primal de perda.
Eu me movi mais rápido do que nunca. Fechei a distância e dei um tapa no rosto de Valentina.
*Pá!*
Não foi um golpe forte, apenas o suficiente para chocá-la. Ela cambaleou para trás, agarrando a bochecha, com os olhos arregalados.
"Santino!", ela gritou.
Santino apareceu instantaneamente, como se estivesse esperando por isso. Ele viu Valentina segurando a bochecha, viu o colar quebrado no chão.
Ele não perguntou o que aconteceu. Ele não olhou para a herança.
Ele me olhou com puro ódio.
"Você ousa tocar nela?", ele rugiu.
Ele levantou a mão.
Na cultura dos lobisomens, um Alfa nunca bate em sua Luna. É o tabu supremo. É o sinal de um líder quebrado, um tirano.
Mas Santino não se importou.
Sua mão pesada cortou o ar e atingiu meu rosto.
*CRACK.*
A força do golpe me jogou no chão. Minha cabeça bateu na madeira. Senti o gosto de cobre. O sangue encheu minha boca.
Por um segundo, houve silêncio. Silêncio absoluto e aterrorizante.
Eu estava deitada no chão, meu cabelo cobrindo meu rosto.
Algo dentro de mim se partiu. A última corrente que segurava a Loba Branca se estilhaçou.
A dor não me fez chorar. Ela me tornou... livre.
Eu me levantei lentamente. Meu cabelo caiu do meu rosto.
"Alessia?", a voz de Santino vacilou. "Eu... eu não queria te bater tão forte. Mas você me desafiou."
Eu me levantei. Limpei o sangue do meu lábio partido com o polegar e olhei para ele.
Então, olhei para ele.
Santino ofegou e deu um passo para trás. Valentina soltou um gemido estrangulado.
Meus olhos não eram mais castanhos.
Eram prateados. Prateados, brilhantes, radiantes e aterrorizantes. A marca da Linhagem Real. A marca da Loba Branca.
O ar na sala ficou pesado, carregado de ozônio e estática. Os móveis começaram a tremer.
"Eu não sou Alessia, a esposa submissa", eu disse. Minha voz soava diferente - em camadas, como se dois seres estivessem falando ao mesmo tempo.
"Quem... o que é você?", Santino gaguejou, o medo finalmente surgindo em seus olhos.
"Eu sou o julgamento que você trouxe sobre si mesmo", eu disse.
Levantei minha mão. Eu não precisava de um telefone. Eu não precisava gritar. Falei diretamente no Elo Mental, mas não no elo da alcateia. Falei no canal antigo e adormecido que me conectava ao exército do meu pai.
*Dante*, ordenei. "*Agora*."